sábado, 17 de junho de 2023

PEQUENAS MORTES

Natureza-morta com uma caveira, pintura Vanitas de Philippe de Champaigne (1671)

 

      Nos últimos tempos tenho pensado bastante sobre a importância dos términos que vivenciamos ao longo da vida que são como pequenas mortes – simbólicas –, mas que possibilitam a partir disso obter significados possíveis para a nossa própria existência. Sei que essa conversa pode soar um pouco metafísica, ou talvez um tanto quanto esotérica, todavia é mais simples do que possa parecer. Recentemente assisti no Youtube uma palestra do psicanalista Jorge Forbes em que ele falava que o humano se determina a posteriori e achei isso de uma profundidade imensa. Durante esse semestre na faculdade, na disciplina de Psicologia Social trabalhamos sobre um conceito de Identidade de Antonio da Costa Ciampa, ele tem uma dimensão processual e a professora amarrou tão bem os conteúdos com a obra de Clarice Lispector, “A Hora da Estrela” e “Morte e Vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto. Voltando à psicanálise gostaria de lembrar a técnica utilizada em análise conhecida como corte lacaniano, que se trata da intervenção do analista para pontuar, interpretar a fala do paciente ou encerrar a sessão.

      Mas qual a relação disso tudo? Pense numa frase que não tenha nenhuma pontuação, um texto corrido e fluído; ele não faz sentido. Ou melhor, ele faz todo e qualquer sentido, pois muitas seriam as possibilidades. Fica tudo solto. E o limite é aquilo que dá forma. A forma é o entendimento. Numa frase o que deixa justamente o entendimento preciso ao leitor – ou melhor: o mais preciso possível – do que o escritor pensou ao escrever tais palavras são as pontuações. Como o ponto final, por exemplo. Quando é determinado um ponto final numa frase somos capazes de vê-la de outra forma, falá-la de outra forma, podemos entender um significado, pois é possível inferir uma interpretação plausível. O corte lacaniano se presta a essa função também, pois ele interrompe uma fala livre, fluída e solta, como no exemplo acima. A escuta do analista capta justamente palavras significativas ditas despercebidas ao paciente, como atos falhos. O analista nota isso e rapidamente pontua: “você disse...?”, cortando o discurso e o chamando à atenção do trecho falado, pois agora ele já poderá ser melhor compreendido. Ocorre também quando o paciente obtém um insight importante durante a sessão e o profissional intervém encerrando a análise neste exato momento, possibilitando o entendimento até a próxima.

      Na vida também é assim. A vida é esse fluxo contínuo, corrido, sem uma determinação prévia ou uma interpretação implícita a priori. A vida humana não tem um sentido dado, determinado, cabe a cada um de nós a tarefa de fornecer uma interpretação da própria vida. Como diz Forbes, implicando-se nela. Isso se faz possível pelos términos vividos no caminho; os voluntários, mas principalmente os involuntários. Os términos fornecem um ponto final em que a partir daí, de uma separação, de uma demissão, de uma decisão, de uma doença, de um falecimento de alguém querido, a partir disso que se costuma chamar de um divisor de águas na vida, tem-se condições claras – ou melhor: o mais claro possível – de analisar uma situação vivenciada em toda a sua completude. Quantas vezes vivemos num ritmo mecânico, inconsciente, dia após dia e somos incapazes de entender o que se passa, mas no exato momento que ocorre uma ruptura é como uma pequena morte, a partir desse ponto olhamos para trás e dizemos: Ah! Então era isso... Agora eu entendo. Após esse fato é possível obter um ponto final (se vamos ou não abrir um novo parágrafo na história são outros poréns, cabe a cada um), mas o fato ocorrido proporcionou a compreensão da situação, deixou a leitura possível! Quantos relacionamentos tóxicos há pessoas que se envolvem em que fazem um papel indigno, no entanto não conseguem perceber isso na própria história, são incapazes de ler e entender esse discurso, essa narrativa, até o término da relação. Ou o inverso disso, quando uma pessoa só é capaz de dar o devido valor a alguém, quando essa pessoa já partiu.

      Mortes. Quebras. Cortes. Pontos finais essenciais ao entendimento da vida. Eu sei que é difícil falar sobre isso, lidar com isso, porque não somos treinados no Ocidente a olhar para essas questões. Diferentemente do Oriente que me parece que possui uma relação mais pacífica com a finitude da vida. Temos pavor de falar sobre a morte, porque sequer pensamos na nossa própria morte, que é a coisa mais certa que temos na vida. Se existe algo que podemos garantir sem sombra de dúvidas que acontecerá um dia é a morte, disso ninguém escapará. Em “A Hora da Estrela”, a personagem principal morre atropelada ao sair de uma cartomante completamente feliz pelas coisas que ouviu. Somente uma autora como Clarice Lispector poderia decifrar o final trágico e inesperado de Macabéia, contudo penso que teria sido a morte que deu forma a vida, à identidade da personagem. Em Ciampa, a nossa identidade tem um caráter de metamorfose, como algo que está em constante mudança. Segundo Ciampa, a identidade é apresentada como “estática”, como se fosse uma fotografia, mas essa identidade em si que não se revela, eclipsa o seu real e natural processo de eterna transformação. É como dizer que quem somos estamos sempre sendo.

     E se a gente pensar de um ponto de vista psicológico, o que é o sofrimento psíquico senão uma tentativa, por vezes inconsciente até, de insistir, ou de se identificar demasiadamente, com personas que fomos ou somos de forma fixa e engessada, sem aceitar a transformação permanente e natural do processo de identidade. As pessoas mudam. Nós mudamos ao longo da vida. E a vida se transforma também. Tudo tem fim. Mas o fim pode nos dar os contornos necessários para os entendimentos possíveis das questões vividas. Não devemos ter medo de términos, se é deles que surgem os novos recomeços da vida.

 

"Vai ter que estar preparado para se queimar em sua própria chama: Como você espera se renovar sem primeiro se transformar em cinzas?" (Friedrich Nietzsche) 

 

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