sábado, 9 de novembro de 2019

EU SOU NARCISISTA



narcisista
[De narciso¹ + -ista.]

Substantivo de dois gêneros

01. Pessoa que tem propensão ao narcisismo, que nutre amor excessivo a si mesmo, a sua imagem.

(Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

        Venho de um lugar onde as pessoas ao meu redor não acreditavam muito em mim. Pelo menos era assim como me sentia quase o tempo todo durante toda infância. Havia rejeições e menosprezos por toda parte. Começando dentro de casa. Meu pai foi um homem muito crítico, ainda mais comigo, pois, a seu ver, eu tinha futuro. Tinha aulas na escola e quando chegava repassava o que aprendia com ele. “O que você pode me ensinar hoje?" – me perguntava ao final de toda tarde. Sentávamos então à mesa com meus cadernos de caligrafia – porque minha letra tinha que ser bonita – e explicava a ele o que havia aprendido naquele dia, enquanto ele me interrompia questionando a falta de pingo nos i e j. Meu caderno de desenho também eram avaliado e obviamente que ele me mostraria depois como poderia melhorar aqueles meus rabiscos.

        As refeições eram servidas à mesa e era nela que sempre deveríamos comer, todos juntos, enquanto meu pai contava nossas mastigadas e o ouvíamos sempre repreendendo para não mastigarmos com a boca aberta nem fazer barulho ao comer, porque pessoas civilizadas se comportam adequadamente à mesa. Era muito criança quando tive que abandonar as colheres e aprender a usar garfos e facas. Nem preciso falar como era um martírio diário comer com aquele homem falando na minha cabeça.

        Ande direito. Fale direito. Sente direito. Escreva, desenhe, aja direito. Seja direito! Foi assim toda a minha infância e prosseguiu adolescência a fora. Aos nove anos de idade, no dia seguinte à primeira reunião de pais e mestres, me lembro de minha professora da quarta série me perguntar – na frente de toda sala – se meu pai era severo demais e me batia. Fiquei em silêncio um pouco encabulado, enquanto ela explicava o motivo do questionamento. Disse que meu pai na reunião só fazia insistentemente uma única pergunta: “Ele é o melhor da sala?”. Ela me disse que temeu lhe responder qualquer coisa diferente de sim. Embora fosse um aluno exemplar nas notas e da professora ter lhe respondido sim, não bastou ao meu pai, já que ao chegar da reunião naquele dia veio me questionar por que a aluna Carla Beatriz tinha uma nota azul a mais do que eu em seu boletim. Ele comparava o meu boletim ao dos demais alunos e nesse dia queria saber se essa menina era mais inteligente do que eu e obviamente me fez prometer a ele que no próximo bimestre a superaria nas notas – o que de fato aconteceu, mas não sempre.

        Nós podíamos brincar na rua, mas deveríamos ficar alertas caso nosso pai assobiasse. Havia um código para nós. Um assobio deveríamos ficar alertas e nos despedir de nossos amigos, pois no segundo assobio seria hora de entrar. Quando muito entretidos nas brincadeiras e não ouvíamos os assobios anteriores, no terceiro assobio já voltávamos para casa cientes que apanharíamos. Havíamos desobedecido o “toque de recolher”. Fomos educados assim, com rigor, disciplina e ordem. E isso é só a ponta de um imenso iceberg. Havia sempre repreendas, sermões, críticas, filosofias, ensinamentos e castigos todo o tempo. A meu ver, meu pai era o general, minha casa o quartel e a educação ofertada se assemelhava muito a um treinamento militar.

        Aguentei bravamente. Sempre fui persistente. Queria mostrar ao meu pai que era capaz de suportar seus castigos, mas confesso que a minha maior dificuldade era dar conta de ouvir e ter estrutura psíquica e emocional para lidar com suas críticas. Ele era ácido. Ferrenho. As suas críticas eram certeiras, fortes, incisivas e me faziam sentir sempre muito aquém das altas expectativas que ele tinha para mim. Podia ver claramente o modelo de homem que ele queria formar, mas não me identificava com esse modelo o tempo todo. Discordava em alguns aspectos, achava irrealistas algumas coisas e inatingíveis outras. Mas por incrível que pareça, eu compreendia o que ele estava fazendo – pelo menos num âmbito racional. Racionalmente falando, o Jonas criança tentava compreender as ações do meu pai. Mas emocionalmente eu não conseguia... Não sempre. No nível mental compreendia que ele queria que eu desse o meu melhor, que eu entregasse mais, que eu superasse a mim mesmo a cada dia, porque ele queria sempre me ver bem e melhor. Racionalmente, ok. Emocionalmente, a uma criança, lidar com esses conteúdos fortes de críticas em cima de críticas vai macerando seu ego. Vai esmagando sua autoestima. Foi o que aconteceu comigo. Água mole em pedra dura...

        Mas eu aceitava tudo isso como podia, porque sabia que ele me amava. Muitas vezes tinha ódio dele, mas quando ele me abraçava, podia me ver em seus olhos e sabia que ele abraçava o universo nas mãos. Nós éramos tudo para ele. A vida do meu pai era os filhos, ele matava e morria por nós. Ele era intenso mesmo, em tudo. Nossa relação era de amor e ódio, de amigos e inimigos, de brigas e altas conversas. Mas foi ficando difícil lidar com isso, vamos lembrar que minha personalidade estava em formação também! Eu não tinha a cabeça e a visão de hoje. Então em algum momento desconectei. Foi preciso desconectar o emocional. O ambiente externo exigia muito, então tive que proteger o ambiente interno, porque racionalmente entendia, mas emocionalmente não suportava. Resolvi ceder por completo. Criei barreiras e falei a mim mesmo que iria me encaixar e tentaria corresponder ao máximo que pudesse. Fui tão fundo nisso de tentar alcançar os altos padrões que ele tinha para mim que sem perceber entreguei minha autoestima por completo em suas mãos e passei a esperar por estima externa. Passei a me importar demais com as críticas do meio externo. Se antes eu conseguia ter um senso crítico para as críticas, neste momento já não conseguia mais.

        Foi quando busquei a todo custo agradar a todos. Anulei por completo meu ego e passei a prestar atenção ao que as pessoas ao meu redor esperavam de mim, fosse na família, na escola, nas amizades, na sociedade. Engoli o verdadeiro Jonas para me enquadrar ao meio externo; para conseguir o amor, a aprovação e o aceite das pessoas que gostava e admirava. E quando alguém me achava feio, chato, desinteressante ou fazia qualquer comentário, mesmo em uma simples brincadeira, aquilo me afetava demais! Começou a me afetar muito mesmo. Como perdi o referencial de quem eu era ou queria ser, eu não tinha estrutura para lidar com a falta de apreço dos outros. Qualquer sinal de descortesia, rejeição ou reprovação das pessoas me doía demais. Queria tanto que gostassem de mim que fazia de tudo para ser bonzinho com todos, mas ora as pessoas me subestimavam, ora me menosprezavam, ora me faziam de bobo. De repente passei a ser visto como o bobinho, o sem personalidade, o zero à esquerda. Aquele que todo mundo pode passar a perna. Será que preciso me anular tanto e ter essa postura quase de subserviência para ser aceito? – me perguntava, chateado comigo mesmo por me submeter a esse papel só por uma aprovação externa. Eu me sentia às vezes ridículo por gastar tanta energia para me enquadrar ao que as outras pessoas achavam bonito, correto, aceito ou admirável e a contra partida eu detestava a mim mesmo.

        Nessa época, esse processo de não gostar de mim mesmo só me fez ansioso e descontar toda essa ânsia de aprovação não atingida na comida. Aos dezesseis anos estava pesando mais de cem quilos e um belo dia no trabalho passei tão mal que sai pelas ruas desgovernado e desmaiei numa calçada. Um casal que passava de carro me socorreu e me levou ao hospital. Quando questionado pelo médico o que acontecia, apenas lhe disse que sentia que estava morrendo. Ele fez toda avaliação clínica e o diagnóstico foi que não havia nada (físico). Tive nesse dia sem saber um ataque de pânico. E até hoje, juro por Deus, digo que foi uma das sensações mais terríveis que já tive na vida; tinha absoluta certeza de que estava morrendo.

        Onde entra o narcisismo? Agora.

        Quando cheguei nesse ponto, tive que fazer uma escolha entre o meio externo e eu. Sentei comigo mesmo e durante um longo período ainda na adolescência me fechei para balanço. Precisava renascer algo a partir dali. Sentia meu ego, minha autoestima, minha personalidade em frangalhos, eram cinzas e pó. Cheguei a seguinte reflexão. Amor não é algo dado naturalmente. Amor é escolha! E posso produzir ou importar. Autoestima, aprovação, aceitação, são facetas de amor, já que no fim tudo o que o ser humano busca é amor. Amamos e queremos ser amados. Uns produzem amor dentro de si mesmos. E os que não produzem, precisam importa-lo do outro, então vão buscar no externo. Fiz a escolha de aprender a me amar e ser capaz de produzir meu próprio amor valorizando mais a mim mesmo, para nunca mais ser dependente dos demais me amarem! Novamente fui fundo nisso. Foquei toda minha libido em mim mesmo com toda força que podia! Ninguém saberá mais de mim do que eu mesmo. A minha opinião, sobre mim mesmo, será soberana. Vou me amar, me respeitar, identificar quem sou, quem quero ser e a partir de agora eu vou legitimar o meu ego.

