domingo, 21 de novembro de 2021

A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA


     Vou te fazer uma pergunta e gostaria que fosse sincero. O que você acha: a primeira impressão é mesmo a que fica?

     Diversos estudos sobre essa questão já foram publicados e ao que parece, sim, tendemos mesmo a formar um conceito, uma opinião sobre alguém – e pasme – em poucos segundos, após o primeiro contato. Uma série de circuitos neuronais são acionados quando conhecemos uma pessoa, inclusive inconscientemente* (*quero que guarde bem essa palavra) e, em menos de um minuto, somos capazes de nos dizer se essa pessoa nos causou uma boa impressão ou não. Mas será que isso é o suficiente para formarmos uma opinião sobre determinada pessoa?

     Como várias pesquisas de fato já demonstraram que essa resposta é sim, a primeira impressão é a que fica, não vou me ater a isso. Pelo contrário, vou problematizar um pouco mais. O importante não é se a primeira impressão é a que fica, a questão é a seguinte. O quanto essa impressão está correta? Sem viés? Ou pior: sem alguma projeção?!

     Lembra quando pedi que guardasse aquela palavra? Pois então. Vamos recapitular rapidamente aqui. A projeção é um mecanismo de defesa inconsciente em que enxergamos em outra pessoa características – quase sempre negativas – que são nossas. Por termos certa incapacidade de enxerga-las em nós, seja por não conseguir lidar ou por não aceitá-las, ocorre o mecanismo de projeção dessas nossas características na outra pessoa. Resumindo, aquilo que não conseguimos – ou que não podemos – enxergar em nós, enxergaremos no outro. E não raro nós combateremos isso na outra pessoa através de críticas e julgamentos. Quando não, apenas lançaremos mão daquele famoso “não fui com a cara de fulano”. Mas até que ponto não estaríamos nos enxergando nessa pessoa?

     Vamos refletir um pouco. Se acabamos de conhecer uma determinada pessoa. Nunca nos vimos antes. Com base em quê, nós poderíamos concluir – com exatidão! – que a impressão que tivemos a seu respeito estaria correta? Veja que não estou afirmando que as pesquisas estejam erradas, pois acredito que tendemos mesmo a formular respostas como essas rapidamente. E inconscientemente também. Apenas acho oportuno analisarmos as nossas conclusões sobre essas impressões, principalmente com processos inconscientes sabidamente em ação.

     Um outro ponto importante são os vieses cognitivos. Vamos imaginar que você tenha uma determinada religião que use uma vestimenta característica e a pessoa que acaba de conhecer seja também desta religião. Ou que essa pessoa venha trajando a camisa do time de futebol que você é apaixonado desde criancinha. Ou da sua banda de rock favorita. A chance de você gostar dessa pessoa que acaba de conhecer é grande. E se fosse o contrário. Se a pessoa usasse a camisa do time de futebol que venceu o seu time no último campeonato? Ou fosse daquele partido que você detesta, porque sabe que tem políticos corruptos? Percebe que nesses casos existem fatores que contribuem fortemente para a sua primeira impressão? Isso são vieses cognitivos.

     Não estou dizendo que a primeira impressão não é a que fica. Estou apenas propondo uma re-fle-xão dessa impressão. Aquela pessoa que desde o começo você não foi com a cara dela, será que ela tem características de personalidade ou algum comportamento que você ainda não percebeu em si mesmo? Se você quiser ou se achar que deve, eu proponho a você um simples exercício. Procure uma pessoa neutra que te conheça bem, que você sabe que será sincera com você e pergunte a ela se por um acaso você teria alguma das características que você odeia na outra pessoa. Eu não sou vidente, mas já adianto que você poderá se surpreender com essa resposta.

     Agora vou problematizar ainda mais trazendo um outro ângulo dessa questão, para pensarmos juntos. Lembra que toda essa nossa discussão está girando em torno da palavra: “inconsciente”. Há um outro processo que também é da ordem do inconsciente e que não se trata de um mecanismo de defesa. A intuição! Segundo Carl Gustav Jung, a intuição é uma função psíquica que está intimamente atrelada a processos inconscientes. Quando você tem de repente uma percepção, uma resposta afirmativa ou negativa à determinada circunstância e você não sabe explicar a origem e o porquê disso, provavelmente essa sinalização veio do inconsciente à consciência. Esse conteúdo estava armazenado no seu inconsciente e não sendo reconhecível até esse momento. E não tem nada de misticismo.

     Isso significa que você pode, justificadamente, não ter uma boa impressão de uma determinada pessoa que acaba de conhecer. Você intuitivamente foi capaz de perceber algo nessa pessoa que seria negativo a você. Você não entende o porquê, mas intuitivamente sabe que não é bom manter contato com essa pessoa. E olha, na grande maioria das vezes a sua intuição pode estar correta! Agora você deve estar se perguntando exatamente o seguinte.

"Como saber quando estou usando algum viés cognitivo, projetando conteúdo ou intuindo algo?!"

     Ah! Se fosse fácil assim, eu jogava na Mega-Sena! Eu não sou vidente. Mas brincadeiras a parte, não é fácil mesmo. O ser humano é um bicho complexo. Multifacetado. E desconhecemos a nós mesmos também, o que não ajuda muito. A orientação que posso te dar nesse sentido é a mesma que sempre me dou. Nunca tomar nada como muito certo. E isso vale tanto para gostar demais de uma pessoa, quanto a não gostar de alguém. Todas as vezes em que tenho uma impressão muito forte de uma determinada pessoa, procuro investigar as razões da intensidade desse meu afeto. Por que eu gosto tanto dessa pessoa? Ou o contrário. Por que o jeito dessa pessoa me incomoda tanto? Procuro estar em constante análise de mim mesmo – inclusive com um profissional também. Para me familiarizar, integrar e elaborar todas as partes da minha personalidade. Mesmo as mais desagradáveis. Mas sou humano, estou sujeito a processos de projeção como qualquer pessoa. E tenho os meus vieses cognitivos também. Mas aquele exercício que recomendei de procurar um observador externo neutro é bastante interessante. E sempre faço isso. Muitas vezes essa pessoa vê em mim aquilo que alego estar vendo no outro. Ou seja, eu estou de fato projetando conteúdo meu. Procuro então analisar por que não posso aceitar esse conteúdo em mim e que está me fazendo jogá-lo para fora.

