domingo, 24 de dezembro de 2017

O que aprendi sobre Gestão de Pessoas

O ano de 2017 está se encerrando e deixará boas lições para mim. Neste ano concluí um curso de especialização lato sensu e pude atualizar teorias e técnicas aprendidas na graduação. Chamou a minha atenção minha própria transformação ao longo dos últimos anos, especificamente quanto à forma como eu enxergava um trabalhador dentro de uma empresa e à forma como eu acreditava que deveria ser a gestão de pessoas. Quando me formei em Administração de Empresas há alguns anos, o ensino era mais técnico do que humanizado. Os tempos eram outros. As tecnologias e os estudos eram outros, tudo mudou muito rápido. E continua mudando. Tive boa formação quanto a conteúdos e elogio a instituição de ensino e os professores que me formaram. Hoje posso fazer um comparativo da graduação com as especializações e com as empresas por onde passei.

Na época que me formei a grade curricular do curso de Administração de Empresas era sim mais técnica e conteudista, com poucas disciplinas que trabalhavam temas biopsicossociais como inteligência emocional, múltiplas inteligências, psicologia positiva, teorias da personalidade, motivação, coaching, espiritualidade, psicologia organizacional, estresse organizacional, saúde mental do trabalhador etc. Ressalvas e justificativas aqui porque alguns desses estudos são recentes na gestão de pessoas. Havia sim algumas disciplinas na faculdade com esse viés e professores mais humanos que ensinavam abordagens menos tecnicistas, mas me formei – entre os melhores da minha turma – com impressão de que as técnicas, os resultados e os fatos eram mais importantes do que meras subjetividades dos empregados. Na faculdade já atuava na área de gestão e me lembro que cheguei a assumir o cargo de liderança na empresa onde trabalhava. Hoje quando eu olho para trás e lembro dos meus pensamentos, falas e da forma como eu conduzia a gestão da minha equipe, eu fico surpreso como eu conseguia resultados. Era demasiadamente técnico. Rígido. Pendia para uma liderança autocrática. Não dava feedbacks. Não havia muito espaço para diálogos que distanciassem do trabalho em si e demostrava pouco ou nenhum interesse pela vida particular da equipe. Também não abria a minha! Me importavam as metas, o esforço individual de cada um e os nossos resultados alcançados. Punições disciplinares rolavam a rodo e pelos corredores me chamavam de “sargentão”. Sai com essa postura e exatamente com essa mentalidade de gestão de pessoas da faculdade. E não estou aqui apontando culpados, claro que também contribuiu eu ter uma personalidade mais racional e ter um estilo mais técnico e especialista. Mas hoje eu penso diferente. Hoje eu posso ser diferente! 

Às vezes eu escorrego por conta da minha personalidade mais analítica, mas venho tentando moldar meu comportamento. Tanto no MBA de Recursos Humanos, quanto na especialização de Psicologia Organizacional, adquiri conhecimentos e competências comportamentais diferentes e muitas vezes sou capaz de me policiar quando estou interagindo com um grupo. Diferentemente do passado, eu já tenho consciência e começo a me monitorar. Eu sei que tenho uma tendência a racionalizar a situação e a me distanciar dos envolvidos e do fato, mas posso usar a inteligência emocional e trabalhar com uma liderança situacional. Existe uma gama de estilos de liderança, não só para cada situação, como para cada funcionário. E hoje eu tento trabalhar com essa filosofia na empresa, adequando abordagens, falas e comportamentos à quem vou me dirigir. O que antes eu veria como politicagem ou até falsidade, hoje sei que se chama inteligência emocional. É adequar abordagens diferentes à pessoas diferentes, para obtermos um objetivo comum, o resultado esperado. Aqui não entram ego, orgulho e razão, o importante é atingirmos o resultado da melhor forma para a empresa, e para isso é preciso sim saber falar, conversar, argumentar e às vezes até negociar com as pessoas. Nas minhas pós-graduações o viés do aprendizado, seguindo obviamente a tendência dos dias atuais, é mais ligado às questões biopsicossociais do que às ferramentas exatas. Hoje já se sabe que na gestão de pessoas se usam as ferramentas da Exatas como suporte, os ferramentais principais serão a inteligência emocional e as estratégicas psicológicas. Não existe forma exata para lidar com pessoas.

Na psicologia se sabe que existem estágios de autoconsciência de comportamentos. Agimos muitas vezes sem pensar e sem perceber. Num primeiro estágio é inconsciente, você não tem controle, não percebe o que faz, quando faz e o impacto disso nas outras pessoas. Já num segundo momento, se você começa a se autoanalisar, você passa a ter consciência do que acontece sem ter ainda controle, só percebe quando já agiu. Mas se você continua se autoanalisando, com o tempo você passa a ganhar mais controle de si e começa a se perceber antes do comportamento acontecer. Até chegar o momento que você tem consciência e controle do que acontece e pode decidir por agir ou não. O próximo estágio, e o mais esperado, é a capacidade empática tal que você possa fazer a leitura no outro, porque se você conseguir antever, antecipar, prever uma reação da outra pessoa para uma determinada situação, você antecipadamente se molda no relacionamento para obter desta pessoa o melhor resultado para a situação. Isso é inteligência emocional! O primeiro passo para você chegar até aqui é o autoconhecimento, pois não tem como você ler o outro se você não for capaz de ler a si mesmo antes. 

Tenho muito a aprender ainda. Estou aberto para continuar aprendendo sempre. Sou grato a todas as pessoas que me ensinaram e vêm me ensinando até hoje, seja na graduação, nas pós-graduações, nas empresas por onde passei.

Feliz natal. Fiz ano novo. Um 2018 repleto de saúde, sucesso e paz a todos nós.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uma vida espartana



Uma vez eu assisti um filme, eu acho que era “300”, e numa determinada cena um dos dos personagens dizia que o oponente havia oferecido algo aos espartanos, que era para eles irrecusável. “Era uma morte honrosa na batalha”. Eu gosto do sentido dessa frase, da filosofia espartana, porque ela retrata bem a minha vida e o jeito que eu gosto de levar as coisas. Muitas vezes eu já me perguntei assim de brincadeira: se eu gostaria de ter nascido em Atenas, que foi um berço do conhecimento humano; ou em Esparta, que era uma terra de guerreiros bravos. Eu não tenho bem uma resposta certa, porque por um lado reconheço que sou inteligente e houve momentos que ter sabedoria me ajudou muito, já me abriu portas. Mas tenho certeza que após atravessar essas portas, eu precisei muito mais saber brigar. E isso eu tive que aprender muito cedo na minha vida. O brigar a que me refiro é ir de encontro ao problema e tentar resolvê-lo; é aceitar um desafio que não é meu mas que eu comprei a ideia, e querer superar o meu próprio limite, seja físico, seja psicológico, seja emocional, todos. É uma sensação de você entregar tudo.

