domingo, 4 de agosto de 2019

LIMITE É PODER



"O que não me mata, me torna mais forte."
Friedrich Nietzsche


Eu era bastante jovem ainda quando comecei a refletir sobre a existência de uma força interior que era imprescindível adquirir para conseguir sobreviver na vida. É curioso quando faço o exercício de olhar para trás e fazer uma imagem mental que me retrate minha infância, porque é inevitável vir à mente uma paisagem inóspita, onde um garoto que está sozinho procura sobreviver com os poucos recursos que possui ali. Só que isso é uma inverdade, porque nunca vivi sozinho, meus pais sempre estiveram presentes e nunca me maltrataram – pelo menos não fisicamente –. Mas foi exatamente essa imagem que eu captei do ambiente familiar. Isso é o que importa para o nosso cérebro: como fazemos a leitura. E essa percepção significou duas coisas para mim desde então: minha infância teve de fato pouco calor humano (amorosidade, atenção, compreensão por parte deles) e tive uma interpretação disso pondo mais intensidade emocional talvez (distanciamento, exigência, rigor, pressão, responsabilidade). Em miúdos, a minha infância foi sim difícil, mas eu dramatizei ainda mais com a minha percepção. Nem tudo foi como eu captei. E aí me veio a primeira questão crucial: tive uma infância difícil porque li assim ou li assim porque tive uma infância difícil?

Quando constatei esse mecanismo fiquei literalmente fascinado e assustado ao mesmo tempo. Então passei a adquirir em toda oportunidade que tivesse mais e mais musculatura emocional, não só para compreender melhor esse mecanismo que eu tinha, mas para ir lidando melhor com as experiências que vivenciava. Eu sabia, e tinha muito claro isso, que eu precisaria ser forte, em todos os sentidos. Dizia para mim mesmo: - “É isso o que tem pra hoje? Ok, eu topo. E vamos ver até onde eu dou conta.” Estamos falando aqui da percepção de uma criança ainda, mas incrivelmente foi exatamente assim que eu encarei a minha criação – “eu tenho que dar conta”. Procurei encarar as cobranças e os limites como um desafio pessoal onde eu teria que suportar, sobreviver e vencer! E o primeiro oponente no jogo: meu próprio pai! Tive então uma infância difícil recheada de momentos assim, conflitantes; momentos que exigiram muito de mim, emocionalmente falando. Da minha infância até a adolescência fui posto, ou me pus, em situações onde precisei suportar e saber lidar com fortes conteúdos emocionais já dentro de casa. 

Minha educação foi rígida, ficou mais a cabo do meu pai, porque minha mãe era meio ausente, ela tinha dois empregos, trabalhava dia e noite, então quem cuidava mais de mim era o meu pai. Só que ele era severo, ditatorial e tinha uma forma de nos educar (o que para ele era educar) agressiva. Fazia questão de ser respeitado, de ter sua autoridade inquestionável, os seus “nãos” eram altos em bom tom, os seus castigos eram rigorosos e a sua mão bastante pesada! Eu o odiava quando era criança. Era difícil pra mim compreender como um pai podia ser tão general e duro com os próprios filhos. Tinha tanto ódio e tanta raiva dele que às vezes chorava de tanto que esses sentimentos eram intensos. Ele era muito difícil de lidar, some-se a isso seu problema com o uso abusivo de álcool. Só que vamos lembrar que nessa visão aqui eu era uma criança em desenvolvimento, precisava de limites. Hoje sou adulto e consigo ver mais nitidamente que meu pai teve também ótimos atributos. Meu pai nos amava muito, do seu jeito. Demonstrava mais do que a minha mãe até. Ele era mais parceiro, mais companheiro; ele me ensinou a andar de bicicleta; a correr; a desenhar; a cozinhar. Ele foi duro e exigente porque provavelmente foi assim que foi criado (a gente só dá o que tem) e ele sabia que a vida exigiria de nós tanto quanto ele. E ele sofreria demais se nos visse sofrendo na vida na fase adulta. Tanto que ele chorava escondido quando eu parava de conversar com ele por conta desse jeito autoritário. Isso doía muito nele. É como se ele aceitasse pagar o preço de ser odiado pelo filho, por conta da educação que ele julgava ser a melhor para mim. Volto a repetir: não só o meu pai, a sua geração foi criada dessa forma mais rígida e ele só pôde transmitir para mim o que foi passado a ele também. Não o culpo mais. Hoje eu o agradeço na verdade. E aqui  entra o objetivo central desse texto: o desenvolvimento de uma musculatura emocional.   

Existem dois tipos de forças distintas: a externa e a interna. A externa é a força visível; aquela que desenvolvemos quando fazemos atividade física; quando vamos à academia; quando corremos no parque; quando conseguimos erguer mais peso e carregar melhor o nosso próprio peso; quando hipertrofiamos e assim ficamos mais fortes. Ok, mas essa é uma força física! E a “força psicológica”?! Como estaríamos com relação a essa força interior? A força que é advinda dos “nãos” recebidos desde a infância; das vezes que sofremos uma separação pelo falecimento de um ente querido; ou por uma decepção; ou pela pressão advinda de entregar as demandas do trabalho; das expectativas que os outros depositam em nós ou que nós mesmos temos a nosso respeito. Uma força advinda da capacidade que desenvolvemos ao lidar com todos os sentimentos e emoções, especialmente angústia, tristeza, solidão. Como está essa sua força? Qual a musculatura emocional que você possui, já pensou sobre isso? Ou você dá sempre um ‘piti’?!

Não vou fazer aquele discurso batido de que a vida é dura, que ela é difícil, como se fosse um pessimista pondo medo. Não é isso. Mas sinto dizer também que discordo do oposto disso, de uma mentalidade vigente que prega que a vida é abundância, que ela é maravilhosa e apenas mentalizando positivo tudo vai dar certo, ser redondo e perfeito. Isso é utopia pura. Filosofia barata. Perigosa até. Isso é discurso de campanha de marketing. Concordo que a realidade inexiste e o importante de fato é a interpretação que conferimos aos acontecimentos, a nossa leitura feita. Mas isso não muda os eventos! É importante sim nos esforçarmos para construir um modelo mental sadio, ter um mindset que leia a realidade da melhor forma possível e que seja generoso conosco, mas é importante também estarmos preparados para lidar com todos os acontecimentos da vida que nos contrariem e que serão inevitáveis! Gosto daquela frase que diz assim: “espere o melhor, mas se prepare para o pior”. Exemplos são frustrações pessoais e morte de entes queridos, são acontecimentos inevitáveis na vida de qualquer pessoa e precisaremos lidar com isso.  Aquele que tem a mentalidade de “eu vim ao mundo para me servir e me dar bem”, cuidado! Está patinando em gelo fino. Os nossos desejos são ilimitados, mas os recursos disponíveis são – e devem ser – escassos. Então, ou tratamos de controlar nosso id com um bem desenvolvido superego, segundo Freud, ou será o nosso ego que vai pagar essa conta. E aqui entro com o assunto coadjuvante dessa postagem: uma musculatura emocional relacionada às doenças.

