sábado, 8 de janeiro de 2022

QUE SINUCA DE BICO


     Uma coisa que a mim é certa é que nenhum de nós sabe exatamente o que quer na vida. Pois é, dorme com esse barulho. Podemos ter uma noção, maior ou menor, de qual seria o nosso desejo, mas saber o que queremos, exatamente, é impossível. Isso não existe. E talvez esteja mais do que na hora de pararmos de compactuar com alguns delírios coletivos, porque não sei a vocês, mas a mim já está mais do que claro que isso só tem nos trazido problemas sérios, individuais e coletivamente.

     Antes de iniciar, gostaria de dizer que esse texto talvez tenha uma leitura aparentemente “mais lacaniana”, já que na obra freudiana é mais percebível uma articulação do desejo ao excesso. Diferentemente de Lacan que parece articular o desejo à falta. Particularmente eu não entendo nada de Lacan. Contudo, se assim for, talvez me identifique mesmo mais com ele com relação ao desejo. Há uma espécie de fla-flu entre os psicanalistas e suas correntes escolhidas. Vejo uns criticarem os entendimentos diferentes de outros. Faz parte... Mas não precisaria ser assim. Prefiro pensar que o profissional só deva se ater à melhora do paciente. E não tentar provar superioridade de ponto de vista. O tronco é Freud. Ele é o pai da psicanálise. Quem abre a mata. Surgem posteriormente outros psicanalistas que contribuem a essa psicanálise inicial. Melanie Klein. Donald Woods Winnicott. Wilfred Bion. Sándor Ferenczi. O próprio Jacques Lacan. Entre muitos outros até os dias atuais.

     Mas ao profissional psicanalista, enquanto terapeuta ali na prática clínica, todas as correntes podem se unir a sua técnica, ao manejo da análise, somando ao seu conhecimento, tendo em mente que certamente com cada paciente será diferente. Carl Gustav Jung não foi um psicanalista, mas esteve junto a Freud por tantos anos até romper por algumas divergências e então criar a psicologia analítica. Ele deixa uma frase que me toca nesse sentido. “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” Aos psicanalistas então: O seu compromisso é com a melhora do paciente ou com a vaidade de seu saber? Importa de fato comer com garfo ou colher, se o mais importante é matar a fome? Acredito que todas as correntes psicanalíticas são instigantes. Relevantes. Úteis. E agregam ao saber.

     As crianças muito cedo na vida captam que a razão de sua existência é perseguir os seus sonhos. E por toda parte elas continuarão sendo alimentadas por essa ideia até o último dia de vida. Elas deverão escolher quem gostar. O que gostar. Como gostar. Onde encontrar. Escolherão a graduação que farão. A profissão a seguir. Com quem se casar. Assim continuarão por toda a vida desejando, escolhendo, perseguindo os seus sonhos. Anseios. Fazendo planos. Nada contra a estrutura desejante, já que é incutida inevitavelmente durante a infância e disso a criança não poderá escapar.

     Só que essa nem é a grande questão, porque isso é o que se espera acontecer. A criança desejará. Seguirá o seu desejo. Mas deve também ingressar à sociedade e firmar o pacto social. E os pais, enquanto cuidadores, participam do desenvolvimento psicossexual dos filhos sem se darem conta. Então, naturalmente essa trama de relações e pulsões construirá o desejo da criança. A fatalidade disso, a meu ver, é que em nenhum momento do processo de desenvolvimento é revelado à criança, até para a sua própria segurança, que sua empreitada será uma tarefa infindável. No fundo os seus sonhos nunca serão mais do que reflexos distorcidos do seu desejo infantil, primitivo, o qual ela o perseguirá insatisfatoriamente pelo resto da vida. E que esse foi o preço pago para adentrar à sociedade humana. Seu destino está selado! O seu desejo jamais será alcançado completamente. Ocultamos da criança a insaciabilidade do desejo. Sem sequer termos consciência disso.

     É como naqueles contos de vampiros. Quando um vampiro suga o sangue de outra pessoa e tem o objetivo de transformá-la em um ser como ele, um morto vivo. A vítima está ali como uma presa fácil, ela não tem muito o que fazer nesse sentido. Está entregue a situação. Então o vampiro finalmente a transforma num deles. A questão é que, em quase todos os contos, observamos que a vítima não tinha consciência do preço a ser pago, mesmo quando quis de fato se tornar um vampiro. E com o tempo ela sente o peso da imortalidade. E não raro um sofrimento psíquico advindo disso.

     Essa minha analogia é bem diferente, mas a mim me parece que é mais ou menos isso o que fazemos com as nossas crianças. Quando temos – ou deveríamos ter – a consciência de que para elas ingressarem na sociedade, na melhor das hipóteses, segundo Freud, fatalmente se tornarão neuróticas. Marcadas pela insaciabilidade do desejo. E precisarão de uma educação crítica. Reflexiva. Criativa. Que possibilite a elas minimamente lidar com os seus desejos sem nega-los. Sem reprimi-los. Sem se recriminar e se punir. Com menos inibição e angústia. E desenvolvendo mecanismos de sublimação!

