segunda-feira, 7 de setembro de 2020

NÃO ENTRE SEM SER CONVIDADO

     Reza a lenda que um vampiro jamais pode adentrar um recinto sem antes receber do morador um convite. Mesmo dono de muita astúcia e de uma força física sobrenatural, mesmo com um charme que seduz suas vítimas, ainda assim necessita de um passe livre para entrar. Quando criança era fascinado por livros e filmes sobre vampiros e chamava minha atenção o momento nos contos quando um vampiro, imóvel frente a uma porta ou janela, aguardava ansiosamente por uma solicitação para sua entrada. Pensava comigo, “Que bobeira isso! Ele pode muito bem forçar a passagem, por que precisa ser convidado?”.

     Comparo essa passagem a um hábito que eu tinha de invadir a mente das pessoas. Hábito esse que confesso que me divertia muito. Via qualquer oportunidade de conversar com alguém como um momento destinado à reflexão. Qualquer um que cruzasse meu caminho e começasse um papo seria involuntariamente posto a pensar sobre suas falas e eu fazia isso movido muitas vezes por um prazer sádico, ainda mais quando a pessoa se julgava muito convicta de suas ideias e isso era posto à prova. É claro que o espaço destinado à reflexão onde uma conversa vai a um estágio menos superficial, filosófico até, é interessante, jamais advogaria contra isso. Contudo: 1 – existem momentos específicos para algumas conversas; 2 – não são todas as pessoas que estão abertas – sequer preparadas – para refletir sobre certas questões; 3 – um diálogo mais reflexivo precisa estar pautado por um interesse genuíno pelo compartilhamento, pela iluminação e na organização de ideias de uma pessoa e não para confrontação de suas convicções. Achava engraçado entrar no psicológico de alguém com perguntas reflexivas, identitárias, existenciais, para assim inevitavelmente fazê-lo questionar suas próprias crenças. Tinha comigo que ninguém deveria viver uma vida sem se questionar o porquê das coisas e me divertia em extrair isso das pessoas. Achava que se não fizesse bem a elas, mal também não faria porque estava apenas ajudando a sair de uma total alienação. E de boas intenções o inferno está cheio, não é?

     Pouco tempo convivendo com alguém captava uma série de sinais (olhares, falas, entonações, repetições, silêncios, pausas, trejeitos, posturas, expressões, a escolha e o encadeamento dos temas das conversas etc.), ia catalogando mentalmente tudo isso, montando uma espécie de mosaico, um quebra cabeça sobre a pessoa, até chegar um determinado momento em que faltavam ali algumas peças para fecha-lo e era nesse ponto que entrava. Dono de uma curiosidade visceral, tinha comigo que as pessoas estariam “jogando” comigo, quando me apresentavam uma realidade cuja qual já intuía faltar fragmentos de verdade. Quando, por exemplo, um amigo dizia estar muito certo sobre uma escolha profissional, ou sobre o quanto estava feliz num emprego, ou o quanto jurava ter achado o grande amor de sua vida, já me munia de um arsenal de perguntas que o levaria a repensar tudo isso na expectativa de “validar” essa segurança dita possuir. O jogo começava. Um jogo mental. E se após pensar e refletir tudo o que me dizia, essa pessoa permanecesse intacta em suas convicções, ela teria ganho o jogo e com isso reforçaria sua própria motivação. Porém, caso titubeasse e se perdesse nas respostas se revelaria um desconhecimento total de seu real propósito, mostrando assim o seu estado de inconsciência. Nesse caso eu teria lhe feito ainda um favor ao trazer isso à tona. Mas será mesmo? O mais curioso, diria até perverso, era que nesse momento tinha em mim um gozo ao assistir o desmanchar em minha frente das certezas e seguranças de uma pessoa. Parecia o próprio diabo plantando dúvidas na mente e no coração dos fiéis...

     Em que momento tudo mudou? Quando entendi que jogava sozinho.

     Esse tipo de jogo nunca é a dois. Nunca é sobre o outro também. É sempre sobre nós mesmos. E aqui entra o entendimento psicanalítico desse meu comportamento, já que um dia eu fui obrigado, por circunstâncias impostas pela própria vida (porque a vida também ensina), a virar o espelho para mim mesmo e me encarar de frente. Então o feitiço se voltou contra o feiticeiro. Vi que o inconsciente da história todo tempo era eu. Me achava maduro, astuto, mas vi em mim insegurança, indecisão e medo, senti a amargura que eu tinha. Só quem carrega uma amargura no coração pode se regozijar com a infelicidade alheia. Eu vestia uma carapaça dura apenas para encobrir um núcleo frágil, para esconder uma criança interior insegura. Por não conseguir conviver com essa dura realidade acabei recalcando minhas próprias inseguranças e indecisões e projetando nas pessoas ao meu redor, para assim, ao inquiri-las e assistir desmontar suas convicções, quem sabe me sentir melhor. Talvez menos só. Menos mau. Menos falso. Só queria não ser o único...

     Receber de volta o olhar do meu próprio abismo me fez encarar alguns demônios. Descobri que só haveria um caminho de volta e essa escalada passaria por um longo processo de aceitação. De autoaceitação. E eu não sabia nem por onde começar... Aceitar que não era perfeito e jamais seria – então por que cobrar isso das pessoas? Aceitar que eu não era tão seguro, tão decidido, tão forte, que eu não tinha todas as respostas e rotas para a minha própria vida – então como vasculhar isso nos outros? A verdade é que eu seguia a minha vida do jeito que dava, com as ferramentas que tinha no momento e isso sempre foi suficiente – então por que cobrar tanto preparo dos outros? Precisei aceitar que no fundo estava com medo, com raiva e tinha tantas dúvidas quando meu pai morreu. Me sentia só. Me sentia perdido. Sem rumo. Mas não queria dar o braço a torcer. Não queria recuar, mesmo já dando muita cabeçada (eu nunca soube aceitar quando é hora de parar). E descobri que hastear a bandeira branca também faz parte. Isso não é covardia. Não é abandono. Detesto essa sensação...

     Fui me perdoando. Me validando. Acolhendo minha impotência, minha vulnerabilidade e admitindo certas carências (e eu odeio admitir isso!). Descobri que o autoconhecimento nunca terá fim, que esse processo é como descascar uma cebola: há camadas e mais camadas, e quando acreditamos que chegamos a um estágio final de autoconsciência percebemos o quanto estamos inconscientes ainda em vários outros aspectos. E está tudo bem. O importante é continuar o processo. Hoje me sinto melhor. Não alcancei uma categoria de “finalizado”. Mas de “Integrando”... Em algum momento tive que abraçar a criança interior insegura que vivia aqui. Toca-la. Tangenciar suas dores. Me assenhorar do que é meu. Compreendi que posso ganhar um presente da vida, por exemplo, mas se vou gostar ou não, se vou jogar fora ou guarda-lo, primeiro preciso segura-lo em minhas mãos. Então só tem como trabalhar aquilo que tocamos. Precisamos nos apossar do que é nosso. E cada um tem o seu próprio tempo, não se deve apressar os processos, nem os nossos, nem os dos outros.

     Aqui entra uma conversa que tive certa vez com uma psicanalista e na época em questão não tive maturidade psíquica suficiente para compreender a magnitude dessa conversa, mas hoje me parece mais clara. Estava fazendo MBA e um dia na sala de aula comecei a conversar sobre psicanálise com uma psicóloga que era também psicanalista. Não sei se ela notou, mas no decorrer da nossa conversa fui ficando bastante incomodado, até irritado, com algumas de suas falas e respostas, conforme se percebe abaixo.

     - Não entendo muito bem a psicanálise – comecei a conversa. 
     - Por quê? – perguntou ela com curiosidade. 
     - A psicanálise me parece muito passiva – respondi. 
      Com uma expressão plácida, ela me pediu que falasse mais sobre isso. 
    - Você é psicanalista, se você perceber que a pessoa está muito calada ou não está falando o bastante, o que você faz? – perguntei a ela. 
     - Nada – respondeu decididamente. 
     - Mas você não acha que deveria fazer a pessoa falar? – indaguei. 
     - Não. 
     E antes que eu pudesse abrir a boca, ela me perguntou: 
     - Quem procurou a análise? 
     - Mas a pessoa está precisando de ajuda – disse já incomodado. 
     - Será mesmo? – perguntou ela me fitando nos olhos. 
     - Óbvio que está! E às vezes é preciso cutucar a pessoa para ela soltar aquilo que você precisa saber – respondi já num tom mais elevado. 
     - Eu não preciso saber nada, quem precisa é ela – disse ela com um leve sorriso. 
     Já estava bastante desconfortável com suas respostas e imaginava se eu fosse um de seus pacientes. Então fiz uma última pergunta a ela: 
     - Mas se a pessoa não se pronunciar ou ficar “monossílaba”, como ficará essa situação?! 
    - Talvez ainda não seja o momento certo para ela. Quando esse momento chegar, e ela de fato quiser, ela voltará mais aberta a isso.