A ciência cada dia mais vem se rendendo à Psicossomática. Hoje muitos cientistas de variadas áreas já afirmam categoricamente que as doenças começam na nossa mente! Quando nosso psicoemocional não dá conta de algo e isso não é elaborado, ou seja, quando reprimimos, recalcamos, negligenciamos conteúdos que não damos conta, o corpo somatiza! O corpo vai falar através da doença. “Quando a boca cala, o corpo fala; quando a boca fala, o corpo sara.” É preocupante a sociedade atual nesse sentido. Como estamos lidando com as nossas emoções? Estamos desenvolvendo uma musculatura emocional? Estamos educando os nossos filhos para os “nãos” que certamente serão ditos pelo mundo porta à fora? É muito preocupante isso, principalmente quando leio que a cada ano aumenta o número de pessoas com doenças mentais como depressão e síndrome do pânico e o número de pessoas que tiram a própria vida. Casos de automutilação. Aumento significativo desses quadros em populações jovens. É assustador como quase não falamos sobre isso. Como ainda hoje é algo um tanto quanto velado, negligenciado ou desacreditado. Aumento de cânceres, aumento de doenças autoimunes, tudo advindo – ou agravado – por estado psicoemocional. Ainda hoje muitos não se deram conta da importância de conhecer o seu próprio interior. Pais dando tudo aos filhos por medo de serem rejeitados, não serem “amados”. Pai não é amigo de filho. Pai é pai. Pai é superego. Representa a Lei. Pai é o primeiro limite necessário à criança para no futuro ela não machucar ninguém, nem se machucar. E quando digo pai aqui me refiro a pais de um mundo geral, às figuras de quaisquer cuidadores. É quem diz “não”.

A minha educação foi severa sim, eu não a recomendo a pai algum. O meu pai extrapolou até, foi além do necessário para me educar e obviamente que esse exagero disciplinar também ocasionou mais dores e conflitos desnecessários. Mas ele deu o melhor que podia me dar, que ele sabia fazer. E o mais importante: o fez por amor! Amar também é dar limites. E sou grato de coração a ele por me fazer entender, desde de pequeno, que de ouvir “nãos” ninguém morre. Muito pelo contrário, ouvi-los formou em mim um bom caráter; me ensinou a trabalhar firme pelas coisas almejadas e a compreender que não vou e nem posso ter tudo o que quero na vida; a respeitar as pessoas e a lidar com as decepções que encontrei e que ainda encontrarei pelo caminho. Meu pai me ensinou a ser um homem de palavra. Ele dizia que a palavra era a coisa mais importante na vida de um homem e que se perdê-la, ele se perdeu. 

Esse post contando um pouco da minha história pessoal tenta humildemente trazer a responsabilidade da existência de uma autoridade firme desde a infância na estruturação de uma musculatura emocional. A vida toda precisaremos de limites! Ninguém faz o que quer, quando quer, como quer e está tudo bem, não é assim! A Lei existe primeiro para nos organizar. Em segundo para nos potencializar. Grandes pensadores na História já disseram: limite é poder. O limite é tão importante nesse quesito, porque ele não só é necessário e saudável ao ser humano para civiliza-lo, como da origem à criatividade humana, porque ele propicia o ambiente fértil para que isso aconteça. O limite cerca forças que vão criar um caldeirão! Um caldeirão de material perigoso, mas muito rico em capacidade de criação. Ou você acha que a gente cria na alegria? A gente cria na dor, a gente cresce no sofrimento, quando somos contrariados, quando estamos angustiados, quando nos é negado um desejo, uma vontade. Esse mal estar que fica, essa irritação que é gerada, esse desconforto interno criam arte. Ou podem cria-la. Assim como podem criar uma doença. Aí reside o perigo. É como um rio que corre livremente e vem uma barragem. Nós somos um rio que corre incessantemente. O rio representa o id, nossos desejos incontáveis, nossas vontades intermináveis. A barragem que contém é o superego, é o limite, é a Lei. E a infância é um momento especial para aprendermos a lidar com isso. A barragem limita as águas do rio, mas o potencializa! Quando se põe a barragem no rio, a água retesada ganha força e pode virar energia. Da mesma forma acontece em nossa vida toda vez que encontramos um obstáculo no caminho; nós condensamos força dentro de nós através das emoções e dos sentimentos gerados. Por isso é tão importante adquirirmos musculatura emocional, porque da mesma forma que a água retesada pode chegar um dia a destruir a barragem ou o entorno às margens do rio, o nosso descontrole emocional pode em algum momento machucar os demais ou a nós mesmos. Então, use esse turbilhão de emoções e sentimentos que tem dentro de si como força propulsora criativa. Encare os limites da vida e os momentos de crise como oportunidades para ganhar mais força interior. Mexa esse caldeirão de forma criativa. Faça análise. Psicoterapia. Faça alguma arte. Desenhe. Pinte. Esculpa. Cozinhe. Borde. Costure. Elabore os seus demônios, pois não à toa Lúcifer significa “o que traz a luz”.

domingo, 26 de maio de 2019

Será pelo amor ou pela dor, mas nunca de forma açucarada


“Do sofrimento emergiram os espíritos mais fortes, as personalidades mais sólidas estão marcadas com cicatrizes.” Khalil Gibran

Houve um tempo na minha vida, muito tempo atrás aliás, em que acreditava ser possível realizar transformações profundas em mim mesmo de forma rápida. E a partir dessa crença julgava as pessoas que eu convivia também quando elas ‘demoravam’ para assimilar alguma situação nova em suas vidas ou para fazer alguma mudança em si mesmas. Mudança essa que para mim era bastante necessária à pessoa. Fui passando por experiências que me ensinaram diferente e de um tempo para cá venho atualizando essa mentalidade. Hoje acredito exatamente no oposto e basicamente por três fatores: ninguém muda forçado; nessa mesa cada um paga a sua conta; e a dor será inevitável de qualquer jeito.

Não somos ninguém para dizer em que alguém tem que mudar.