Algumas pessoas me chamam de workaholic. Já ouvi de tudo também; de super-homem a salvador da pátria. O sargentão. Já pensei mesmo em seguir carreira militar. Na adolescência eu cheguei a cogitar isso. Eu sou disciplinado, sou honrado, sou persistente e eu adoro brigar. Características típicas de um guerreiro. Me venda uma boa ideia – ou melhor, me faça comprar a sua ideia e vai ter um fiel escudeiro. Eu sou o cavaleiro da Coroa, o capitão do exército do Rei, o pastor alemão da propriedade, aquele gladiador que dá a cara a tapa e vai de encontro à fera na arena. Eu não tenho medo. Se tem uma coisa que eu não tenho é medo. Muito pelo contrário, eu sou apenas cauteloso e estratégico, eu só dou uns passos para trás para depois saltar para frente. Eu adoro uma boa briga. Me dê uma boa briga e vai ter um bom guerreiro, leal e forte ao seu lado. E eu sei que me faz mal isso, a princípio. Dói meu estômago. Me dá enxaqueca. Choro à noite calado escondido, enquanto lambo as minhas feridas. Muitas das vezes eu engulo o choro e disfarço os hematomas da batalha. Para minutos depois recomposto, estar lá de novo no meu posto, na linha de frente, onde é o meu lugar. Você quer me irritar é tentar me tirar isso, querer meu polpar, ou tomar uma briga minha. Eu fico louco, porque as minhas batalhas, as minhas brigas, quem luta sou eu. As minhas vitórias ou as minhas derrotas não terceirizo. E qualquer cicatriz eu nunca me arrependo, eu as tomo como troféus.

Eu adoro a sensação de estar no campo de batalha. Da adrenalina que isso dá. Isso me alimenta. Quando a minha vida fica calma demais, sem nenhum dilema existencial, sem nenhum problema para resolver, sem nenhum inferno para suportar, num primeiro momento é uma delícia. E eu aproveito também dessas férias. Mas com o passar do tempo, eu já percebi que isso me entristece. É como se a vida fosse gradativamente perdendo o brilho. É como se fosse tirado de mim uma necessidade essencial. A de ter uma morte honrosa na batalha. Eu olho para trás e me lembro dos momentos em que beijei o chão, quando alguma boa pancada foi forte demais. No momento eu confesso que doeu. Muito. Mas essa é só uma visão isolada da situação, porque quando eu olho para o contexto e eu vejo o momento que eu levantei e fui para cima novamente, e eu continuei brigando ou resistindo apesar de tudo, mesmo que fosse para apanhar de novo, a sensação que fica é muito boa. Porque eu sou meio sem vergonha... Não que eu goste de apanhar, eu gosto é de brigar. E eu já aprendi nessa vida que o bom guerreiro não é aquele que bate forte. A primeira e a melhor lição de todas, é aquela onde se aprende a apanhar. É aprender a cair. É aprender a errar. É aprender a se machucar, a se decepcionar, a amargar uma derrota. Mas não desistir. E levantar no momento apropriado e novamente avançar.

E que não se enganem com a minha carinha, eu também sei bater forte. Eu não tenho problema em beijar o chão também. Eu não tenho problema com pancada forte, eu até desejo que seja assim. Porque eu já sei muito bem me levantar. O chão nunca será meu lugar. Mas eu gosto de atingir o chão, porque do momento que eu estou no chão, a minha única opção é levantar. Do fundo do poço, a minha única visão é a da boca que dá para o Céu. E a verdade, é que a melhor visão do Paraíso se dá realmente do inferno. Quando caímos, quando apanhamos, quando nos decepcionamos, é justamente quando nos reconstruímos, nos reinventamos, é quando renascemos melhores. A vida é uma morte constante. E a vida só tem valor quando é desafiada. As coisas só têm valor quando são conquistadas. Exatamente por isso que não podemos desejar que as coisas venham fácil, porque para fazer sentido e para ser realmente especial, precisamos batalhar e conquistar na raça. Sem medo de arriscar. Sem medo brigar. Sem medo de cair. Exatamente porque é na queda, que o rio ganha força.


É, eu acho que eu preferia mesmo nascer em Esparta. 

domingo, 10 de setembro de 2017

As competências do profissional do futuro


Nos últimos anos uma das grandes inquietações das pessoas tem sido imaginar como será o futuro profissional. A carreira de trabalho está cada vez mais nas mãos dos trabalhadores do que num planejamento feito pelas empresas. A tecnologia vem avançando num ritmo cada vez mais acelerado modificando sistemas produtivos, processos de trabalho, maneiras de se viver em sociedade. Palavras como “robótica” e “inteligência artificial” estão cada vez mais presentes na vida de qualquer pessoa. Algumas profissões estão sendo modificadas, outras praticamente estão desaparecendo por conta da evolução tecnológica e classes de trabalhadores vem se perguntando sobre a existência de sua própria categoria de trabalho no futuro.

Como muitas pessoas, eu também tenho me preocupado com o futuro do trabalho. Eu sou jovem, tenho 29 anos, tenho muito pela frente para trabalhar, porém penso que mesmo as pessoas com idade mais avançada deveriam refletir também sobre essas questões. E muitas já estão fazendo isso! Com uma possível reforma da Previdência sendo discutida e com a expectativa de vida aumentando é certo que as pessoas viverão mais e possivelmente trabalharão mais também. Dessa forma torna-se imperioso que um trabalhador pense agora em estratégias que o tornarão empregável ou com possibilidades mínimas de se manter num futuro ainda difícil de se prever, em relação ao trabalho.

Eu me debrucei sobre esse tema com afinco na tentativa de conhecer que competências um profissional deveria se atentar. Nos últimos meses me dediquei a pesquisar e consumir materiais de inúmeras fontes, formais e informais, e formatos dos mais diversos, para entender o que os especialistas estão falando, intuindo ou prevendo sobre trabalhoXfuturo. Percebo nas discussões que chega a um determinado ponto que as diferentes ideias se convergem para um único caminho e é a partir desse ponto que faço as minhas sintetizações. Com base nas minhas pesquisas listarei abaixo os conhecimentos, as habilidades, as atitudes e as características que um profissional deve se atentar para se tornar mais competitivo no futuro. Note também que elas têm um viés mais comportamental do que técnico. São elas:

  • Proatividade
  • Comunicação
  • Lifelong Learning (aprendizagem contínua)
  • Uso de tecnologias
  • Participação e compartilhamento
  • Adaptabilidade
  • Pensamento crítico
  • Pensamento analítico
  • Raciocínio complexo
  • Capacidade de sintetização
  • Conhecimentos interdisciplinares (carreira em T)
  • Competências paralelas e contigênciais (Plano B)

Vamos lá. Agora vou explicar porque escolhi cada uma delas.