     Nesse dia fiquei muito inconformado! Eu não conseguia imaginar essa psicanalista de fato auxiliando outra pessoa com essa sua postura. Fiquei imaginando-a num consultório fazendo isso. E na minha cabeça ela estaria jogando toda a responsabilidade do processo à pessoa. E a pessoa nem sabia o que fazer... Ela teria que intervir, interferir naquela situação e de fato ajudar a pessoa!

     Os anos foram passando, muita coisa aconteceu na minha vida e hoje compreendo o quanto estava errado, não só nessa conversa, mas na minha postura ao tentar salvar as pessoas. Hoje percebo, nessa conversa com a psicanalista também, que ela não estava jogando a responsabilidade à pessoa, a responsabilidade é e sempre será da própria pessoa! Não tem como ajudar quem não pediu a nossa ajuda. Assim como é impossível fazer aquilo que somente cabe à pessoa. Só que isso exige – de quem ajuda – humildade! A confusão que ocorre na grande maioria das vezes nos nossos relacionamentos é que nos colocamos numa posição egoica de “salvadores do outro”. Nos dando um poder ilusório. Ficando numa posição protegida de quem detém o caminho e o conhecimento da jornada. Revela muito mais uma necessidade – de quem ajuda – de ser essencial e imprescindível na vida do outro, já que “o que seria dessa pessoa sem mim?”. Esse pensamento é carente, arrogante, falso, ineficaz e potencialmente tóxico. Ninguém muda ninguém. Ninguém pode saber o que é melhor para outra pessoa. É impossível viver pelo outro, aquilo que só cabe ao outro vivenciar. Mesmo numa análise, o psicanalista não é o protagonista do processo, ele é um mero facilitador. E ele nunca poderá resolver a vida de ninguém. Esse é talvez o maior equívoco que uma pessoa pode ter – que eu também tinha. Que podemos salvar as pessoas. Salvo casos de doenças mentais, principalmente em estágios mais graves, que aí sim de fato necessitará de uma intervenção externa, principalmente da família. Mas não é disso que estou falando aqui, já que esses casos nem vão a um psicanalista, e caso ocorra o próprio já percebe a demanda e encaminha ao médico psiquiatra. Agora, quando uma pessoa está em pleno gozo de suas faculdades mentais, entenda que cabe a ela, as rédeas de sua própria vida.

     Precisei passar por alguns processos dolorosos e difíceis de elaborar, para compreender minimamente tudo isso que relatei nessa postagem. Portanto, se conselho fosse bom, eu te diria:

     Não entre nesse jogo, ainda mais sem ser convidado. O papel de Salvador é gostoso, mas o preço também, é bem alto!


quinta-feira, 27 de agosto de 2020

ESPIRITUALIDADE NO MUNDO CORPORATIVO


     Estava na faculdade ainda, quando na semana de Administração nos passaram o cronograma de palestras a serem dadas aos alunos. “Espiritualidade”, acredito que era esse o nome de uma delas. Ou algo com essa temática, mas ligado ao universo do trabalho. Confesso que de início fiquei bastante curioso, até surpreso, assim como não via, naquela época – uns dez anos atrás – ligação entre essas esferas: o espiritual e o profissional. Ficava pensando: “Mas o que tem uma coisa a ver com outra? Isso nem se mistura! O que esse cara vai falar?”. E fui à palestra com esse espírito...

     Não que eu não tenha fé, muito pelo contrário, diria que sou extremamente crédulo e espiritualizado, mas nessa época da minha vida insistia em crer que a fé e o trabalho eram caminhos, talvez até paralelos, que não podiam nem deveriam se cruzar. Vou ainda mais longe, tinha a forte crença que vida pessoal, sentimento, qualquer temática não relacionada ao trabalho, e especificamente ao meu trabalho, deveria ficar porta à fora da empresa. Como se isso fosse possível, não é? Então, hoje eu sei que não é. Mas nessa época da minha vida pensava assim – ou pelo menos relutava a pensar de outra maneira. Com essa mentalidade alimentava meu estilo de liderança fazendo com que eu fosse um líder altamente produtivo e eficaz. Minha equipe chegava onde fosse necessário, mas às custas de sufocar todos os seus anseios e demonstrações emocionais. Não tinha espaço para isso comigo. Não à toa levava fama de general que comandava na base do chicote – diziam isso porque era aquele que não pensava duas vezes para dar punições disciplinares. Eu nem gostava de ser assim, mas tinha crenças que hoje vejo serem erradas. Engraçado que da porta para fora era mais humano, espiritualizado, até bom ouvinte, só que ao entrar para o trabalho, registrava o ponto e já incorporava uma espécie de robô. Um homem máquina que só enxergava números, metas, ranking, matéria, matéria... Quase um corpo sem alma. Sem espírito.

     O mais engraçado ainda é que eu sentia que o caminho não era por ali. Eu não entendia racionalmente, mas eu podia sentir que tinha algo de errado. Intuía um contra fluxo, estava me obrigando a nadar contra maré. Como se me desconectasse de uma parte minha no início de todo dia de trabalho, me reconectando só ao final do dia. No entanto, muitas vezes ao longo do dia, ao ouvir uma música, sentir um perfume, ter contato com algo que me remetesse a uma lembrança e me fizesse abstrair, logo rompia esse devaneio com ordens para voltar ao trabalho e focar. Eu me obrigava a não misturar as coisas e combinava comigo mesmo que temas transcendentais, etéreos, metafísicos teriam que ficar fora do expediente porque ali deveria me concentrar. Só que isso me matava um pouco por dia e logicamente não deu certo por muito tempo porque acabei adoecendo mentalmente. E era exatamente esse o alerta do palestrante aquela noite.

     As palavras daquele palestrante naquela noite na faculdade me atingiram em cheio. Ele explicava como muitas pessoas sofriam no trabalho porque não viam nele um propósito maior. Um propósito sagrado. Elas não sacralizavam seu oficio. Segundo ele, quando funcionamos apenas num nível material, sem nenhum valor transcendental, seria mais fácil vir um desgaste físico e mental porque assim como máquinas avariam, nos assimilaríamos a elas nesse modo de vivenciar o trabalho. Apenas físico. Material. Ele nos alertava sobre um lado etéreo, metafísico no trabalho, e isso não tem nada a ver com religião – não somente. A espiritualidade nas organizações está mais ligada à capacidade dos trabalhadores de possuírem ou de desenvolverem valores transcendentais como fé, esperança, o que é sagrado, para baseados nisso, alicerçados por isso obterem maior motivação para suas tarefas. Sacralizar o ofício. Dar um cunho sagrado ao trabalho. A uma categoria elevada.

     Daquela noite em diante muitas fichas minhas começaram a cair. Percebi que não estava sozinho nessa. Muito pelo contrário, havia todo um estudo por trás dessa temática sobre Espiritualidade no trabalho. Um movimento que já começara há bastante tempo, mesmo que um tanto quanto timidamente ainda, mas que eu só estava tomando contato naquele momento. Pesquisando percebi que alguns grandes líderes e CEOs depois de uma longa jornada corporativa compartilhavam conhecimentos e momentos de profundas vivências espirituais, curiosamente até se tornando gurus no mundo empresarial. Assim nos sinalizando da importância de unificarmos a matéria e o espírito mesmo no mundo dos negócios.

     O tempo foi passando e fui então trazendo para dentro da minha esfera profissional aspectos da minha personalidade que sempre gostei, mas que viviam porta à fora apenas. Fui me abrindo pouco a pouco até permitir que as pessoas conhecessem o meu verdadeiro eu, e não apenas um colega de trabalho. Passei a ter momentos para orar silenciosamente. Respirar fundo, fechar os olhos e procurar me conectar a Algo Maior que acredito que perpassa todos nós, conectando tudo sistematicamente. Me entrego com fé e prossigo minhas atividades do dia com ainda mais otimismo e esperança. Imagino que o ser humano sofre por desconexão com essa essência, quando isso não é possível. Esse é o nosso primeiro erro: nos identificar tanto com a nossa mente e esquecer que a mente é só uma ilusão. Há uma essência que precede nossa mente, uma essência que possui inúmeros nomes e para mim é simplesmente Deus. Uma essência sinônimo basicamente de amor e paz. Assim, trabalhar conectado com essa crença é compreender que somos mais do que circunstâncias, funções e resultados momentâneos e aconteça o que que acontecer tudo ficará bem.