É a própria pessoa quem vai dizer da necessidade de isso acontecer ou não. Quando gostamos de uma pessoa e queremos de fato o seu bem o máximo que podemos fazer é SUGERIR – com cuidado ainda – e caberá assim a pessoa o que fazer com isso; ouvir, seguir ou simplesmente ignorar. Será uma perda de tempo forçar a situação; ninguém muda porque outra pessoa quer que mude. As pessoas mudam quando querem, como querem, se acham que devem e se conseguem. Às vezes elas podem ainda não ter os recursos necessários para fazer determinada transformação em si mesmas naquele momento ou em dada situação. Embora sofremos ao assistir pessoas que gostamos ‘dando cabeçadas’ ou ‘murros em pontas de facas’, cabe aqui o espaço para que cada um viva do jeito que escolheu ou consegue viver. E temos que nos indagar também o seguinte: Será que o que consideramos como sendo ‘cabeçadas’ estaria de fato errado? E por que estaríamos nos incomodando tanto com a forma como uma pessoa vive? Muitas vezes podemos estar equivocados mesmo imbuídos de boa vontade. É aquela famosa estória da mulher que julgava a vizinha ao ver da janela suas roupas ‘sujas’ no varal, até descobrir que na verdade eram os vidros de sua própria janela que estavam sujos! Então é preciso bom senso até para sugerir mudanças a uma pessoa. E se a recusa de mudar de uma pessoa próxima esteja afetando você ou atrapalhando objetivamente a sua vida, não é ela quem precisa mudar, é você. Ou mude a forma de ver essa pessoa, de enxergar a situação ou se afaste pois essas são as únicas coisas que você de fato têm algum controle. 

Mudanças internas significativas têm um custo elevado de energia pessoal e de tempo.

Qualquer mudança interna que seja realmente efetiva inevitavelmente vai levar bastante tempo para se consolidar. Terá também um considerável custo de energia e psiquismo envolvidos. Não será da noite para o dia que se modificarão satisfatoriamente estruturas que levaram anos para se formarem. Felizmente ou infelizmente. Quando alguém me diz que transformou radicalmente seu comportamento para melhor através de uma conversa com alguém ou a partir de uma palestra, de um treinamento, de um workshop ou mesmo por um curso de imersão (bastante preconizados hoje em dia onde uma pessoa passa um final de semana imersa em atividades para autoconhecimento), eu ouço e evito proferir comentários. Tenho uma certa desconfiança da efetividade rápida dessas práticas. Não que isso não seja positivo ou que seja ruim, de forma alguma, acredito que são pontapés iniciais para um efeito em cascata. Mas um efeito que será lento, custoso, que vai demandar energia pessoal bem canalizada e não sem dor.

Eu não sou psicólogo. Não sou psicanalista. Não atuo com terapêuticas de nenhuma natureza. Mas pretendo humildemente agora trazer aqui a analogia seguinte. Imaginemos que você quer transformar o seu quarto. Então você vai fazer uma faxina para isso. Numa boa faxina você faz o quê? Você entra no quarto, arrasta todos os móveis (quando dá), abre as gavetas, tira tudo do lugar, verificando o que gosta, o que não quer mais. Você vai limpando cada móvel, cada peça, cada canto desse cômodo. Se alguém chegasse em sua casa nesse exato momento certamente diria: ‘que bagunça’. Mas você está fazendo uma faxina no seu quarto e sabe que o princípio da transformação é esse caos mesmo, precisa fazer isso para chegar onde quer. Aí você decide que quer mudar a cor das paredes, que gostaria de fazer uma textura diferente, que gostaria de mudar o guarda-roupa e a cama de lugares e de repente bate um apego aqueles livros que já leu mas não quer doar, aquelas roupas que não usa nem te servem mais, então percebe que tem que se despedir disso; o espaço era de um jeito e agora você quer que seja de outro.

Um processo de autoconhecimento e autodesenvolvimento é dessa ordem. Não dá para esperar que seja simples, fácil ou rápido. Se no plano físico como nesse exemplo da faxina e da transformação de um quarto já demoraria e daria um belo trabalho, já imaginou a magnitude de uma mudança interna? Dá trabalho arrastar um guarda-roupa de lugar, mas dá muito mais trabalho ainda alterar qualquer estrutura psíquica que foi construída ao longo de anos. Sem falar que determinados aspectos de uma personalidade nem teriam como alterar. Não facilmente. É como uma árvore, pode-se modificar o aspecto das folhagens, podar galhos, aumentar ou diminuir tamanho em algum nível, mas a raiz permanecerá no mesmo lugar e o fruto não muda. No cômodo da casa é como se o quarto viesse planejado também, já tendo alguns móveis projetados para determinados cantos ou fixos às paredes. Algumas mudanças internas então são possíveis. Outras não serão. Compreender isso já é uma questão de amadurecimento.

Agora, é fácil para uma pessoa fazer uma transformação interna dessa sozinha? Eu diria que é bastante difícil. Só não digo impossível porque já fiz algumas através de muita autopercepção, consciência e persistência – ao longo de vários anos. Não foi da noite para o dia. Nem em um final de semana. Quem busca por autoconhecimento sempre que possível pode procurar ajuda profissional, seja de um psicólogo, de um psicanalista, de um terapeuta específico, porque via de regra o ser humano só pode se ver em contraponto. O “eu” exige a existência de um “outro”, então é fato que ninguém se transforma sozinho. O que falei acima sobre mim mesmo estaria também equivocado, não amadureci sozinho. Meu processo de autoconhecimento foi a várias mãos. Sempre pedi feedback sobre o meu comportamento, sobre a minha personalidade, sobre as minhas atitudes (ou falta delas), sobre decisões que pretendia tomar, para pessoas em quem confio. Até hoje procuro manter uma atmosfera aberta entre essas pessoas que me cercam e tento demonstrar receptividade para que se sintam confortáveis para me darem esse feedback. E eu sempre peço feedback. Filtro criticamente as respostas e procuro refletir o que está sendo passado.

Só vamos abrir um parêntese aqui. Estamos falando todo o tempo nesse texto sobre autoconhecimento, autodesenvolvimento, sobre transformações internas que não são da ordem de sofrimento psíquico, de doença mental. Sendo esse o caso exige – exclusivamente – orientação de médico psiquiatra e psicólogo.

Não existe nenhuma garantia de felicidade e nem mudança açucarada. Autoconsciência dói! 