Proatividade, porque hoje estamos diante de um cenário que muda constantemente. Muda a política; a legislação; a tecnologia; os costumes, e isso impacta nos indivíduos e nas empresas. Hoje não faz mais sentido uma empresa prometer plano de carreira para um colaborador, porque na prática ela não vai conseguir sustentar isso. As pesquisas mais recentes já apontam que as novas gerações ficarão bem menos tempo nas empresas do que gerações mais antigas, além de já trazerem consigo uma forte inclinação para empreender. Se as empresas não podem garantir carreira para um colaborador, depende dele refletir mais essas questões, e para isso ele precisa ser proativo. Não dá para esperar que a empresa lhe dê cursos, incentivos, ferramentas, oportunidades, sempre; embora as empresas ainda o farão e propiciarão terreno favorável ao desenvolvimento dos colaboradores, dependerá de cada colaborador buscar o seu autodesenvolvimento e ter mais atitude frente a essas questões.

Comunicação. Essa sempre foi e continuará sendo o calcanhar de Aquiles das empresas. Desenvolver uma boa oratória, se fazer entender muito bem evitando ruídos, tendo clareza de propósitos e objetividade é sempre bem vindo. Coloco neste pacote o famoso feedback, a capacidade de transmitir a um chefe ou a um subordinado o que é necessário, visando sempre alinhamento de propósitos e alcance de objetivos comuns. Saber dar e receber feedback continuará sendo positivo, principalmente para pessoas que almejarem posições de liderança.

Lifelong learning, uso de tecnologias, participação e compartilhamento. Essas são bastante importantes. Colocarei-as juntas para explicar que as pessoas precisam aprender a aprender e compartilhar isso. Estarem constantemente abertas e conectadas. Aquele posicionamento fechado do “eu sei porque sempre fiz assim” cada vez mais está caindo com as constantes transformações; as pessoas precisam ser curiosas, ter interesse em aprender coisas novas, reaprender umas com as outras e atualizarem-se continuadamente. Como a sociedade se dá pelos seus meios, pela interação das partes, hoje isso perpassa a tecnologia, a internet, as redes sociais, o compartilhamento do conhecimento em tempo real, então é importante saber navegar. Eu recomendaria a qualquer pessoa hoje a ter pelo menos um perfil no Facebook, a ter um perfil no Linkedin, a se inscrever no Youtube, a ter mais familiaridade com a internet, com as suas ferramentas e os seus processos. Por mais que a pessoa seja reservada e não queira publicar ali fotos pessoais ou não queira produzir vídeos, ser youtuber por exemplo, isso não é necessário. Somente estar nessas redes pode ser uma grande oportunidade de obter conhecimento. O Facebook por exemplo permite curtir páginas e receber seus conteúdos; o usuário pode confeccionar a sua rede de contatos e páginas de interesse de maneira bem personalizada às suas necessidades de informações, fazendo com que só de entrar na rede a pessoa já tenha a possibilidade de se atualizar constantemente. O Youtube possui um aplicativo que o usuário só precisa ter uma conta e depois se inscrever nos seus canais de interesse, que ele receberá por e-mail as atualizações dos canais. E quem diz que não dá para se atualizar pelo Facebook e pelo Youtube está redondamente enganado. Claro que existem notícias e conteúdos falsos, assim como canais que pouco agregam, mas se o usuário souber fazer a filtragem e selecionar ele tem uma ótima fonte.

Adaptabilidade. Os profissionais precisam ser flexíveis e se adaptarem às novas realidades. Um bom exemplo disso é a Reforma Trabalhista que altera intensamente a CLT e passa a vigorar a partir deste ano. É necessário ter maleabilidade e jogo de cintura para se adaptar ao novo cenário e as novas regras que se configurarão. Gosto de uma frase do William George Ward que diz assim: “O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas”.

Pensamento crítico, pensamento analítico, raciocínio complexo e capacidade de sintetização. Essas competências como o próprio nome demonstra são mais complexas. Mas também são de extrema importância! Hoje se sabe que a linearidade não dá mais conta de traduzir a nossa realidade globalizada, tecnológica e com indivíduos tão diversos e plurais. Olhar uma situação por uma única ótica e com um pensamento linear traz análises rasas e resultados precários. Hoje mais do que nunca, e no futuro isso tende a se acentuar, as empresas buscarão solucionadores de problemas. Colaboradores capazes de enxergar a empresa sistemicamente, a partir do seu olhar, do olhar de cada setor, das estratégias da empresa e ver a interligação de como todas essas variáveis impactam numa situação observada, numa decisão a ser tomada, num planejamento. O pensamento crítico faz o profissional questionar e buscar as respostas. O pensamento analítico o faz analisar racionalmente a situação, o problema, o desafio. O raciocínio complexo o permite fazer mentalmente os hiperlinks, as conexões, as analogias, as inferências e somar tudo isso ao seu background, a sua bagagem de conhecimentos, para, por último, ser capaz de sintetizar. Olhar para “x”, que impacta em “y”, que será impactado por “z” e “w” e o produto dessa análise é a conclusão, é a hipótese, é a estimativa, é a previsão, é o resultado (sintetização). E como se desenvolve isso? Consumindo conteúdos diferentes, de diferentes fontes (formais e informais), de diferentes plataformas, constantemente.

Conhecimentos interdisciplinares (Carreira em T). Carreira em T é o seguinte. O profissional possui uma formação base e depois ele vai somando conhecimentos e habilidades paralelamente a sua área de formação ou atuação. Vou me dar como exemplo. Minha graduação é Administração de Empresas. Atualmente faço duas especializações, uma em Recursos Humanos (área que trabalho formalmente) e uma outra especialização em Psicologia Organizacional. Tenho planos de iniciar no próximo ano outras duas especializações, uma em Coaching e outra em Direito do Trabalho. Veja que minha formação inicial se dá em Administração, todavia, todos esses conhecimentos vêm agregando a minha formação horizontalmente, de acordo também com a minha estratégia de carreira. Então o profissional precisa estar aberto e ser proativo para obter conhecimentos de outras áreas, de outras ciências, que venham a lhe trazer maior capacidade de solucionar problemas, haja vista que sua visão e capacidade de sintetização aumentam.

Competências paralelas e contigênciais (Plano B). O que percebi nas minhas pesquisas é que cada vez mais se ouvirá falar de carreiras profissionais, no plural mesmo para o profissional. Multitrabalhos. Ou seja, o profissional precisará desenvolver, ao longo de sua vivência profissional, talentos, habilidades e conhecimentos para atuar em outras frentes por “n” fatores, como: a sua profissão pode ser ser substituída pela tecnologia; num revés da economia a sua profissão pode perder momentaneamente espaço; pode ser dispensado e demorar a retornar à mesma função, e para isso é necessário um Plano B. Vou me utilizar como no exemplo acima. Numa situação imprevista, poderia atuar no futuro como coach, como consultor ou até como palestrante. De repente, posso cursar Direito e atuar como advogado trabalhista, ou cursar Psicologia e atuar como psicólogo. Ser professor. O que quero dizer é que o profissional precisará ter ferramentas (conhecimentos, habilidades, características) que ele foi capaz de, estrategicamente, ir desenvolvendo, formalmente ou informalmente, paralelamente, contingencialmente, durante todas as suas carreiras profissionais, para ter sempre cartas nas mangas! O famoso Plano B. Ou C, ou D.