     Some agora a essa insaciabilidade do desejo humano, nossa perseguição irrealista a modelos inalcançáveis de vida! E isso começa lá com Platão inventando o ideal. A transcendência. A ideia não é o modelo? Atualmente assistimos nas redes sociais pessoas expondo vidas maravilhosamente falsas. Versões editadas de uma vida humana perfeita. Estes dois problemas somados se potencializam. Por um lado, somos constituídos de uma falta estrutural que nos faz buscar um desejo primitivo insaciavelmente. De outro lado, construímos desde Platão no imaginário coletivo um ideal de vida inatingível.

     Eu sei que muitos podem não entender nada de psicanálise. Mas tentarei explicar de forma sucinta para acompanharem em que ponto espero chegar. Na atual sinuca de bico em que nos encontramos.

     No desenvolvimento psicossexual de uma criança proposto por Freud, se espera que num dado momento ela se dê conta de que não poderá ter o seu desejo (a mãe). O desejo da criança é apenas ter a mãe inteiramente para si. Mas ela precisará se dirigir à sociedade. Então terá de renunciar a esse amor. Com a intervenção da figura paterna, interditando essa relação fusionada, a criança renunciará a esse amor (a dissolução do complexo de Édipo). E introjeta o superego (as leis, as regras, a moral ou simplesmente: o limite). A criança entenderá que ela não pode ter tudo o que quer na vida. Não para adentrar à sociedade humana. Assim ela deverá dizer não a si mesma, recalcando o seu desejo primário que era ficar com a mãe. E mais tarde se dirigir à sociedade em busca de “substitutos” desse desejo primário, o qual um dia inconscientemente ela precisou abrir mão.

     Segundo Freud, o sucesso dessa trama infantil dará origem ao indivíduo neurótico. Então quem é essa pessoa? O neurótico é aquele que reconheceu e introjetou a Lei. Entendeu a existência de limite para conviver bem em sociedade. Ele recalcou o desejo de ficar com a mãe e selou o pacto social. Mas eventualmente ele poderá ter sofrimento em decorrência disso, podendo cursar de variadas formas. Mas está fadado a buscar “substitutos” ao seu desejo infantil. O desejo da criança pela mãe é de natureza libidinal. Pulsional. Pulsão não cessa! Nem é genital. Uma das grandes injustiças sobre a psicanálise, quando falam que “Freud só pensava em sexo”. Nada mais falso.

     Pense numa criança recém nascida no colo de sua mãe sendo amamentada. Nesse momento sua mãe é o mundo para ela. Ela nem tem consciência do que seria mãe nesse momento. Na cabeça da criança, ela e a mãe são uma coisa só. Fundidas. A criança vê a mãe como extensão de si mesma. Nessa relação fusionada ela tem alimento, calor, proteção, afeto, ela tem o mundo a seu dispor. E o seu único desejo é permanecer assim. Só que ela precisará abrir mão disso e renunciar a esse desejo. A figura paterna irá interditar essa relação mãe-bebê, apresentando à criança o mundo exterior.

     No mundo aqui fora. Além da relação mãe-bebê. Ou seja, na sociedade. A criança buscará, quando adulta, estimulada também por esses ideais platônicos, alcançar sonhos que no fundo não passam de substitutos à satisfação do seu desejo matricial. Mas ninguém explicou isso à criança! Nem ao adulto. Ela não sabe que nunca será capaz de encontrar aquela satisfação total inicial. Como é o caso do sujeito que tem, por exemplo, compulsão alimentar. Estou aqui nesse grupo. Você acha que quando como compulsivamente é por que sinto fome? A resposta é não. Isso está além do saciar a fome! A pergunta analítica aqui é a seguinte: Qual é o desejo que me leva a desejar à comida?

     Você percebe que esse meu desejo remete a outro desejo? Essa é grande sacada que deve ser entendida. O sujeito faz análise para entender isso. O desejo é uma ramificação! Ele não é linear. Ele não está para uma linha reta, em que saio de A e ao chegar a B estou saciado. O desejo na verdade remete a outro desejo, que remete a outro desejo, que remete a outro desejo... Numa cadeia desejante! Lembra da estrutura desejante que eu falei lá em cima? Se percorrermos toda essa minha cascata de desejos, acredito que você, leitor, já deve ter percebido o que estou esperando encontrar. O desejo primário! Exatamente. A compulsão alimentar é uma regressão, no caso a estágios orais. Estou buscando algo que me traga novamente aquele prazer total sentido quando eu estava nessa fase.