        É como se eu erguesse meu ego e o colocasse na estante da minha vida numa posição de destaque. Não foi do dia para noite. Foi um processo, que ocorreu paralelo a morte do meu pai – figura essencial na estruturação da minha psiquê. E como toda a minha estrutura de personalidade foi centrada a partir do querer do meu pai, quando ele saiu de cena (ele faleceu quando completei dezoito anos) o Jonas desabou! Perdi o referencial, o eixo central, me sentia oco, vazio, em ruínas mesmo. Mas se por um lado me sentia perdido, porque ele era meu Norte desde sempre, por outro lado me senti bastante excitado, pois dessas ruínas pude com os destroços reerguer minha estrutura como Eu quis! O Eu ganhava espaço e força para avançar a todo vapor! 

        A partir daí começou a acontecer algo surpreendente. Comecei a me alimentar melhor. Passei a fazer exercícios físicos regularmente. Meditar. Emagreci. Iniciei esse blog. Terminei o ensino médio na EJA. Fiz faculdade. Pós-graduações. E nunca me senti tão seguro de mim mesmo. Aquele jovem indeciso, ansioso, obcecado por aprovação dos outros, deu espaço a um homem forte, corajoso, seguro, dono do seu destino, que se ama acima de tudo e todos. Hoje tenho plena consciência que ninguém sabe mais sobre mim do que eu. Se alguém disser que sou incapaz de realizar algo, só será verdade se eu chancelar isso, pois quem sabe do que sou ou não capaz sou eu. Não espero migalhas de amor externo, se posso me fartar de um banquete interno. Eu me amo, me admiro, me orgulho de mim mesmo e acredito no meu potencial. Não espero que ninguém me complete, porque não sou a metade de nada. Sou um homem perfeito com imperfeições aceitas. Não importo amor, já aprendi a produzir o meu, quem chega só vem para somar. Para me ensinar. Para compartilhar. E se partir, tudo bem também, não vou morrer nem a pessoa. E quando ouço... Não gosto de você, digo ok. Não concordo com você, tá ok. Acho você feio, chato, metido, ignorante, arrogante, prepotente, ok. Ok. Mas quem sabe de mim sou eu! E quando uma pessoa diz algo sobre mim, em um bom nível, ela não está revelando algo sobre mim, ela está se revelando para mim! Pois como disse Freud, quando Pedro fala sobre Paulo, sabe-se mais de Pedro que de Paulo.

        Quis contar minha história pessoal e coloquei esse título provocativo no texto para satirizar esse momento que vivemos onde tudo é Narcisismo. Fulano é narcisista. Fulano tem traços de narcisismo. Na internet bombam vídeos e mais vídeos descrevendo e ensinando como reconhecer um narcisista, e a coisa toda banalizou. Pessoas leigas pegam fatos e comportamentos isolados e já fecham um transtorno de personalidade! – que por si só é algo bastante complexo até aos psiquiatras e psicólogos para fecharem um diagnóstico. O comportamento humano é muito complicado para se decifrar em análises rasas e superficiais. Acredito sim que exista o Transtorno de Personalidade Narcisista, mas ele tem traços, sinais e sintomas muito precisos, descritos no DSM-5. Só que hoje qualquer manifestação onde uma pessoa demonstre muito amor por si mesma já é considerada narcisista. Quer dizer, quando alguém se submete ao cônjuge, aos pais, à sociedade, numa postura de obediência quase de subserviência, aí tudo bem. Essa é uma atitude bonita né, de resignação e abnegação. Agora se uma pessoa assume aquilo em que de fato ela é boa, expõe seu melhor e não esconde o quanto de amor tem por si mesma, então é narcisista? É arrogante? Não... Sinto dizer, mas isso não é Narcisismo, nem um comportamento egoísta, é só amor próprio mesmo. A pessoa está sendo capaz de ser produtora ao invés de ter que importar.

        Assim como um dia aprendi, se isso faz sentido para você, gostaria de dividir este conselho. Pare de olhar para fora. Ninguém sabe de você mais do que você mesmo. Ninguém tem mais autoridade, nem propriedade de conhecer sobre você mais do que você mesmo. Encontre em si aquilo que carrega de bom e exponha com muito orgulho. Tendo o queixo erguido e o peito estufado. Não é feio se orgulhar de si mesmo! Não é errado se amar demais! Não tem nada de injusto se colocar em primeiro plano. Lembre-se da recomendação no avião: a máscara é em você. Você não ajuda ninguém, sem antes se ajudar. Instituiu-se uma crença na sociedade que é sempre mais bonito, mais virtuoso, colocar os outros em primeiro plano. É divino. A vaidade é considerado um pecado capital. Concordo que todo excesso de fato esconde uma falta, mas não é disso que estamos falando aqui. Eu te digo que não existe nada de errado em se colocar em primeiro plano, na sua própria vida. Não é para você se julgar melhor do que os outros, mas simplesmente para exibir aquilo que você tem de melhor. É como o Sol. O Sol não pede autorização para brilhar, assim como não se preocupa se aqui na Terra existem fontes de energias melhores ou mais quentes do que ele. Ele simplesmente é o que é. Ele simplesmente nos emana sua luz. Ele segue sua natureza que é brilhar e aquecer. Assim tem que ser com você. Assim tem que ser com cada um de nós, todos os dias de nossa vida. Não espere autorização para dar o seu melhor. Para mostrar a sua melhor versão ao mundo. Não se preocupe se está ou não agradando, seja o que você é, o que quer ser. E em seu caminho vai se deparar com muitas pessoas que já se esqueceram de seu próprio brilho, mas ao te olharem verão em você algo de diferente, enxergarão Autenticidade, e talvez sentirão a Motivação necessária para resgatar dentro de si mesmas algo que estava a muito tempo adormecido. O amor próprio.

domingo, 29 de setembro de 2019

O Futuro do Trabalho e a Neuroplasticidade


            Você não tem ideia do quanto eu queria escrever sobre esse tema de hoje, já queria falar sobre isso há um bom tempo. Em primeiro lugar já peço desculpa pelo textão. Nem todo mundo curte quando a postagem fica grande, quando isso acontece alguns até desistem nas primeiras linhas, infelizmente. Mas tenho certeza que esse tema será relevante para você, não só como pessoa, mas principalmente profissionalmente, já que isso impacta diretamente no perfil do profissional do futuro (que hoje já se faz presente). Trarei algumas dicas e alguns exercícios que eu mesmo faço, mas o mais importante é a forma de encarar a vida daqui em diante com esses novos conhecimentos. Peço paciência para que você tente lê-lo até o fim. Falarei nessa postagem em duas ideias centrais que se encontrarão ao longo do texto e tentarei ser o máximo didático possível já que essa postagem terá uma cara "meio técnica", mas garanto que é mais simples do que parece. Como esse é um blog pessoal farei alguns links com experiências e reflexões minhas em episódios específicos da minha vida. Vários conceitos que existem sobre aprendizagem, sobre comportamento e formação da nossa personalidade, que começou lá com a Psicanálise, estão sendo reformulados a partir de novos estudos de Neurociência. A postagem de hoje então é sobre abertura à novas ideias e não se pôr em caixas.

            Era década de 90, eu não devia ter mais do que oito anos quando li uma matéria numa revista falando sobre neurônios, sobre a perda deles durante a vida e o impacto disso ao ser humano. É engraçado, mas não esqueço o medo que eu tinha de perder neurônios... Eu sei, você vai dizer, “que medo mais nerd esse”. Ok, tudo bem, mas eu sempre fui um nerd. Sempre fui o esquisitão da turma – sou até hoje. Na matéria falava sobre manter hábitos regulares de leitura, fazer palavras cruzadas, jogo da velha, sobre praticar atividades físicas e ter uma alimentação balanceada também. Isso tudo para retardar uma perda neuronal natural ao longo da vida. Mas em ponto nenhum dessa matéria falava sobre criação neuronal. Levei esse assunto à sala de aula e perguntei a minha professora na época como fazer para criar novos neurônios. E ela me respondeu:

            - É uma boa pergunta, mas até onde tenho conhecimento não é possível. Nascemos com uma quantidade de neurônios que ao longo da vida vamos perdendo. Esse é o processo natural da vida. O que podemos fazer é minimizar essa velocidade através dos hábitos que falam na matéria dessa revista, por isso é importante o hábito da leitura!