Eu não espero fechar aqui uma conclusão, mas sim trazer ainda mais a reflexão. Da mesma forma que tudo o que venho lendo tem me servido para pensar o futuro em relação ao trabalho, que este texto tenha o mesmo propósito. Só gostaria de trazer uma última reflexão: O futuro é o resultado da nossa participação para a sua criação, através das decisões que tomamos hoje, sendo assim que decisões você vai tomar?

sábado, 12 de agosto de 2017

A MEDIDA DE TODAS AS COISAS


Quando eu tinha cinco anos, me lembro de comprar umas balas só porque no papel vinha uma pequena frase descritiva de cada signo do zodíaco. Eu devia ter uns sete anos, quando li o primeiro horóscopo nas páginas finais de uma dessas revistas de fofocas. Descobri que nos jornais também havia esses horóscopos, e o mais interessante nessa época era que ali num bar próximo da minha casa, jogando fliperama eu notava a seguinte cena: todo leitor do jornal, quando chegava na parte do horóscopo, dava uma olhada a sua volta, disfarçava um pouco e rapidamente corria os olhos para ler a previsão do seu signo. Eles tinham vergonha. Ou medo. Concluí naquele momento que as pessoas tinham a mesma curiosidade que eu, mas diferente de mim, elas tinham vergonha disso. “Por que ler o horóscopo era motivo de vergonha?” - me perguntava, enquanto jogava Street Fighter.

Por essa mesma época, fui a primeira vez à biblioteca municipal para fazer trabalho da escola. Da para notar que eu sempre fui muito curioso e observador, então é óbvio que fiquei mais vasculhando e conhecendo cada canto da biblioteca do que me concentrei no trabalho. Foi então que encontrei lá uma sessão de prateleiras classificada de “Esoterismo”. Eu já escrevi sobre ela aqui. Lá tinha livros que iam de astrologia à numerologia; de yoga à meditação; de chackras à terapias alternativas. Tinha livros que discorriam sobre a origem do fascínio do homem pelos oráculos e práticas adivinhatórias e autoconhecimento. Livros sobre ervas medicinais. Sobre mitologias e folclore brasileiro. Livros que alertavam sobre a importância de trazer mais espiritualidade para nossa vida, demasiada materialista. Eu adorava essa biblioteca e toda vez que íamos para lá, dava um trabalho para me tirar daqueles corredores pois sempre tinha alguma coisa que eu queria ler. Quero lembrar que isso foi a mais de vinte anos atrás, não existia Google. Poucos tinham acesso à internet. Computador era artigo de luxo, era caro, a maioria das pessoas não tinha e as pesquisas eram feitas em bibliotecas com auxílio dos livros e escritas naquelas folhas de papel almaço. Mas eu não me importava com isso, pois eu via naquelas prateleiras conhecimentos que, por algum motivo, ao longo do tempo foram se perdendo da humanidade e caindo em descrédito. Quando eu lia sobre práticas de medicinas alternativas por exemplo, mesmo eu sendo muito criança, aquilo já me fazia muito sentido, e eu já pensava que tinha algo de errado no caminho escolhido por nós até então. Acredito que hoje exista um movimento interessante e  noto que alguns já perceberam que tem algo de errado com essa economia desequilibrada; com esse sistema capitalista desenfreado, onde as contas nunca fecham; com essa nossa resistência de olhar para dentro de nós mesmos e refletir questões pessoais; sem falar num número alarmante de casos de transtornos e doenças mentais que só cresce a cada ano. Alguns estão “despertando” e buscando práticas e conhecimentos antigos.

Desde o início dos tempos, o homem teve ao seu alcance os quatro elementos principais para manipular: o fogo, a terra, o ar e a água. A medida que seu conhecimento aumentava sobre a manipulação desses elementos, ele ia desenvolvendo seu entorno e criando novas técnicas, novas ferramentas, mas tornou-se uma relação de poder e domínio. O homem se tornou um deus de si, ele se colocou no centro e dominou o resto, deixando a natureza a mercê de suas necessidades. Mas essa relação nem sempre foi assim... Alguns povos indígenas, aborígenes, alguns pajés, xamãs, todas essas tribos mantiveram ou mantém até hoje uma relação diferente com a natureza. Eles se veem como parte do entorno, onde homem e natureza são indivisíveis, eles respeitam a natureza porque já se veem como natureza. É interessante ler relatos da forma como alguns nativos desses locais pedem licença à floresta para caçar, pescar ou colher; como agradecem cada alimentação e só retiram o suficiente para saciar a fome, dando o tempo necessário para um local se regenerar. No xamanismo por exemplo, entende-se que existe um elo entre o mundo espiritual e o mundo material, e os xamãs creem em espíritos da natureza que não só os protegem e os curam, mas sempre lhes proverão o necessário. Vejo nessas culturas beleza e uma riqueza de aprendizado pois vivem em harmonia com o meio. Transcenderam valores que as sociedades modernas ainda não. Tinha um professor de biologia que nos falava que o homem era um vírus no planeta Terra, e este, como todo organismo, está lutando contra a ameaça invasora. E o aquecimento global seria um dos sintomas, porque a febre é a forma do organismo lutar contra a ameaça, elevando a própria temperatura. Eu sei que é uma analogia grosseira, ficcional, mas ela nos proporciona boas reflexões.

Agora abro um parênteses interessante sobre a origem da nossa relutância em aceitar ler ou ouvir sobre conhecimentos pouco ortodoxos e práticas tidas como pseudociências. Primeiro porque no movimento antropocêntrico, o homem se colocou como um deus e assumiu a ciência, sua ferramenta-mãe, como sendo aquilo que ele pode aferir e provar inequivocamente com seu racionalismo iluminista, e todo o contrário disso foi rebaixado a um pseudoconhecimento. Segundo porque existe algo chamado Igreja, muito poderosa na Idade Média, que criou nessa época uma máquina de moer pessoas “indesejáveis”, ela chamava-se Inquisição. Qualquer pessoa minimamente diferente ou com ideias que contrariassem o status quo era acusada de herege, bruxa, satanista e sua sentença era a morte. Óbvio que isso gerou um medo coletivo. Esse medo está enraizado no nosso inconsciente até hoje. Assim como o preconceito. Por isso os leitores do jornal na minha infância tinham vergonha de serem vistos lendo o horóscopo, eles poderiam ser taxados de inúmeros adjetivos; por isso quase ninguém frequentava a sessão de esoterismo da biblioteca, tinham vergonha de serem vistos por lá. Esoterismo virou sinônimo de práticas ocultas voltadas para o mal. As pessoas sempre associam a algo negativo. E só estão reproduzindo o preconceito.