     Eu não estou aqui pedindo que você abandone suas metas e seus sonhos materiais. É sim ótimo ter ambições e espero que você as tenha. Está tudo bem querer bens materiais, crescer financeiramente, obter maior status social. Mas não somente isso. Você não é só um um carro; um apartamento; uma casa; um salário; um cargo; um resultado. Você é tudo isso e você é mais do que isso! Existe por trás de todas essas coisas um todo incompreensível, pleno e infinitamente maior do qual você e eu fazemos parte e isso é o que dá todo sentido a nossa vida. Esse todo é como se fosse o nosso cinto de segurança. É o nosso paraquedas. Nosso bote salva vidas. É a garantia que se todas as peças fossem retiradas do tabuleiro, ainda assim restariam fé, esperança, amor e a partir disso tudo se reconstrói! Posso garantir a você que se você se conectar com essa essência vai ressignificar obstáculos, vai se levantar após quedas e terá maiores certezas perante os dilemas do trabalho e da vida. Um dia eu nadei contra a correnteza, mas hoje eu entendo, ou melhor, eu sinto, de uma forma que não sei racionalmente explicar, que quando soltamos as nossas crenças e nos entregamos ao fluxo sentimos a verdadeira força da vida. Percebemos que não estamos sós e concluímos que tudo caminha para fins melhores, sejam profissionais ou pessoais. A espiritualidade no trabalho vai te mostrar um eixo e se revelar um ponto de equilíbrio, encontrando paz de espírito, força e fé para avançar com mais sentido e propósito na sua carreira.

domingo, 9 de agosto de 2020

Psicanálise Organizacional: como melhorar a Gestão de Conflitos


Uma legenda para compreender melhor as analogias desse texto:
A Organização = o corpo humano;
O Líder/Gestor = um médico;
O Conflito = uma ferida (talvez) inflamada ou infeccionada;
A Intervenção = a entrada (ou não) de medicação;
O 'tratamento' psicanalítico ministrado: A Fala (ou melhor, A Escutatória!)


      Assim como na vida em geral e em todos os seus setores, existe também nas organizações algo muito famoso – e temido. Os conflitos! Isso ocorre, porque onde houver pessoas haverá certamente conflitos de interesses e/por necessidades não atendidas. Aqui entra então o “x” dessa questão que é o item nevrálgico a ser analisado através da seguinte pergunta: quais seriam as necessidades não respeitadas ou não observadas nessa dinâmica? Sempre tem. E muitas vezes elas clamam para serem ouvidas. Assim como um processo inconsciente que está gerando alguma disfuncionalidade, enquanto essas necessidades não forem trazidas à luz (à discussão; ao debate; ao diálogo) o conflito aflorará como uma ferida inflamada que teima em não cicatrizar e constantemente se abre vazando pus. Na grande maioria das vezes só se olha para o pus, quando seria melhor trabalhar a inflamação.

      Como todas as pessoas também tenho meus próprios conflitos, sejam eles interpessoais ou conflitos pessoais (eu comigo mesmo). Mas por algum motivo – e fico sempre atento à razão disso –, a vida me levou a estar numa posição de mediação principalmente nas organizações. Se formos analisar, o setor de Recursos Humanos (e aqui se engloba todas as suas ramificações, desde o Departamento Pessoal à Gestão de Pessoas) é um mediador entre o empregador e os empregados, e historicamente nessa relação há conflitos de interesses. E eu sempre atuei nessa área. Mas de nenhuma forma estou dizendo que seria apenas esse setor a mediar os conflitos nas organizações, volto a repetir que o conflito é natural nas relações. Como é natural ao corpo produzir uma inflamação em algum momento por algum motivo, nas empresas (que devem ser vistas como um organismo vivo!) isso também ocorre em todos os departamentos. Onde há pessoas há conflitos – essa é a máxima. Então, já advirto que é um erro pensar que “todo conflito é ruim”; que “na minha empresa não ocorre conflitos”; ou o que é pior, acabar não lidando com eles, porque eles irão “se resolver sozinhos”. É preciso saber, e ter muito claro isso, que nem todo conflito se resolve sozinho. Na maioria das vezes, sem gastar energia, tempo e atenção ao conflito, ele não se resolverá. Ele ficará manifestando sintoma atrás de sintoma, das mais diversas formas, porque o próprio conflito em si já é um sintoma de algo que não está sendo visto. Ouvido. E está intimamente ligado às necessidades mais básicas.

      Existem muitos gestores, líderes que percebem um conflito aflorado em alguma situação e fazem que não estão vendo isso. Ignoram, não acompanham e continuam os processos sem tocar nessa ferida, pois existe a crença que “assim será melhor”; ou o que é mais complicado ainda – mas perfeitamente explicável também –, quando o líder não tem maturidade psíquica, conhecimento e segurança da sua posição e principalmente quando ele não tem inteligência emocional para intervir. Quando o líder não tem esse preparo é comum ele se contaminar no calor da emoção do conflito, assim ele perde a cabeça e acaba se alterando também. Justamente nesse momento, quando as partes estão com a cabeça quente e ele teria que manter a sua fria, ele descompensa. É como um médico que, sem ter uma especialização específica para tratar uma determinada ferida numa parte do corpo, se propõe a fazê-lo sem utilizar EPI por exemplo (luvas, máscara etc), logicamente que se for algo contagioso ele poderá se contaminar. Então, num movimento de autodefesa, muitos gestores que não têm (auto)conhecimento e capacidade de gerenciamento de conflitos, acham melhor não lidar com eles. Só que esse negligenciamento acabará sendo ruim para a equipe a médio e a longo prazo, pois é como se o líder só estivesse enxugando gelo ou o que é muito pior, ele estaria alimentando o fogo! Um fogo que só está queimando latente e lentamente... E isso vai seguir fazendo diferentes sintomas e poderá cursar para algo que vai eclodir lá na frente, com ainda mais força! O famoso efeito bola de nove – e dominó, porque aí uma coisa termina puxando outra... E sai tudo do controle.

      Vale ressaltar também que, assim como não tomamos anti-inflamatório e antibiótico para todos os males, pois o médico sabe a necessidade da prescrição, o bom gestor precisa saber quando intervir numa situação de conflito. O médico tem ciência que existe em nosso organismo uma capacidade natural de se regenerar, de se curar sozinho quando isso é possível. Por isso nunca devemos nos automedicar, devemos sempre buscar orientação médica para avaliar a necessidade de entrar com uma medicação, porque se o nosso corpo já tiver a capacidade de gerar uma determinada recuperação sozinho, o médico sabe que não é recomendado nem indicado uso de antibiótico, por exemplo. Não à toa estamos assistindo a existência de superbactérias e pessoas não respondendo mais tão bem a alguns antibióticos. Sem falar numa ingestão constante de drogas e na toxicidade desnecessária ao organismo. Isso se deve a um uso indiscriminado de medicações que não foram prescritas por um médico.

      Mas o que isso tem a ver com a administração de conflitos? As organizações, como um tecido humano vivo, têm a suas próprias dinâmicas e mecanismos e eles devem ser analisados. Os trabalhadores seriam, nessa analogia, como células, órgãos, tecidos desse todo maior que têm as suas próprias interações, e soluções sem o intermédio constante do líder. No lado oposto ao de fechar os olhos aos conflitos, por uma necessidade de comando e controle (do líder), ele pode pensar ser necessário sempre intervir em qualquer impasse do grupo. Isso toxica a equipe. Isso vai desgastando um time. É interessante – e esperado – que uma equipe também seja solucionadora das suas próprias demandas; é quando os colaboradores se atritam entre si e eles mesmos ali vão se resolvendo. E a equipe é capaz promover isso. Desse modo então, é importante que o gestor conheça muito bem cada um e assim como um médico que vai observando a evolução do paciente, o líder saberá quando é hora de pontualmente intervier no gerenciamento desse conflito e trazer as questões dos envolvidos – muitas vezes inconscientes – à luz. Aqui entra uma poderosa ferramenta da Psicanálise: A Fala! Nesse momento o líder precisa agir com conhecimento, sabedoria e maestria.