            Fiquei decepcionado com isso. Não queria concordar. Mas de fato tudo o que lia ou assistia sobre aprendizagem e como funcionava a nossa mente batia nessa tecla, de que só perdíamos neurônios ao longo da vida. Mas na minha visão isso era muito determinante, porque colocava o ser humano numa caixa sem muita autonomia para se superar. E mais estranho ainda é que nós mesmos adquiríamos crenças que iam justificando ficar nessa caixa!! “Fulano é bom em Matemática, por isso que ele não é bom em Português.” Ou o contrário disso. “Fulano não se sai bem na escola, porque seu negócio é mais a música.” “Fulano é bom em Artes, porque seu pensamento é mais voltado para isso, então não é muito bom nas outras disciplinas.” “Quem cuida muito do físico ou da estética é porque é burro.” Ou o contrário. Perceba que são extremos e não tem como uma pessoa participar das duas polaridades. Eu me lembro quando estava no cursinho preparatório para vestibular, queria prestar Unicamp. E eu já era formado em Administração. Quando os professores do cursinho perguntavam qual curso prestaríamos, notava bastante espanto neles quando respondia “Ciências Sociais”. Quando os indagava, me respondiam que imaginavam “que fosse para alguma Engenharia”. No dia da inscrição, sabe-se lá porquê, coloquei como segunda opção Ciências Sociais (queria me especializar em Ciências Políticas), pus como primeira Ciências Econômicas. Não passei – por pouco – na primeira fase. Será que eu não teria passado, se tivesse seguido mais o que de fato eu queria?!

            Aprendemos a colocar as pessoas em caixas. Pôr rótulos! Fizeram isso conosco um dia e acreditamos. Acreditamos que uma pessoa é boa em Português, porque nasceu com isso. Escrevo bem aqui no blog, porém olhe as primeiras postagens, verá mais erros gramaticais que hoje. E na época da escola era bom em Língua Portuguesa e igualmente bom em Matemática. Por que a gente acredita que sendo bom numa se tem mais dificuldade na outra? Quem disse que são saberes antagônicos? Ah! Já sei. Foi o livro sobre Múltiplas Inteligências, do Gardner. Não vou discutir que um ser humano pode ter maior aptidão para uma área de estudo, mas isso não dificulta em outra. Isso é uma crença, algo que está no senso comum, algo que ouvimos desde criança, chancelamos e repassamos inconscientemente. Mas não tem respaldo científico. Não é porque uma pessoa tem um raciocínio lógico-matemático mais elevado, que essa mesma pessoa não possa ter, também, uma inteligência intrapessoal ou de linguagens significativa. Muito se acreditava sobre o hemisfério esquerdo e direito do cérebro, mas a ciência sabe hoje que a funcionalidade do cérebro humano não é tão segmentada e dividida assim. O cérebro funciona mais como um todo. É só refletir sobre as grandes mentes da humanidade. Leonardo Da Vinci, pintor, escultor, matemático, escritor etc. Muitos poderão dizer: “ele era superdotado”. Eu não tenho dúvidas quanto isso. Só acredito que o que nos impede de alcançarmos resultados diferenciados tem mais a ver com o que DIZEMOS A NÓS MESMOS QUE NÃO PODEMOS com o que de fato não podemos fazer. Existe uma diferença entre comportamento e capacidade cognitiva de fato.

            Todo mundo acha que sou um típico nerd. Engraçado que um nerd carrega aquele estereótipo: esquisitão, de Exatas, manja muito de informática, é magro demais ou muito acima do peso, usa óculos, tem a cara cheia de espinhas, avesso a esportes, amante de HQs, sem tattoos... Isso são rótulos! Parte é verdade, parte não tem nada a ver comigo nem com ninguém, dessa forma fechadinha! Nos meus testes de perfil comportamental por exemplo, de fato Conformidade é mais elevado. E com isso se pode inferir que possuo maior precisão, perfeccionismo, detalhismo, acurácia etc. Mas isso só significa que, dentro desse espectro de atividades e competências, fico mais confortável, pois tendo a dar mais respostas rápidas com menor esforço. Quando o RH aplica um teste assim, ele quer avaliar onde o candidato ou o colaborador conseguirá o resultado mais rápido com o menor esforço. Só isso. No meu caso, um indivíduo assim vai bem em áreas analíticas, áreas de cálculo, áreas que demandem atenção maior a DETALHES, como: contabilidade, departamento pessoal, planejamento estratégico, controle de qualidade etc. Isso significa que essa pessoa não seria, em absoluto, um bom vendedor? Que é impossível uma pessoa com esse perfil se dar bem numa área de marketing, publicidade, propaganda, design? Que essa pessoa não serviria para estar em setores da empresa que demandem muito relacionamento interpessoal? Não. Não. Não é verdade! Só é “sim”, se essa pessoa acreditar nisso e quiser. E esta postagem é justamente para recomendar o contrário disso. Recomendar que você não se coloque numa caixa.

            Não queria ser rotulado de nada em absoluto. Com os estudos mais atualizados sobre neurociência e comportamento humano veio um termo chamado Plasticidade Cerebral. E isso é fantástico! Significa que não só somos capazes de produzir novos neurônios, como estamos constantemente provocando alterações através de novas conexões neuronais e isso acontecerá a vida toda. Por isso esse termo “plasticidade”. Hoje se sabe que o comportamento, a personalidade, a inteligência não são estanque, inatos, imutáveis. Não em absoluto. Nós somos capazes de mudar e nos transformar em qualquer fase da nossa vida. Basta querer. Os nossos hábitos fazem em nosso cérebro um determinado caminho neuronal, um determinado circuito. A partir do momento que adquirimos novos hábitos, forçamos a criação em nosso cérebro de novos caminhos, de novas conexões. Isso nos transforma! E para essa receita de autotransformação, você precisa de apenas dois ingredientes: vontade e persistência. A gente precisa querer algo, mas não só querer, persistir, insistir nisso que estamos nos propondo. Aí entra o aspecto profissional.

            Ontem, conversando com a minha mãe, ela me contou que seu irmão está desesperado. Meu tio ligou para ela, contou sobre mudanças que estão ocorrendo em sua empresa e pediu que minha mãe orasse por ele. Preste atenção. Meu tio trabalha nessa empresa há décadas, acredito que já se aposentou e continua lá. O setor produtivo onde ele trabalha está sendo todo computadorizado e estão o ensinando como acompanhar e monitorar os computadores do setor. Ele ficará responsável por isso. Coitado, ele está em pânico. Disse a minha mãe que mal consegue dormir. Para dar conta, ele está agora tendo aulas de informática com os meus primos. Primeiro ponto: parabéns ele ter aceito! Ele poderia ter se recusado, ter inventado uma desculpa e saído fora, ele já está aposentado. Ou prestes a se aposentar. Mas ele quis aprender. Está se desafiando. O segundo ponto é o seguinte: ele está tendo a oportunidade de aprender algo que em tese ele já deveria estar se mexendo para saber! Não é fácil isso que vou dizer, mas é real. Nem todos os empregadores poderão ESPERAR você adquirir novas competências e habilidades para dar conta de um novo desafio. Você tem que se antever a isso! Hoje, a carreira e o desenvolvimento profissional estão nas mãos de cada um de nós, não mais na empresa. Não espere que seu gestor ou empresa desenvolva você. É claro que eles podem, e em alguma medida até devem, mas essa responsabilidade é sua! Essa responsabilidade é de cada um de nós. O futuro do trabalho já está exigindo um perfil de profissional que use muito a sua neuroplasticidade.

            Sou analista de recursos humanos e recebo muitos currículos diariamente. Uma vez me perguntaram o seguinte: ficar numa mesma empresa durante muitos anos seria ruim por passar uma imagem de acomodação? A resposta é: depende. Quando estou diante de um candidato nessa situação, numa entrevista, estou mais preocupado em descobrir o quanto esse indivíduo se desenvolveu e se transformou, enquanto profissional e enquanto pessoa, ao longo de sua permanência nessa empresa. Quero saber se houve participação em cursos ou palestras; se houve graduações ou pós graduações; se a pessoa assumiu novos desafios, seja em novas posições ou na mesma até; o que agregou àquela companhia nesse período,  onde cresceu e se transformou com isso; ou seja, estou mais interessado em saber se houve uma evolução, se a pessoa e a empresa estão melhores por conta desse relacionamento. Se a resposta for “sim”, independe de quanto tempo a pessoa ficou no seu antigo trabalho, porque houve ganhos para ela enquanto pessoa e profissional e para a empresa também. O problema é quando a resposta é “não”, ou seja, os anos se passaram e a pessoa ficou estagnada, ela não buscou se aperfeiçoar nem obter novas competências e habilidades. Isso é perigoso. O mundo do trabalho está mudando rápido, isso exige dos profissionais mais abertura a novas ideias e pensar fora da caixa. Hoje é requerido que os profissionais de fato não queiram ficar em caixas!