     Agora, quando essa pessoa neutra que peço ajuda me diz que não vê nada em mim, então talvez a minha intuição esteja agindo de fato. Nesse caso fico alerta. Procuro me sintonizar ainda mais com essa intuição. E não tem nada de místico ou de paranormal. A intuição vem de processos inconscientes. Só procuro prestar ainda mais atenção a isso. E não costuma demorar também até que eu compreenda as razões de eu ter tido determinada primeira impressão. A minha intuição é muito boa. E ela já me ajudou muito na vida.

     Então recomendo a você o seguinte. Tenha consciência dos seus vieses cognitivos. Procure sempre refletir as suas impressões e tome sempre conclusões pautadas na razão. Tenha consciência dos seus mecanismos de defesa. Investigue sempre – em si mesmo – as razões de determinada pessoa te provocar fortes afetos. A intuição é uma resposta instintiva, do inconsciente, com o objetivo de ajudar. Se ela apareceu tem um motivo. Tente descobri-lo.

E aí, chegamos a conclusão que a primeira impressão é realmente a que fica. Mas ela está correta?! Pense.

domingo, 14 de novembro de 2021

FÉ NO PAI QUE O INIMIGO CAI?


 

     Acredito que o texto de hoje poderá ser um pouco polêmico. Então, antes de começá-lo, já gostaria de deixar claro o seguinte. Eu acredito em Deus.

     Dito isso, usarei de base nesse texto de hoje uma frase que costumo sempre ouvir. “Fé no Pai que o inimigo cai”. Essa frase pode ser dita também de muitas outras formas, mas o que se subentende nelas é uma busca por algo superior – externo à pessoa – que supra a sua proteção. “Confie em Deus”. “Deus no comando”. “Deus proverá”. Todas essas frases são de fato bonitas. Elas são carregadas de fé e podem ser acalentadoras de alguma forma. Principalmente nos momentos de sofrimento. Eu também as uso. Só que penso o seguinte. Se não nos atentamos também, essas frases podem esconder uma espécie de terceirização da nossa própria vida. Um desejo inconsciente – e infantil – de sermos acolhidos por um adulto. Se Deus é da ordem do metafísico, a quem cabe o físico?

     Ao filósofo Espinoza, “Deus é um mecanismo imanente da natureza e do universo. Deus e natureza: dois nomes para a mesma coisa”. Acho belíssimo o Deus de Espinoza. Se partimos de um princípio de que nós somos natureza, e de que na verdade nem poderíamos conceber essa ideia apartada de natureza e nós, mas vendo como uma coisa só, entenderíamos que nós somos o todo. E se o todo é Deus, somos parte Dele também.

     Fé no Pai que o inimigo cai me faz refletir “Qual a parte de Deus que existe em nós?” Acredito que todos nós temos esse Self, um eu superior como disse Jung. Uma parte da nossa personalidade que seria mais sábia. Divina. Mais preparada para responder, na minha opinião, às demandas que nos afligem. Assim, todas as vezes que passamos por algum problema, penso que deveríamos acessar essa nossa parte superior e buscar fazer aquilo que nos cabe. Na prática. Colocar o divino no dia a dia. E não só pensar em Self como algo que transcende o físico e que me conecto apenas no abstrato, no metafísico. E o físico?

     Se tenho um problema de saúde, buscarei um médico, farei uso da medicação prescrita e farei tudo o que estiver ao meu alcance para obter a cura. Se tenho um problema financeiro, repensarei os meus gastos, farei um planejamento melhor, verei o que posso cortar e pensarei em quais formas de aumentar meus recursos. Em todos os nossos problemas buscar acessar essa nossa parte mais íntima, não apenas para responder seguindo a nossa essência, mas para responder – de forma prática – a essa demanda com aquilo que temos de mais elevado. De divino.

     E isso pode se aplicar a todas as situações difíceis. Diante dos obstáculos verificar o que podemos fazer, o que está ao nosso alcance. E com a graça de Deus, utilizando aquilo que de melhor Ele mesmo nos concedeu que é o discernimento. A força de vontade. O amor. E lidar com as atribulações da vida com maturidade. Coragem. Sabedoria. Como adultos. Deus é da ordem do metafísico. A física cabe ao homem. O que está ao nosso alcance devemos fazer. E após tudo ter sido feito depositar – para quem acredita – no sobrenatural. No metafísico. Aí sim clamar a Deus. Porque aquilo que coube ao homem foi feito.

     Outro ponto que me chama a atenção nessa frase é a ideia de inimigo. De diabo. A ideia do mal. E não estou dizendo que o mal não exista, porque se acredito em Deus, acredito também no diabo. Mas assim como Deus habita em mim, o diabo também não habitaria? E quando o nosso inimigo somos nós mesmos? Tudo aquilo que desconhecemos tendemos a ter medo. Só que em grande medida nós somos desconhecidos a nós mesmos. Às vezes inconscientemente desejamos o oposto daquilo que acreditamos que queremos.

     Na prática, dizemos que queremos sair de uma determinada relação, mas continuamos. Dizemos que queremos iniciar um determinado projeto, mas nos sabotamos. Teorizamos uma coisa e na prática fazemos outra. Cavamos a nossa própria cova, julgando o coveiro! Segundo Freud, "As emoções não expressas nunca morrem. Elas são enterradas vivas e saem das piores formas mais tarde". O retorno do recalcado. Mas a conta é sempre do outro. “É muita maldade”. “É armadilha do inimigo.” E quando nosso próprio inimigo somos nós?!

     É impossível escrever esse texto sem pensar naquele conhecido conto dos lobos. Em que um sábio e o seu discípulo assistiam dois lobos brigando. Um lobo era o bem e o outro o mal. O discípulo pergunta ao mestre qual lobo sobrevive. E o mestre responde, “Aquele que você alimenta”. Todos nós temos Deus e o diabo dentro de nós. Entendendo Deus como o nosso lado mais sublime. E o diabo como o nosso lado desconhecido que não necessariamente é maligno. Todavia, enquanto esse lado estiver inconsciente, ele dirigirá a nossa vida. E culpabilizaremos os outros.