Não espere que não vai doer. Não espere que não vai incomodar. Não espere que seja mamão com açúcar. Um processo de autoconhecimento estará mais para um café frio, forte e amargo. Muitas vezes nos perguntamos: Por que algumas pessoas não se conhecem mais? A resposta é óbvia: Porque isso tem custo. Não digo que seja bom ser ignorante. Mas também não vou dizer que é mais fácil quando temos mais consciência. Tudo tem custo. E cada pessoa paga como pode. Sabe quanto suporta. Autoconhecimento exige sair de onde estamos e fazer um movimento em direção a algo, a nós mesmos, então é preciso querer. Estar disposto a fazer esse movimento e sair da zona de conforto (que de confortável não tem nada pois também tem o seu custo e não é pequeno, acredite). Autoconhecimento implica ter contato com partes desconhecidas de nós mesmos e o diferente sempre nos assusta, então é preciso vencer o medo e a insegurança. É fato que sair de uma zona de conforto, investir em autoconhecimento e provocar transformações pessoais garante mais felicidade? Não! Então por qual motivo sair de uma zona de conforto e mudar? Porque se você está cogitando a mudança e se isso já é uma necessidade para você é porque feliz você já não está. O ‘Não’ você já vive internamente e a dúvida aqui é se está disposto ou pronto para descobrir e lutar por um “Sim” para viver melhor. E só você poderá se responder já que a dor é toda sua.

Sempre escutei as pessoas falando que ou alguém aprende pelo amor ou aprende pela dor. Mas na minha opinião essa frase nos induz a acreditar que teremos uma mudança açucarada seguindo o caminho do amor. O que não é verdade. Não existe mudança açucarada em nenhum dos caminhos. Todo processo de autoconhecimento implica em autotransformações e em mudanças internas. Toda mudança interna depois vai refletir no externo. Esse processo gera amadurecimento e isso dói porque nos dá maior consciência. À medida que ganhamos mais consciência de nós mesmos é como se jogássemos luz sobre cômodos escuros de nossa psique e podemos então descobrir que não somos tão belos, puros, bons, perfeitos, santos, certos, éticos, como idealizávamos ser. Aprender pelo amor ou pela dor, na minha opinião, tem mais a ver com a prontidão e com a abertura para algo muitas vezes inevitável.

Imagine que você terá que ir a uma expedição na selva. Naquele seu quarto (lembra?) você já tem todas as ferramentas de que vai precisar guardadas em algum lugar. Sabendo que você vai precisar ir a essa expedição de qualquer maneira, você já vai se preparando; afia seu facão, coloca água no seu cantil, separa os mapas que vai precisar, pega aquele seu calçado resistente, escolhe as roupas necessárias, entre outras coisas, e parte (pelo amor) à expedição que já sabe que será um período difícil e doloroso de aprendizado em sua vida. Agora vamos supor que você negue tudo isso e siga vivendo sua vida dentro de uma zona confortável sem pensar na chegada dessa missão. Só que um belo dia a Vida te empurra (pela dor) a essa missão que você já sabia que seria inevitável. De fato, você sabe que tem todas as ferramentas que precisará naquele seu quarto, mas onde elas estão guardadas mesmo? Você foi pego de surpresa! Você não estava preparado para isso. Sabe o que acontece agora? Você vai ter que aprender a nadar com a água subindo! É isso o que está acontecendo com algumas pessoas, elas estão sendo demandadas sem estarem maduras, emocional e psicologicamente preparadas para isso.

“Você nunca sabe a força que tem, até que a sua única alternativa é ser forte.” Johnny Depp

domingo, 12 de maio de 2019

MAPEAMENTO COMPORTAMENTAL: Vamos explorar o DISC?



Sou formado em administração de empresas. Fiz pós-graduação em gestão de pessoas, recursos humanos e psicologia organizacional e do trabalho. Estudei sobre coaching com especial foco empresarial. Trabalho com recursos humanos e gestão de pessoas há quase uma década. Venho trazer algo que sempre me chamou a atenção: os perfis comportamentais. Sempre gostei de testes de personalidade, testes comportamentais, ferramentas de mapeamento comportamental nas empresas e fiz inúmeros desses ao longo da minha vida. Desde de antes mesmo de cursar a graduação já fazia esses testes. Conheci inúmeras ótimas ferramentas para isso, como o MBTI, o DISC, o Eneragrama, o Âncoras de Carreira etc. Nessa época o meu objetivo era apenas me conhecer melhor, descobrir possíveis talentos e formas de potencializá-los para obter sucesso na vida (outro tema que pretendo discutir um dia aqui: o que é sucesso e como vejo isso hoje).

Na faculdade gostava quando um professor trazia algum teste dessa natureza e nos pedia para fazê-lo, mas eu não gostava quando as discussões e reflexões iam para conclusões decisivas e definitivas. Por vezes taxativas. Você é ‘isso’; você não é ‘aquilo’; sua vocação é ‘essa’; você não é para ‘aquilo’. Acredito sinceramente que precisamos tomar muito cuidado em afirmar ou negar taxativamente qualquer coisa, quando estamos no ambiente organizacional e falando especificamente de pessoas, porque somos mutáveis, aprendemos e a neurociência já nos provou a plasticidade cerebral. O que significa que nosso cérebro está constantemente aprendendo e se transformando com o que assimilamos. E isso ocorrerá até o dia de nossa morte! Portanto, não se subestime profissionalmente. Você é capaz de alcançar resultados diferenciados que fogem sim do esperado. Você não está numa caixinha! Não é porque o RH bateu um carimbo de Conforme na sua testa que isso significa que não poderá ser um bom vendedor comunicativo. Nem significa que todo Dominante nasceu de fato para a liderança. Percebo que quase sempre, quando alguém se propõe a aplicar alguma ferramenta destas de mapeamento comportamental, as devolutivas vêm sempre cristalizadas e rasas, como se olhassem apenas a ponta do iceberg no resultado desconsiderando o restante da obra.

Agora eu, como um bom Conforme que sou, Analista, Especialista, Lobo, INTJ, convido você aqui a aprofundar um pouco mais essa análise [rs rs]. É claro que existem ferramentas que dão um resultado mais apurado sim, conheço algumas muito boas e conheço também profissionais dessa área bastante competentes que sabem e deixam claro ao darem uma devolutiva que ninguém é uma coisa somente. Mas eu falo aqui de uma grande maioria de profissionais, e de professores infelizmente, pois já assisti isso em sala de aula, que não explicam das variações que podem existir, dentro de um mesmo perfil predominante. No DISC por exemplo, quando dizemos que uma pessoa é Conforme, como no meu caso, estamos falando dessa predominância em seu comportamento. Mas eu não sou um Conforme apenas. Dentro do DISC existem quatro perfis que embora alguns não aproveitem o resultado amplamente como se poderia, o resultado acaba formando combinações. Variações. Em diferentes graus ainda! O que significa que uma pessoa pode muito bem ter mais a Conformidade predominante em seu comportamento do que eu. Eu sou Conforme/Dominante/Estável/Influente, nesta ordem, e com especial atenção aqui para uma pontuação de Dominância bem próxima a de Conformidade e tendo uma pontuação bem baixa de Influência.