            Para finalizar essa postagem, gostaria de dizer que muito do que você acredita que não é capaz é só coisa da sua cabeça, não tem respaldo científico algum. Pense que se muitas pessoas conseguem, você também é capaz de conseguir. Você não é inferior às outras pessoas que já conseguiram, não se subestime. Isso vale para iniciar um curso numa faculdade; se inscrever num curso de dança; frequentar uma academia; aprender um novo idioma; começar alguma atividade artesanal; iniciar um blog ou um canal no YouTube. Por que não?! O que te impede?? É apenas a sua cabeça, as suas crenças que te impedem. Dê o primeiro passo, permita-se. Existem alguns exercícios simples, que eu faço também, que são muito legais para forçar a criação de novas conexões neuronais. Como por exemplo:

  • Experimente usar a outra mão para escovar os dentes, abrir as portas, se ensaboar no banho, para comer e se possível até para escrever pequenas coisas;
  • Dormir do outro lado da cama;
  • Se tem o hábito de ir trabalhar de carro, um dia da semana vá de moto; se tem o hábito de ir de moto, vá um dia de carro; ou vá a pé; se for mais longe, um dia pode ir de ônibus;
  • Se tem o hábito de ir por um mesmo caminho, explore ir por novos;
  • Mude de vez quando as coisas no seu trabalho, na sua mesa ou na sua casa de lugares;
  • Pelo menos um dia na semana ouça uma playlist de músicas bem diferentes do que está acostumado;
  • Experimente novos pratos de comida;
  • Sempre que possível faça os pequenos cálculos mentalmente;
  • Force-se a chamar sempre todas as pessoas pelo nome, isso te obrigará a memorizá-los;
  • E principalmente: permita-se conversar com novas pessoas – faça amizades com pessoas diferentes de você!

            O nosso cérebro é um verdadeiro poupador de energia. Ele quer sempre obter o melhor resultado com o menor esforço possível, então ele faz de tudo para você criar e se manter num hábito. E quando você provoca conscientemente pequenas alterações no seu dia a dia, isso o obriga a “sair do automático” e com isso fazer novas sinapses. É claro que no início isso vai cansar você. Se fizer por exemplo tudo isso que listei acima, ao final do dia estará cansado, talvez até com um pouco de dor de cabeça. Mas ao persistir irá diminuir esses efeitos e obrigará seu cérebro a se adaptar. Não tenho dúvidas que isso melhorará sua criatividade, sua inteligência, seu raciocínio, sua vivacidade; se sentirá mais jovem, mais capaz, tudo porque estará abrindo mais canais, fazendo mais conexões. 

            Lembre-se dessa simples receita que vai apenas dois ingredientes: vontade e persistência. Tenha uma vontade forte de se abrir para novas ideias e persista nisso que deseja para si ou para sua vida. Tudo começa aí na sua mente, você é a única pessoa que pode se limitar. A neuroplasticidade prova que você é capaz de mudar. Basta você querer.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

O QUE É SUCESSO



Antes de nos perguntarmos o que é sucesso, eu acho bem oportuno nos perguntarmos primeiro: sucesso para quem? A quem interessa o sucesso? É para a família, para a sociedade ou para nós mesmos? Sucesso é para você! É para cada um de nós.

Vou contar uma história para você. É uma história simples e bem pessoal. Isso me fez enxergar a vida de uma forma muito diferente depois. Já adianto que essa história não terá nenhum fato extraordinário, mas, se ela puder transmitir a você um pouco do que significou para mim, já está muito bom. Foram fatos cotidianos, mas tenho certeza que você se identificará em algum momento – e se isso acontecer a missão dessa postagem terá sido alcançada. Gostaria de dizer antes de mais nada que acredito que podemos (e devemos) extrair ensinamentos no dia a dia a partir de fatos corriqueiros, pois é justamente aí que se encontra a beleza da vida: em pequenos detalhes. É uma pena que esperemos grandes acontecimentos para pararmos um pouco para refletir sobre a nossa vida, já que ela [a vida] está constantemente nos mostrando coisas. Se você pudesse parar por alguns instantes para respirar e só observar, captaria informações que podem estar passando despercebidas por você. A esse afinamento dá-se o nome de Espiritualidade. Essa sintonização é a nossa religiosidade. Uma comunicação direta com o Universo.

Estava na faculdade, era mais jovem, isso foi há quase dez anos. Trabalhava numa empresa e estava muito feliz com as promoções que vinha recebendo. Aprendia teorias na faculdade e podia vivenciar a prática no trabalho; para quem está na faculdade sabe o quanto isso significa: poder atuar na área em que se estuda. Nessa empresa, que é uma rede de lojas, comecei numa função e fui galgando rapidamente através de boas oportunidades que foram me dadas. Antes era uma pequena rede, hoje é enorme! Reconheço que confiaram muito em mim e me deram ótimas oportunidades, o que me enchia de alegria. Lembro-me certa vez de ouvir do diretor geral (que é proprietário) que “eu era um investimento para a empresa” e estava sendo treinado e desenvolvido “para gerenciar tudo abaixo dele”. Nessa ocasião estávamos numa reunião conversando sobre projetos e traçando metas para 2020 – e o ano era 2010! Eu sabia que teria muito trabalho pela frente, o desafio seria grande e uma oportunidade era tudo o que buscava. Na faculdade meus professores ficavam contentes quando comentava das coisas que vinha aprendendo na prática e meus colegas de sala me elogiavam por isso. Estava feliz. Algo me dizia que se continuasse neste caminho muito provavelmente encontraria tudo o que buscava. Dinheiro, poder e sucesso! Afinal, quem não quer tudo isso?!

O tempo foi passando, estava trabalhando muito, estudando bastante e sem perceber uma sensação estranha começou a me rondar. Não sabia explicar o que era, apenas sentia um aperto no peito que vinha do nada. Em muitos momentos me pegava com os pensamentos longe, como se apenas o corpo estivesse presente. Eu saia aos finais de semana à noite, comia, bebia, dançava, via gente, dava risadas! Mas algo ali apertava silenciosamente. Algo não me deixava em paz. Algo me dizia que eu não estava tão feliz quanto achava. Como podia não estar?! Estava na faculdade e trabalhando na minha área, começava a ter um salário melhor, tinha condição de comprar coisas que antes não podia. Então não entendia por que tristeza. Não aceitava isso! Pois me soaria como ingratidão à vida sentir isso. Então fui driblando como pude; ora sentia superar aqueles sentimentos; ora eles me dominavam...

Era final de ano, as lojas estavam abertas até mais tarde e eu tinha adquirido um estranho hábito nos últimos meses; o de fazer compras! Quase todo dia saia dar uma volta pelo centro da cidade no meu horário de almoço e voltava com algo. A desculpa era sempre a mesma: um presente para dar a alguém ou algo que “estava precisando”. Não sei em que momento isso se deu, mas quando dei por mim percebi que só entrava nas lojas mais caras. Passei a fazer questão de comprar coisas mais caras. Também tinha adquirido outro hábito nessa época; o de ligar para minha mãe diariamente. E eu sempre fui independente! Mas como nessa época meu pai tinha falecido há pouco tempo, eu só tinha a minha mãe e como morava numa cidade (com ela), trabalhava em outra e estudava em outra a gente não se via; então comecei a ter necessidade de ligar para ela todo dia. E de repente já não conseguia mais trabalhar sem ligar para minha mãe pelo menos duas vezes ao dia, uma antes do almoço e outra depois, e era isso que me dava o gás necessário para prosseguir por mais algumas horas trabalhando. Eu só queria ouvir a sua voz alguns minutos, porque aquilo era como um farol, um ponto de estabilidade para mim, já que me sentia no olho do furacão!

Foi quando ao final de um dia, depois de uma semana estafante de trabalho e estudos, entrei numa loja e quando vi já tinha comprado relógio, óculos de sol, perfume, roupas, calçados, não podia nem com as sacolas. Cheguei em casa, entrei no meu quarto, joguei tudo sobre a cama, sentei no chão e desabei chorar. “Para tudo.” “Chega.” “Você não está legal!” “Vai empurrar isso até quando?”. Essas coisas ecoavam na minha mente... Na semana seguinte, ao dar uma volta no meu horário de almoço, ao invés de entrar numa loja, parei numa livraria. Comprei um livro chamado A Cura Quântica, do Deepak Chopra. Mergulhei nesse livro. Semanas depois me desliguei dessa empresa. E ninguém acreditava! Dentro de mim sentia que tinha decepcionado a todos, principalmente aqueles que um dia confiaram em mim. Por um bom tempo quis acreditar que eles é que foram os culpados. Hoje sei que não, porque, primeiro, não existem culpados! E segundo, a vida é minha e sou eu o responsável pelo que me acontece. Todos foram sempre gentis e bons comigo e hoje compreendo que estamos sempre no lugar certo, no momento certo, com as pessoas certas, passando pelas situações que precisamos passar, para aprender aquilo que é necessário para nos desenvolvermos enquanto seres humanos. Portanto não cabe tristeza, medo, nem ansiedade, tudo é aprendizado!