     Desta forma, quando estou angustiado e procuro compulsivamente a comida é porque estou sendo incapaz de simbolizar a minha falta. Há angústia. E na verdade o que preciso fazer é me a ver com o desejo que me leva a desejar a comida. Ao invés de startar o processo compulsivo, na tentativa de zerar completamente a tensão psíquica. O que se assemelha bastante a uma pulsão de morte. Nesse momento, devo apoiar essa possível pulsão de morte num processo de destinação das pulsões. A sublimação! Um mecanismo de defesa maduro, no qual busco transformar esses impulsos em fins mais saudáveis. Ou aceitáveis. Por que acha que criei esse blog?!

     Agora me responda. Quantas não são as pessoas que acreditam, de forma convicta, que tudo o que precisam é estar num casamento feliz, morando numa casa própria, com um carro específico na garagem? Que precisam fazer um determinado curso, numa determinada faculdade e depois entrar no mercado de trabalho e ter um cargo de liderança? Que precisam ter um determinado corpo, com medidas certas, para usar roupas de uma determinada marca e poder postar fotos nas redes sociais e receber muitos likes? E ao conseguirem tudo isso, acha que elas se sentirão felizes e satisfeitas?

     A resposta é não. Sinto muito, mas essa é a verdade. Pode conversar com qualquer psicólogo, ou psicanalista, ou psiquiatra etc., quais são as queixas mais comuns de pessoas que nas redes sociais têm vidas perfeitas. Vazio. Tédio. Angústia. Tristeza. Solidão... Ou seja, tudo o que você e eu já sentimos em algum momento da vida. A diferença é que, quem não tem nada, ainda consegue pôr a conta nisso. Muito pior, na minha opinião, as pessoas que na vida têm tudo. Quando você não tem nada, você ainda consegue “justificar”, para si mesmo, que é por isso a sua falta de preenchimento. E quando você tem tudo?! Quando você já atingiu aquele corpo que você queria, casou-se com a pessoa esperada, tem casas, carros, tem fama, viaja o mundo inteiro, usufrui de tudo o que o dinheiro proporciona e ainda assim não se sente preenchido? O que fazer?! [ Buscar ajuda! ]

     Estamos todos entrando nessa sinuca de bico. Isso é o que já vive os países de primeiro mundo, como a Suíça por exemplo, onde existem altos índices de suicídio. E esses números só crescem a cada ano, no mundo todo. Não estou pedindo para ninguém parar de desejar porque já viram que isso é impossível. Tampouco abrir mão daquilo que já tem. Ou fazer voto de pobreza. Proponho uma reflexão desses ideias platônicos que temos perseguido na nossa sociedade, acreditando que eles garantirão a nossa felicidade. Não vão!

     E quem é pai e mãe tem o dever de ensinar aos filhos desde cedo que devem, sim, perseguir os seus desejos. Terem sonhos. Mas realizá-los não pode garantir felicidade eterna. Eles ainda terão de se a ver consigo mesmos. Eventualmente trabalhar as suas angústias. Compreendendo a finitude da existência humana. E que a vida não será eternamente um lago cristalino calmo, pois haverá também águas turvas, agitadas e eles precisarão aprender a lidar com isso também. A educação oferecida às crianças precisa possibilitá-las aprender a subjetivar seus desejos. A reconhecer, refletir e simbolizar o sofrimento, descobrindo formas criativas de sublimação, como a arte. A dança. O teatro. A pintura. A escrita. Aumentando o desejo de viver!

Se as nossas crianças são obrigadas, desde o nascimento, a ingressarem no pacto social, nessa sociedade como a nossa com uma inversão de valores absurda, com ideais platônicos inatingíveis, nós deveríamos prepará-las melhor ao que as espera, não acha? E nesse caso recomendo fortemente análise – aos pais!

domingo, 2 de janeiro de 2022

PSICOSSOMÁTICA


Quando a boca cala, os órgãos falam, e quando a boca fala, os órgãos saram.

Adalberto Barreto


Quando o sofrimento não pode expressar-se pelo pranto, ele faz chorarem os outros órgãos.

W. Motsloy

 

     Essa é a primeira postagem de 2022. Espero que você tenha passado bem a virada de ano. Por mais que o tempo não reconheça essas divisões que fazemos, a nós psiquicamente é bastante interessante e simbólico essa passagem. Poder deixar para trás. É como zerar algo e recomeçar com uma nova oportunidade de fazer diferente. Melhor. Espero então que você, dentro do que se propôs, se permita isso. E que consiga realizar.