     Esse texto de hoje é para nos fazer refletir sobre a direção da nossa própria vida. Onde estão as rédeas da sua vida? Aquilo que está em seu poder fazer – ou deixar de fazer –, você tem feito? Você analisa o que existe em seu inconsciente? Sejamos adultos. Antes de buscarmos a Deus no metafísico, vamos encontrar o Deus que habita em nós no físico. Na prática! Com o discernimento e a sabedoria nos concebidos resolver nossos dilemas. Sem perder de perspectiva o inconsciente. Analisando que o que chamamos de inimigo pode ser uma parte de nós mesmos que não foi integrada à consciência. Caso contrário, clamaremos infantilmente um Deus, como crianças chamando um adulto.

domingo, 7 de novembro de 2021

FIGURA & FUNDO

 


     Eu gosto muito de estudar sobre psicologia e o meu interesse pela psicanálise veio a partir daí, do meu interesse pela psicologia. Sempre gostei de estudar sobre a mente, sobre o comportamento humano e as suas as possíveis motivações e desafios. O conhecimento que tenho nesse universo da psicologia é como amante mesmo, eu nunca cursei essa graduação. Embora até tenho planos para isso um dia. Mas confesso que não sei dizer também – hoje – se atuaria como psicólogo após a formação, talvez eu fizesse o curso mais pela paixão, para me aprofundar nas diversas correntes que existem, porque certamente todas agregam conhecimento. Não tenho nenhum tipo de preconceito contra a psicologia, muito pelo contrário, vejo essa ciência como bastante útil à humanidade, principalmente nos dias de hoje com uma farmacologia tão indiscriminada. Sou a favor do uso de medicamentos, quando devidamente prescritos por médicos. Só digo que não tenho certeza se atuaria clinicamente como um psicólogo apenas por não me identificar – hoje – com psicoterapias que tenham como perspectiva o consciente. Diferentemente da psicanálise.

     Muitas pessoas me perguntam, e sempre me perguntaram por que não curso psicologia. Penso que a psicologia seja mesmo um curso fantástico, talvez como disse até faça um dia, pois existem correntes muito interessantes. Cada uma enxergando o ser humano e propondo terapêuticas de formas bem diferentes, e todas válidas. Mas todas sempre tendo como perspectiva o consciente também. E aí que a psicologia se diferencia da psicanálise. Embora muitos confundam uma com a outra, a diferença central é que a psicanálise trabalha com a ideia de inconsciente. Para a psicanálise, como Freud disse, “o eu não é senhor em sua própria morada”. E é nessa perspectiva que me identifico mais, por experiência pessoal inclusive. Já disse em outras oportunidades aqui que estou fazendo a formação em psicanálise e um dos pré-requisitos é a própria análise. Então eu percebo na prática o inconsciente agindo. Através de meus atos falhos. De mecanismos de defesa. Sonhos. Durante esse per(curso) consigo perceber o núcleo da minha própria neurose. É impressionante a atuação do nosso inconsciente e como temos uma compulsão à repetições.

     Dentre as abordagens da psicologia que conheci, a que mais me identifiquei é a Gestalt. Se cursasse psicologia hoje e posteriormente atuasse clinicamente, adoraria trabalhar com gestalt terapia. Mas ainda assim acharia importante não perder de perspectiva o inconsciente e as causas para determinadas formas de comportamento, já que tendemos inconscientemente à repetição.

     Eu tinha um amigo que vira e mexe reclamava de uma situação específica que não entrarei aqui em detalhes. Mas olha que curioso. Quando nos conhecemos ele me confidenciou uma situação conflituosa que ele tinha na época com o pai. Como um bom amigo eu o ouvia. Na época eu não estudava psicanálise ainda, eu fazia uma especialização em psicologia organizacional. E nessa especialização estudamos teorias psicológicas e da personalidade. E eu me lembro que já de cara odiei a psicanálise. E gostei muito da gestalt. Eu ia na biblioteca e pegava vários livros sobre psicologia da gestalt, gestalt terapia, me aprofundei no estudo dessa abordagem, ela foi a que mais me chamou a atenção positivamente - já que detestei a psicanálise. E a minha especialização tinha objetivo organizacional e ao trabalho, e de forma nenhuma tinha finalidade clínica. Eu não sou psicólogo.

     Mas voltando ao meu amigo. Eu me lembro daquelas famosas “figura e fundo” da gestalt. E um dos objetivos da gestalt terapia é fazer a pessoa ser capaz de enxergar outras perspectivas ao seu problema. Porque geralmente quando uma pessoa procura uma terapia, ela tem uma questão que a está impossibilitando de alguma forma. E não raro essa pessoa enxerga a sua situação de uma única maneira, de forma rígida. Então, uma das propostas da gestalt terapia é observar como essa pessoa vê o mundo e a medida do possível convidá-la a ir se abrindo a outras formas de enxergar esse mesmo mundo. Porque nada é uma coisa só. Trocando figura e fundo muda-se totalmente um cenário. Achava fascinante. Na minha opinião a gestalt é a abordagem mais bonita da psicologia.

     Na época fiquei muito impactado com isso. E na tentativa de auxiliar esse meu amigo, utilizei com ele esses conhecimentos da gestalt. E vou explicar o porquê. De forma nenhuma tentei clinicá-lo, muito pelo contrário, o que eu mais fiz foi recomendar que ele procurasse ajuda psicológica, porque ele relatava muito sofrimento psíquico. Muitas vezes ele chorava enquanto comentava suas questões comigo. Só que ele era muito cabeça dura, teimoso, ele nunca dava o braço a torcer. Cheguei até a conversar com amigos meus psicólogos se poderiam atendê-lo por um valor mais acessível, porque achava que fosse questão de grana ele não querer procurar um psicólogo. Mas não era, era preconceito mesmo, porque ele chegava a dizer que psicólogo era pra louco. Então, como amigo, eu não via outra forma de ajuda-lo se não procurar fazê-lo enxergar as suas queixas por outros ângulos!

     Passei a ouvi-lo mais atentamente toda vez que ele reclamava do pai. Procurei entender a situação e me colocar em seu lugar, como um amigo faz. Tentei enxergar do seu ângulo e à medida do possível, dentro da nossa conversa eu procurava, disfarçadamente, destacar alguns objetos do seu cenário que eu já tinha percebido que ele deixava de fundo em sua queixa. E tomando como base os estudos de figura e fundo da gestalt, para mim estava bem claro que alguns objetos ele dava foco e outros ficavam sempre de fundo. Até que ele foi parando de reclamar do pai. E por incrível que pareça com o tempo começou até a enxergar os pontos positivos do pai! E a relação dos dois mudou da água para o vinho. Foi algo bem notório. Só que com o tempo esse meu amigo começou a fazer as mesmas queixas que fazia do pai, agora a um colega de trabalho. Era o mesmo discurso de antes, só mudou o objeto. Ele passou a se queixar insistentemente de uma situação relacionada a esse colega de trabalho. E novamente procurei ouvir, compreender como ele enxergava essa nova situação e à medida do possível apresentar a ele também novos elementos da cena que estavam de fundo. Com o tempo ele passou a ver esse colega de outras formas também e conseguiu dar um novo significado a essa relação dos dois. E a situação simplesmente deixou de ser um problema em sua vida. Mas a última vez que conversei com esse meu amigo, ele reclamava agora do seu chefe…