            Eu não precisei ganhar muito dinheiro, mudar de classe social, nem ficar poderoso ou ter projeção social – como um dia quis – para compreender que o sucesso não depende de nada disso. Graças a Deus, esse simples fato ocorrido já no começo da minha vida profissional, me despertou para muitas coisas em todos os sentidos. E como sou grato por isso. Por poder entender já bem jovem que bens materiais são importantes, mas não podem me proporcionar bem-estar pessoal. Nem autorrealização. Sucesso é mais do que isso. Porque na hora do “vamos ver”, na “noite escura da alma”, quando estamos entre o carpete e o taco, só uma coisa alivia um coração aflito: paz de espírito! E isso não se compra, porque isso não se vende. E nem todos que dizem ter sucesso encontraram essa paz. Hoje para mim sucesso é paz de espírito, não tem nada a ver com coisas materiais. E sabe uma forma simples que encontro? Coloco um tênis e saio para correr no parque. Um fone de ouvido e uma boa música. Ao ver as águas do rio, sentir na pele o calor do Sol, o vento soprando meu rosto, um cheiro suave vindo das folhas das árvores, me sinto tão grato que tudo fica tão pequeno! E me sinto tão completo! Começo a orar. O mundo pode acabar nesse momento e eu estarei agradecendo... 

Eu não sei o que você tem buscado ou o que para você é sucesso, mas eu gostaria de coração que você acreditasse que viver, que a Vida é muito mais do que fama, status, poder ou coisas materiais. O lado material da vida é importante. Mas o lado espiritual da vida é essencial! 

Para finalizar, gosto bastante dessa fala da jornalista e apresentadora Regina Volpato. Assista ao vídeo. 

domingo, 1 de setembro de 2019

FERA FERIDA: você machuca os outros?



Vejo pessoas dizendo que se pudessem voltar atrás teriam feito algo diferente. Enquanto a pessoa só fala, ok. Quando percebo que além do falar existe algum sofrimento, isso me chama a atenção. Já me perguntaram se me arrependo de alguma coisa que fiz ou que falei e sempre respondi não decididamente. Eu nunca me arrependi de nada mesmo – e posso estar sendo leviano ao falar isso, mas sinceramente é uma verdade para mim. Pelo menos é há um bom tempo. Não entendo sentimento de culpa ou de remorso. Acho que até por isso alguns brincam que ‘pareço um psicopata’ rs. Mas sabe por que não me arrependo? Vamos falar a verdade: do que adianta o arrependimento? Resolve alguma coisa nos sentirmos culpados? Eu acho (e uso a palavra ‘acho’ porque é só o que eu penso) que sou assim porque não me é racional a culpa ou o remorso; o que foi feito já está, não se remedia passado. Felizmente ou infelizmente. É assim. Ponto. Como sou muito racional tenho a tendência a optar por visões de mundo que me permitam alguma autonomia. E aí entra outra coisa que sempre me julgam: “você fala assim porque é racional demais, você não tem sentimentos!”. Isso é uma grande falácia que dizem ao meu respeito, que sei como foi fortalecida. Só que eu não sou frio em absoluto nem insensível, muito pelo contrário, sou hipersensível, quase tudo me afeta fortemente – as pessoas não têm noção disso! E elas não têm noção porque eu escondo, eu dissimulo, eu reprimo as emoções e os sentimentos (externamente) e banco o durão. Digo ‘externamente’ porque por dentro muitos sentimentos estão em brasa viva! Mas por fora fico como aquele trecho da música Behind Blue Eyes, do Limp Bizkit: “None of my pain an’woes can show through”. “Nenhuma de minhas dores e desgraças pode transparecer”. Lembro quando a ouvi pela primeira vez na adolescência... No fim é só mais um mecanismo de defesa! Já me ajudou e ajuda muito em alguns momentos e também me atrapalha em muitos outros.

Agora, se você me perguntar: existem coisas que você fez ou já disse que não se orgulha? Inúmeras! Muitas coisas mesmo. As vezes que magoei profundamente meus pais com coisas que eu disse. Ou a alguns professores que choraram em sala de aula. A amigos. No passado, quando movido por muita raiva, a forma que eu tinha de descarregar esse sentimento era mirar o ponto mais vulnerável de alguém e criticar ali. Como sou muito observador e costumo analisar tudo é comum, depois de um tempo convivendo com alguém, que eu perceba, intua, ou deduza, onde dói mais nessa pessoa. Se é uma relação mal resolvida com um dos pais. Ou com o cônjuge, ou filho. Se é uma questão da pessoa com ela mesma.  Em pouco tempo convivendo eu pegava isso, via claramente onde era a ferida essencial da pessoa e, no momento que eu me sentia muito magoado com a pessoa, era nesse ponto que criticava.

Isso era legal? Óbvio que não! Isso é baixo. Medíocre. É atitude de pessoa ruim. Pessoa de mal com a vida. E uma pessoa ferida. Era infantil, estava machucado, tinha um interior muito frágil, daí a necessidade de proteção emocional e essa era a única forma que tinha para fazer as pessoas me odiarem e se afastarem. Sei que não precisava reagir assim com essa agressividade tão vil, por isso me envergonho disso. Eu jamais vou ser capaz de me orgulhar de fazer alguém chorar! Só que isso não muda o meu passado. Está feito! Por essa razão que eu digo que não me arrependo de nada, porque eu não posso mudar o que eu fiz. E vamos a outra parte dessa moeda: eu era outra pessoa.

Se você buscar na sua memória a si mesmo a dez ou quinze anos atrás verá que era outra pessoa. Tinha outra cabeça. Outros valores. Você mudou! Nós mudamos. Por isso não faz sentido, nem é justo conosco também, olhar para o passado – com a cabeça de hoje – e nos julgarmos pesadamente pelo que fizemos ou deixamos de fazer. Precisamos ter claro que ali, naquela situação, naquele contexto, dentro daquelas circunstâncias e com as ferramentas que tínhamos, fizemos determinadas escolhas. Hoje possivelmente faríamos diferente, mas erámos outro ali. Da mesma forma que não é justo julgar uma pessoa pelo seu passado, não se julgue também. Fique em paz.

E que isso não se confunda com falta de responsabilidade pelos nossos atos. Muito pelo contrário, deveria nos fortalecer, porque pense: se hoje você tem consciência de algo que não foi legal na sua vida, você tem a opção de fazer diferente agora. De fazer melhor. Hoje tomo mais cuidado com as minhas palavras. Evito criticar as pessoas tão duramente da forma que fazia. Agora quando com raiva, acesso as lembranças do que fiz lá atrás que não foi legal e me pergunto: “quer mesmo fazer isso novamente?”; “vai se orgulhar disso depois?”. Nunca me perguntei se “vou me arrepender”, pergunto sempre se “vou me orgulhar”, mas se a resposta for negativa, penso imediatamente duas vezes. E fico consciente que se eu insistir nisso e fizer, a consequência depois será só minha, porque tive consciência de que estava fazendo escolha. Mas o foco é sempre no hoje, porque agora eu tenho consciência.

Se você é alguém que faz muitas visitas ao seu passado e sente dores pelo que fez ou deixou de fazer, por alguma coisa que disse que magoou alguém ou que deixou de falar e hoje se arrepende, não seja demasiadamente duro consigo. Você fez o que podia fazer dentro do que as circunstâncias permitiram. Isso não redime atos passados, mas nos traz o poder de fazer diferente agora. Ao invés de se culpar, pergunte-se: “o que eu posso tirar de proveito disso, para numa próxima quem sabe agir diferente?” e “por que precisei agir assim?”. É necessário visitar o passado, mas não para julgar quem você foi, pelo contrário, para fazer as pazes consigo! Pode existir aí dentro de você uma criança interior que precisa de atenção e acolhimento, não de mais julgamentos. A partir do momento que você acolhê-la, entendê-la e aceitar que essa criança interior cresceu e hoje tem novos recursos para lidar com o que a afetou um dia, ganhará um novo olhar para a vida, vai passar a enxergar as pessoas diferente e não vai mais precisar machucar ninguém, pois só fere quem está de alguma forma ferido na mesma condição ou proporção – e falo por experiência própria.


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Até onde ir



Por que nos incomodamos com o comportamento das pessoas? Por vezes ficamos irritados, tristes ou chateados com alguns comportamentos alheios. Já parou para pensar sobre isso? Eu não sei você, mas me policio sempre para não interferir além do que acho devido. Vira e mexe, me friso: “Jonas, mais ouça, pois nada do que disser aqui ajudará muito.” Esse tipo de coisa acontece comigo. Hoje graças a Deus não mais com a frequência do passado. Em outros tempos, eu ficava irritado ou chateado quando alguém vinha reclamar de algo e oferecia conselhos que nunca eram ouvidos de fato. No fundo a pessoa só queria reclamar mesmo, o que não conseguia entender. Vou tentar trazer alguns exemplos para facilitar. Só vou atentar ao uso do gênero. Uma pessoa veio conversar comigo e disse:

- Nossa, meu relacionamento está por um fio! Não dá mais. Não suporto mais, a gente vive brigando demais. Chega! Cansei. Acho que vou terminar.