Toda vez que ouvimos que alguém tem uma religião diferente, como o candomblé ou a umbanda por exemplo; que se submete a algum tratamento de saúde alternativo, como o reiki, a homeopatia, a acupuntura; que busca autoconhecimento através da realização do seu mapa astral ou numerológico; automaticamente olhamos para essa pessoa de forma diferente, enxergando muitas dessas práticas como algo negativo, prejudicial ou errado. Mesmo embora algumas dessas mesmas práticas já foram até incorporadas aos tratamentos ofertados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Nota-se portanto que o que é considerado correto ou incorreto, positivo ou negativo, saudável ou prejudicial não é só uma questão de opinião, como também do tempo em que uma sociedade está. Os mesmos pensadores e cientistas de séculos atrás, que hoje elogiamos e referenciamos, muitos se intitulavam como astrólogos também. Muitos desenvolveram estudos místicos sobre a influência dos números. Eram pagãos. Os médicos chegavam a fazer o mapa astral do paciente para poder consultá-lo melhor. Diz-se que astrologia chegou a ser uma disciplina da medicina. De tudo o que já li a minha vida toda sobre esoterismo, vejo que a principal força motriz nunca foi outra senão conhecer a si próprio. O objetivo primordial é o autoconhecimento. Seja a astrologia, seja a numerologia, ou o tarot, o xamanismo, a wicca, a meditação, a yoga, a maçonaria, seja qual for, tudo se trata no fim de um voltar-se para o interior; são práticas de desenvolvimento pessoal através do autoconhecimento, com um intuito de se tornar um ser humano melhor. Todas essas práticas enxergam o homem na mesma visão do alquimista, como sendo ele ao nascer uma pedra bruta, ignorante, sem luz, que aos poucos lapidará sua evolução através do seu autoconhecimento.

A minha aposta para os próximos anos é que cada vez mais as pessoas procurarão conhecimentos e tecnologias considerados hoje alternativos, para uma qualidade de vida melhor. E isso já está acontecendo em alguns cenários! Principalmente no oriente. É o executivo que reserva alguns minutos do dia para uma meditação. Ele come produtos orgânicos e pratica yoga. Ele já fez o seu mapa astral e numerológico, então ele sabe quais são os seus pontos fortes e os pontos que precisa trabalhar mais, assim como ele sabe quais setores da vida tendem a serem mais críticos. Ele sabe qual é o seu dosha. E ele faz algum tipo de terapia. Essa é a minha aposta não só porque eu acredito fielmente nisso, como porque eu ainda vou trabalhar com isso! É o meu projeto de vida. Ter um espaço, que reúna vários ensinamentos de diversas culturas, que eu já li ou me aproximarei ao longo da vida, que perpassará a dança, a culinária, a medicina, a estética, com o objetivo de encontrar um caminho de equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Trabalhos individuais ou em grupo, mas personalizados para cada indivíduo! Que seja capaz de fazer, primeiramente, essa pessoa se ver, se perceber, se conhecer, aprender a se equilibrar, então aprender a sozinha se desenvolver. Um espaço que a ensine os primeiros passos possíveis, com base numa análise pessoal, e depois ensine essa pessoa a redesenhar sozinha, se redescobrindo, se reinventando e se desenvolvendo continuamente. Porque nós somos como elásticos ao nascer, nossa capacidade de expandir é uma condição natural.

terça-feira, 18 de julho de 2017

A IRA NOSSA DE CADA DIA

Nunca soube distinguir muito bem minhas emoções. Só uma delas sou capaz de identificar perfeitamente. É a raiva. A raiva é uma velha conhecida que sempre me visita. Há momentos que sou consumido por ela. Venho notando quando ela brota e aprendendo também a beber e a me alimentar dessa fonte. Quando percebi quando a raiva me visitava e que poderia me nutrir dela muita coisa mudou. Antigamente por não saber lidar com esse sentimento agia descontroladamente. Impulsivamente. A raiva é um sentimento tão forte, sorrateiro e traiçoeiro quanto uma paixão, ambos nos cegam e nos impedem por vezes de enxergar os fatos e agir com a razão. 

Em muitos momentos quando via já tinha pedido demissão. Quando me dava por mim já tinha explodido e vomitado críticas que estilhaçavam os alvos. Parava quando via as lágrimas caindo, era o sinal que havia chegado onde queria. O estrago era sempre devastador. Era como um furacão, ia deixar um rastro por onde passava. Me julgava alguém muito errado, muito perdido, um descontrolado, porque num minuto calmaria, no minuto seguinte erupção. Mas achava que era coisa da idade, um comportamento de adolescente: calça rasgada, correntes, rock, bebidas e hormônios à flor da pele. Só que o tempo passou e mesmo hoje ainda sinto os sinais.

Hoje sinto vergonha de me perceber raivoso, que me tornei mais contido. Aprendi a disciplinar meus sentimentos até a mascara-los. É engraçado, mas quanto mais incomodado hoje eu estou com uma determinada situação menos as pessoas notam. Não me sinto a vontade se leem nos meus olhos o que se passa na minha mente. Olhando o passado me envergonho quando lembro das coisas que fiz quando com raiva. Algum tempo convivendo com uma pessoa bastava para identificar qual seria seu ponto fraco e era nesse ponto que atacaria para aleijar a vítima. Brigas com professor, com chefes, com meus pais, com colegas de trabalho ou amigos... Tenho certeza que magoei profundamente algumas pessoas. Mas na mesma proporção em que me senti magoado. Em que me senti atingido ou diminuído. Aí estaria o “x” da questão: eu não aceito ficar por baixo. Meu pecado capital sempre foi o orgulho. Sou vaidoso. Não suporto desprezo de algumas pessoas ou ser diminuído, não levo na esportiva qualquer descortesia. E é antiga a origem dessa dor... 

Na minha infância havia uma pessoa que me desprezava e me diminuía muito. Era o meu pai. Bastante mestre nisso. O melhor de todos eu diria. Me dava muita raiva sentir seu descaso por mim e ainda mais raiva saber que ele jogava comigo, porque eu percebia que ele me amava mas usava desse artificio para me “motivar”. Como ele logo cedo notou que eu não gostava de sua desfeita, era nesse ponto que ele me pegava e eu toda vez caía como um patinho. Fazia de tudo para ganhar o seu amor. Fui o aluno mais inteligente; tinha a caligrafia mais bonita; fui o filho mais educado e obediente; ganhei medalhas em competições de corrida e em olimpíadas de matemática para chamar a sua atenção; procurei ser um ser humano perfeito para assim quem sabe conquistar o seu amor, a sua admiração, o seu respeito. E ele retribuía sempre com descaso. E mesmo eu sabendo que aquilo era dissimulação, mesmo eu sabendo que ele só estaria jogando comigo para me fazer me dedicar e me esforçar mais às coisas, aquilo me afetava muito. Aquilo me golpeava em cheio. Para mim ele parecia um sádico e eu um tolo tentando conquistar o seu apreço. Encontrei um vídeo no YouTube que me emocionou muito quando assisti, porque de certa forma vi minha relação com meu pai nele. Quem quiser assistir segue abaixo.