     Fiquei pensando sobre o que escrever hoje e como no texto anterior falamos sobre analogias, metáforas, vou pegar esse gancho. Acho que esse assunto é bem relevante. Sem dúvida um dos objetivos da psicanálise enquanto processo terapêutico é fazer o paciente ser capaz de simbolizar, principalmente aqueles que seriam especialmente somatizadores. Digo especialmente estes, porque em qualquer pessoa, eventualmente, um conflito psíquico pode se converter numa manifestação corporal. Isso significa que uma pessoa pode estar numa estrutura neurótica obsessiva e ter eventualmente processos somatoformes, assim como pacientes histéricos podem, eventualmente, apresentar quadros patológicos de natureza mental, num pensamento obsessivo por exemplo. Então nada é estanque se tratando de ser humano, sempre vale ressaltar isso.

     Estou falando difícil, mas sucintamente poderíamos dizer que, entre [neuróticos] histéricos e obsessivos, os primeiros tendem a converter no corpo seu conflitos psíquicos, enquanto os segundos os processos patológicos são mais de natureza mental, de pensamento. E eu me percebo mais no segundo grupo. Tenho uma tendência a apresentar sintomas de neurose obsessiva. E se você entende um pouco de psicanálise já deve ter reparado isso em mim através dos meus textos aqui no blog.

     Um pensamento mágico. Um método ordenado. Mecânico. Rituais. Um sentimento perene de culpa inconsciente. Excessiva racionalização. O que até me leva a [tentar] conduzir a minha própria análise. Isso é comum em pacientes obsessivos. Minha analista sempre me faz observar isso. O paciente obsessivo sabe [acha que sabe] exatamente o que ele tem; o que ele precisa fazer; porque ele acredita que pode ajudar o analista no seu processo. Na verdade está se sabotando. É um paciente escorregadio. Controlador. Tende a falar o que o analista espera ouvir. O obsessivo, inconscientemente, sabota a própria análise, porque ele raramente aceita abrir mão do controle.

     Mas como disse antes, mesmo eu sendo mais marcadamente um obsessivo já tive alguns processos de conversão relevantes. Há um tempo atrás estava passando por uma fase bem estressante. Então comecei a ter alguns sintomas físicos. Era eu ficar mais agitado, tinha alergias nas pernas e nos braços. Muita enxaqueca. A garganta fechava. Travamento de maxilar ocorria direto. E desenvolvi uma dor nas costas muito forte e inespecífica, que médico nenhum encontrava a origem. Acordava de madrugada com dor e corria ao hospital tomar alguma injeção. Fui em clínicos, em ortopedistas, em neuro… Fiz exames de sangue, de imagem... Nada. Já estava tomando medicamento para a dor com receita controlada! Mas nenhum médico descobria o que eu tinha, até que um deles me ouviu minimamente e logo disse “Isso o que você tem é somatização, precisa procurar uma ajuda psicológica”.

     Olhem para vocês verem. Calhou que nessa mesma época estava iniciando a formação em psicanálise. E no começo da formação a gente estuda sobre a histeria, porque tudo começou com as histéricas, pacientes de Freud. Assim como estudamos sobre Psicossomática também. E esse conhecimento me ajudou muito nessa recuperação. Eu me lembro que estudamos sobre a noção de Alexitimia, dos norte-americanos Sifneos e Nemiah. Assim como estudamos também sobre o conceito de pensamento operatório, da Escola Psicossomática de Paris. Ambos respectivamente aludem a uma dificuldade da pessoa de conseguir “ler” as próprias emoções e à dificuldade de fantasiar, assim o ego não consegue processar, elaborar e representar as pulsões. O que isso significa na prática?

     Quando nós somos capazes de nomear as nossas emoções e traduzir os nossos incômodos em palavras, simbolizando, constrói-se um corpo simbólico. Pense nesse corpo simbólico como uma espécie de anteparo que vai proteger o seu corpo. Uma barreira psíquica protetora. Toda vez que você passa por algum conflito psíquico, se você é capaz de nomear e simbolizar esse incômodo, o impacto do conflito até pode atingir o soma (o corpo), mas boa parte é “absorvida” por esse corpo simbólico. Um indivíduo alexitímico, que possui um pensamento operatório, ele tem dificuldade de simbolizar, então pode-se dizer, segundo os autores, que ele é desprovido desse anteparo que o protegeria. Desta forma, todo o impacto advindo do conflito psíquico atinge diretamente o corpo!

     Freud chega a dizer que “o ego, antes de tudo, é corporal”. Olha que interessante. Então, falhas de processos de simbolização convertem-se numa manifestação no corpo. Assim o corpo se torna um cenário, onde se narrará, através de sintomas físicos, a história de uma pessoa. O corpo comunicará. Uma outra frase célebre de Freud: “(…) os mortais não conseguem guardar nenhum segredo. Aqueles cujos lábios calam denunciam-se com as pontas dos dedos (...)”.