E eu, um pouco surpreso com a força que a pessoa carrega nas frases, e na tentativa de ajudar, proponho:

- Já tentou expor a essa pessoa o seu ponto de vista, os seus sentimentos de insatisfação nessa relação?

- Não... Se eu falar isso já virá com ironia, às vezes até me ofende, só falta me agredir fisicamente! É muita humilhação. Teve traição um tempo atrás e eu perdoei, mas agora não dá mais. Esse relacionamento só tá me jogando pra baixo, preciso terminar.

- Entendi. E se vocês dessem um tempo? Não dá para continuarem assim, né, passou do limite, agressão não dá mesmo. E se você propor um tempo?

A pessoa olha para mim como se isso fosse a última coisa que ela pensaria em fazer na vida e diz:

- Então... o problema é que eu amo demais né, se eu não amasse tanto seria tudo mais fácil, seria tudo mais simples.

- Bom, pelo que diz então existe amor aí e se valer a pena, poderia tentar algo novo. Na sua opinião, o que vocês poderiam fazer de diferente nessa relação que traria um impacto positivo? Ou o que tem faltado fazer da sua parte, o que você poderia fazer de diferente? – pergunto. A pessoa parece se estressar rapidamente e responde:

- Da minha parte, nada! Eu já fiz de tudo o que podia fazer. Quem tem que fazer agora é ela! Ela precisa acordar para a vida, porque eu já me cansei disso! Se ela não melhorar o seu jeito, acho que não vamos muito longe não.

Eu fico em silêncio um tempo, penso no que a pessoa está me trazendo e faço uma última tentativa.

- Se você não disser o que está se passando com você, o que está sentindo, se você não sentar com essa pessoa e conversarem sobre tudo isso, já passou pela sua cabeça que talvez ela nem imagine? Você está esperando que ela mude o comportamento com você, mas como ela poderia mudar sem saber onde vem errando? E mais uma pergunta: caso essa pessoa não mude o seu comportamento, na pior das hipóteses o que você vai fazer a respeito?

- Ah, deixa rolar! Quando uma situação não tem solução, solucionada está. – disse finalizando a conversa.

- Ok.

Quantas vezes na vida ouvimos ou nós quem reproduzimos reclamações como essas acima? E podemos substituir essa situação amorosa por uma questão no trabalho, ou na família, ou com um amigo. Esperamos que a outra parte adivinhe o que está se passando conosco, que leia nas entrelinhas, que interprete em nosso olhar ou através de nosso silêncio tudo o que não queremos expor. Seja por medo, orgulho, ingenuidade, mágoa, raiva. Infelizmente não resolve isso. Não funciona assim. A gente precisa expor claramente para as pessoas o que sentimos e o que esperamos no relacionamento com elas. Deixar o máximo claro possível. Mas estar preparados também para tomar uma atitude, talvez definitiva até, caso a outra parte opte por não colaborar. É um direito da outra parte. Só que aí cabe a nós a que fazer com isso, pois como o ditado diz: “quando nada muda, mudamos nós”.
Será que essa pessoa acima da minha conversa queria de fato solucionar o problema ou só queria RECLAMAR do problema? É o funcionário que reclama ano após ano do trabalho, mas nunca se desliga. A pessoa que reclama do excesso peso, mas não segue a dieta; ela paga, mas não vai à academia. E não adianta ficar discutindo, elas sempre vão reclamar dos problemas, mas logo em seguida elas terão todas as justificativas mais plausíveis para o seu comportamento. Entendo que muitas soluções não são simples nem fáceis, mas QUERER genuinamente é a primeira medida eficaz para qualquer coisa na vida. Às vezes falamos que vamos procurar ajuda porque temos um problema, mas devemos buscar ajuda quando queremos RESOLVER um problema. Problemas todos temos. Resolvê-los é a questão. Quando entro numa situação assim, paro e me pergunto: “Quero de fato resolver esse problema?” Quando vem alguém me reclamar de algo, durante a conversa também me questiono: “Essa pessoa quer de fato resolver esse problema?” Isso muda tudo! Quais problemas você está tentando de fato resolver? E quais você só tem reclamado?

domingo, 4 de agosto de 2019

LIMITE É PODER



"O que não me mata, me torna mais forte."
Friedrich Nietzsche


Eu era bastante jovem ainda quando comecei a refletir sobre a existência de uma força interior que era imprescindível adquirir para conseguir sobreviver na vida. É curioso quando faço o exercício de olhar para trás e fazer uma imagem mental que me retrate minha infância, porque é inevitável vir à mente uma paisagem inóspita, onde um garoto que está sozinho procura sobreviver com os poucos recursos que possui ali. Só que isso é uma inverdade, porque nunca vivi sozinho, meus pais sempre estiveram presentes e nunca me maltrataram – pelo menos não fisicamente –. Mas foi exatamente essa imagem que eu captei do ambiente familiar. Isso é o que importa para o nosso cérebro: como fazemos a leitura. E essa percepção significou duas coisas para mim desde então: minha infância teve de fato pouco calor humano (amorosidade, atenção, compreensão por parte deles) e tive uma interpretação disso pondo mais intensidade emocional talvez (distanciamento, exigência, rigor, pressão, responsabilidade). Em miúdos, a minha infância foi sim difícil, mas eu dramatizei ainda mais com a minha percepção. Nem tudo foi como eu captei. E aí me veio a primeira questão crucial: tive uma infância difícil porque li assim ou li assim porque tive uma infância difícil?

Quando constatei esse mecanismo fiquei literalmente fascinado e assustado ao mesmo tempo. Então passei a adquirir em toda oportunidade que tivesse mais e mais musculatura emocional, não só para compreender melhor esse mecanismo que eu tinha, mas para ir lidando melhor com as experiências que vivenciava. Eu sabia, e tinha muito claro isso, que eu precisaria ser forte, em todos os sentidos. Dizia para mim mesmo: - “É isso o que tem pra hoje? Ok, eu topo. E vamos ver até onde eu dou conta.” Estamos falando aqui da percepção de uma criança ainda, mas incrivelmente foi exatamente assim que eu encarei a minha criação – “eu tenho que dar conta”. Procurei encarar as cobranças e os limites como um desafio pessoal onde eu teria que suportar, sobreviver e vencer! E o primeiro oponente no jogo: meu próprio pai! Tive então uma infância difícil recheada de momentos assim, conflitantes; momentos que exigiram muito de mim, emocionalmente falando. Da minha infância até a adolescência fui posto, ou me pus, em situações onde precisei suportar e saber lidar com fortes conteúdos emocionais já dentro de casa. 

Minha educação foi rígida, ficou mais a cabo do meu pai, porque minha mãe era meio ausente, ela tinha dois empregos, trabalhava dia e noite, então quem cuidava mais de mim era o meu pai. Só que ele era severo, ditatorial e tinha uma forma de nos educar (o que para ele era educar) agressiva. Fazia questão de ser respeitado, de ter sua autoridade inquestionável, os seus “nãos” eram altos em bom tom, os seus castigos eram rigorosos e a sua mão bastante pesada! Eu o odiava quando era criança. Era difícil pra mim compreender como um pai podia ser tão general e duro com os próprios filhos. Tinha tanto ódio e tanta raiva dele que às vezes chorava de tanto que esses sentimentos eram intensos. Ele era muito difícil de lidar, some-se a isso seu problema com o uso abusivo de álcool. Só que vamos lembrar que nessa visão aqui eu era uma criança em desenvolvimento, precisava de limites. Hoje sou adulto e consigo ver mais nitidamente que meu pai teve também ótimos atributos. Meu pai nos amava muito, do seu jeito. Demonstrava mais do que a minha mãe até. Ele era mais parceiro, mais companheiro; ele me ensinou a andar de bicicleta; a correr; a desenhar; a cozinhar. Ele foi duro e exigente porque provavelmente foi assim que foi criado (a gente só dá o que tem) e ele sabia que a vida exigiria de nós tanto quanto ele. E ele sofreria demais se nos visse sofrendo na vida na fase adulta. Tanto que ele chorava escondido quando eu parava de conversar com ele por conta desse jeito autoritário. Isso doía muito nele. É como se ele aceitasse pagar o preço de ser odiado pelo filho, por conta da educação que ele julgava ser a melhor para mim. Volto a repetir: não só o meu pai, a sua geração foi criada dessa forma mais rígida e ele só pôde transmitir para mim o que foi passado a ele também. Não o culpo mais. Hoje eu o agradeço na verdade. E aqui  entra o objetivo central desse texto: o desenvolvimento de uma musculatura emocional.   