      Salvo quando o colaborador tem algum transtorno de personalidade, como a psicopatia por exemplo, onde existe aí uma perversidade consciente e objetiva – o que nesse caso também é a esmagadora minoria (graças a Deus!) –, os colaboradores não conflitam porque querem. Os impasses e atritos são naturais mesmo das relações interpessoais – e nem sempre conscientes. Grava isso: na maior parte das vezes – para não dizer sempre – a origem dos conflitos é mais básica e simples do que se imagina, tem a ver com uma necessidade primitiva (íntima para cada um) que não está sendo acolhida ou ameaçada. É um mecanismo interno de sobrevivência muito atrelado ao medo e à insegurança. Uma sensação primitiva (registrada lá na infância), como por exemplo: medo de ser rejeitado; abandonado; manipulado; humilhado; traído. Assim, quando o colaborador, por algum motivo ali no dia a dia de trabalho, tem contato com essa dor primordial, seja pelo ambiente, pela interação com um outro colega ou por uma situação específica que dispara o gatilho (o faz ressentir essa dor), logo ele reagirá se defendendo – até inconscientemente.

      Aqui imagino que o líder que está lendo esse texto agora esteja pensando assim: “Mas como eu vou saber isso?! Eu não sou psiquiatra, psicólogo ou psicanalista!!”. Você tem razão, você não tem que saber tudo isso. Mas se quiser ser um (bom) líder, você tem que ter ou desenvolver, pelo menos, as seguintes competências:

  • AUTOCONHECIMENTO: para conhecer minimamente o seu liderado, precisa saber o que é seu, ou seja, se conhecer primeiro. Isso garantirá menos ruídos nas suas análises do outro;

  • INTELIGÊNCIA EMOCIONAL: em todas as situações você precisa desenvolver a capacidade de dar respostas assertivas ao invés de ter reações instintivas, controlando assim seus impulsos primários (raiva, ódio, ciúme, inveja etc) sempre se fazendo a pergunta “Qual a melhor forma de eu responder a essa situação?”. Isso fará com que seja visto como alguém prudente, até sábio;

  • EMPATIA: ter o genuíno interesse em descobrir o que se passa com o seu liderado, ouvindo-o e tentando imaginar o que ele poderia estar sentindo, sempre se questionando “E se isso acontecesse comigo?”. Isso fará com que se mostre humilde, humano e verdadeiramente interessado.

Vale também lembrar que:

  1. Está lidando com pessoas que assim como você têm necessidades próprias, e elas são diferentes das suas;
  2. Existem forças que imperam em nossos comportamentos que nem sempre estamos conscientes disso. Então, ao invés de rapidamente julgar o comportamento conflituoso de alguns colaboradores, procure analisar o que estaria por trás desse comportamento, quais possíveis necessidades estariam sendo negligenciadas e trabalhe a resolução do conflito nessa direção.

      Isso significa que deve ser posto um divã e fazer análise com os colaboradores na empresa? A resposta é não. A empresa não é o lugar para isso. Mas nunca se deve abafar conflitos que nela existem, ainda mais quando eles já demonstraram que não se resolverão sozinhos. Como já vimos, nessa situação um conflito tem potencial para se agravar e se complicar ainda mais. O que se propõem aqui então é a Arte da Escutatória. Típico da Psicanálise. Trazer a fala. Trazer o diálogo. Fazer as partes ouvirem a si mesmas e com isso enxergarem quais necessidades não estão sendo respeitadas.

      Exemplo: Conflito de A com B. Um bom líder traria ambos para uma conversa. Traria o conflito persistente por ele observado. Em seguida tentaria demostrar a B como ele (o líder) acredita (assistindo o conflito de fora) que A esteja se sentindo. E isso poderia justificar suas ações. Em seguida fazer o mesmo com A.

      Qual é a grande sacada disso? 1 – o líder tem uma visão privilegiada de fora e pode através da sua posição dizer seguramente o que acredita estar vendo, solicitar que o corrijam se estiver errado e analisar junto das partes como acredita que elas estejam se sentindo, no intuito de sensibiliza-las; 2 – ao fazer com que cada parte se ouça e perceba da outra quais necessidades íntimas não estão sendo atendidas, “justificaria” aquele comportamento, abrindo um canal propício ao entendimento; 3 – uma vez que as partes estão se enxergando mais humildes, humanas e agora estão abertas ao diálogo fica mais fácil a partir daí surgir uma boa resolução ao conflito. Isso tende a aumentar a empatia no grupo, o respeito pela própria liderança e o incentivo por soluções que passem pelo diálogo.

domingo, 26 de julho de 2020

A Gestão de Pessoas no divã


     O ambiente organizacional é composto por pessoas e suas relações interpessoais. A psicologia organizacional é uma especialização da Psicologia que estuda, dentre outras coisas, os fenômenos psicológicos que se manifestam no ambiente de trabalho, ou seja, os comportamentos. Onde há relações humanas existe a possibilidade de se observar a ocorrência de diversos mecanismos e dinâmicas, como por exemplo os mecanismos de defesa, e um em particular será o objeto dessa postagem de hoje: a projeção.

      A projeção é um mecanismo de defesa descrito por Sigmund Freud através da Psicanálise, uma linha que caminha paralela à Psicologia e que embora em muitos momentos bebam ali da mesma fonte (a psiquê), tem essencialmente objetos de estudo diferentes. A grosso modo, enquanto a Psicologia estuda o consciente e o comportamento manifesto, a Psicanálise se debruça sobre o inconsciente. E a projeção é um mecanismo de defesa inconsciente. Aqui duas coisas já são possíveis de se observar então: 1 – a palavra “defesa”; 2 – a palavra “inconsciente”. A projeção então é um mecanismo que todas as pessoas produzem (todas!), sem se dar conta disso, e por uma única razão que é a de proteção de entrar em contato com conteúdos próprios que foram recalcados por serem indesejáveis, inaceitáveis, de difícil lidar, dolorosos etc. É importante também destacar que quanto mais um indivíduo se autoconhece, se analisa e busca refletir sobre seus medos, suas motivações e seus desejos mais íntimos, menos tende a projetar isso para fora, assim como quando ocorre, mais rapidamente ele pode ter consciência disso.

      Aqui vou trazer meu exemplo pessoal. Tive uma infância e uma adolescência muito difíceis em relação ao meu relacionamento com o meu pai. Imagino que neste momento algumas pessoas aqui lendo esse texto já começam a torcer o nariz pensando assim: “Lá vem essa história de falar da infância...”

      Preciso pontuar que, sim, quando se fala em Psicanálise é necessário esse voltar. Por quê? Para a Psicanálise, a formação do indivíduo se dá nos primeiros anos de sua vida através das relações com os primeiros cuidadores. Você já deve estar pensando: "E isso nunca muda?!" Bem, atualmente, através de estudos recentes de Neurociência, especificamente sobre neurogênese (geração de novos neurônios), neuroplasticidade, caminhos neuronais diferentes criados por mudanças conscientes e persistentes de novos hábitos e estilos de vida, sim é possível mudar! Contudo, faço um adendo aqui: algumas coisas nunca vão mudar. Um exemplo básico disso: extroversão e introversão. Eu sou introvertido. Se me pedirem para dar uma palestra, para ir a um evento e fazer networking, ministrar aulas, estar com um grupo de pessoas conversando e interagindo, posso fazer tudo isso, mas depois vou me recarregar num canto, sozinho, fazendo atividades solitárias, como ler, assistir um documentário, correr, ouvir música, refletir ou meditar. A palavra crucial aqui é recarregar. O introvertido se desgasta através do contato com as pessoas e ele se recarrega sozinho. O extrovertido é o contrário, ele se desgasta ficando sozinho e se recarrega no contato com as pessoas. Um pode se tornar o outro definitivamente? A ampla literatura científica em Psicologia responde não. É o mesmo com a orientação sexual. Existe por exemplo “ex-gay”? A resposta é não. Impossível isso. Então, para concluir essa parte: tem aspectos da nossa personalidade que podemos mudar; tem aspectos da nossa personalidade que poderíamos melhorar; e tem aspectos da nossa personalidade que nunca mudarão.

      Voltando à minha infância... Eu amava meu pai, o via como um super-herói mesmo. Ele era muito forte psicologicamente, fisicamente também. E crítico. Muito crítico. Ele pegava no meu pé para estudar, ele dava bastante importância aos meus estudos. De presentes dele eu ganhava livros, revistas, ele acompanhava minhas tarefas de casa. Ele fazia questão de ir às reuniões de pais e mestres. Eu apanhava se tirasse alguma nota vermelha. Não consigo me lembrar se eu já gostava de estudos na infância, se isso então era algo natural – veio comigo, ou se acabei desenvolvendo através do medo que tinha dele e também da vontade que tinha dele me admirar. Estava sempre tentando comprar o seu apreço sendo um menino prodígio. Pois bem, essa é uma parte da história. A outra é aquela que me oponho a tudo isso, assim que posso.