     Então de posse desses estudos fui atrás de me entender. E percebi quantos “sapos” estava engolindo. Tinha coisas que eu queria falar e não falava. Tinha coisas que eu queria fazer e não fazia. Mas como nada disso era consciente, eu ficava em constantes mecanismos de negação e de formação reativa. Ou seja, negava pra mim mesmo o quanto desconfortável eu estava em algumas situações. E à contrapartida era exageradamente agradável em outras situações, ocultando sentimentos de frustração e de raiva de algumas pessoas.

     Então, quando identifiquei e nomeei isso, e passei a pontuar com algumas pessoas o que queria pontuar, e deixei de fazer coisas que eu não concordava em fazer, milagrosamente as minhas dores nas costas desapareceram! E nunca mais tive também problemas de garganta ou de alergia. Hoje sempre procuro nomear e dar vazão às minhas emoções e aos meus sentimentos, com assertividade.

     Esse texto é relevante porque algumas pessoas podem estar lendo e vivenciando isso o que passei. Fazendo uma bateria de exames. Indo a uma porção de médicos. Tomando vários medicamentos. E não sentindo uma melhora significativa para as suas questões. Ou estando constantemente reincidindo os sintomas. De forma nenhuma estou dizendo para não procurar os médicos. Nem deixar de tomar as medicações prescritas. Apenas alerto para a existência de processos de origem psicossomática. E friso o quanto é importante conciliar o tratamento médico com alguma ajuda psicológica.

Você consegue falar sobre o que sente? Põe pra fora. Esse é o caminho.

domingo, 26 de dezembro de 2021

ESTRANHAMENTO

Que texto difícil de sair…

Começo a escrever o texto de hoje com uma sensação diferente. Estranhamento. Seria essa a palavra? Estou assim há alguns dias, e começou, não por menos, após a minha última sessão de análise deste ano, que foi nesta semana. Embora alguns não saibam – e quem já fez análise irá se identificar melhor com isso – depois que termina uma sessão algo começa. Dizem que aí que começa a verdadeira análise. Tudo aquilo que foi conversado e que sentimos durante a sessão volta durante os dias que se seguem após a sessão, com inúmeros conteúdos que nos põem a pensar, a repensar, a refletir o que foi discutido. E isso é positivo. É esperado até. Mas não é perfeitamente reconhecível. E é esse o ponto que espero chegar nesse texto. A questão do reconhecimento.

     Aqui eu abro um ponto, até um parênteses, para nos lembrar daquelas relações que temos, até com amigos, que nos colocam a pensar. Isso vale muito a pena. Sem fazer qualquer comparativo aqui entre um amigo e a figura do analista, porque claramente são pessoas com finalidades e capacidades diferentes. Mas apenas nos lembrar que embora nunca reparamos nisto, nem valorizamos adequadamente, existem algumas pessoas que nos relacionamos, algumas amizades até, que nos fazem pensar as nossas próprias questões. Geralmente são aquelas pessoas que conseguem inteligentemente se manterem neutras, ficar além do estar do nosso lado ou discordar de nós, e sempre nos fazem boas perguntas durante a conversa fazendo com que nós próprios nos escutemos.

     E quase sempre após o encontro com essas pessoas, a conversa que tivemos termina reverberando numa série de reflexões seguintes interessantes. Certamente isso é da ordem do analítico. E como eu disse vale muito a pena. Já tive e tenho bons amigos dessa natureza, e reconheço o poder dessas relações no meu amadurecimento. Assim como sou grato também, gostaria de deixar claro isso nessa postagem. Você tem amizades assim? Valorize-as.

     Mas voltando ao texto. O que estou sentindo agora, neste exato momento não tem um nome específico. Nem um rosto. Nem voz. É do campo do desconhecido. Ou melhor dito, do inconsciente. E esse texto de hoje é uma tentativa de duas coisas. Primeiro, dar algum contorno possível a isso o que estou sentindo. E vamos ver o que vai sair daqui… Segundo, tentar em algum nível ajudar você, leitor desse texto, quando estiver passando por isso. O que estou sentindo tem, em tese, muitos nomes. A quem chame de melancolia. Ansiedade. Angústia. Agonia. Inquietação. Mas eu digo que é próprio do ser humano.

     O que pretendo trazer com esse texto é que não deveríamos nos preocupar tanto com o nome dessa sensação, mas procurar analisar para onde ela aponta. O que nos diz. Já que sentir isso é próprio da nossa condição humana. Só que infelizmente estamos vivendo um momento da humanidade que tem buscado silenciar todos esses incômodos psíquicos. E não à toa a psicanálise vem ganhando cada vez mais força, pois foi Freud, o pai da psicanálise, quem inaugura de maneira inédita a cura pela Palavra. Fale livremente – ele pedia a seus pacientes. E para irmos além, mas não muito longe disso: Expresse-se. Externe o que você está sentindo. Dê algum contorno ao seu sofrimento. Simbolizando-o de alguma forma possível. Até que você seja capaz de perceber minimamente o seu desejo.