Existem dois tipos de forças distintas: a externa e a interna. A externa é a força visível; aquela que desenvolvemos quando fazemos atividade física; quando vamos à academia; quando corremos no parque; quando conseguimos erguer mais peso e carregar melhor o nosso próprio peso; quando hipertrofiamos e assim ficamos mais fortes. Ok, mas essa é uma força física! E a “força psicológica”?! Como estaríamos com relação a essa força interior? A força que é advinda dos “nãos” recebidos desde a infância; das vezes que sofremos uma separação pelo falecimento de um ente querido; ou por uma decepção; ou pela pressão advinda de entregar as demandas do trabalho; das expectativas que os outros depositam em nós ou que nós mesmos temos a nosso respeito. Uma força advinda da capacidade que desenvolvemos ao lidar com todos os sentimentos e emoções, especialmente angústia, tristeza, solidão. Como está essa sua força? Qual a musculatura emocional que você possui, já pensou sobre isso? Ou você dá sempre um ‘piti’?!

Não vou fazer aquele discurso batido de que a vida é dura, que ela é difícil, como se fosse um pessimista pondo medo. Não é isso. Mas sinto dizer também que discordo do oposto disso, de uma mentalidade vigente que prega que a vida é abundância, que ela é maravilhosa e apenas mentalizando positivo tudo vai dar certo, ser redondo e perfeito. Isso é utopia pura. Filosofia barata. Perigosa até. Isso é discurso de campanha de marketing. Concordo que a realidade inexiste e o importante de fato é a interpretação que conferimos aos acontecimentos, a nossa leitura feita. Mas isso não muda os eventos! É importante sim nos esforçarmos para construir um modelo mental sadio, ter um mindset que leia a realidade da melhor forma possível e que seja generoso conosco, mas é importante também estarmos preparados para lidar com todos os acontecimentos da vida que nos contrariem e que serão inevitáveis! Gosto daquela frase que diz assim: “espere o melhor, mas se prepare para o pior”. Exemplos são frustrações pessoais e morte de entes queridos, são acontecimentos inevitáveis na vida de qualquer pessoa e precisaremos lidar com isso.  Aquele que tem a mentalidade de “eu vim ao mundo para me servir e me dar bem”, cuidado! Está patinando em gelo fino. Os nossos desejos são ilimitados, mas os recursos disponíveis são – e devem ser – escassos. Então, ou tratamos de controlar nosso id com um bem desenvolvido superego, segundo Freud, ou será o nosso ego que vai pagar essa conta. E aqui entro com o assunto coadjuvante dessa postagem: uma musculatura emocional relacionada às doenças.

A ciência cada dia mais vem se rendendo à Psicossomática. Hoje muitos cientistas de variadas áreas já afirmam categoricamente que as doenças começam na nossa mente! Quando nosso psicoemocional não dá conta de algo e isso não é elaborado, ou seja, quando reprimimos, recalcamos, negligenciamos conteúdos que não damos conta, o corpo somatiza! O corpo vai falar através da doença. “Quando a boca cala, o corpo fala; quando a boca fala, o corpo sara.” É preocupante a sociedade atual nesse sentido. Como estamos lidando com as nossas emoções? Estamos desenvolvendo uma musculatura emocional? Estamos educando os nossos filhos para os “nãos” que certamente serão ditos pelo mundo porta à fora? É muito preocupante isso, principalmente quando leio que a cada ano aumenta o número de pessoas com doenças mentais como depressão e síndrome do pânico e o número de pessoas que tiram a própria vida. Casos de automutilação. Aumento significativo desses quadros em populações jovens. É assustador como quase não falamos sobre isso. Como ainda hoje é algo um tanto quanto velado, negligenciado ou desacreditado. Aumento de cânceres, aumento de doenças autoimunes, tudo advindo – ou agravado – por estado psicoemocional. Ainda hoje muitos não se deram conta da importância de conhecer o seu próprio interior. Pais dando tudo aos filhos por medo de serem rejeitados, não serem “amados”. Pai não é amigo de filho. Pai é pai. Pai é superego. Representa a Lei. Pai é o primeiro limite necessário à criança para no futuro ela não machucar ninguém, nem se machucar. E quando digo pai aqui me refiro a pais de um mundo geral, às figuras de quaisquer cuidadores. É quem diz “não”.

A minha educação foi severa sim, eu não a recomendo a pai algum. O meu pai extrapolou até, foi além do necessário para me educar e obviamente que esse exagero disciplinar também ocasionou mais dores e conflitos desnecessários. Mas ele deu o melhor que podia me dar, que ele sabia fazer. E o mais importante: o fez por amor! Amar também é dar limites. E sou grato de coração a ele por me fazer entender, desde de pequeno, que de ouvir “nãos” ninguém morre. Muito pelo contrário, ouvi-los formou em mim um bom caráter; me ensinou a trabalhar firme pelas coisas almejadas e a compreender que não vou e nem posso ter tudo o que quero na vida; a respeitar as pessoas e a lidar com as decepções que encontrei e que ainda encontrarei pelo caminho. Meu pai me ensinou a ser um homem de palavra. Ele dizia que a palavra era a coisa mais importante na vida de um homem e que se perdê-la, ele se perdeu. 

Esse post contando um pouco da minha história pessoal tenta humildemente trazer a responsabilidade da existência de uma autoridade firme desde a infância na estruturação de uma musculatura emocional. A vida toda precisaremos de limites! Ninguém faz o que quer, quando quer, como quer e está tudo bem, não é assim! A Lei existe primeiro para nos organizar. Em segundo para nos potencializar. Grandes pensadores na História já disseram: limite é poder. O limite é tão importante nesse quesito, porque ele não só é necessário e saudável ao ser humano para civiliza-lo, como da origem à criatividade humana, porque ele propicia o ambiente fértil para que isso aconteça. O limite cerca forças que vão criar um caldeirão! Um caldeirão de material perigoso, mas muito rico em capacidade de criação. Ou você acha que a gente cria na alegria? A gente cria na dor, a gente cresce no sofrimento, quando somos contrariados, quando estamos angustiados, quando nos é negado um desejo, uma vontade. Esse mal estar que fica, essa irritação que é gerada, esse desconforto interno criam arte. Ou podem cria-la. Assim como podem criar uma doença. Aí reside o perigo. É como um rio que corre livremente e vem uma barragem. Nós somos um rio que corre incessantemente. O rio representa o id, nossos desejos incontáveis, nossas vontades intermináveis. A barragem que contém é o superego, é o limite, é a Lei. E a infância é um momento especial para aprendermos a lidar com isso. A barragem limita as águas do rio, mas o potencializa! Quando se põe a barragem no rio, a água retesada ganha força e pode virar energia. Da mesma forma acontece em nossa vida toda vez que encontramos um obstáculo no caminho; nós condensamos força dentro de nós através das emoções e dos sentimentos gerados. Por isso é tão importante adquirirmos musculatura emocional, porque da mesma forma que a água retesada pode chegar um dia a destruir a barragem ou o entorno às margens do rio, o nosso descontrole emocional pode em algum momento machucar os demais ou a nós mesmos. Então, use esse turbilhão de emoções e sentimentos que tem dentro de si como força propulsora criativa. Encare os limites da vida e os momentos de crise como oportunidades para ganhar mais força interior. Mexa esse caldeirão de forma criativa. Faça análise. Psicoterapia. Faça alguma arte. Desenhe. Pinte. Esculpa. Cozinhe. Borde. Costure. Elabore os seus demônios, pois não à toa Lúcifer significa “o que traz a luz”.

domingo, 26 de maio de 2019

Será pelo amor ou pela dor, mas nunca de forma açucarada


“Do sofrimento emergiram os espíritos mais fortes, as personalidades mais sólidas estão marcadas com cicatrizes.” Khalil Gibran

Houve um tempo na minha vida, muito tempo atrás aliás, em que acreditava ser possível realizar transformações profundas em mim mesmo de forma rápida. E a partir dessa crença julgava as pessoas que eu convivia também quando elas ‘demoravam’ para assimilar alguma situação nova em suas vidas ou para fazer alguma mudança em si mesmas. Mudança essa que para mim era bastante necessária à pessoa. Fui passando por experiências que me ensinaram diferente e de um tempo para cá venho atualizando essa mentalidade. Hoje acredito exatamente no oposto e basicamente por três fatores: ninguém muda forçado; nessa mesa cada um paga a sua conta; e a dor será inevitável de qualquer jeito.

Não somos ninguém para dizer em que alguém tem que mudar.

É a própria pessoa quem vai dizer da necessidade de isso acontecer ou não. Quando gostamos de uma pessoa e queremos de fato o seu bem o máximo que podemos fazer é SUGERIR – com cuidado ainda – e caberá assim a pessoa o que fazer com isso; ouvir, seguir ou simplesmente ignorar. Será uma perda de tempo forçar a situação; ninguém muda porque outra pessoa quer que mude. As pessoas mudam quando querem, como querem, se acham que devem e se conseguem. Às vezes elas podem ainda não ter os recursos necessários para fazer determinada transformação em si mesmas naquele momento ou em dada situação. Embora sofremos ao assistir pessoas que gostamos ‘dando cabeçadas’ ou ‘murros em pontas de facas’, cabe aqui o espaço para que cada um viva do jeito que escolheu ou consegue viver. E temos que nos indagar também o seguinte: Será que o que consideramos como sendo ‘cabeçadas’ estaria de fato errado? E por que estaríamos nos incomodando tanto com a forma como uma pessoa vive? Muitas vezes podemos estar equivocados mesmo imbuídos de boa vontade. É aquela famosa estória da mulher que julgava a vizinha ao ver da janela suas roupas ‘sujas’ no varal, até descobrir que na verdade eram os vidros de sua própria janela que estavam sujos! Então é preciso bom senso até para sugerir mudanças a uma pessoa. E se a recusa de mudar de uma pessoa próxima esteja afetando você ou atrapalhando objetivamente a sua vida, não é ela quem precisa mudar, é você. Ou mude a forma de ver essa pessoa, de enxergar a situação ou se afaste pois essas são as únicas coisas que você de fato têm algum controle. 