Quero trazer aqui então uma análise mais ampla em relação ao teste DISC, com especial atenção ao segundo tipo mais pontuado da pessoa e ao último, aquele perfil menos pontuado. Vejo muitos profissionais que trabalham com essa ferramenta sendo conclusivos: você é dominante [apenas]. E logo passam o descritivo deste perfil comportamental. Todavia, um indivíduo Dominante diferente consideravelmente de um outro também Dominante, quando verificamos as variações.

Exemplo entre dois perfis predominantemente Dominantes:

1º = D.I.S.C. e 2º = D.C.S.I.

O 1º dominante provavelmente seria mais extrovertido e aberto, note que seu perfil secundário também é mais extrovertido do que introvertido, dando uma combinação de duas “letras” iniciais extrovertidas, logo tende a ser uma pessoa mais aberta e sociável [em relação ao 2º]. Tende também a ser mais impulsivo já que a Conformidade, que traria ao comportamento mais colheita de dados e análise, e a Estabilidade, que traria o planejamento, pontuaram menos. Assim é possível se dizer que esta seria uma pessoa mais articulada, comunicativa, sociável e aberta ao grupo, mas também mais impulsiva, rápida, com dificuldade para rotinas e processos que exigem maior precisão [em relação ao 2º].

O 2º dominante já seria mais voltado aos processos do que às pessoas propriamente envolvidas nos processos, note que as duas primeiras “letras” são mais voltadas a isso e em especial a resultados. A última posição é Influência, então seria uma pessoa provavelmente menos voltada às ideias inovadoras e originais demais, assim como avessa às mudanças bruscas, podendo ser mais pragmática e pé no chão [em relação ao 1º]. Pode-se dizer também que tende a ser uma pessoa mais séria e que tendo análise e precisão vindo de seu perfil secundário, seria mais objetiva e talvez não tolerando bem falta de objetividade e foco. Portanto seria uma pessoa mais focada, objetiva, que procuraria resultados acima de tudo, mas também se baseando em dados para isso e provavelmente apontaria facilmente um liderado ou colega de trabalho ‘enchendo linguiça’ ou com ideias mirabolantes demais [em relação ao 1º].

Comparando os dois perfis dominantes a dois motoristas, em carros igualmente potentes, poderíamos dizer que o primeiro aceleraria mais do que o segundo, já que a capacidade de freio (Estabilidade e Conformidade) neste é menor. Com Dominância predominate em ambos, os dois se colocam, gostam de tomar a frente nas situações e são mais diretos, porém o primeiro consideraria mais as pessoas e ideias inovadoras no processo, já o segundo consideraria mais a análise de dados e preferiria seguir com o planejamento. Não existe aqui julgamento de valor, dentro de organizações às vezes se faz mais necessário aquele que avança agressivamente assumindo mais riscos não podendo perder tempo. E em outras situações pode ser preciso avançar metódica e estrategicamente.

Veja que me utilizo bastante de palavras como “tende” e faço uso de condicional, pois o resultado do teste nos revela tendências, padrões de comportamento que, para um profissional de RH por exemplo, serve de base para levar para uma conversa e confirmar (ou não) durante a entrevista essas análises. Exatamente por isso todo resultado precisa ser contextualizado, confrontado as vezes com outras ferramentas e explorado durante uma boa entrevista, pois existe autoengano e “engano consciente” também’!

Volto ao meu perfil nesta ferramenta que dá Conforme. Sou C.D.S.I. Um indivíduo assim é mais voltado para processos, estratégias e resultados, e menos voltado às pessoas. Só que se eu fosse levar isto ao pé da letra, por qual motivo trabalharia com recursos humanos e gestão de pessoas, não é mesmo? Só que também não posso negar que é mais difícil para mim e que ao longo dos anos venho trabalhando a Estabilidade e principalmente a Influência! Hoje procuro me permitir mudar com mais facilidade entendendo que os riscos fazem parte e não me pondo alheio às pessoas e aos relacionamentos. As vezes fazem parte aquele cafezinho na copa e a conversa no corredor; não é uma ‘perda de tempo’ (como muitas vezes julgava), as vezes as pessoas só querem estar um pouco comigo e me conhecer mais, e muitas das vezes também a resposta para um problema da empresa, que eu vinha buscando, aparece nessa simples conversa trivial. Dali pode surgir um insight! Um olhar diferenciado para uma questão. Mas eu precisei me permitir isso! Inconscientemente julgava esse comportamento: não via muito sentido na Influência. Sempre associei socialização nas empresas com pessoas à toa, ociosas, até enrolando para não trabalhar! Mas hoje entendo o sentido de expressão Ócio Criativo. Sem radicalismo nisso, é sim verdade que boas ideias podem surgir a partir de um simples papo ocasional.

O que eu quero trazer com toda essa explicação? Esmiúcem o resultado do DISC!! Você não é [só] um Estável. Um dominante [apenas]. Você é uma variação desses perfis, uma combinação! E é sempre muito interessante, a nível de autopercepção, de autoconhecimento, de autodesenvolvimento (por que não?), você prestar atenção a qual o seu perfil secundário, porque este tende a ser sua muleta, ele te auxilia muito. E o último geralmente é seu ponto frágil, que pode ser trabalhado se o vir com bons olhos. Geralmente aquele perfil que pontua menos em nosso teste tendemos a não ver suas características com bons olhos ou a não as valorizar, porém não existe perfil melhor nem pior. Eles são iguais em importância! Existem apenas as características que podem ou não serem empregadas de melhores ou piores formas dentro das organizações. E cabe aos profissionais que aplicam essas ferramentas serem mais Conformes nessa hora [rs rs] Vamos analisar mais detalhadamente cada resultado afim de se obter mais respostas.

Por fim, eu gostaria de dizer o seguinte também. Acho importante isso. Muito além de ser um Estável ou um Influente e muito além de ser uma combinação disso tudo, você é um ser humano dotado de neuroplasticidade! Isso significa que nós somos capazes de mudar! De nos transformar. O teste DISC, utilizado neste texto, é um teste COMPORTAMENTAL! Isso significa que ele se baseia no seu comportamento para dar o resultado. E nós sabemos que comportamentos podem mudar. Eu acredito, sinceramente, que temos que nos aceitar como somos, com nossas qualidades boas e ‘defeitos’ e procurar extrair o melhor disso, dentro do possível. Mas acredito também numa mudança consciente. Como expus, sou Conforme/Dominante com baixa Influência, mas isso não me sentencia a ser um nerd antissocial, fechado demais, avesso a qualquer mudança. Só se eu quiser! O resultado só me aponta para um possível gap (jargão usado em RH para ‘algo a se desenvolver’), que tendo mais consciência posso sair do automático e me trabalhar.