     Eu não sou contra a farmacologia, até porque cabe aos médicos o uso devido da prescrição. Mas é inegável que nos dias de hoje existe um uso indiscriminado de psicofármacos, porque temos muita dificuldade em passar por esses momentos de desconforto. Qualquer sensação desconfortável, que seja mais inquietante, já nos leva a procurar algum diagnóstico para isso – e consequentemente algum medicamento. Quando muitas vezes o diagnóstico mais plausível seria Humano. Fulano sofre de humanidade. Ou seja, ele está sujeito então a sentir toda a gama de emoções e sentimentos próprios de um ser humano saudável. Não estou aqui desmerecendo o sofrimento humano, nem invalidando a boa medicina; mas até que ponto podemos solucionar, definitivamente, todas as nossas inquietações psíquicas, com uma pílula?! Acho que não vai dar...

     Desde de ontem precisamente, estou com uma sensação inquietante. Parece que me falta alguma coisa. E na verdade falta mesmo! E sempre vai faltar. Porque somos seres da falta. Faltantes por natureza. Posso comer tudo o que tenho direito sobre a mesa. Posso ir a qualquer lugar na face da Terra. Posso me rodear de quem for nesse momento. O que muda?! O que quero dizer é que nada disso mudará coisa alguma o que estou sentindo agora. Não tem a onde fugir, já que qualquer lugar que eu vá me levarei junto. Essa sensação dentro de mim continuará "agitando" de qualquer forma, porque ela me constitui. Faz parte de mim. E o fato de ser Natal ainda, uma época do ano tipicamente em família, teve tudo para evocar experiências infantis facilitando ainda mais a eclosão dessa sensação de falta. Já que é justamente nos primeiros anos de vida que ela se origina. Será à toa que, justamente nesse período do ano, aumentam os relatos de sofrimento psíquico?

     Apesar desse texto estar transmitindo possivelmente um caráter pessimista ou deprimente, não pense assim! Eu não sinto assim. Muito pelo contrário. Eu penso exatamente como UM CONVITE. Já me experimentei tempo o suficiente na vida para saber que momentos como esses são próprios. São inevitáveis. Mas bem vindos também. Porque a partir da observação desses momentos de estranhamento, dessas sensações desconfortáveis é que somos capazes de conhecer aqueles aspectos desconhecidos de nós mesmos. E assim poder também recriar novas formas de visualizar essas nossas questões, por mais irreconhecíveis que elas sejam.

     Eu acho que falei difícil agora, mas vou tentar simplificar isso. E exemplificar. Eu acredito que nós nunca conseguiremos enxergar as nossas questões cara a cara. Nunca chegaremos ao âmago dos nossos problemas, a ponto de nos dizer: É isso! O problema da minha vida é esse! Isso não existe. Isso nunca vai acontecer de fato, porque isso é impossível. Ah! Então por que fazer análise? Para CONVIVER com essa impossibilidade nata. Por isso que eu particularmente não acredito em cura, do ponto de vista analítico. Porque você nunca chegará ao cerne da sua questão! Ninguém é capaz disso. Como seres faltantes por natureza que somos, inevitavelmente haverá sempre alguma questão irreconhecível. Inominável. Inalcançável. E poderemos, no máximo, ter algum vislumbre do que seria essa questão. Essa é a nossa tarefa. Agora dizer que chegaremos a concluí-la é seguramente uma fantasia.

     Gosto de imaginar um grande quebra-cabeça da nossa vida. Acredito que quando refletimos sobre as nossas questões e buscamos encontrar algum alívio, o que estamos fazendo é tentando montar esse quebra-cabeça. Só que nunca o montaremos por completo. Essa tarefa jamais é finalizada – nem mesmo a cabo de uma análise! Mas não é de todo ruim também. Há um lado bom. A medida que nos dispomos a montar esse quebra-cabeça da nossa vida pelo menos, vamos aos poucos nos familiarizando com as partes da imagem contidas em cada uma das peças do quebra-cabeça.

     Apesar de não enxergarmos o todo, podemos ver a imagem de cada peça. E isso já nos ajuda muito. Por isso todos os insights que temos sobre nós mesmos, no fundo são partes que vão compondo esse grande entendimento de nós mesmos. De tanto nos analisar, e aos poucos ir montando esse quebra-cabeça, vamos elaborando e percebendo do que se trataria a grande figura. Ou seja, do que se trataria o nosso desejo. O que buscamos desde o dia que nascemos até morrermos é saciar esse desejo! E apesar de não conseguirmos sequer concluir esse quebra-cabeça em vida, e descobrir qual a sua real imagem, a partir daquilo que observamos em cada uma das peças (insights) que temos ao longo da vida, podemos inferir o todo. Intuir. Simbolizar. Alcançando o máximo a imagem final.