     Hoje que sou aspirante em psicanálise, quando lembro dessa história, a pergunta que me vem à mente é “Qual é o núcleo dessa neurose?”. Para mim está claro que é preciso ir à causa do problema. Essa história é verdadeira e esse meu amigo até hoje reclama das mesmas questões, apenas trocando de objetos. Embora os cenários mudem, percebo que o seu personagem sempre tem o mesmo papel nesse enredo. Qual é o gozo que ele tem nisso tudo? Porque obviamente, para a psicanálise, existe aí uma dinâmica patológica e um prazer inconsciente nesse mecanismo. Essa é a saga do neurótico: cumprir o mesmo script. Já que ele está fixado em algo que ocorreu em sua vida em uma tenra idade. Para a psicanálise, quando o adulto tem algum comportamento disfuncional, algo que o impede de ter uma vida melhor ou que cause sofrimento, significa que algo traumático aconteceu nos primeiros anos de vida. E apesar da palavra traumático parecer muito forte e dar a entender algo catastrófico ou de grande magnitude, significa apenas algo além da capacidade infantil de processamento. Tudo o que acontece nos primeiros anos de vida de uma criança e está além da capacidade de sua psique de assimilar pode gerar um trauma. Por essa razão é comum adultos sofrerem de neuroses, porque a criança vivencia naturalmente, ou por alguma fatalidade, experiências que vão além de suas condições psíquicas de compreensão. E isso gera trauma. Recalque. Fixação. E a tarefa de uma análise é dar luz a esse conteúdo inconsciente para que o paciente possa ganhar consciência desse movimento.

     Eu não estou dizendo de forma alguma que psicanálise é melhor do que psicologia. Ou vice versa. São entendimentos diferentes. Um psicólogo poderia ler esse meu texto, refuta-lo e estaria coberto de razão. Do seu ponto de vista. Eu mesmo disse que admiro muito a gestalt terapia. E certamente, na minha opinião, é a abordagem mais bonita da psicologia. E é a abordagem que eu trabalharia se fosse psicólogo, porque concordo que a pior coisa ao ser humano é a rigidez de enxergar a sua vida. Podemos voltar, elaborar questões passadas, mas nada resolverá sem a disposição e a abertura para novas possibilidades futuras. A vida é sim o que acontece aqui e agora. Concordo. Mas sem entender a gênese de uma questão só vamos enxugar gelo e deslocar o problema. É o sujeito que troca o vício no cigarro pelo doce. A compulsão pela comida, no exercício. No caso do meu amigo, desloca a sua questão com o pai ao colega, ao chefe etc.

     O que quero dizer é que dentro da psicologia, e mesmo dentro da própria psicanálise, existem correntes que no fim se complementam. Não se excluem. Gosto sempre de me lembrar do que o meu professor de Teorias Psicológicas e da Personalidade disse certa vez em aula: “As psicologias e as psicanálises são como janelas de vários pontos de uma casa. Em cada janela você terá uma visão de um ângulo diferente. Mas todas olharão para o mesmo céu!”

Para reflexão

Na sua vida, pense numa determinada questão. O que nela é figura e o que é fundo? Mude o olhar...

Agora pense. Por que será que você enxergou uma determinada configuração por primeiro?


Às vezes o bandido pode ser o mocinho. E vice-versa. Mas a grande questão é por que você costuma sempre perceber primeiro uma coisa, ou primeiro outra? Pense nisso.

terça-feira, 2 de novembro de 2021

O QUE APRENDI COM A CRISE DE PÂNICO

 


      Estamos vivenciando cada vez mais ansiedade. Não é nenhuma novidade que o número de pessoas acometidas hoje em dia por esse transtorno é alarmante. E esse número só cresce a cada ano. Já é uma epidemia isso. Quando penso sobre isso, não consigo não acreditar que boa parte se deve a velocidade que tudo está acontecendo. Processos, situações, descobertas, mudanças que levavam certo tempo para acontecer, cada vez mais assistimos isso acelerando. Por um lado é positivo, o avanço tecnológico é um bom exemplo. Recentemente pudemos presenciar o quão rápido foi o desenvolvimento de uma vacina que o mundo aguardava. Mas por outro lado nunca sofremos tanto por não podermos prever minimamente o que vem pela frente. Por mais futurista que uma pessoa seja, é impossível prever como estará o mundo daqui a dez anos. Essa falta de uma mínima previsibilidade somada à velocidade com que tudo está se transformando são a base do nosso desequilíbrio emocional.

      Não cheguei a escrever sobre aqui isso no blog, mas em abril do ano passado tive uma forte crise de pânico. Foi a segunda crise que tive dessa intensidade. A primeira foi na adolescência, por volta dos meus dezesseis anos. Eu me lembro que no ano passado eu estava num ritmo intenso de trabalho e já andava a várias semanas com uma preocupação de fundo. Nada específico também. Mas a minha personalidade é repleta de preocupação. Sou cauteloso. Responsável. Precavido. E estou sempre equilibrando esses traços de personalidade, porque se deixar facilmente entro num modo de apenas trabalho. Funcional. Quase como se eu fosse um robôzinho mesmo – é até engraçado. Então, nessa época eu já vinha num batidão forte de trabalho – e eu adoro trabalhar! Mas todo excesso esconde uma falta. Então eu sempre me policio. Tenho outras áreas na minha vida e sei que todas são igualmente importantes (hoje tenho mais consciência disso).

      Eu sentia nessa época que estava no limite do meu funcionamento psíquico. Apesar de malhar todos os dias e sair correr aos finais de semana, parecia que não era o suficiente para queimar as minhas energias. Tinha muita energia mental! Quem me conhece pensa que sou calmo, mas tenho muita energia interior. Foi então que em março foi decretada a pandemia. “Pronto! Agora eu vou despirocar!”, foi o que pensei. Eu fui administrando... Liguei o modo turbo... E respiração. Manter a calma. Contar até dez... E os dias foram passando e eu me administrando. Alguns dias foram melhores, outros mais estressantes. Mas eu sentia que estava enxugando gelo. Algo dentro de mim me dizia: “Você vai capotar!”. Eu sabia que eu ia cair a qualquer momento. Acho que eu aguentei bem umas duas a três semanas. Até que um dia em abril – eu me lembro como se fosse ontem – bateu a crise!