Só digo que temos que nos aceitar como somos, porque sei que não serei espontaneamente expansivo, aberto e extrovertido, tenho consciência de que não consigo sem muito custo (e nem precisa), mas posso procurar ser menos rígido, inflexível, avesso às mudanças e aos contatos superficiais, entendendo que às vezes excesso de perfeccionismo e de controle pode me engessar, me atrapalhando! É quando então vem um convite: Jonas, que tal relaxar um pouco agora, deixar rolar e ir lidando com possíveis imprevistos que surgirem que já foram calculados, vamos tomar um café? Nessa hora eu abraço um comportamento influente!

domingo, 31 de março de 2019

A DOR DE UMA EXISTÊNCIA HUMANA



Dói. Está doendo agora. Uma dor afiada e silenciosa que vem chegando de mansinho, rasteira e vai se aninhando sobre o meu peito e atrapalhando a minha respiração. Ela atordoa meus pensamentos e me faz sentir um gelo na boca do estômago... É hora de escrever.

Enquanto escrevo este texto e ouço ‘One of us’ de Joan Osborne – como se fosse a primeira vez –, sinto um vento frio soprando meu rosto, bem típico da estação de outono, e sinto cada veia do meu corpo pulsando forte, pulsando firme, como se me lembrassem de uma sensação já vivida anteriormente. Meu corpo está anestesiado, mas ao mesmo tempo sinto tudo, e ele sabe do que se trata. É o sofrimento da condição humana. Esse sofrimento me traz uma dor que me lembra de que estou vivo, de que existo e que aqui dentro involuntariamente se move como uma serpente rastejando, uma força antiga, potente, da qual não tenho total controle. Embora já aprendi a abrir mão de tentar controla-la. Deixe-a vir. Deixe agir. Deixe me queimar, pois também vai me nutrir.

Uns a chamam de sofrimento existencial, outros de ansiedade, há também quem vá dizer de que se trata de um possível episódio depressivo. Mas não penso assim. Não sinto assim. Para mim o sofrimento do qual estou falando, e vivenciando, é o mesmo que já me assombrou dezenas de outras vezes e tenho certeza de que toda a humanidade já se deparou com ele em algum momento pois se trata da dor da própria condição humana. É digno do humano. É a vida em si, existindo, mostrando-nos que a mesma energia que move os planetas ao redor do Sol e que sustenta galáxias inteiras, movendo montanhas e alternando marés, é a que pulsa em nossos corpos. Quando ela vem só tem um caminho, um único objetivo, vem para alargar a nossa alma através de seu rastro, para caber mais mundo interior. E quando bem canalizada não nos destrói, pelo contrário, estranhamente termina nos nutrindo e nos tornando mais fortes. Mais largos. Mais íntegros. Possibilitando que em nós caiba mais vida e assim, consequentemente, mais sofrimento. É um eterno ciclo entre tensão e expansão, tensão e expansão...

Acho engraçado, até com um pouco de preocupação, como a sociedade foge dessa dor. De fato, ela é bastante difícil de suportar; ela é pesada, nos queima mesmo sendo fria, é intimidadora. Intimida porque gera uma constatação franca, crua, realista, que bate forte e não agrada um ego tão carinhosamente construído. Nosso ego quer glória, status, quer prazer. No entanto, ele se depara com cenas fortes, reais, com sofrimentos tão vivos que nos colocam rente ao chão na posição que verdadeiramente temos. A de reles mortais. Nus. Fracos. Frágeis. Dependentes. Isso nos assusta. Alucina. Agride. Machuca. Cortando como se fosse uma lâmina afiada cada camada construída de ilusões e vaidades.



Mas tenho que confessar uma coisa que talvez alguns ainda não saibam. Eu adoro flertar com essa dor. O sofrimento e eu já somos bem íntimos. O conheci cedo na vida. Ele bate forte sim, mas confesso que sempre fui tão apaixonado pela vida em todo o seu esplendor que nunca pude abrir mão de nenhum sentimento sequer! Em especial aqueles mais ‘dark’. E vamos combinar que a vida é um kit completo! Nesse baú tem matizes de emoções e sentimentos tão variados, indo do amor ao ódio, de compaixão a maldade, de algum afeto a total indiferença. E ainda tem raiva, orgulho, inveja, ciúme, paixão... São tantos e tão diversos entre si que procurei nessa vida dialogar com todos. Embora nem sempre foi uma questão de escolha. Estou sendo sincero e alguns talvez pensem que seja loucura de minha parte gostar ou procurar sofrer, mas isso não é verdade, porque eu nunca procurei por sofrimento. Eu não preciso. É exatamente o contrário, é o sofrimento que me procura. E não adianta querer ou tentar fugir, porque ele sempre me acha; ele sempre sabe onde me encontrar, assim como sempre soube onde bater pra doer pra valer. E dói. Já sofri bastante, acredite.

Mas o lado bom de passar por esse sofrimento que vem da vida é que a gente cresce, amadurece, ele faz a nossa vida encher de intensidade, de profundidade, de significância! Quando sou assombrado por ele, todas as músicas do Capital Inicial por exemplo ganham um tom mais vívido... Me aproximo mais do rock, das canções melancólicas, com letras profundas. E como meu coração ferve ao ouvi-las... Embora muita gente não saiba, tenho um mundo interior muito rico. Sou muito profundo, tanto que às vezes me perco em mim mesmo; me faço mergulhos internos tão profundos que às vezes é difícil retornar à superfície. Sempre nos embalos de músicas melancólicas como as da Adele ou mais intensas como as do Linkin Park, do Charlie Brown Jr ou do CPM 22... Nos momentos de dor sempre me pareceu que tudo em mim queima de forma vívida. Os sentidos se aguçam e as músicas batem fundo, no fundo, e se misturam com leves doses de melancolia, nostalgia e introspecção. E reflexão. E contemplação. Curto muito isso. Bate uma incrível vontade de orar, de chorar, de correr, de gritar, como se a minha alma estivesse se dilacerando. É quando se faz necessário um movimento como resposta para tudo isso, que seja capaz de balancear essa sensação. E assim como muitas pessoas fazem, descobri boas ferramentas para isso: a arte e a atividade física (criei um dia esse blog e comecei a correr). Sempre ouvindo música. Corro e escrevo no blog ouvindo música. Arte e atividade física são formas eficientes de dar vazão, expressão, de fazer o contraponto ao sofrimento proveniente da própria existência humana, e são tão necessárias porque qualquer sofrimento retido por muito tempo adoece.