Quando atingi a maioridade ele faleceu e desde então venho aprendendo a lidar com esse sentimento de rejeição mal resolvido. Busquei técnicas para aquietar a raiva que me consumia. Aprendi a meditar. A respirar melhor. A perceber os momentos de gatilho. Aos poucos fui buscando na humildade e na humanidade aceitar minhas fragilidades e a compreender as minhas falhas – e também as dos outros. Tem sido um exercício custoso, lento e diário. Afirmo que já tive progresso. Ainda me importo bastante em provar o meu valor. De tempos em tempos escolho um para provar meu potencial e obter dessa pessoa reconhecimento. Mas quando por algum motivo sou desprezado – ou capto dessa forma – uma dor antiga se avizinha e a raiva é o subproduto desse processo. Me parece claro que se trata aqui de um mecanismo inconsciente onde projeto a figura do meu pai nessas pessoas e procuro encontrar nelas um reconhecimento pessoal, para me sentir amado. Como se o “aceite” dessas pessoas fosse mais importante que o meu próprio. Ninguém ganha com isso.

Através de uma postura virtuosa, reta, digna, responsável, íntegra, irretocável, imagino que estou fazendo a minha parte e “alguém” está vendo. E esse “alguém” vai me aceitar. E aí vem outro problema: não ser capaz de sustentar as 24 horas do dia essa postura virtuosa, porque, embora esqueça, sou humano, falho e imperfeito. Então errar também termina me  gerando raiva, pois acredito – inconscientemente – que se não for perfeito não serei aceito. Eu sei que falar parece fácil, assim como dá a impressão de que estou no controle desse processo, mas como é inconsciente na maioria das vezes, quando me dou por mim essa cena toda já se reproduziu novamente, e novamente, e novamente. Me dou conta no resultado disso. É claro que com a maturidade e o autoconhecimento percebo mais rapidamente os gatilhos e, às vezes, antecedo às consequências. Mas o interessante de tudo é que tenho que assumir que apesar da imensa raiva que meu pai me fazia sentir, de fato ele me motivava intensamente também. Percebo que a raiva pode ser devastadora mas ela é capaz também de nutrir. A raiva pode nos dar o gás necessário para avançar. E de um tempo para cá estou empenhado nisso, numa estratégia de usar toda essa explosão de energia de forma canalizada. É então quando me supero na corrida. Quando trabalho em estado de flow. Quando sou capaz de criar. Quando venho aqui e escrevo um novo texto. Esse processo de escrever sobre meus traumas e fantasmas não é só artístico. É terapêutico.



quarta-feira, 5 de julho de 2017

COISIFICAÇÃO


A imagem escolhida para esse texto representa bem o tema, ela foi retirada de uma animação que encontrei no YouTube e colocarei ao final desse texto para quem quiser assistir. Recomendo bastante, é uma animação forte, pra fazer pensar.

As pessoas no geral estão tão ocupadas com tarefas a fazer, andando pra lá e pra cá, no corre corre do dia a dia, que estão passando despercebidas umas das outras e até de si mesmas. É tanta coisa para fazer: trabalhar; cuidar da casa; se preocupar com o que comer; se preocupar em estudar ou se manter atualizado; em fazer supermercado; pagar conta; e tem o trânsito do dia a dia, as filas, o estresse constante. Vamos fazendo todas essas coisas com um senso de urgência, com a sensação de que está ficando algo para trás que no fim não vai dar tempo de fazer. Eu me observo assim. Eu observo as pessoas assim. Estamos vidrados em nossa rotina, ocupados com a nossa vida, que transitamos não nos vendo, não nos ouvindo, não nos percebendo. Perguntamos como estamos por educação, porque duvido muito que importa sinceramente a resposta que virá logo após essa pergunta. As relações estão superficiais e os contatos breves, com pouco ou nenhum aprofundamento reflexivo ou sincero. Esse senso de urgência com as nossas coisas, somado a um excesso de importância e valorização só com a nossa vida tem nos feito individualistas, menos conectados uns com os outros. Quase como se fôssemos perfeitos estranhos, seres maravilhosamente invisíveis. Estranhos que se veem e se relacionam constantemente, mas ao final dos encontros permanecem estranhos.

Desafio você a se questionar com quantas pessoas você tem um relacionamento, seja ele de que natureza for, realmente com conexão. Conexão que eu digo é quando você realmente “está” com uma pessoa e “sente” que ela também “está” inteiramente com você. Falo aqui de presença; de profundidade; de identificação com o outro. Confesse, são raros esses momentos. Assim como são raras as pessoas com quem você se sente assim dessa maneira. Você não deve se sentir assim nem consigo mesmo. No geral, somos apenas gentis, protocolares nos “bom dias”, superficiais nas relações diárias e, sem perceber, estamos ausentes, porque ouvir não é a mesma coisa que escutar; ver não é o mesmo que enxergar. A capacidade mais empática e natural dos humanos é sentir uns aos outros, conectar, mas estamos perdendo essa capacidade. Existem pesquisas que tentam mostrar uma espécie de “coisificação” acontecendo. Esses estudos defendem uma tese de que há um processo de “coisificação” no mundo contemporâneo, onde estaríamos perdendo a capacidade empática e transformando quem não é importante para nós em uma “coisa”. As mesmas pesquisas foram feitas com crianças e os resultados impressionaram pela incapacidade que elas tinham de reconhecer e identificar expressões faciais básicas. Característica típica de psicopatas. Isso se explicaria por que você passa hoje por um mendigo deitado na calçada com um cobertor fino, nessas noites que você sabe o quanto está frio, e você quase não sente nada. Não é consciente, mas você “naturaliza” essa cena; você olha e não vê uma pessoa ali deitada e isso não te afeta mais. Poderia se dizer que você não mais percebe, quiçá se importará, se sob aquele pedaço de pano estaria de fato uma pessoa, porque ela não lhe é importante.

Será que não deveria nos afetar, muito, numa noite fria como essa de inverno em que estamos, nos deparar com um morador de rua? Será que não deveria nos afetar, muito, aquela criança pequena pedindo que vemos no farol pelos vidros erguidos do carro? Por que será que a gente não pensa se ela estaria com fome? Se almoçou ontem; se teria onde dormir hoje; se sofreria algum tipo de abuso ali nas ruas. A resposta é assustadoramente simples: a gente não pensa porque essa criança foi “coisificada”, como ela não nos é familiar, ela não nos é importante, assim não é vista, literalmente; é como se ela se mesclasse à paisagem. Assim como o mendigo. São tristes exemplos de como estamos insensíveis ao outro. Embora não admitimos, a nossa filosofia básica de vida é a seguinte: “primeiro eu, depois os meus, o que sobrar aos outros”. O mundo atual é confeccionado sob uma filosofia tão superficial e imediatista, com valores por vezes psicopáticos, onde estamos tão atarefados, bitolados e super valorizando nossa própria individualidade (“minha vida, minhas coisas, meus problemas”), que estamos não só perdendo a noção da existência do outro, como não legitimando a sua importância, a sua dor. E isso não é só triste e preocupante, isso é perigoso até. A sociedade só chegou onde chegou, como sociedade, pela nossa capacidade altruísta e empática de nos colocarmos uns no lugar dos outros, sem essa capacidade é impossível pensar sociedade. É difícil imaginar qual seria uma resposta para esse movimento, mas arriscaria pensar que, se estamos seguindo um fluxo como rebanhos num processo quase automático, foi por que aprendemos assim, e talvez a solução fosse parar em alguns momentos e tentar trazer consciência às nossas ações. E sempre que possível reavaliar nosso comportamento e revalidar a nossa visão de mundo dando mais atenção e importância às necessidade daqueles que estão ao redor, seja esse outro quem for, já que o outro nunca deixou de ser uma extensão de nós mesmos. É uma questão de se permitir.