Mudanças internas significativas têm um custo elevado de energia pessoal e de tempo.

Qualquer mudança interna que seja realmente efetiva inevitavelmente vai levar bastante tempo para se consolidar. Terá também um considerável custo de energia e psiquismo envolvidos. Não será da noite para o dia que se modificarão satisfatoriamente estruturas que levaram anos para se formarem. Felizmente ou infelizmente. Quando alguém me diz que transformou radicalmente seu comportamento para melhor através de uma conversa com alguém ou a partir de uma palestra, de um treinamento, de um workshop ou mesmo por um curso de imersão (bastante preconizados hoje em dia onde uma pessoa passa um final de semana imersa em atividades para autoconhecimento), eu ouço e evito proferir comentários. Tenho uma certa desconfiança da efetividade rápida dessas práticas. Não que isso não seja positivo ou que seja ruim, de forma alguma, acredito que são pontapés iniciais para um efeito em cascata. Mas um efeito que será lento, custoso, que vai demandar energia pessoal bem canalizada e não sem dor.

Eu não sou psicólogo. Não sou psicanalista. Não atuo com terapêuticas de nenhuma natureza. Mas pretendo humildemente agora trazer aqui a analogia seguinte. Imaginemos que você quer transformar o seu quarto. Então você vai fazer uma faxina para isso. Numa boa faxina você faz o quê? Você entra no quarto, arrasta todos os móveis (quando dá), abre as gavetas, tira tudo do lugar, verificando o que gosta, o que não quer mais. Você vai limpando cada móvel, cada peça, cada canto desse cômodo. Se alguém chegasse em sua casa nesse exato momento certamente diria: ‘que bagunça’. Mas você está fazendo uma faxina no seu quarto e sabe que o princípio da transformação é esse caos mesmo, precisa fazer isso para chegar onde quer. Aí você decide que quer mudar a cor das paredes, que gostaria de fazer uma textura diferente, que gostaria de mudar o guarda-roupa e a cama de lugares e de repente bate um apego aqueles livros que já leu mas não quer doar, aquelas roupas que não usa nem te servem mais, então percebe que tem que se despedir disso; o espaço era de um jeito e agora você quer que seja de outro.

Um processo de autoconhecimento e autodesenvolvimento é dessa ordem. Não dá para esperar que seja simples, fácil ou rápido. Se no plano físico como nesse exemplo da faxina e da transformação de um quarto já demoraria e daria um belo trabalho, já imaginou a magnitude de uma mudança interna? Dá trabalho arrastar um guarda-roupa de lugar, mas dá muito mais trabalho ainda alterar qualquer estrutura psíquica que foi construída ao longo de anos. Sem falar que determinados aspectos de uma personalidade nem teriam como alterar. Não facilmente. É como uma árvore, pode-se modificar o aspecto das folhagens, podar galhos, aumentar ou diminuir tamanho em algum nível, mas a raiz permanecerá no mesmo lugar e o fruto não muda. No cômodo da casa é como se o quarto viesse planejado também, já tendo alguns móveis projetados para determinados cantos ou fixos às paredes. Algumas mudanças internas então são possíveis. Outras não serão. Compreender isso já é uma questão de amadurecimento.

Agora, é fácil para uma pessoa fazer uma transformação interna dessa sozinha? Eu diria que é bastante difícil. Só não digo impossível porque já fiz algumas através de muita autopercepção, consciência e persistência – ao longo de vários anos. Não foi da noite para o dia. Nem em um final de semana. Quem busca por autoconhecimento sempre que possível pode procurar ajuda profissional, seja de um psicólogo, de um psicanalista, de um terapeuta específico, porque via de regra o ser humano só pode se ver em contraponto. O “eu” exige a existência de um “outro”, então é fato que ninguém se transforma sozinho. O que falei acima sobre mim mesmo estaria também equivocado, não amadureci sozinho. Meu processo de autoconhecimento foi a várias mãos. Sempre pedi feedback sobre o meu comportamento, sobre a minha personalidade, sobre as minhas atitudes (ou falta delas), sobre decisões que pretendia tomar, para pessoas em quem confio. Até hoje procuro manter uma atmosfera aberta entre essas pessoas que me cercam e tento demonstrar receptividade para que se sintam confortáveis para me darem esse feedback. E eu sempre peço feedback. Filtro criticamente as respostas e procuro refletir o que está sendo passado.

Só vamos abrir um parêntese aqui. Estamos falando todo o tempo nesse texto sobre autoconhecimento, autodesenvolvimento, sobre transformações internas que não são da ordem de sofrimento psíquico, de doença mental. Sendo esse o caso exige – exclusivamente – orientação de médico psiquiatra e psicólogo.

Não existe nenhuma garantia de felicidade e nem mudança açucarada. Autoconsciência dói! 

Não espere que não vai doer. Não espere que não vai incomodar. Não espere que seja mamão com açúcar. Um processo de autoconhecimento estará mais para um café frio, forte e amargo. Muitas vezes nos perguntamos: Por que algumas pessoas não se conhecem mais? A resposta é óbvia: Porque isso tem custo. Não digo que seja bom ser ignorante. Mas também não vou dizer que é mais fácil quando temos mais consciência. Tudo tem custo. E cada pessoa paga como pode. Sabe quanto suporta. Autoconhecimento exige sair de onde estamos e fazer um movimento em direção a algo, a nós mesmos, então é preciso querer. Estar disposto a fazer esse movimento e sair da zona de conforto (que de confortável não tem nada pois também tem o seu custo e não é pequeno, acredite). Autoconhecimento implica ter contato com partes desconhecidas de nós mesmos e o diferente sempre nos assusta, então é preciso vencer o medo e a insegurança. É fato que sair de uma zona de conforto, investir em autoconhecimento e provocar transformações pessoais garante mais felicidade? Não! Então por qual motivo sair de uma zona de conforto e mudar? Porque se você está cogitando a mudança e se isso já é uma necessidade para você é porque feliz você já não está. O ‘Não’ você já vive internamente e a dúvida aqui é se está disposto ou pronto para descobrir e lutar por um “Sim” para viver melhor. E só você poderá se responder já que a dor é toda sua.

Sempre escutei as pessoas falando que ou alguém aprende pelo amor ou aprende pela dor. Mas na minha opinião essa frase nos induz a acreditar que teremos uma mudança açucarada seguindo o caminho do amor. O que não é verdade. Não existe mudança açucarada em nenhum dos caminhos. Todo processo de autoconhecimento implica em autotransformações e em mudanças internas. Toda mudança interna depois vai refletir no externo. Esse processo gera amadurecimento e isso dói porque nos dá maior consciência. À medida que ganhamos mais consciência de nós mesmos é como se jogássemos luz sobre cômodos escuros de nossa psique e podemos então descobrir que não somos tão belos, puros, bons, perfeitos, santos, certos, éticos, como idealizávamos ser. Aprender pelo amor ou pela dor, na minha opinião, tem mais a ver com a prontidão e com a abertura para algo muitas vezes inevitável.

Imagine que você terá que ir a uma expedição na selva. Naquele seu quarto (lembra?) você já tem todas as ferramentas de que vai precisar guardadas em algum lugar. Sabendo que você vai precisar ir a essa expedição de qualquer maneira, você já vai se preparando; afia seu facão, coloca água no seu cantil, separa os mapas que vai precisar, pega aquele seu calçado resistente, escolhe as roupas necessárias, entre outras coisas, e parte (pelo amor) à expedição que já sabe que será um período difícil e doloroso de aprendizado em sua vida. Agora vamos supor que você negue tudo isso e siga vivendo sua vida dentro de uma zona confortável sem pensar na chegada dessa missão. Só que um belo dia a Vida te empurra (pela dor) a essa missão que você já sabia que seria inevitável. De fato, você sabe que tem todas as ferramentas que precisará naquele seu quarto, mas onde elas estão guardadas mesmo? Você foi pego de surpresa! Você não estava preparado para isso. Sabe o que acontece agora? Você vai ter que aprender a nadar com a água subindo! É isso o que está acontecendo com algumas pessoas, elas estão sendo demandadas sem estarem maduras, emocional e psicologicamente preparadas para isso.

“Você nunca sabe a força que tem, até que a sua única alternativa é ser forte.” Johnny Depp