     Mesmo quando criança tinha coisas na minha educação que eu não concordava. Meus pais diziam que eu tinha um gênio muito forte. Minha mãe até hoje brinca que quando nasci, na hora do parto, o médico dava aqueles tapinhas e nada, nada, chegou uma hora que o médico se cansou e disse: “Mãe, esse menino vai ser ruim, hein! Olha! Ele não chora!”. Eu me lembro de certa vez na infância que meu pai estava me batendo, até que em num dado momento ele grita comigo: “Por que você não chora?!”. Olhei bem nos seus olhos e respondi: “Porque eu sei que é isso o que você quer!” Aí ele parou. Enquanto criança contive o impulso de me opôr a ele, na adolescência eu já não aguentei mais. Por volta ali dos meus quatorze anos passei a enfrentá-lo fortemente e nessa época tivemos umas brigas terríveis mesmo.

      O que eu quero dizer com essa minha história? Note aqui duas coisas: 1 – os conteúdos carregados de fortes emoções; 2 – a minha relação com os cuidadores na infância e na adolescência. O que isso significa? É nesse período que uma série de características psicológicas e comportamentais estão se formando e as experiências vividas nessa fase, especialmente aquelas marcadas por fortes emoções, criam o que Freud chamou de traumas e que são fundantes do indivíduo. Estruturantes. O que quero dizer? Criou-se aqui no meu caso uma estrutura: *figura de autoridade x oposição. E ela se reverberou em outras esferas mais tarde na minha vida nas mais diversas figuras de poder; fosse nas salas de aula com alguns professores, nas empresas com alguns chefes, na vida em geral com qualquer pessoa hierarquicamente superior a mim em determinada circunstância ou situação. E isso tende a sempre ser assim, pois uma hora ou outra faço o quê: *projeto fora de mim essa dinâmica.

      Voltando então agora ao mundo do trabalho... É comum em algum momento eu projetar essa dinâmica em algum chefe ou algum colega mais controlador, me pôr numa postura de oposição e, inconscientemente, partir para o contra-ataque (contra-ataque, porque imagino ter sido atacado primeiro). Quantas vezes, de repente, não me peguei brigando?! Só que hoje tenho bem mais consciência desse mecanismo de defesa, isso se trata de uma projeção da minha infância. E na verdade nem estou me opondo à pessoa de fato, estou me opondo ao meu pai projetado na pessoa. Por eu ter recalcada uma sensação de impotência e não querer ter contato com essa sensação de me sentir comandado à força, meu psiquismo precisa projetar isso para fora de mim, para eu criar todo um cenário que só vai reafirmar depois, para mim mesmo, que eu sou livre. Mas imagina o desgaste disso... O prejuízo nas relações interpessoais. E eu só trouxe um exemplo, de um dos mecanismos. E logicamente que venho me analisando desde então e me atentando a tudo isso. E é exatamente isso o que proponho que cada um faça.

      A Psicanálise então tem essa proposta base, a de autoconhecimento. Basicamente é trazer para a consciência conteúdos do inconsciente que foram originados lá atrás, recalcados e hoje causam alguma disfuncionalidade na vida do sujeito. Isso vai cura-lo? Não. Psicanálise não fala em cura. Isso vai mudar sua estrutura então? Não também. Uma autoanálise ou uma análise é como jogar luz sobre um cômodo escuro. Você não muda a disposição dos móveis, nem o layout desse cômodo, mas havendo iluminação no ambiente que antes estava escuro, pelo menos, passará agora a enxergar a localização das coisas e não ficará sempre esbarrando nos mesmos móveis. Assim quando enxergar alguma sombra, saberá qual móvel exatamente está projetando essa figura.

      O que eu recomendo para você que está lendo essa postagem? Em primeiro lugar, essa postagem é para você se analisar, esqueça de observar o comportamento do outro e tentar mudá-lo. Preste atenção se você não está constantemente projetando conteúdos que são seus nos seus colegas de trabalho. Vejo muito isso acontecer no dia a dia. E isso vai minando as relações profissionais. É natural que aconteçam as projeções, todos nós projetamos em maior ou menor grau, porque estamos lidando com pessoas, mas a medida do possível precisamos trazer para o consciente os nossos comportamentos. E não resolve você apontar ou dizer quando alguém está projetando, porque é a própria pessoa quem precisa ter essa autopercepção, mas se ela não estiver aberta a isso não vai adiantar. Foque então em você, nas suas relações e nos seus comportamentos e pense o que você pode fazer para melhorar.

      Preste atenção em quais são as suas queixas corriqueiras no ambiente organizacional. Um líder que tem na equipe por exemplo um colaborador que ele fica de marcação e sempre aquele colaborador chama sua atenção, poderia se fazer as seguintes perguntas. Por que sempre ele? Por que será que isso, nele, sempre me chama a atenção? O que isso poderia dizer sobre mim? Trazer a reflexão para si. Se você tem um colega de trabalho que nunca te fez absolutamente nada, mas você não gosta dele, você tem implicância com o comportamento dessa pessoa ou você evita de falar com ela, pergunte a si mesmo o porquê disso tudo. Uma boa forma de obter autoconhecimento e autodesenvolvimento, não apenas profissional, mas também pessoal é estar sempre se analisando, se fazendo perguntas, buscando entender a origem das questões, inquietações, seja no trabalho ou fora dele.

domingo, 19 de julho de 2020

O sucesso no trabalho


     Desde muito cedo, as crianças ouvem dos adultos: “O que você vai ser quando crescer?”. Todos já passaram por essa experiencia em algum momento. A criança internaliza essa pergunta, passa a refletir sobre ela e com isso vem logo um outro questionamento: “O que me fará feliz fazer quando eu crescer?”. Está associando então trabalho + felicidade. A medida que crescem, as crianças rapidamente percebem o valor do dinheiro na sociedade, fazendo assim com que não demore muito a entrar na reflexão esse outro elemento: “Mas será que isso vai me trazer sucesso financeiro?”. A equação então está montada: felicidade + trabalho + dinheiro = sucesso. Será mesmo? O que para alguns isso parece muito simples, há quem leve uma vida inteira sem nunca encontrar. Isso traz ansiedade. Angústia. E muitas frustrações no caminho.

     Certa vez fui convidado para dar uma palestra numa faculdade sendo apresentado como um “case de sucesso” – esse era o tema da palestra. Três palestrantes naquela noite (contando comigo), deveriam dividir um pouco de suas histórias pessoais com foco profissional e na carreira. As outras duas palestrantes eram professoras minhas de um curso de pós-graduação que eu havia feito naquela faculdade inclusive. O objetivo então era trazer mais alunos aos cursos dessa instituição, através do exemplo de nossas vivências profissionais. De primeiro momento, quando fui convidado, pensei logo em recusar assim que ouvi o tema “cases de sucesso”. Não tenho problema algum com isso, sou muito bem resolvido profissionalmente e com a minha carreira até aqui – ainda mais partindo de onde eu parti... Mas num primeiro momento quis sim recuar, só não o fiz pelo respeito e carinho que tenho pela pessoa que me convidou. No entanto, é importante ressaltar também que eu não queria aceitar por acreditar que eu pudesse causar algum constrangimento em algumas pessoas ali presentes, pela visão que tenho de sucesso.

     A condição sine qua non para sucesso no trabalho não é felicidade, tampouco dinheiro. Até o significado dessas duas palavras, sucesso e felicidade, deveria ser repensado, ainda mais no contexto profissional. E comecei a palestra com essa provocação: “O que é sucesso? E sucesso para quem: a sua família; aos seus amigos; à sociedade; ou a você? Qual é a sua ideia de sucesso no trabalho? Isso sustentará a sua vida, em todo sentido?”.

     Diferente de outras décadas, hoje já se sabe que uma pessoa terá ao longo da vida não uma, mas diversas carreiras profissionais, que às vezes poderão nem se comunicar entre si. Sujeito faz Direito e atua por anos, de repente cria um canal com conteúdo diferente e se torna youtuber. Um contador cria uma banda e passa a viver de música. Exemplos não faltariam, isso é visto facilmente no dia a dia. E muitas vezes uma pessoa consegue até trilhar paralelamente mais de uma carreira profissional ao mesmo tempo e em todas atinge igualmente sucesso.