quarta-feira, 14 de junho de 2017

PONTO CEGO

Michelangelo, David (detail of back), 1501-04

Acho que ainda não comentei aqui que faço uma pós graduação em Psicologia Organizacional. Faço um MBA em Recursos Humanos e recentemente iniciei outra especialização em psicologia. E como já era de se esperar há algumas disciplinas com bastante conteúdo dessa área, envolvendo reflexões e alguns 'debates internos'. Na última aula de Teorias Psicológicas e da Personalidade, o professor, um psicólogo experiente, trouxe-nos um teste chamado Janela de Johari. Apesar de eu já ter feito inúmeros testes, esse desconhecia e a princípio lhe dei pouca importância. O professor solicitou então que fizéssemos o teste e ao terminá-lo fiquei bastante impressionado e surpreso com o seu resultado, porque eu esperava algo completamente diferente. 

O teste é até antigo, foi desenvolvido por dois psicólogos norte-americanos chamados Joseph e Harrington, na década de 50, por essa razão leva a composição de seus prenomes. Ao pesquisar um pouco mais sobre esse teste, descobri que ele é bem utilizado nos dias atuais em processos de coaching e mentoring por exemplo, e confesso que me incomodou um pouco desconhecê-lo. E é aí nesse ponto, com esse toque de vaidade minha, que venho dividir meu resultado. “Como eu que estudo sobre autoconhecimento, que já fiz inúmeros testes de personalidade e afins, que procuro me manter sempre atualizado sobre práticas empresariais, nunca me deparei com esse teste antes!?” – me indagava em sala. Eu sei que estou sendo vaidoso, até arrogante, por simplesmente não aceitar desconhecer algo perfeitamente possível a qualquer um, mas é exatamente isso que apontou no meu teste.


Acima está uma imagem das áreas desenhadas quando uma pessoa conclui o teste, e essas áreas vão diferir de tamanho para cada pessoa que o fizer. Encontrei um vídeo no Youtube que explica e exemplifica bem a dinâmica da Janela de Johari e vou colocá-lo logo abaixo, quem se interessar poderá conferir, mas vou explicar um pouco aqui também. Como se pode perceber na imagem, formarão-se quatro áreas denominadas assim: aberta, oculta, cega e desconhecida. Todas as áreas constituem a nossa personalidade, porém as duas primeiras são pontos de conhecimento nosso, as duas últimas de conhecimento dos outros, mas o interessante é como se dá esta dinâmica. Na área aberta nós e os outros temos conhecimento; na área oculta apenas nós; já na área cega apenas os outros têm conhecimento a nosso respeito; e a última área é desconhecida por todos. Em cada área se encontram características de nossa personalidade das mais variadas, assim como talentos e aspectos que são desconhecidos ou até negligenciados. Acredito então que já dê para presumir qual das áreas ficou maior quando fiz o teste. Exatamente, e foram duas: as áreas cega e desconhecida. Ambas ficaram praticamente do mesmo tamanho, porém a área cega ainda ficou um pouco maior que a desconhecida. Muito diferente das outras duas, de meu conhecimento, que ficaram bem pequenas.


Era meu aniversário nesse dia que fiz o teste, estava completando vinte e nove anos, então imaginem a minha perplexidade ao receber um resultado como esse de presente. Como podem perceber também, eu até cheguei a publicar na postagem anterior de comemoração que possuo hoje um conhecimento mais amplo sobre mim mesmo –  mas será verdade? A ficha demora sim um pouco a cair, porque, como o próprio resultado demonstra, obviamente não percebo. O indivíduo que faz o teste Janela de Johari e seu resultado termina mostrando que a área cega ficou maior, como foi no meu caso, significa que esse indivíduo não tem recebido um feedback importante das pessoas que o cercam, seja no trabalho ou na vida pessoal, porque muito provavelmente ele está 'fechado' demais e não dá abertura para críticas, conselhos ou recomendações. Provavelmente, as pessoas ao seu redor percebem comportamentos, tendências, competências, características, vícios, que o mesmo ainda não se deu conta, seja por vaidade, arrogância, egocentrismo, medo, não teria como saberem ao certo. O fato é que estando 'fechado' para os outros, ele quem se cega, enquanto os outros o veem claramente. Com isso perde boas oportunidades de identificar 'gaps' e se melhorar e descobrir em si talentos e habilidades que os demais já notaram. Não posso deixar de registrar aqui também a minha surpresa com a área desconhecida do teste, a parte de minha personalidade que nem eu nem outros têm ciência. Os behavioristas que me perdoem, mas essa área diz respeito ao inconsciente, que parece estar ocupando boa parte de minha personalidade. Para acessar o inconsciente precisamos que seu conteúdo se torne consciente e isso é complexo, nossa mente tem barreiras e algumas penso que são para nos proteger em dado momento da vida. De acordo com o nosso professor, o nosso inconsciente dá sinais por alguns caminhos, seja através de sonhos, em uma hipnose, num estado de embriaguez ou através de comportamentos em circunstâncias extremas quando mal pudemos pensar e agimos instintivamente.

Sinto como se desde sempre estivesse andando por aí parcialmente nú, com a crença de que estava inteiramente vestido, e fico imaginando quais partes estariam à mostra para os outros. Penso que esse resultado chegou numa boa hora, capciosamente no dia do meu aniversário, como um presente da vida que inaugura uma nova etapa, talvez um convite para uma descoberta mais íntima sobre mim mesmo. Estar mais receptivo aos outros. Confesso que no fundo dá medo, porque desta vez tenho certeza que nadarei por águas pesadas, profundas e desconhecidas, mas também me sinto preparado, e bastante excitado para dar esse mergulho.



sábado, 3 de junho de 2017

E AGORA, JONAS?

Hoje, 03 de junho, estou completando vinte e nove anos. Há algum tempo venho tendo pensamentos e percepções interessantes a respeito da vida e em particular sobre mim mesmo. Sabe aquela máxima que diz que a partir de uma certa idade as fichas vão caindo? Isso é verdade. Acho que nunca constatei isso de maneira tão clara quanto venho notando. Ter vinte e nove anos não é muito nem pouco, mas é um período suficiente para começar a responder perguntas de forma mais concreta. Sabe aquelas perguntas? Quem eu sou; o que eu quero; para onde eu vou; essas perguntas se tornaram reflexões mais consistentes, profundas e pesadas para mim. Ao ponto de não estar sendo fácil encarar isso.