      A minha boca começou a adormecer. As pontas dos dedos começaram a formigar. Meu coração foi batendo cada vez mais rápido. A minha vista foi ficando turva. Já não conseguia respirar tranquilamente. Ia ficando cada vez mais difícil... “Estou tendo um ataque de pânico, de novo!” - só pensava isso. Eu sabia que estava tendo uma segunda crise, porque a sensação era idêntica a que vivi aos dezesseis anos. E isto é importante ser dito. Racionalmente falando, eu sabia que era uma crise de ansiedade. Entendia todos os sinais. Estudei-os. Intelectualmente falando, eu sabia de tudo isso. Mas nesse momento isso não significou nada! Porque o corpo dá todos os sinais de que estamos infartando e não temos controle. É biológico. Corporal. Mas eu ainda me sentia decepcionado e comecei a me culpar no momento da crise. Eu sabia o que estava acontecendo, eu havia estudado e me preparado para esse momento, então “como não estou conseguindo me controlar?!”. E isso só piorava tudo... Numa crise de pânico você não tem controle. Você só pode esperar passar. E quem disse que eu conseguia isso?!

      Sai do trabalho desgovernado direto ao pronto socorro. Passavam várias coisas pela minha cabeça. Pensei até que eu estivesse com COVID e já tinha tomado os pulmões, por isso que não conseguia puxar o ar. Já cheguei no hospital chorando. Só dizia a eles que estava morrendo. Ninguém conseguia me acalmar. Eu estava desesperado, muito agitado. Só me lembro do médico falando “Eu preciso te dar algo e você vai apagar”. E antes de fazer efeito o que ele tinha me dado, me lembro que ele ainda me orientou: “Você precisa urgentemente procurar ajuda psicológica, a sua ansiedade está muito alta!” Eu não sei o que ele me deu, eu nunca tinha tomado nenhum tipo de calmante. Nem suco de maracujá eu tomo. Só sei que aquilo me deixou dopado. Parecia que eu estava voando. Mas entendi o recado.

      Procurei ajuda. Hoje faço análise. Inclusive esse é um pré-requisito à formação de psicanalista. E eu sinto não ter procurado ajuda antes. Hoje entendo algumas coisas que antes não entendia. Hoje eu percebo algumas coisas que antes não percebia. Tirei da cabeça essa ideia errada de que ter conhecimento de algo é o bastante. Eu acreditava, e me julgava por isso, que por eu ter conhecimento sobre a ansiedade e os seus mecanismos, que isso seria o suficiente para não me acometer. Estaria blindado – pensava. Como se fosse fácil assim. Se fosse assim nenhum cardiologista teria problema de coração. Era muita vaidade. Mas em partes passar por isso foi bom. Isso me mostrou que a vida é o que acontece na prática. E muitas vezes na prática a teoria é outra. Não tem como viver a vida pelos livros. Segundo uma teoria. Estou percebendo isso na análise. Boa parte da minha vida busquei encaixar, enquadrar todas as variáveis em teorias. Como se fosse possível teorizar a existência humana. E o fundo disso é medo. Ansiedade e medo são faces de uma mesma moeda. É como se eu buscasse antecipar na mente os acontecimentos por medo do que pode vir a acontecer na realidade. O gasto energético disso é imenso. E qualquer semelhança com uma neurose obsessiva é uma mera coincidência...

      A postagem de hoje é para dividir o que venho aprendendo sobre tudo isso. De que forma enxergo essa situação hoje. Como administro. E como gosto de retratar nos meus textos: ir do particular para o universal. Ou seja, pegar uma experiência íntima e, dentro do possível, fazer analogias, inferências e deduções e generalizações. No intuito de ajudar alguém que estiver passando por isso.

      A nossa mente tende a vagar entre o passado e o futuro. E você já deve ter ouvido sobre ficar no presente. Mindfulness... Atenção plena... Isso é muito real. Como disse no começo desse texto, temos a percepção de que tudo está acontecendo mais rápido. E isso gera alguma ansiedade. Não raro nos percebemos mais agitados e ofegantes do que o normal. Tendemos a fazer as atividades diárias correndo para ganhar tempo. E com toda essa mentalização inevitavelmente perdemos o contato com o presente. Perdemos o contato com o nosso corpo também. Desconhecemos o que estamos sentindo. O que estamos passando. Quando realmente temos fome, sede, sono... Quais as necessidades, os limites e os sinais que o nosso corpo emite o tempo todo. Uma espécie de inteligência corporal que a gente tem perdido. Há uma desconexão entre a mente e o corpo. Quando deveríamos ver como uma coisa só. É como se nossos pés estivessem no presente e a mente em outro ponto. Vagando. Hora no passado com pensamentos e sentimentos num tom melancólico. Ora no futuro com um verniz de medo e ansiedade. Até o dia que o nosso corpo manda a conta.

      Para a psicossomática as doenças têm um fundo emocional. Antes de atingir o corpo, há emoções subjacentes mal administradas. Negligenciadas. Sufocadas. Reprimidas. Então isso alcançará o corpo em algum momento. Como uma forma – ainda que radical – da psique administrar essa questão. E isso é uma fala. Para a psicanálise, todo sintoma é uma fala. Foi o que houve comigo. Precisei passar – novamente – por uma crise de ansiedade para compreender algumas coisas. Quero dizer que precisamos buscar uma reconexão com o corpo. Estamos demais no plano mental! Ruminando pensamentos. Precisamos aterrar. Gosto de uma técnica da bioenergética que fala em “grounding”. Pés no chão. Sentir o solo. A temperatura. Prestar atenção a nossa respiração. Aos sons do nosso corpo. Movimentar-se atentamente. Fechar os olhos. Perceber o entorno. Olhar mais para dentro.

      Nos dias de hoje se faz necessário descobrir uma ilha dentro de si mesmo. Ser capaz de criar um local interno de paz. Um espaço que lhe sirva de ancoragem. Que seja um eixo da personalidade. Um ponto que você possa se encontrar com o seu real self, para quando precisar voltar ao momento presente. Por exemplo. Quem eu sou? Eu me pergunto isso de tempos em tempos. E sei que podemos responder a essa pergunta de diferentes formas ao longo da vida. Como respondemos aos vinte anos difere de como respondemos essa pergunta aos trinta, e será diferente de como responderemos aos sessenta. Mas é extremamente importante sabermos quem somos agora. O que estou buscando agora? Para onde estou indo? Quais são os meus valores? Aquilo que para mim é muito importante. Isso é uma forma de você não se perder de perspectiva, e quando estiver tudo muito bagunçado ao seu redor, volte para dentro. Lembre-se de quem você é. Encontre o ponto em você que vai te ancorar, até que possa ganhar força e fôlego novamente. 

