Hoje
pretendo trazer uma discussão para pensarmos sobre dois sentimentos:
o amor e o ódio. Em seguida quero
estender essa discussão para uma reflexão a outros pontos e
situações da vida. Então, a princípio gostaria que você pensasse
sobre essas perguntas:
Quais
pessoas você diria que ama ou que já amou inteiramente?
E
quais pessoas você diria que odeia ou que foi capaz de odiar
completamente?
Gostaria que você se respondesse essas perguntas antes de prosseguir. Tente buscar em sua mente ao menos uma pessoa para cada uma dessas perguntas acima.
Desde muito jovem me dediquei a observar e a analisar os comportamentos, os meus e os das pessoas ao meu redor. Busquei aprender com isso. Tentei crescer a partir disso. Hoje sou aspirante a psicanalista. Já tinha interesse por pesquisar assuntos dessa natureza que hoje em dia estudando mais a fundo a psicanálise me sinto fascinado. Se você acompanha esse blog há algum tempo, no mínimo você já notou que os textos aqui são densos. Intensos. Conteúdos bem profundos. Mas digo que eu sou assim. Levo a minha vida assim. Lembro de um conto que li – desses com moral – que falava que todo dia um homem via o seu vizinho cuidando do jardim. Um dia o homem se mudou e após décadas voltou ao seu antigo endereço se surpreendendo com o antigo jardim de seu vizinho; ele havia se tornado um enorme bosque com árvores com troncos robustos e aparentemente essas árvores eram as únicas daquela rua que não se quebraram com os ventos de uma recente tempestade. Então ele foi cumprimentar o antigo vizinho e o questionou sobre o belo resultado do seu jardim. O vizinho apenas lhe disse que regava pouco as plantas que agora eram árvores e como não receberam dele água facilmente, elas precisaram aprofundar suas raízes e se tornaram mais fortes e resistentes às intempéries. Faço analogia da minha infância com esse conto; minha criação foi difícil em vários pontos, mas tive muitos ganhos emocionais a partir disso. Tenho consciência deles. Nunca busquei por sofrimento, mas sempre busquei os ganhos a partir dele. O budismo tem um ditado que diz que da lama nasce a flor de lótus. A psicanálise faz esse movimento de voltar o olhar ao passado para analisar o presente e esse material analítico escavado apesar de denso é bastante rico.
Quem costuma ler o meu blog sabe que a minha infância foi bem complicada. Filho de pai alcoolista, agressivo, autoritário, com uma mãe focada exclusivamente ao seu trabalho, totalmente distante das questões emocionais dos filhos. De fato isso aconteceu. Mas não somente. Meus pais também tiveram ótimas qualidades, dignas de muito respeito e admiração – poderia citar várias delas. Um exemplo que me marcou foi o fato de crescer percebendo como meus pais eram solidários. Eu cresci assistindo – e participando – de ações onde meus pais nos levavam para doar comida, roupa, qualquer ajuda às pessoas mais pobres do que nós. Esses momentos me marcaram muito na infância. Então, eu seria simplista se taxasse que eles foram maus ou bons; certos ou errados; tudo depende do ângulo. A nossa noção de “verdade” depende do ângulo. E nunca é uma coisa ou outra, é sempre uma coisa e outra. Lembro de um episódio forte que vivi na adolescência ainda que foi crucial para compreender muitas situações na minha vida, porque esse episódio gerou questionamentos que foram a mola propulsora de conclusões que chegariam mais tarde. Relatarei esse episódio para trazer uma reflexão que embasará a ideia central do texto de hoje. Amor e ódio.
Quando eu tinha uns treze anos de idade, por algum motivo banal meu pai e eu estávamos um dia discutindo – como era de costume –, ele estava bêbado, a discussão foi se intensificando, quando ele ao perceber que não conseguiria me calar num “duelo verbal”, partiu nesse momento para a agressão física, então ele começou a me bater. Eu sempre orgulhoso, só me lembro de me concentrar para não esboçar nenhum abalo. Durante toda a agressão mantive o queixo erguido, o olhar fixo nele e uma postura de altivez. Mentalmente a ordem que me dava era a seguinte: “Não recue. Não chore. Não se abale. Você não vai dar esse gosto a ele!”. Para mim essa era uma questão de honra! Imagino que isso o enfurecia ainda mais já que ele esperava algum sinal de submissão, de passividade, de obediência, mas só encontrava em mim um olhar de ódio, uma expressão de desdém...