Para finalizar gostaria que acreditasse em mim quando digo que, quando o sofrimento vir te visitar e te provocar alguma dor, no fundo é apenas a própria existência querendo mais espaço, não negue isso, busque investigar, dialogue com esse conteúdo interno que emerge. É a própria vida pulsando dentro de você, por isso você sente peso, pois é como se o universo todo estivesse em você. E na verdade está, pois lembre-se que somos feitos de poeira de estrelas! Então, como o próprio Atlas da mitologia, carregue seu mundo nas costas com grandiosidade. Um humano potente é aquele capaz de dar conta de si, de sustentar o seu mundo interior, de suportar a dor da existência humana no peito. Na pele. Carrega-la com dignidade. Com bravura. Com sabedoria. Nós abrigamos um universo dentro de nós mesmos e quando surge um sofrimento é apenas um sinal da vida exigindo formas de expandir. Algo dentro de nós precisa expandir e isso dói. É como trocar de pele. O sofrimento nos diz ‘você precisa ficar maior, precisa crescer, para caber mais conteúdo dentro de si, caber mais mundo, mais vida’. E quanto mais vida interior existir em nós, mais fortes, criativos e empoderados de nós mesmos nos tornamos.

Da próxima vez então que sentir seu peito queimar, a respiração apertar e uma angústia surgir, não importa a origem do que esteja vivenciando, procure se lembrar de que tudo se trata da própria vida, que habita em você, que vem exigir mais espaço. Deixe fluir. Deixe agir. Deixe queimar! Sustente com dignidade esse sofrimento. Converse com ele. Mature-o. Descubra o que ele quer, para o quê veio e de que forma poderá ajudá-lo a passar por você. Ele vai atravessa-lo ao meio como uma lâmina suave e isso te parecerá dolorosamente prazeroso, pois ao terminar esse processo a vida já não lhe será mais a mesma, nem a sua existência e nem mesmo você.


domingo, 6 de janeiro de 2019

A mensagem por trás do filme Bird Box


Já faz algum tempo que eu queria escrever sobre esse tema aqui – até por acontecimentos ocorridos nos últimos meses. O tema que pretendo falar é sobre um aumento assustador de doenças mentais nas últimas décadas, especificamente a depressão e como isso pode chegar a casos de suicídio, que também tem aumentado significativamente o número de casos nos últimos anos – especialmente entre jovens e idosos. Gostaria de deixar claro que nem todas as pessoas que têm depressão tentaram ou tentarão se matar, mas é muito provável que todas as pessoas que chegaram um dia a tentar suicídio ou até cometeram estariam com depressão. No ano passado três pessoas próximas me confidenciaram que estavam com ideação suicida e uma delas chegou a fazer duas tentativas efetivamente – felizmente sem sucesso. Foi algo sério. A pessoa era bem próxima a mim e me impressionou um pouco a reação dos pais quando os alertei, que talvez até por não compreenderem essa doença e a gravidade da situação agiram com um certo “distanciamento”. E quase ocorreu o pior. E é esse o gancho que trago para o post de hoje, com a seguinte pergunta: estaríamos “cegos” diante desse problema que vem crescendo silenciosamente ano após ano?

Antes de mais nada gostaria de dizer também que depressão é uma doença mental, é incapacitante e exige tratamento especializado (leia-se aqui médico psiquiatra e psicólogo). Quem fala sobre sucídio, faz sim. Ao ouvir alguém falando coisas dessa natureza, pare o que está fazendo no momento, olhe para a pessoa e peça a ela para se explicar melhor. Diga que se importa com o que ela acabou de dizer e que gostaria de entender melhor isso. É uma doença, precisará de orientação médica especializada e bem provavelmente de acompanhamento psicoterapêutico.

Assisti o recente filme da Netflix que já vem se tornando bem famoso, “Bird Box”. O filme simplesmente viralizou! E é sim verdade que é um tanto quanto clichê eu estar aqui fazendo um post e falando sobre ele também, já que em todos os lugares da internet, desde blogueiros a youtubers, as pessoas estão falando sobre ele e cada um tem a sua teoria do que seriam as tais criaturas que “aparecem” (bem entre aspas já que não as vemos) no filme. Acredito que todas as interpretações são possíveis e válidas, até porque o próprio autor do livro (do qual o filme é baseado) não é nada assertivo nesse ponto e parece proposital ficar “no ar” as interpretações como se isso ficasse mesmo em aberto. Tem aqueles que assistiram e simplesmente odiaram. Tem aqueles que não entenderam nada. Eu particularmente gostei. Achei bem interessante e cabe aqui várias analogias e metáforas que se conectam ao tema desse post.

O intuito aqui não é dar espoiler e já me desculpo se escapar. Na minha análise (como na de outras pessoas que acompanhei quando pesquisei) parece claro que o filme trataria centralmente, de forma oculta é claro, sobre a depressão. As criaturas de “Bird Box” simbolizariam “gatilhos” para depressões. A personagem principal, vivida pela atriz Sandra Bullock, está grávida, sem a presença do pai da criança – o que mexe muito com ela e ela rejeita a ideia de ser mãe. Ela vive de forma isolada sem sair de casa e sua irmã é quem faz as compras para que não precise sair. Ela passa seus dias pintando e logo no começo do filme se vê vários de seus quadros e três coisas logo me chamaram a atenção. A primeira é que num dos quadros que ela está pintando há várias pessoas lado a lado, porém sem nenhuma conexão entre si; existe no quadro um ar de tristeza, ela pinta o entorno das pessoas de preto e uma das pessoas da cena – a única em preto e branco – parece ser ela – também a mais triste de todas. A segunda coisa que me chama a atenção é que ao assistirem aos noticiários, um dos jornalistas diz que o problema que começaria na Europa não era de natureza “patológica” (a depressão ainda hoje não é vista como uma doença algumas vezes com alterações bioquímicas cerebrais) e a terceira é que logo em seguida a personagem diz “- É na Rússia” – dando de ombros como algo distante de si. O que mais adiante em outra cena ela dirá: “chegou aqui!”. Isso retrata bem como as vezes achamos que essa doença, e até casos de suicídio, estão distantes de nós – até acontecer na nossa família!