      Assim, quando perceber que a rotina do dia a dia te tragou. Que foi pego pelo fluxo, procure um local calmo e feche o olhos. E se lembre de quem você é. O que você está buscando. Respira. Abra uma torneira e com os olhos fechados deixe a água fria cair sobre as suas mãos... E vá voltando ao presente. Por mais triste o que tenha te acontecido ou preocupante e estressante sejam os seus problemas, você só tem o momento agora. Foca nele. Naquilo que está no seu controle. Não gaste energia, nem tempo naquilo que não está no seu controle mudar. Aceita. E deixa fluir. Uma coisa de cada vez. E toda vez que perceber que a rotina está te tragando repita isso novamente. E volte para o presente. Só temos o presente! O que passou, passou. E o que está por vir, vai acontecer como tiver que acontecer. E quando esse momento chegar – se chegar – você vai resolver como tiver que resolver. Sem sofrimento.

      Se houver muita dificuldade e se estiver passando por sofrimento psíquico, recomendo que busque ajuda profissional. Não seja tolo como eu. Não fique teorizando e tentando administrar algo, se já percebeu que não está conseguindo. Ninguém é super-herói. Nem precisa ser. Buscar ajuda não te diminui nada. Pelo contrário. Dê a si mesmo a chance de mudar! 

 


 

sábado, 30 de outubro de 2021

O AMOR A PARTIR DO ÓDIO

 

 

     Freud não atendeu crianças, a não ser o pequeno Hans. E esse atendimento também se deu pela intermediação do pai do garoto, cabe ressaltar isso. Contudo, como popularmente se sabe, a psicanálise se volta à infância. Então podemos dizer que de certa forma numa análise se procura enxergar – e trazer à tona – a criança escondida dentro do corpo adulto do paciente. Mas por que fazer isso? Outro dia estava pensando exatamente sobre isso.

     Acredito que há de concordar comigo que as pessoas com quem você se relaciona e que te deixam mais à vontade são aquelas que você mais gosta de ter por perto. Comecei a observar isso nas pessoas com quem eu convivia. E não é de hoje, não! Digo que parei para refletir melhor sobre isso de uns dias para cá. Mas confesso que já observo isso há muito tempo. E a cada dia que passa chego mais à conclusão que a verdadeira felicidade está no contato direto com a criança que todos fomos um dia.

     Costumo reparar na mudança no comportamento de algumas pessoas quando elas estão a sós comigo e quando chega alguém próximo a nós. E acho isso interessante. Quando eu conheço uma pessoa inevitavelmente se cria uma atmosfera de exposição. Muito se deve isso a minha personalidade. Sou bastante curioso e tenho uma postura inocentemente investigativa. Ligeiramente intrusiva até. Já ouvi, daqueles que detestavam essa minha característica, que eu era um inquisidor. Longe de mim isso. Hoje certamente diria que não sou mesmo um inquisidor. Mas alguém profundamente e genuinamente interessado em conhecer as pessoas ao meu redor. Sempre fui assim.

     Quando conheço uma pessoa, pouco a pouco vou avançando as fronteiras de sua reserva. Olhando em seus olhos como se quisesse enxergar a sua alma faço perguntas. Quero entender as respostas. Conhecer essa pessoa. Confesso que são raras as vezes em que de início há uma boa aceitação por parte das pessoas. Sabe por quê? A grande maioria vive na defensiva, e acostumada a utilizar máscaras sociais. E quando alguém faz perguntas “mais reflexivas” dispara desconfiança. Há um recuo. Fechamento. Percebo até o comprimir do olhos em busca das razões que me fariam as questionar.

     Mas mantenho-me firme. Entendo essa resistência. Aceito qualquer reprovação. Ou repúdio. Apenas faço o possível para transparecer em minha face e em minha postura o respeito, a segurança e a confiança necessários para que o verdadeiro self se mostre. E acontece! Afastado o estado arisco, de repente se abre uma fresta, e ainda que pequeno, vejo um lampejo genuíno... Pode ser um sorriso espontâneo. Uma expressão de medo. Ou um marejar de olhos. Mas nesse momento eu sei, assim como a pessoa também sabe, que se estabeleceu uma conexão. Uma transferência. Eu a vi. Assim, pouco a pouco, sou capaz de me conectar com a criança dentro dessa pessoa. Uma criança ansiando algo. Criamos um espaço só nosso. Esse espaço é o setting analítico. Ele pode se dar num divã. Num banco de praça. Ou numa mesa de bar. E com qualquer pessoa com o qual nos relacionamos. A única diferença é que o psicanalista tem conhecimento desse fenômeno transferencial e ele pode fazer o melhor manejo disso.

     Vou contar uma situação. Eu trabalhava numa empresa que todos detestavam uma pessoa. Ela era artificialmente intragável. Essa pessoa não cumprimentava ninguém e parecia estar constantemente mal humorada. E quando tentavam se aproximar, ela era ácida, espinhosa, às vezes até grosseira. Eu só observava. A mim haveria de ter razões muito mais profundas do que as nossas meras críticas a sua pessoa. Não estou aqui para legitimar esse comportamento profissional, porque sei que existe ética e etiquetas sociais necessárias a um convívio pacífico. Mas ao invés de me juntar definitivamente ao bando que criticava preferi conhecer a fera. Sempre tive uma certa inclinação para me aproximar dos mais desajustados, reprováveis ou difíceis – pois eu sempre fui um. Conheço perfeitamente o mecanismo…

     Estávamos num ambiente organizacional, então sempre precisava chamar essa pessoa a minha sala para conversar sobre o seu comportamento arredio. Na primeira vez que conversamos, essa pessoa "falava" tão alto comigo que eu achei que ela fosse voar no meu pescoço. Dava para ouvir os seus gritos de portas fechadas. Mantive-me firme. A minha estratégia era clara: queria ir além, “mostrar-me isso é fácil, eu quero ver o que há por traz disso!” – pensava comigo. Todos na empresa não compreendiam essa minha passividade. Mas eu não entrava em detalhes também. Nem explicações. Sabia o que estava fazendo. E a cena se repetiu uma segunda vez. Terceira. Quarta...

     E eu fazia questão de diariamente cumprimentá-la mesmo tendo o seu silêncio como resposta. Ela me ignorava. Até que um dia essa pessoa me disse com muito orgulho que todos naquela empresa a odiavam. Mas prontamente rebati “eu não”. Respondi que nada tinha contra a sua pessoa e que na verdade gostava dela. Então rapidamente veio: “E por quê?!”.