Do ponto que me encontro hoje, sinto como se perdesse o mapa e já não soubesse exatamente qual caminho vai me levar aonde quero chegar. Mas no entanto sei que voltar não faz mais parte do caminho também. Não me sinto perdido porque sei onde quero chegar, eu só não sei como ir até lá, não tenho mais mapa. Não tenho mais aquelas certezas, aquelas desculpas, aquelas expectativas de antes, e no entanto tenho um medo e uma insegurança constantes, porque ocorreu algo que me surpreendeu; apesar de me sentir poderoso, maduro, com energia e conhecimento suficientes para avançar, a contra partida tenho uma consciência tão clara de que a escolha será minha em absoluto. O que estou tentando explicar é que, até aqui, levei uma vida com uma crença de que eu não era bem o responsável pelo que acontecia comigo, havia sempre uma “força maior” regendo a autonomia dos fatos e eu, dentro das possibilidades, fazia a minha parte. Quando olhava para trás e via as dificuldades que tive na minha infância, culpava meus pais pela criação que me deram. Das pessoas que me distanciei, culpava ora o destino que não quis mais que permanecêssemos juntos, ora culpava as próprias pessoas que não facilitaram nosso convívio. Pois se a minha vida rumou até aqui, houve uma razão maior para isso. “Meu pai me moldou”, “o sistema capitalista me restringiu”, “o professor dificultou as coisas”, “Deus quis assim”, “o governo..., o chefe..., o amigo...”, “estive de mãos atadas nessas circunstâncias”, “mas eu fiz a minha parte”. Mas sabe do que mais? Hoje eu já não enxergo mais as cordas que me amarravam, que desconfio se elas um dia existiram e suspeito que deve ter sido eu quem as colocou.

Até que ponto criamos e alimentamos nossas próprias crenças? É difícil admitir que não alcançamos o que queremos por nossa vontade, porque nos conforta sermos guiados. Falamos de protagonismo social, de sermos agentes de nossas vidas, mas na prática são poucos os que de fato estão presentes, porque viver a vida, estar realmente nela, implica num exercício de força, primeiramente física, é uma verdadeira luta! O corpo nasce brigando com a própria gravidade para se manter em pé. Ser uma pessoa, ter atitude, estar no momento presente, se exercendo como se é, é a maior dificuldade na vida. De fato, o que nos impede de ser ou chegar onde queremos? A única coisa entre a matéria e o espaço, é o tempo. Alimentamos uma matrix porque a realidade é dura demais para suportarmos. Hoje me sinto mais forte, mais maduro com vinte e nove anos, e ao mesmo tempo mais receoso e inseguro do que nunca, porque depois de um tempo encarando meu carrasco nos olhos, percebo que ele se parece muito comigo e já não dá mais para negar isso. E agora?



sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

JUSTIÇA



Sempre que me deparo com uma situação em que preciso decidir alguma coisa, procuro primeiramente verificar se estou sendo neutro, para depois tentar ser justo comigo e com os que serão afetados pela minha decisão. Não é uma tarefa simples, porque, via de regra, o que parece justo a uma pessoa nem sempre é para outra. As pessoas são diferentes e possuem contextos e históricos de vida diferentes e isso implica no que elas julgarão como certo ou errado, em determinado momento ainda, pois elas podem mudar de opinião. Acredito então que para ser “justo” são necessárias basicamente duas coisas: um parâmetro racional e um coração puro. 

Quando possuímos um parâmetro racional é mais fácil decidir. Um parâmetro racional é compreendido por todos da mesma forma. Imagine um salão com diversas mesas e em cada mesa há duas crianças sentadas, uma de frente para a outra. Em cada mesa existem números desenhados. Começa a brincar aquela criança que se senta de frente para o número desenhado corretamente no centro. Verifica-se que em uma dessas mesas gerou-se um conflito, porque para uma das crianças se vê o desenho de um 6 e para a outra criança desta mesma mesa esse número se parece com um 9. É difícil saber qual criança começará a brincadeira pois ambas estão corretas, quando observam o desenho de seu ponto de vista. Agora vamos supor que para esses casos exista desde o começo a seguinte regra: “Ao observar números com duplo sentido, começará a brincadeira quem estiver vendo o número maior.” Foi estabelecido um parâmetro racional! Diante disso já temos como saber quem começará a brincadeira. O que eu descrevo aqui como “parâmetros racionais” são as regras do jogo. As leis estabelecidas. As convenções. As políticas. Os limites previstos entre os envolvidos para demarcar onde começarão e terminarão seus direitos e deveres. Assim sendo, os parâmetros devem sempre ser as primeiras ferramentas a se recorrer quando pensamos em agir com justiça.

No entanto, agora imaginemos a seguinte situação. Seguindo ainda o exemplo acima, imagine que numa das mesas existe o desenho do número 8! Ambas as crianças desta mesa estarão de frente para o número desenhado corretamente. E desta vez ambas estarão vendo o mesmo número, não há maior ou menor. Quem pode começar a brincadeira, quando os parâmetros disponíveis não solucionaram a questão? Toda essa estória que criei pode ser um simples exemplo, mas acredite, na vida real existem muitas leis (regras, normas, políticas etc.) que não dão conta de equacionar satisfatoriamente todos os conflitos, porque, via de regra, somos seres humanos. Somos muito diferentes entre nós mesmos e não seria possível todos os parâmetros disponíveis, por mais bem pensados que sejam, darem conta da infinidade de conflitos que podem surgir das nossas relações. Por esse motivo as leis são constantemente revistas e atualizadas.

Em alguns momentos da minha vida, quando preciso decidir alguma coisa e os parâmetros disponíveis para a situação são nebulosos ou não me auxiliam objetivamente, verifico antes de mais nada como anda o meu coração. Sei que esse é um momento em que eu terei que decidir, estará em minhas mãos. Será preciso neutralidade. Imparcialidade. Responsabilidade pela minha decisão. Preciso me despir de meus preconceitos e sentimentos até. Confesso que não gosto muito desse papel porque sinto que sou eu quem está definindo algum futuro, quando minha decisão pode afetar significativamente a vida de outra pessoa. Mas eu aceito o que cabe a mim fazer, porque sei que são situações que acontecem e faz parte. Quando me utilizo de parâmetros é mais fácil porque não sou eu quem decidiu, foi a “lei”. Se me valho do meu entendimento a cerca da questão para equacioná-la, exige-me um coração puro e nesse caso existe uma lei maior me vigiando, a do Universo. Uns chamam de Lei do Retorno. Outros de Lei da Atração. Eu chamo de  Lei Divina. Essa eu tenho cisma. Tenho medo. Essa eu tomo muito cuidado... porque diferente da dos homens, essa não falha.