     Esse é dos objetivos de uma análise por exemplo. Simbolizar! Esse é um dos objetivos de uma pintura. Uma escultura. Um texto, como esse de hoje. O meu texto é só mais uma pecinha de um quebra-cabeça colossal! Uma pecinha que contém um fragmento de imagem. E embora ela não me revele o quebra-cabeça montado, é parte dele! De pecinhas como essa que eu posso aos poucos, ao longo do tempo, vislumbrar a figura final – mesmo que nunca a termine de fato. O objetivo não é terminá-la também. É me aproximar! Mesmo que nunca alcancemos o nosso real desejo de fato, a ponto de afirmar “É isso!”, estaremos a caminho... Quanto mais agimos livremente, mais nos aproximamos do nosso desejo. E quanto mais afinados com ele, melhor tenderá a fluir a nossa vida.

     Então não sufoque seus momentos de estranhamento. Não fuja de olhar às suas questões. Esses momentos fazem parte de uma vida humana perfeitamente saudável. Investigá-los pode levar a um melhor conhecimento de si mesmo. E com o tempo descobrirá que momentos assim vêm, mas vão embora também. E se é natural que eles cheguem, e partam, o que podem nos ensinar enquanto ficam?

Boas Festas! Que venha um ótimo 2022! Nos encontramos lá!😉

domingo, 19 de dezembro de 2021

INSIGHT E ELABORAÇÃO


Édipo e a Esfinge, de Jean Auguste Dominique (1808)
 

      Nunca comentei isto, quando comecei a estudar psicanálise logo nos primeiros meses pensei em desistir da formação. Eu já tinha o blog há mais de dez anos nessa época e me considerava muito resolvido, porque já tinha um bom conhecimento de mim mesmo e imaginava que a mim seria fácil passar pelo processo [Arrogância! – cof, cof, rsrs]. Já disse em outras oportunidades aqui que comecei a investir em práticas de autoconhecimento muito cedo na minha vida. Pensei sinceramente então que fosse simples me tornar psicanalista, pois jeito pra coisa eu já teria. E não é bem assim…

     Logo nos primeiros meses comecei a sentir uma sensação muito desconfortável. A analogia que faço é que parecia que estavam sendo tiradas as minhas roupas. Era uma sensação de nudez mesmo. De total exposição. E a medida que ia me aprofundando sistematicamente na obra freudiana, cada vez mais sentia um gelo no estômago. Sentia medo. Angústia. Quase uma agonia. E não entendia o porquê. Mas a psicanálise é um conhecimento pesado. Realmente mexe com o estudante. A pessoa precisa estar preparada para o que vai encontrar. A si mesma! Eu revivi abalos estruturais psíquicos que me foram muito familiares, como quando li pela primeira vez, ainda quando criança, sobre o Complexo de Édipo. Quem quiser entender melhor sobre isso recomendo esse texto do blog aqui.

     De repente constatei que o medo era porque o buraco era bem mais embaixo. Não que todos esses anos de blog e “autoanálise” (sinto que agora preciso colocar essa palavra entre aspas) não fosse útil. É claro que foi. E continuo recomendando isso às pessoas para que desenvolvam, em algum nível possível, essa prática. Mas a formação em psicanálise me colocou obrigatoriamente em análise pessoal. É exigido isso para se tornar um psicanalista. E aí a coisa muda de figura. Fazer análise com um profissional, no meu caso com uma psicanalista, principalmente quando você próprio já está estudando a teoria psicanalítica, é completamente diferente. Aí sim você se dá conta de que a analogia feita por Freud sobre o iceberg e o nosso aparelho psíquico é real. Eu sabia que estava me acovardando nesse momento, mas não conseguia aceitar o medo de prosseguir também. Então com muita calma e paciência resolvi continuar firme. Só para terem uma noção de como foi isso vou dividir algo que caminhou comigo por quinze anos. Nunca escrevi sobre isso aqui no blog.

     Na noite que meu pai faleceu sonhei com ele. Ele veio, conversou comigo e me deu uma missão. Eu sabia no sonho que ele havia falecido, nós conversamos sobre a sua morte nesse sonho. Ele estava todo de branco e envolto numa luz intensa. Eu o abracei, beijei a sua testa e ainda me espantei que ele estava quente! Até disse isso a ele. Ele só me respondeu que o seu corpo morreu, mas não a sua alma, e que ele estaria sempre comigo. A missão que ele me deu naquele dia foi que cuidasse da nossa família, ele passava agora o bastão a mim. Nos despedimos. E ele se foi. Acordei chorando. Tinha dezoito anos nessa época. A partir desse dia me casei com a minha mãe. Me tornei pai do meu irmão – sendo que ele é o mais velho. Me fiz o homem da casa! E no fim destronei o Laio…

     Interpretei esse sonho na época como um sinal divino. Algo sobrenatural. De ordem mística. Acreditei sinceramente que tinha conversado com o espírito do meu pai naquela noite, logo após o seu sepultamento. Eu não costumava me lembrar dos meus sonhos. Isso era algo raro. Então por que esse em específico me lembraria? Talvez algumas pessoas não saibam, mas para a psicanálise os sonhos não são xamânicos. Segundo Freud os sonhos são manifestações de desejos inconscientes. Foi aí que tive o insight! Foi assim um descortinar... Com a ajuda da minha analista interpretei o sonho.