     “Porque eu sei que por trás de toda fera existe uma ferida. Porque só fere quem está ferido de alguma forma também. Eu já fui assim. Só que infelizmente é muito mais fácil julgar do que dar um voto de confiança às pessoas. E apesar de tudo, eu gosto de você”, respondi. Essa pessoa, que antes só falava comigo em pé, puxou uma cadeira e se sentou. E nesse momento conheci a pessoa que ninguém ali se permitiu ver. No tempo em que trabalhei nessa empresa, fora da minha sala essa pessoa era desprezível. E às sós comigo na sala se mostrava sensível, alegre, confidente e até simpática.

     Tenho muitos exemplos assim na minha família. No meu trabalho. Nas minhas amizades. Pessoas que são livres quando estão comigo. São leves. Inocentes. Quase infantis. Mas faço questão de construir esse espaço com todas as pessoas com quem me relaciono e que se permitem a isso. Sem julgamento. Gasto muito tempo e energia para me conectar com o real self das pessoas, porque sei que só através desse contato que elas poderão florescer para mim. E o nosso relacionamento atingir um estágio mais profundo. Eu prezo muito isso nos meus relacionamentos.

     Apesar de Freud não ter atendido crianças, houve um psicanalista inglês, que era médico pediatra, chamado Donald Winnicott. Esse psicanalista tinha uma visão única do relacionamento mãe-bebê e do processo de desenvolvimento infantil. E por ter atuado como pediatra por mais de quatro décadas e ter sido o primeiro pediatra da Inglaterra a adquirir treinamento psicanalítico, ele teve uma perspectiva bastante única.

     Meu objetivo nesse texto é trazer a perspectiva psicanalítica. Entre as ideias e pensamentos de Winnicott, ele nos trouxe o seu entendimento de que uma criança precisa odiar, e ser odiada, para acreditar que é amada. Ao trabalhar com crianças separadas de suas famílias devido à Segunda Guerra Mundial, ele pôde observar as dificuldades dessas crianças para se adaptar aos seus novos lares. Segundo Winnicott, a criança adotada “encenará” um comportamento rebelde e, inevitavelmente, afrontará os seus novos pais, numa tentativa de se proteger de vir a amar ou ser amada, e posteriormente decepcionada. Melanie Klein [psicanalista também] já havia proposto em sua teoria que um bebê sente ódio de sua mãe, e Winnicott rebate isso trazendo também um “ódio de maneira apropriada” que os pais também teriam em relação aos próprios filhos; e que esse ódio não só é legítimo, como a criança precisa sentir que os pais a odeiam!

     E aqui entraria o ponto crucial: mesmo os pais odiando a criança devido a seu comportamento afrontoso, o amor dos pais sendo muito mais forte superaria isso. E quando a criança adotada percebesse esse movimento, que mesmo os pais a odiando por sua conduta, eles não desistiram da criança por amor, finalmente ela poderia superar essa falta primordial.

     Winnicott usou essa relação entre pais e filhos para exemplificar a relação terapêutica que se estabelece entre psicanalista e paciente. O paciente faz transferência de afetos ao psicanalista e por este sentirá ódio e repúdio, mas também o analista poderá sentir afetos similares pelo paciente! E o analista pode se valer – estratégica e sabiamente – dessa contratransferência a favor do processo terapêutico! Ou seja, o psicanalista entendendo qual o personagem da cena infantil que o paciente o está convidando a (re)encenar, o psicanalista poderá se valer dessa contratransferência no manejo da análise, pois segundo a perspectiva winnicottiana esse é um “teste” necessário ao analista, já que essa é a forma do paciente confirmar se o analista é forte e confiável o suficiente para resistir aos seus ataques [e não abandoná-lo]. Quantas pessoas não testam a gente no dia a dia? E no fundo muitas só o fazem por medo de se sentirem rejeitadas, feridas ou abandonadas - novamente. 

     O que quero dizer é que essa relação mãe-bebê pode se estender para outras relações além de pais e filhos. Como professores e alunos. Chefes e subordinados. Reproduziremos essa matriz nos mais diversos relacionamentos, principalmente naqueles onde enxergamos figuras de autoridade. Portanto, sempre devemos ter cuidado ao julgar e principalmente a condenar aquelas pessoas que chamamos de “pessoas difíceis”. O que há por trás desse "pessoa difícil"? Por muitos anos da minha vida eu fui considerado uma pessoa difícil. E até hoje para alguns ainda sou. Mas eu garanto, e falo de coração, que posso ter todos os defeitos do mundo – e tenho vários –, mas a minha índole é boa. As pessoas erram conosco, mas raramente é proposital. Por experiência pessoal afirmo que quanto mais grossa e espinhosa é a camada de uma pessoa, mais sensível e ansiosa por afeto e carinho ela está, por mais que o seu comportamento demonstre o contrário. Tendo a acreditar que as pessoas que julgamos ser as “mais difíceis” no fim são aquelas que mais nos ensinam.

     Sei que somos responsáveis pelo nosso comportamento, mas eu também sei que existem forças que desconhecemos que imperam sobre nós. As pessoas são diferentes e têm diferentes formas de lidar com as experiências passadas. Algumas superam. Outras não. Algumas seguem em frente. Outras ficam lá atrás. Mas no fim todos somos crianças em corpos adultos. E crianças têm dificuldades. Mas também são elas que guardam a chave da nossa criatividade. Da nossa espontaneidade. E de uma alegria genuína.

Em quais dos seus relacionamentos você tem liberdade para ser você mesmo? Pense nisso.


domingo, 26 de setembro de 2021

FEMININO & MASCULINO

Obra de Sergey Galanter

     Eu não sei vocês, mas costumo sempre observar a sociedade, os movimentos sociais, e costumo prestar atenção aonde o fluxo se encaminha. Me lembro que até cheguei a prestar Ciências Sociais quando mais novo, tamanha era a paixão por esse assunto. E ligando à Psicanálise, Freud também se interessou pela sociedade no desenvolver de sua teoria. De fato, seria impossível pensar a Psicanálise sem pensar a sociedade da época. E refletindo sobre isso, se pensarmos que a sociedade vitoriana de Freud difere bastante de nossa atual sociedade: como estaria a Psicanálise hoje? Embora tangencie por aí, o intuito da postagem de hoje não é bem esse. É apenas dividir algumas reflexões que tenho feito ultimamente. Sem qualquer pretensão outra, além de pensarmos.