Não sei se haveria fundamento orgânico nisso, mas imagino que em algum momento a adrenalina em seu sangue pode ter afastado o efeito do álcool e ele foi caindo em si, ficando sóbrio. Nesse instante, quando ele estava “retomando a consciência” dos seus atos, eu pude ver claramente em seus olhos uma expressão de horror pela constatação do que estava fazendo, ou seja, ele estava perplexo de se ver espancando o próprio filho. Nesse momento ele se emocionou muito e eu precisei até fugir o meu olhar. Então ele me abraçou por trás, disse que me amava profundamente e só me pediu perdão. Nesse momento eu desabei! As emoções reprimidas vieram à tona em explosão! Eu não conseguia parar de chorar. Nesse momento só pensava: “Esse é o homem que eu mais amo na vida e é também aquele que eu mais odeio! Como posso ter, simultaneamente, sentimentos tão opostos pela mesma pessoa!? Eu não entendo!” Mas fui atrás de entender. Descobri que sim, é possível. Somos capazes de amar e odiar ao mesmo tempo uma mesma pessoa.
Amor e ódio são faces de uma mesma moeda. Toda pessoa que amamos, em algum nível a repelimos, num nível até inconsciente podemos odiar algo nessa pessoa amada. E toda pessoa que odiamos, não somos capazes de odiar sem sentir por ela admiração ou atração em algum nível. E se isso não fosse verdade, se não existisse no objeto do nosso ódio nada que nos cativasse simplesmente ignoraríamos! Seríamos indiferentes. Não é possível você odiar aquilo que não mexe com você, aquilo que não te mobilize interiormente de alguma forma. Entenda que se algo numa pessoa ou situação está te incomodando é porque isso diz de você, isso tem sintonia com você ou você simplesmente nem seria capaz de se sentir incomodado. Se por um lado isso pode ser assustador. Por outro lado é libertador. Se não somos santos, o diabo também não é como pintam! Eu poderia facilmente me justificar perante à vida com a alegação “Sou assim porque meu pai foi um homem mau!”. Usar dessa narrativa para justificar ser um mau caráter e depois me colocar como uma vítima das pessoas. Só que não tenho inclinação para respostas rasas. Não me valho de análises polarizadas e reducionistas. Tampouco creio em conclusões fatalistas. Tudo depende. Depende de quê? Eu diria de quem. Como lembra Sartre, o que importa é o que fazemos com aquilo que acontece conosco. Então depende de mim. A responsabilidade nisso agora é minha.
Nós somos muito mais complexos do que imaginamos! Nossos comportamentos e sentimentos são muito mais intrincados e até contraditórios do que gostaríamos. Meu pai errou sim em muitos aspectos. Mas ele também acertou em muitos outros. Eu escolhi ficar com o que foi o seu melhor e aproveitar em minha vida aquilo que for útil. Saudável. Coisa que ele não era. Alcoolismo é considerado uma doença que merece a devida atenção e um tratamento. E eu sei que muitas pessoas podem estar lendo isso agora e me julgando: “A sua relação com o seu pai foi tóxica. Ele foi um péssimo exemplo a você de homem. Você “defendendo” tudo o que aconteceu, você assume isso como correto e se não tomar cuidado terá dificuldade para compreender o que é amor sadio. Isso se refletirá em suas relações pessoais, sociais, profissionais, afetivas etc.” Ok, meus parabéns! Mandaram bem no diagnóstico! Mas só até a página 2! Confesso que isso é possível. Mas será que também não seria possível que tudo o que vivenciei foi mais amplo e complexo, onde fiz escolhas conscientes também e tive ganhos e os pontos mais negativos hoje se tornam bons exemplos daquilo não quero para minha vida? Um pai alcoolista pode ter dois filhos e um ter o vício e o outro não. Ao indagarmos ambos, um filho poderia dizer que se tornou alcoolista porque teve um pai alcoolista, enquanto o segundo poderia dizer que não bebe porque teve um pai alcoolista. Ou seja, as origens que levaram um filho ao vício foram as mesmas que distanciaram o outro dele. Há um ditado japonês que diz que o vento é o mesmo, mas a sua resposta é diferente em cada folha.
Quando você entende que tudo na vida é no mínimo dual e essa dualidade no fim é complementar, você passa a compreender melhor as inconsistências e inconstâncias das pessoas. Desenvolve uma postura mais assertiva ao invés de reativa. Sua visão enxergará mais amplamente as situações e os acontecimentos e você suspenderá os seus julgamentos, e quando não, eles serão menos taxativos. Você começa a entender que a verdade é na verdade só uma verdade. E percebe que não faz sentido classificar as situações e as pessoas entre certo ou errado, bom ou mau, porque entre uma coisa e outra existe um longo caminho e muito o que analisar. Nada é tão simples quanto parece. Quando você aprende a enxergar os pontos positivos em quem você odeia, você respeita essa pessoa. E quando você aprende a enxergar os pontos negativos em quem você ama, você respeita a si mesmo!

2 comentários:
Seus textos merecem ganhar toda notoriedade do mundo. 💎💎💎
Muito obrigado pela visita.
Agradeço pelas palavras.🙏🏻
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