     Sucesso não é ser feliz indefinidamente no trabalho. Isso não existe nem na vida. Assim como a vida, muitas vezes o trabalho é também fonte de estresse, dificuldade, desafio e isso faz parte do pacote! Na hora que pensar numa profissão, não tenha como meta “A Felicidade”, porque isso é uma grande armadilha que todos tentam vender e muita gente compra. O casamento dos sonhos; a família dos sonhos; o trabalho dos sonhos. Uma vida feliz... Mas já se sabe que isso não se sustenta a longo prazo, não sem um efeito colateral altíssimo que é sua total alienação, então nem tenta, porque você como todos, vai falhar nessa direção. Fique tranquilo, é garantido que você não precisa do “emprego dos sonhos” para viver bem, só de não idealizar algo já é meio caminho andado.

     Não procure também por sucesso ao fazer uma carreira, pois o sucesso é uma consequência natural que certamente virá se prestar atenção a outros fatores. Quais então?

     O sucesso no trabalho está ligado a fatores como Motivação, Domínio, Autonomia, Propósito e Resultado.

     A matemática aqui é bem simples. Para ter sucesso no trabalho (seja ele qual for), você precisará alcançar bons resultados nessa tarefa. Você atinge bons resultados naquilo que se propõe a fazer estando motivado. E na Administração, especificamente em Gestão de Pessoas, a boa motivação no trabalho vem desses três fatores: domínio, autonomia e propósito. Você precisa ter domínio sobre a tarefa a ser executada (ou seja, você tem que saber fazê-la), você precisa ter autonomia para executa-la (ou seja, ter uma mínima liberdade para colocar em prática seus conhecimentos e técnicas, sempre com responsabilidade) e por fim, não menos importante, essa tarefa precisa fazer sentido para você (ou seja, você deve entender que fazê-la contribui diretamente para um propósito maior, íntimo e caro para você). Motivado, sabendo o que se faz, tendo liberdade para realizar e vendo qualquer tarefa como parte de um propósito maior, o resultado esperado vem. E o constante alcance de resultados esperados coroará com sucesso seu trabalho.

     Antes de tudo isso, você deve primeiramente responder a si mesmo uma das minhas provocações à platéia. “O sucesso é para quem?”. A resposta para essa pergunta só pode ser uma, se você busca uma vida minimamente digna e saudável a longo prazo. Você! O sucesso é para você. A opinião, o parecer, o desejo da sua família, dos seus amigos, da sociedade pode sim ter algum peso, é importante você ouvi-los e compreender as expectativas alheias, mas a decisão final é sua e deverá seguir os seus valores ouvindo seu próprio coração. Isso não pode ser terceirizado! E isso vale para trabalho, para vida, para tudo. Então, para estabelecer um primeiro passo a ser dado rumo ao sucesso no trabalho: Autoconhecimento. Identifique consigo mesmo quais são seus valores pessoais, gostos, talentos e sonhos. A partir dessa reflexão íntima, escolha seu caminho. Aí então é só seguir o passo a passo acima que o sucesso no trabalho mais cedo ou mais tarde chegará. Confie. Nesse trajeto você até pode ter alguma dificuldade para definir o “como”, mas uma vez que já identificou “o que” e "o porquê", o "quando” é só uma questão de tempo. Não desista.

sábado, 27 de junho de 2020

Orientações para uma vida


     Quanto mais o tempo passa e mais experiência de vida ganho, percebo coisas que levamos muito tempo para assimilar, para a “ficha cair”, que é saber identificar e depois nos alinhar com o que, de fato, importa; com o que, de fato, nos traz alegria, sentido de vida; com o que realmente nos é necessário para uma vida minimamente digna e saudável. Acho espantoso, preocupante até, como desconhecemos essas questões, como somos ensinados a enxergar tudo, menos a nós mesmos. Consideramos desde sempre a opinião de todos, menos a nossa. Seguimos uma vida a margem de nós mesmos, nos perdendo completamente de perspectiva muitas vezes; gastamos tempo e energia perseguindo objetivos alheios. Isso me assusta, já que é muito fácil entrarmos nesse automatismo e uma vida vai embora. Em que momento nos daremos conta de que o relógio está passando?

     Algumas vezes na minha vida me peguei batalhando ferrenhamente por coisas e indo por determinados caminhos que num dado momento consegui parar, consegui me enxergar ali no meio daquela confusão e me perguntar: “Por que estou fazendo isso? É para mim mesmo? É isso mesmo o que busco? Continuar nessa direção valerá realmente a pena?”. Quando as respostas não vieram rapidamente, me soou um alerta – não sabia pelo que estava batalhando! É preocupante seguir vivendo uma vida sem nos nortear por algo de valor, um código moral sólido. Tudo bem que a vida não nos dá garantias, viver é um movimento de risco, mas também é imprudente, improdutivo e infeliz fazermos escolhas sem nenhuma reflexão. E escolhemos todos os dias. Quais batalhas queremos travar? O que para nós é inegociável? O que não estamos dispostos a abrir mão e que, por isso, valeria a pena uma vida? Esse tipo de indagação é importantíssima! Ao longo da minha vida venho descobrindo, me descobrindo, que existe um mínimo de nós mesmos que é essencial, inegociável e tudo deve derivar dele, apontar para ele. Esse mínimo são os nossos valores. Os valores pessoais.

     Como o próprio nome diz são alvos individuais. Demandas íntimas. Itens de primeira grandeza. Os nossos valores precisam ser tão logo quanto possível identificados e serem reforçados e atualizados constantemente para balizar as decisões e os caminhos que no fim nos levarão até eles de alguma forma. Valores pessoais são os fins e os meios. É a nossa bússola maior. Toda vez que nos distanciamos dos nossos valores encontramos dor e sofrimento. No entanto, quanto mais nos aproximamos deles ao longo da vida, nos sentimos mais plenos e confortáveis com as nossas escolhas. E mesmo em momentos de dor, se sabemos reconhecer e não perdemos de vista nossos valores, mesmo encontrando dificuldades no caminho somos capazes de dar sentido a isso e seguir em frente, porque há um propósito maior nessa direção.

     Não sei muito sobre a vida, não passei por todas as experiências, então não tenho a pretensão de ditar regras de como você deve viver a sua vida, porque não existe uma receita certa, porém para a minha conheço os ingredientes. E posso garantir que os ingredientes para a sua receita são os seus valores pessoais. Quando nos afinamos com eles percebemos que a vida é muito mais do que coisas materiais e dificuldades momentâneas. Damos muito mais valor ao que somos do que ao que possuímos; damos muito menos importância aquilo que não agrega ao que estamos buscando. Sentimos mais plenitude, porque existe congruência e consonância entre mente, corpo e espírito.

     Saiba o que na sua vida você não abre mão e quando tiver dúvida, pergunte a si mesmo: “Esse caminho me aproxima disso?”. Se te aproxima, continue. Se te afasta, abandone. Não negocie – não, por muito tempo. Recalibre sua bússola interna de tempos em tempos. Redirecione a rota sempre que necessário. Aos poucos perceberá que tudo o que precisa para uma vida plena e digna obterá com bem menos do que acredita e está mais ao alcance do que imagina. Atravessará crises a fio intacto. Sofrerá batalhas invicto. Aceitará até a morte se preciso, convicto de que sempre ouviu o seu próprio coração.


sábado, 23 de maio de 2020

TRATAMENTO DE CHOQUE

     Era bem criança, devia ter não mais do que cinco ou seis anos de idade, quando tomei meu primeiro choque elétrico. Meu pai vivia me alertando para não tocar nas tomadas de energia. Ele tirava todos os objetos pontiagudos de perto de mim e me explicava do perigo de choques elétricos, mas apesar de entender o alerta, sempre fui bastante curioso – e teimoso, então quando ele se descuidava estava eu lá, com uma faca ou um garfo nas mãos tentando enfiar nos buraquinhos da tomada. Numa bela tarde me lembro de ter encontrado no quintal um pedaço de fio e comecei a brincar com aquilo. Pouco tempo depois estava tentando enfia-lo em alguma tomada. De repente olhei para trás e reparei que de longe meu pai me observava. Sabia que ele poderia me repreender a qualquer momento, mas desta vez não o fez. E eu já tinha desenvolvido um estranho prazer em desafia-lo. Num instante, me lembro de um clarão muito forte seguido de um estalo que me jogou de costas ao chão. Estava tão assustado que mal reunia forças para chorar. Emudeci, estava em choque. Algo dentro de mim soube naquele instante o perigo do que tinha feito e o enorme risco que corri. Abri os olhos e a primeira coisa que vi foi uma enorme cabeça me olhando, era o meu pai com um sorriso sádico me falando "vai lá, filho! Põe o fiozinho na tomadinha de novo". Olhei para o lado e vi minha mãe correndo em nossa direção totalmente espantada.

