Quando criança me chamava a atenção o poder que algumas pessoas parecia ter sobre outras. Achava mágico isso! Mas eu sabia que não era um poder natural, ou legítimo como o de uma autoridade por exemplo - um pai, um professor, um policial -, também não era nenhum dos poderes que mais tarde eu estudaria no curso de administração, na faculdade. Era um tipo de poder diferente, sorrateiro. Bem disfarçado. Quase uma influência tênue que não se podia originar, medir, estimar; muitas vezes difícil até mesmo de constatar, pois geralmente era operado por pessoas tão inteligentes, espertas, sorridentes, pareciam queridas por todos e longe de qualquer suspeita. Então eu cresci observando de perto pessoas com esse comportamento, que operavam esse tipo de poder quase sedutor que eu aprendia a cultuar, queria desenvolver...
Na adolescência admirava pessoas com esse poder e acreditava que talvez o mundo realmente funcionasse desta forma: algumas pessoas precisavam mesmo conduzir outras. Ouvi, e gostei: "o mundo é uma selva e é dos espertos!".
Comecei a estudar como funcionava esse tipo de poder, qual o perfil dos que o operavam e como o resultado era sempre certeiro, garantido, e as ações quase imperceptíveis vistas de fora. Era como uma sessão clandestina de hipnose, do qual os participantes passivos não tinham conhecimento (nem antes, nem depois); envolvia palavras bem colocadas, "com as vírgulas nos lugares certos" - então entendi como uma vírgula colocada noutro lugar da frase mudaria completamente a ideia do texto... Numa conversa, se aplicar isso numa linguagem corporal previamente estudada, numa fala mansa e objetiva, com um toque de insinuações subliminares, em tons de voz modelados, poderá ver perfeitamente como o raiar do dia o que eu comecei a compreender nessa época, do que se tratava esse tipo de poder. A arte da manipulação...
Depois disso prestei mais atenção e não gostei dos resultados. Não dessa maneira duvidosa. Vi sempre alguém saindo ferido, magoado, prejudicado, endividado, enquanto a outra parte saía ilesa. Vi perversidade nesse movimento. Maldade. Daí então, não quis mais entender como funcionava esse mecanismo de influências ou quem o usava e sim, como se defender disso...
Sempre tive fascínio pela retórica. Na faculdade estudei muito sobre Poder e Liderança; fontes de poder; tipos de lideranças; ouvi palavras e conceitos como "admiração" e "persuasão", mas tenho certeza de que não é bem disso o que se trata a arte da manipulação. Embora pareçam coisas intimamente ligadas, acredito que diferem nas intenções do orador por exemplo. Descobri também que na história grandes universidades sempre ensinaram seus alunos como dominarem bem técnicas assim.
Hoje penso em como o dom da palavra, numa mente doentia sem escrúpulos, pode ter resultados devastadores. Não é difícil associar o sucesso dessas operações ao pouco esclarecimento das "vítimas"; mentes menos iluminadas sempre foram dominadas por outras brilhantes. As pessoas mais carentes, as com menos informações, as mais emotivas, as desesperadas, desesperançosas, as inseguras, ou às vezes aquelas mais fanáticas - que ficam cegas - são os alvos perfeitos. Pessoas essas que compram o que não cabe no orçamento por exemplo, aquilo que não precisam, parcelado com juros abusivos, e encontram garantias certas de endividamento; certamente que nesse caso o vendedor foi "bom" com as palavras...
Percebi que existem pessoas "boas" com as palavras em todos os setores; médicos, advogados, pastores, padres, professores, líderes, políticos, todos podem manipular, porque via de regra somos humanos e nos comunicamos. E a linguagem é o canal por onde essas cordas navegam. Onde houver qualquer tipo de linguagem haverá sempre a possibilidade de manipulação e a única coisa que pode nos proteger contra isso é a iluminação da mente. Precisamos pensar por nós mesmos, com os pés firmes no chão, analisando uma situação de longe, com calma, e ter sempre um pouco de desconfiança.
Se nesse jogo de poder nós somos marionetes que não enxergam as cordas, tudo o que precisamos então é ter equilíbrio entre razão e emoção, ter informação e conhecimento, serenidade e paz, e sempre, deixar o manipulador pensar que está no controle!

2 comentários:
Oi Jonas!!
Mas eu tinha certeza que com toda essa revolução que tem acontecido em nosso País, você não deixaria de fazer um post!
Poder é algo muito frágil, pois a maior parte das pessoas que o possuem, mudam.
Achei interessante sua observação em relação ao poder desde mais jovem. Porque precisamos ter uma visão crítica das situações para entender como o poder funciona.
Hoje em dia, com a mídia tão expandida, seja na TV, seja pelas redes sociais, seja em programas de rádio, temos 2 lados: a manipulação de informações que não podemos controlar, e ao mesmo tempo, uma ferramenta para criticar e expor nossa opinião.
Jamais imaginei ver algo assim, essa manifestação de um povo cansado de um governo que faz uso abusivo do poder, usar a mídia para mostrar sua voz e sua indignação.
Se o poder nas mãos erradas pode ser ruim, o poder na mãos do povo pode mover montanhas.
Na vida tudo é ying e yang. Teremos os 2 tipos de representantes, advogados, chefes, etc.
Mas se antes havia desânimo com o abuso desse poder, hoje estamos vendo que tudo vai até um certo ponto... nada pode ficar igual.
Gostei muito do seu post!!
Espero o próximo logo :)
Hugs, your friend and teacher!
Oi Aline!
Uma vez um antigo chefe meu também me disse isso, que o poder mudava as pessoas. Nunca vou esquecer. Lembro dele dizer que o dinheiro também mudava as pessoas. Dê um dos dois a um homem e ele se revelará! – dizia ele. E você e eu sempre conversamos também sobre esses assuntos em nossas aulas né. Concordo plenamente que o poder pode transformar a personalidade de uma pessoa, mas o meu medo nunca foi exatamente esse, dessa mudança nítida, e sim do efeito que não é notório. A coisa velada. O que incomoda e sempre me incomodou é o que é camuflado, aquilo que é sorrateiro. Escorregadio. Porque esse é difícil de pegar. Esse poder que digo no post é preocupante porque age em silêncio. Na calada da noite, como dizia os antigos.
Já ouviu dizer que os venenos mais doces são os mais letais, e você já reparou também que as plantas carnívoras são sempre aparentemente muito belas? Li em algum lugar que essa é uma característica da própria natureza da planta para atrair as presas. Tem uma música dos Paralamas do Sucesso que diz: "palavras duras têm voz de veludo"...
Acho que nos tempos que vivemos, onde nem tudo é o que parece ser, onde os valores estão muito deturpados, é muito prudente andar com um pouco de desconfiança sempre. No passado, desconfiar de alguém era quase sinônimo de desrespeito, hoje eu acho que desconfiança é quase uma questão de bom senso. É certo que ninguém vai viver uma paranóia de duvidar de tudo e de todos, mas um pezinho atrás, em alguns momentos da vida, polpa muita dor de cabeça futura!
Obrigado pelo comentário Aline. Saudade de você! Hugs!!
Postar um comentário