      Quando observo a História, vejo que o masculino sempre prevaleceu no poder. Não falo aqui de gênero. Tampouco pretendo reforçar estigmas em relação a isso. Mas se pensarmos que o homem é um ser com um órgão sexual voltado para fora, enquanto o órgão sexual da mulher é voltado para dentro, só a partir disso já poderíamos refletir bastante. Assim o homem teria uma maior tendência a características de impulsividade, de ataque, de desbravamento. E um poder talvez mais explícito. Enquanto a mulher teria uma maior tendência a características de acolhimento, de nutrição, de gestação. Um poder talvez mais sútil, e por vezes oculto.

      Ao longo da História assistimos então o masculino subjugar o feminino quando pensamos em poder. O poder sempre se concentrou no masculino. Assim as sociedades elegeram seus líderes. O macho alfa do grupo. Este seria dotado de toda a responsabilidade, do controle e das decisões sobre a vida de cada membro do grupo. O poder era centralizado na sua figura. A isso se deu o nome de estrutura piramidal. Piramidal porque assistimos isso já com os egípcios, na figura do faraó. Uma única pessoa, na ponta de uma pirâmide, que detinha o poder – divino ainda! – sobre a vida de todos os que vinham abaixo. Assistimos esse modelo de gestão também na Grécia Antiga, que apesar de ser o berço da democracia, deixava as mulheres de fora das decisões da polis. Esse modelo prevaleceu nas empresas, na Igreja, dentro dos lares familiares... O chefe. O Deus. O pai. Mas hoje cada vez mais estamos assistimos a crise desse modelo piramidal que está vindo abaixo. Observo uma crise que na verdade sinaliza a uma nova forma. É como se a estrutura tradicional de poder – um poder até então masculino – estivesse se esfacelando literalmente.

      Nas empresas é cada vez mais comum assistirmos as mulheres – ou melhor: o feminino – tomar à frente nas decisões estratégicas. A gestão das empresas está mais “feminina”. Hoje é muito mais comum entrar nas decisões estratégicas corporativas assuntos como saúde e qualidade de vida no trabalho; uma gestão colaborativa, humanizada e holística (fatores biopsicossociais que impactam a vida dos colaboradores). Isso tem muito a ver com gestar e nutrir – que é da ordem do feminino. E pouco importa se à frente dessas organizações terá um homem ou uma mulher, a questão está na capacidade do indivíduo de acolher e de nutrir o seu grupo para obter dele o melhor rendimento. Não é filantropia. Ainda é bussiness! Mas o olhar está bem diferente do que já foi um dia…

      Nas famílias hoje em dia observarmos muito mais notadamente a saída da figura do grande pai. Aquele que dava a última palavra e todos na mesa consentiam, pois ele tinha a voz de comando. Hoje as famílias são compostas de variados formatos e não cabe mais o poder centralizado nas mãos de uma única pessoa. Os membros opinam, reivindicam e há mais espaço às discussões e ao debate.

      Mas como toda transição, obviamente essa também tem as suas dificuldades. E observo dois fenômenos principais acontecendo. O primeiro é um feminino ressentido. Vingativo. Quase tirânico. Depois de séculos de subjugação e massacre, assistimos hoje um feminino no famoso movimento pêndulo. O que antes foi amordaçado e descreditado, agora que se desacorrentou, liberou uma pulsão de vida tão forte que beira pulsão de morte. Movimentos de destruição. Mulheres fortes, empoderadas, donas de si, buscando escalar a antiga pirâmide, como os homens fizeram um dia, e lá se estabelecendo – sozinhas! E no menor sinal da aparição do fantasma da subjugação masculina vem à tona movimentos de extrema fúria – justificados e legítimos! Mas o movimento do pêndulo mostra que ao levarmos numa posição extrema, quando soltamos ele irá ao seu extremo oposto até encontrar o seu eixo. Jung dizia que “mais cedo ou mais tarde, tudo se transforma no seu oposto”.

      O outro fenômeno que observo é um masculino que não está sabendo se encontrar. Homens cada vez mais perdidos num mundo cada dia mais feminino. É curioso que esse fenômeno tem gerado no masculino dois cursos, bem polarizados também. De um lado um masculino com uma feminilidade bem acentuada. É observável que entre as novas gerações há meninos bastante femininos, delicados, com uma feminilidade bem acentuada. Usam maquiagem, pintam as unhas, trajam vestidos. Costumes até então mais vistos dentro do universo feminino. E não faço aqui qualquer julgamento de valor sobre isso. Trago um fato observável. E isso também não tem absolutamente nada a ver com a orientação sexual propriamente dita. Apesar de que as novas gerações já demonstram uma relação com a sexualidade mais fluída, aberta, menos classificativa.

     Por outro lado, existe também um masculino ressentido. Aquele que perdeu espaço, e que anseia descontroladamente retomar o poder! E está difícil para ele assumir que o mundo mudou. A roupagem mudou. A linguagem mudou. As relações são outras. E isso exige, pelo menos, novas formas de enxergar o mundo daqui por diante. Uma abertura ao novo e abrir mão do que ficou para trás. Como disse anteriormente, a estrutura piramidal está caindo e não adianta ficarmos choramingando sobre os escombros. Ao passo que uma nova estrutura está surgindo aí, que assim como a rede social, é em rede! Conectada. Cadeias de comando. Poder(es) horizontalizado(s). E isso muda radicalmente nossa maneira de pensar o mundo. O líder. O Grande Pai. E isso vale às religiões também. Observo cada vez mais uma Igreja Católica, por exemplo, se abrindo, revelando um Deus mais humanizado e aberto do que outrora, quando assistimos um Deus tirano e castrador.

      Vejo desafios pela frente. Mas também muitas oportunidades de avanços sociais. Não estou aqui para julgar o que é certo ou errado. Penso que o que é certo ou errado é o que vale a cada um. Cada um tem a sua vida e a vive como bem entender! Quero apenas nos fazer pensar com essas reflexões trazidas. Segundo os orientais, tudo na natureza é dual. Possuímos dentro de nós energias yin e yang (feminino e masculino). E não há subjugação nem controle, são forças que se complementam! Penso que hoje o feminino precisa aprender a lidar com o poder que agora claramente está em suas mãos. E o masculino precisa encontrar o seu lugar em meio a esse universo cada vez mais feminino. E ambos encontrarem pontos de equilíbrio, e de intersecção. Mas enquanto isso não acontecer presenciaremos um feminino masculinizado cada vez mais empoderado, e sozinho. E um masculino feminizado cada vez mais aberto, e perdido. Até que esse movimento pendular possa encontrar o seu eixo.

E você, como enxerga o mundo de hoje? Que tal pensar sobre isso?