     Em outra situação, ainda era bem criança, estava brincando atrás de casa, quando me deparei com uma bola estranha pendurada cheia de mosquitos voando ao seu redor. Achei engraçado aquilo, porque cutucava e os mosquitos saiam voando rápido. Não é necessário dizer do que se tratava, nem o quanto meu pai me falava para parar com isso. Mas era só ele virar as costas estava fuçando novamente. Apesar de toda vez entender os alertas de perigo, eu achava que tinha que fazer todas as coisas do meu jeito. Então, uma hora meu pai se cansou, pegou um dos “mosquitos” e me deu para brincar. Pouco tempo depois senti uma ferroada tão forte que me fez um vermelhão enorme no braço, acho que era alérgico. Naquele dia tive muita febre, sentia até calafrios. E como chorava. Me lembro de minha mãe gritando com ele, “você é louco! Você ainda vai matar essas crianças!”. E meu pai só rebatia, ”agora ele aprende.”

     Assim era o meu pai. Assim eram os seus ensinamentos que mais pareciam “tratamentos de choque”. E é melhor eu nem comentar a forma que ele me ensinou a nadar, para não chocar ainda mais... Por mais duvidável que possa parecer isso, ele era um excelente pai. Era coruja, não dormia enquanto não chegássemos à noite. Brincava sempre conosco. Era muito presente. Sempre maternal, gostava muito de nos abraçar. Ele era general, mas também curtia esse papel de cuidador (leia-se aqui controlador). Estava sempre por perto nos ensinando algo. Mas percebo hoje também que meu pai foi um homem muito forte e sábio, porque embora quisesse sempre o nosso bem, chegava um determinado momento em que ele nos soltava. Nesse instante ele só nos assistia pagar pra ver. Mesmo sendo muito controlador, depois de muito tentar nos conscientizar sobre alguma coisa, tentar nos orientar de perigos, riscos ou consequências de um caminho ou escolha que fazíamos, ele nos dava as rédeas e nos deixava, literalmente, quebrar a cara! Quando criança o achava sádico e louco, porque nos ensinava através da dor, do choque, sempre do pior jeito... Mas hoje sei que não era bem assim... Nós éramos demasiadamente teimosos e desafiadores e meu pai simplesmente deixava a cabo da vida nos ensinar, talvez através da dor, o que nos recusávamos a compreender da melhor forma. Isso também doía nele. Mas era preciso. E demorei anos para compreender isso.

     Como o fruto nunca cai muito longe do pé, sou uma cópia do meu pai. Sou muito crítico e controlador. Eu queria ser diferente, mas acredito que cada ser humano vem para desenvolver suas limitações, para transcender o seu ego. Hoje, às vésperas de completar 32 anos, ter esse blog há 12 anos e já ter vivido tantas experiências, sinto a cada dia mais que meu sentido é exatamente o oposto. Hoje sei que meu desafio é compreender, ao invés de apenas criticar. É acolher, ao invés de apenas julgar. É desenvolver humanidade e compaixão, ao invés de criticismo e perfeccionismo.

     Ouvia muito no passado o quanto era crítico, controlador, até moralista, mas eu não tinha consciência disso. Esse comportamento era automático, eu fazia sem me dar conta. De tanto as pessoas me trazerem esse feedback do meu comportamento, passei a me analisar. Foi então que percebi que de fato era assim e me comprometi comigo mesmo a me tornar uma pessoa diferente. Hoje sei também que quanto mais apreço tenho por uma pessoa, mais vou critica-la ou de certa forma tentar controla-la através das críticas. Não que eu ache de todo ruim ser crítico, mas sinto que meu desafio é desenvolver a aceitação. Quando pedimos ao universo por algo, ele nos traz o oposto justamente para termos a oportunidade de desenvolver. Em outras palavras, quando pedimos a Deus um determinado fruto, Ele nos dará as sementes, as ferramentas e um solo fértil com a certeza do crescimento, mas o plantio e cuidado no processo cabe a nós. Não recebemos diretamente o que é pedido, mas ganhamos as condições para se chegar até lá. Quando cheguei nesse nível de entendimento, cheguei à conclusão de que na minha vida me depararia com situações para analisar, apurar, criticar, avaliar, julgar, para através disso poder alcançar outros verbos, como entender, acolher, aceitar, compadecer, solidarizar.

     Posso garantir que já não critico, nem julgo como já fiz um dia. Mas hoje meu desafio ganhou outro estágio. Estou tendo dificuldades, eu sei, mas me sinto feliz por ter a consciência e a oportunidade de lutar por essa melhoria – chegarei lá! O passo agora é não me ressentir. E meu corpo vem me sinalizando isso... De alguns anos para cá venho reparando que vira e mexe sinto dor de garganta. Vou ao médico e o diagnóstico quase sempre: faringite. O engraçado é que meu sistema imune é bom. Tenho uma alimentação balanceada, faço exercícios físicos regularmente, durmo bem, medito e meus exames estão bons, inclusive de vitaminas e minerais. Só que um dia uma pessoa me falou algo que já vinha suspeitando e acendeu uma luz amarela! “A sua garganta é emocional, você está com algo que quer dizer entalado e como isso te incomoda muito e você não externa, você somatiza. É a forma de seu corpo demonstrar isso. Quando você elaborar esse sentimento ou pôr para fora, ela vai parar com isso.”

     É isso mesmo. Eu vejo, ouço ou constato coisas que não concordo e gostaria de me expressar, mas não vou fazê-lo. Muitas vezes observo pessoas próximas a mim tomando determinadas decisões ou indo – ou deixando de ir, a determinados caminhos e não acho certo. Por 'n' razões. Às vezes por questões de ética, de princípios, por questão humana! Coisas que não se faz, que prejudicarão a própria pessoa ou pior, quando prejudicará outras pessoas que estão implicadas na decisão. Essa mistura de inconformismo com uma vontade sufocada, silenciada, de falar abertamente o que penso, me gera raiva. Como dizia os mais antigos, “tenho que engolir o boi com chifre e tudo”. É quando estou numa situação que não posso mais intervir por vários motivos; porque não há abertura genuína da outra parte; porque já cansei de bater na mesma tecla; porque não quero terminar novamente parecendo o dono da razão; porque acredito que a pessoa precisa enxergar uma situação por si mesma. É difícil aceitar, mas todos têm o direito ao erro. E chega um determinado momento em que é preciso, assim como o meu pai fazia comigo, deixar a pessoa quebrar a cara! Porque o melhor que pode ser feito neste momento é deixar a pessoa pagar para ver. Não cabe mais opinião, nem crítica, pois em nada vai agregar a alguém já decidido a fazer a sua própria vontade. E não é omissão. É aceitação. Resignação. É dar o direito do outro de rumar ao penhasco e cair, porque só quando bater no chão e doer pra valer é que essa pessoa, talvez, acordará pra si ou para uma determinada situação em sua vida. Não tem mais o que fazer. Parafraseando Freud, quando a dor de ser como é for maior do que mudar, aí a pessoa muda. Então vai ter que doer muito, não vai ter outro jeito.

     O que posso fazer agora é o que está ao meu alcance. Lidar com aquilo que está ficando entalado na minha garganta. Se já aprendi que não vai resolver externar a critica e que meu desafio aqui é alcançar a aceitação do outro, preciso harmonizar esses sentimentos dentro de mim. A meta agora é comigo. O trabalho é interno. Quero sinceramente chegar a um ponto na minha vida em que de fato eu aceite o outro como é. Sem critica-lo e sem me ressentir por isso. Olhar para as pessoas com o máximo de neutralidade possível perante as suas decisões pessoais, entendendo que não cabe raiva, dor, pena, tampouco culpa. Quero elaborar essa raiva que fica quando me sinto inconformado com determinadas pessoas e situações que não posso modificar. Aquilo que está no meu controle e posso modificar preciso tentar, é até um exercício de cidadania isso. Porém, aquilo que não cabe mais a mim, que foge do meu controle e que diz somente respeito ao outro, quero ter a genuína aceitação desse direito da pessoa de fazer o que ela acha melhor para si ou a sua vida.