     Eu sempre gostei de esoterismo e o meu inconsciente precisou se utilizar dessa linguagem (mística) para que eu pudesse acreditar no meu próprio sonho. Quer dizer que eu mesmo me enganei esse tempo todo?! Sim. Foi exatamente isso o que aconteceu. Eu precisei de uma justificativa que me levasse a fazer aquilo que eu queria fazer, sem que eu pudesse ser censurado por isso (censurado até por mim inclusive). Entenda que o nosso inconsciente tem uma lógica própria (diferente da lógica clássica), que nos leva a fazer algo do campo do desejo, mas não do campo do social, e por ele estar o tempo todo tentando se comunicar, como nós o ignoramos, não raro ele pode se comunicar à revelia de nós mesmos. Por essa razão Freud diz que o “eu não é senhor em sua própria morada”. Expondo à humanidade a sua terceira ferida narcísica, como ele mesmo disse.

     E foi assim que por mais de uma década eu assumi o lugar do meu pai – simbolicamente – na casa. E se deixar até hoje. Como falar que a psicanálise não existe? Que ela não tem razão? Me explica isso... A mim ter esse insight não foi nada fácil hein. Me sentia tolo. Fiquei dias me sentindo mal. Ridículo. Mas dizia a mim mesmo também: Jonas, dorme com esse barulho! Vamos elaborar isso!

Eu dei toda essa volta para chegar nesse ponto que queria. Agora que começa a ideia desse texto. O que de fato é uma elaboração? O que é um insight? Como saber se estamos no caminho certo?

     Com essas perguntas em mente pesquisei hoje em alguns livros. Tenho muitos livros de psicanálise. Alguns me perguntam se leio todos esses livros e a resposta é não. Nem daria conta disso. Posto várias fotos de livros no meu Instagram (a propósito: me segue lá), mas não os leio logo de cara. E quando o faço leio por capítulos – aqueles que me interessam ainda. Hoje por exemplo me debrucei sobre alguns temas, como Elaboração e Insight. Porque mesmo fazendo a formação em psicanálise percebo que tenho uma certa dificuldade em compreender o que se entende por elaborar. Elaboração não é algo tão simples. E existem entendimentos diferentes entre autores da psicanálise.

     Vamos pensar um pouco. Um sujeito leva uma vida agindo de uma determinada maneira. Aí um dia ele vai para a análise por um desconforto qualquer. Ele acredita mesmo que em dois ou três passos resolverá a questão que caminha com ele por todos esses anos? Seria bom demais se fosse assim. Uma pena que não é. Como eu disse lá em cima: o buraco é bem mais embaixo. Demanda efetiva elaboração. Como escreve Freud em “Recordar, repetir e elaborar (1914)”. Hoje para escrever esse texto li alguns livros. “Fundamentos da Técnica Psicanalítica”, de R. Horacio Etchegoyen. “Dicionário de Psicanálise”, de Elisabeth Roudinesco e Michel Plon. “Fundamentos Psicanalíticos. Teoria, técnica e clínica” e “Manual de Técnica Psicanalítica”, ambos de David E. Zimerman.

     A conclusão que cheguei é que um insight não é unicamente um processo intelectual. Então não adianta achar que ter conhecimento de uma determinada questão é o suficiente. E esse processo é muito melhor realizado – talvez apenas assim – a quatro mãos. O efetivo insight é aquele que até parte de um conhecimento – de si mesmo –, mas ele deve mobilizar também uma resposta emocional. Insight é quando você torna consciente um desejo até então inconsciente. E só a partir desse momento demandará uma elaboração, porque agora você precisará “resolver” um conflito entre o seu desejo infantil e o restante de sua própria personalidade que não o aceitam ou só o aceitam sob certas condições.

     Mas você sendo capaz de traduzir esse insight em práxis, ou seja, em prática, através da RESPONSABILIDADE POR SEUS ATOS, poderá promover em si, ao longo do tempo, mudanças psíquicas estáveis e definitivas. E isso, a meu ver, não se confunde com cura. Mas, como alguns autores da psicanálise dizem, “amadurecimento”. “Crescimento mental”. “Desenvolvimento de uma função autoanalítica”. Isso não significa que jamais necessitará de um analista novamente, mas que agora compreende que sempre depende muito mais de você!