     Esse post é para dizer o seguinte. Acredito sinceramente que estamos nesta vida para elevarmos nossa consciência, essa é a Pedra Filosofal, a verdadeira missão do alquimista. Lapidar a si mesmo. Sair de um estado inferior de consciência e aos poucos alcançando maiores níveis. Para ser melhor do que os outros? Jamais. Para ser melhor do que a si mesmo, e acima de tudo, para se tornar um Humano, em toda a sacralidade da palavra. E acredito que o Universo nos concederá incontáveis vidas para chegarmos lá. Quero aceitar que cada um de nós tem o seu tempo de aprendizado, o seu nível de consciência, nosso desafio é evoluir e posso ser um colaborador nesse processo ao invés do julgador. Sem qualquer ressentimento, nem raiva, quero ser capaz de ter os olhos de um pai, que ao ver o filho errando sabe que ele é só uma criança. E ele estará ali quando ela acordar.


“Senhor, dai-me força para mudar o que pode ser mudado... Resignação para aceitar o que não pode ser mudado... E sabedoria para distinguir uma coisa da outra.”
São Francisco de Assis

quarta-feira, 4 de março de 2020

M @' S C @ R @ S



“Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.” (Jung)


       É muito significativo para mim, quando diante de alguém posso perceber, posso sentir essa pessoa como de fato ela é. Sem títulos. Slogans. Sem credenciais. Sem nenhum rótulo, personagem ou encenação. Apenas pessoas que se apresentam naquele momento como são. Em estado puro, natural. Para mim é tão importante isso que sempre que possível procuro me exercer dessa maneira no contato com as pessoas. Mas é ainda mais importante para mim, quando alguém para o meu espanto ou minha surpresa me faz esse tipo de movimento VOLUNTARIAMENTE. Quando sem ter feito qualquer exigência à pessoa ou crítica nem julgamento, desperto nela a confiança necessária para se desnudar em minha frente; para fazê-la levar as mãos ao próprio rosto e espontaneamente baixar sua máscara. Nesse instante vou conhecer essa pessoa como de fato é, e ela a mim. E nos reconheceremos como essencialmente somos: humanos. Somos humanos... Nesse instante se abre um momento mágico para mim. Um momento terapêutico. Balsâmico. Um espaço profundamente enriquecedor às partes que as levarão a sair dali com algo genuíno para sempre de cada um. Para mim é impossível viver uma vida sem ter em algum momento com alguém um encontro assim. E uma vida quanto mais rica mais composta por encontros dessa natureza, dessa magnitude; onde e quando podemos nos dizer que estamos inteiros. Íntegros no contato com o outro. Mas isso demanda confiança, uma aliança que só vem com o tempo e em raras ocasiões surgirá do inesperado.

       Nós temos aqui em casa uma cadelinha que já tem seus doze anos, a Dudu. Dudu veio até nós filhotinha. Pequena. Frágil. Tinha tanto medo das pessoas e em especial de mim. Era me aproximar que ela já ficava tensa. Arisca. Se me atrevesse a pega-la no colo não pararia um minuto de tremer. Era receosa e não parecia confiar em minha natureza. E assim foi por um bom tempo. Dudu ia com todo mundo na casa, estranhamente até com desconhecidos, mas era eu chegar perto: tensão. Havia uma cisma, mesmo eu nunca tendo lhe feito absolutamente nada de mal. Não forcei o encontro, respeitei sua natureza e lhe dei espaço. Deixei ao tempo. Se eu fosse comer algo sabia que ela se aproximaria para quem sabe ganhar um pedacinho; contudo logo que ganhava saia de perto. Pensava comigo "vai ser no seu tempo”. Um dia fui trabalhar e havia deixado uma jaqueta minha na cadeira do computador no meu quarto. Minha mãe começou a ouvir um barulho na casa, foi averiguar, era a Dudu cheirando minha jaqueta e fazendo sons como se choramingando sentindo minha falta. Ao saber disso fui rapidamente tentar carrega-la... Senti que ainda não havia franca abertura. Dei tempo... Um belo dia simplesmente estou no sofá assistindo TV, não estava comendo nada, de repente a Dudu pulou sobre mim, ficou alguns segundos me observando e deitou no meu colo. Num movimento inesperado – e muito significativo para mim – virou-se com a barriga para cima para ser acariciada. Brinquei com ela, abracei-a e pude sentir naquele momento que ela tinha me aceito. Talvez na verdade fosse ela que sentiu que tinha sido aceita por mim. Eu nunca quisera um cachorro na casa. Mas aprendi a gostar dela. Ou talvez foi ela que me ensinou. Aceitação. Esse é o melhor caminho. Mas como aceitar quem usa máscaras? Quem não é autêntico? Autenticidade é uma exigência para você?

       Todos nós vestimos um personagem para alguém ou à uma determinada circunstância em algum momento da nossa vida. Por "n” razões. Questões profissionais; questões éticas; questões religiosas ou pessoais; até por questão de sobrevivência. E muitos de nós usam máscaras o tempo todo com todo mundo. Eu não os culpo. Aprendi a não criticar também, já que não se sabe o que uma máscara pode estar segurando ou o que um personagem está sendo capaz de sustentar na vida de alguém. Ou de uma família. Sinceramente acredito que às vezes uma pessoa precisa da fantasia que ela criou, da história que ela mesma se conta para ser capaz de viver bem dentro daquilo que ela julga ser o melhor para si. Não se pode violar esse espaço. Ainda mais com uma justificativa de "autenticidade". Autenticidade é uma decisão íntima. É de cada um. No entanto observo pessoas expondo outras com a justificativa de estarem sendo “verdadeiras”. Por "não gostarem de mentiras”; nem de “mentirosos” como amigos. A verdade é que precisamos ser mais humanos e nos desarmar um pouco. Nenhum de nós é perfeito. E graças a Deus nunca será. Se em algum momento fico diante de alguém que apresenta uma mentira, o que ganho em expôr essa pessoa? Ainda mais se for alguém que eu gosto. No que isso vai me agregar como ser humano? Muitos podem pensar que "não são obrigados a conviver com pessoas falsas; pessoas mascaradas que mentem, porque têm autenticidade!”. Ok se você é autêntico, parabéns por isso! Mas a autenticidade é uma decisão sua, que cabe dentro do seu cercado e não invade o cercado do seu vizinho. Não digo para você compactuar com mentiras, mas o grande questionamento a nos fazermos aqui é o seguinte: por que está me incomodando tanto o uso de máscara do outro? O que esse incômodo diz sobre mim?

       Por muito tempo quis me cercar só de amigos honestos e pessoas verdadeiras que não se valeriam de máscaras nem de personagens, até eu perceber que isso é uma ilusão e eu estava ficando cada vez mais sozinho. Mais cedo ou mais tarde teria que me excluir também, já que eu também uso máscaras – algumas talvez até inconscientemente. É muito fácil apontar, criticar ou fofocar sobre as máscaras do outro, mas quem encara as próprias? Será que a gente consegue se enxergar verdadeiramente? Será que a gente se reconhece usando máscaras? Acredito que 100% autêntico não existe ninguém na face da terra! E não estou caindo em contradição a respeito disso, porque autenticidade é algo que prego, busco e recomendo, já postei sobre isso aqui. Mas a autenticidade é uma prima-irmã da perfeição e assim como ela é algo que eternamente buscamos, mas nunca atingiremos completamente. E essa é uma jornada individual. Apesar de vivermos em grupo e dependermos uns dos outros, cada jornada é trilhada com nossas próprias pernas e cada um de nós sabe onde o sapato aperta! Ninguém pode julgar "porque o outro isso, porque o outro aquilo”. Isso só cabe a ele.

       Dê mais atenção, espaço e tempo para que o outro possa se mostrar a você espontaneamente. Mas você não verá nada que não possui também! Nós somos todos humanos. Nós somos irmãos feitos de uma mesma metade sagrada; de uma mesma metade barro. A única coisa que precisamos é nos reconhecer, nos identificar e nos legitimar. Olharmos uns aos outros e sentir que nos conectamos com irmandade, nos identificamos com respeito e nos aceitamos mutuamente, independente de qualquer coisa. Se o fruto nunca cai muito longe do pé, só estamos distantes uns dos outros; uns mais adiante na vida, outros logo atrás, mas somos o mesmo fruto, de um mesmo pé e terminamos no mesmo solo.


“Em algum lugar, entre o certo e o errado, existe um jardim. Encontro você lá.” (Rumi)