A maioria dos personagens de “Bird Box” parece estar em algum ponto bastante crítico de suas vidas. Isso fica bem marcado. Uma com uma gravidez indesejada que parece sofrer de depressão pré e pós-parto; tanto que ela nem dá nome aos filhos (a menina será adotada), ao longo do filme os chama apenas de “garoto” e “garota” (outro ponto interessante ao meu ver). Um homem sofre pela morte da esposa. Uma mulher vê a criatura como sendo sua mãe morta há dez anos. Existe um nerd meio deslocado. Uma policial, um usuário de substâncias psicoativas, um homossexual, uma gordinha grávida que se julga fraca por ter sido sempre muito mimada por todos na vida. É como se o diretor quisesse retratar a sociedade em toda a sua diversidade, de forma meio que escancarada, através de cada personagem. E logo eles concluem que não devem sair de casa e nem olhar diretamente para as criaturas, pois quando o fazem algo de estranho ocorre que os leva a atentar contra a própria vida. Assim eles precisam usar vendas para tapar os olhos. Outro ponto curioso do filme é que algumas pessoas saem de suas casas e conseguem andar sem vendas pelas ruas e não se suicidarem. Esses indivíduos acabam tentando fazer os demais saírem também a força e encarar as criaturas. Se fala que seriam psicóticos, esquizofrênicos que escaparam de um hospital psiquiátrico, e em decorrência de sua doença não sofreriam com as criaturas pois se sabe que nesses casos se rompe com a realidade.

Agora, como eu particularmente analisei todo o filme? Me pareceu muito sugestivo esse “não poder ver”. O “vendar os olhos”. Na minha percepção vivemos, cada vez mais, uma constante busca para o que está fora de nós, estamos buscando por coisas externas. Sejam bens materiais ou buscas por status social, a verdade é que hoje é muito difícil encontrarmos pessoas que fazem um movimento inverso, pelo menos em alguns momentos. Digo do “olhar para dentro”. Do fechar realmente os olhos, silenciar a mente e procurar olhar para “além das criaturas”, para os nossos traumas. Seja a dor de uma desilusão amorosa; de uma frustração na carreira profissional; da morte de um ente querido etc., essas tristezas sempre vêm e vão e exigem de cada um de nós um olhar para essas questões. Exige um falar sobre isso. Um tocar no assunto. Um trabalho realmente de “voltarmo-nos para dentro de nós mesmos e buscar entendimento no mais íntimo de nós”. Para nos curar. Mas ao invés disso o que estaríamos fazendo? Trabalhando loucamente como ratinhos em gaiolas correndo sem sair do lugar. Comprando, comprando, comprando. Bebendo e comendo em excesso. Usando substâncias psicoativas. Nos refugiando em jogos, em sexo, através de fugas das mais diversas. Para o quê? Para não ter que ver onde dói a ferida! Uma ferida viva! Que vire e mexe sinaliza para aquilo que precisa ser ENCARADO. VISTO. Assim, ao meu ver, a venda nos olhos das personagens significa que o caminho para a salvação da humanidade se dará através do INTERNO. Do OLHAR PARA DENTRO. Pois de olhos vendados a humanidade, no filme, não teve outra opção para sobreviver senão negar o externo. As ilusões. As fugas. Que se tornaram as suas perdições; a desconexão das pessoas da vida, de si mesmas e dos demais.

Talvez a nossa sociedade esteja mais doente porque estamos buscando em focos provisórios e efêmeros a motivação de nossas vidas. Estamos buscando no EXTERNO e no MATERIAL, quase que unicamente, como sendo os nossos objetivos de vida. E infelizmente muitas pessoas estão percebendo, e da pior forma, que após certo nível de riqueza e bem-estar, tanto faz o que você tem ou acumula, sua felicidade não será mais proporcional ao excedente. Muito pelo contrário, são nos países mais ricos os maiores índices de suicídio no mundo todo. Existe uma abordagem da Psicologia que se chama Logoterapia que, explicando de forma rasteira e grosseira, é fazer a pessoa encontrar um sentido maior para a sua existência. Essa abordagem se desenvolveu através da percepção daquelas pessoas que viviam em campos de concentração, que apesar de muito sofrimento e condições desumanas que foram postas, lutavam por suas vidas a tal ponto que suicídio era algo raro de se ouvir falar. E os sobreviventes ainda tiveram vidas longas. Isso explica porque países mais pobres teriam menores índices de suicídio; talvez porque quando lhe falta praticamente tudo, muitas vezes até o essencial, cada respiro, cada prato de comida, cada bebida tem um valor ímpar! Indispensavelmente único. Onde a vida em si tem um sentido muito grande.

Portanto, a resposta é “sim”, estamos “cegos” diante desse problema que vem crescendo de forma alarmante. Não porque estaríamos ocupados olhando para dentro. Nossa cegueira não é ocasionada de forma consciente e direcionada como poderia, nossa cegueira atual é ocasionada por um brilho externo, pela busca incessante de algo que nunca nos satisfará por completo e assim como no filme “Bird Box” quando olhavam diretamente as criaturas de frente e se suicidavam logo em seguida, com olhos inebriados estamos nos perdendo e dizendo “- É lindo... é lindo!”.

O vídeo abaixo retirado do Youtube é de uma palestra no TED, ele não tem nada a ver diretamente com o filme em si, mas o recomendo aqui por sua mensagem, pois o que o palestrante nos convida a fazer vai muito de encontro a motivação desse texto. Convido então a assistir ao vídeo abaixo e fazer uma reflexão.



segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

A eterna luta do bem contra o mal



Quando olho para trás para cada mês deste ano e tento fazer uma espécie de retrospectiva, é inevitável me fazer a seguinte pergunta: “Que ano foi esse?”.


Em muitos momentos ao longo do ano, tive a impressão de estar pisando em ovos ao ver as pessoas ao meu redor se agarrando a crenças e opiniões de forma muito radical. O ano inteiro, mais especialmente no segundo semestre com a proximidade das eleições, só se ouvia falar de “nós” e “eles”. E podemos classificar esses “nós” e “eles” de inúmeras formas. Esquerda e direita. Verdadeiro e falso. Certo e errado. Bem e mal. Deus e o outro. Era tanta dicotomia com polarizações e opiniões tão rasas e superficiais que em muitos momentos me perguntava se precisava tudo isso. Brigas entre familiares. Discussões entre colegas de trabalho. Entre amigos. Pessoas desfazendo laços por conta dessas diferenças, onde a maioria das discussões começavam com o gancho da política e corriam para todos os campos, fosse a religião, a sexualidade, a regionalidade, a cor etc. Isso só me provou uma coisa: nós todos precisamos trabalhar mais a nós mesmos; a nossa tolerância; aprender a enxergar o outro e a respeita-lo em toda a sua diferença. O outro não é nosso inimigo. O outro é só uma pessoa que foi criada por uma família diferente da sua, que teve outras experiências e percepções na vida e tem as suas próprias subjetividades. Talvez para alguns isso que irei escrever aqui seja difícil compreender, mas uma coisa é fato: o outro é um mundo! Cada pessoa carrega em si um mundo em toda a sua complexidade. E aí entra o gancho deste post, que ao meu ver me ensinou muito durante 2018. A gente não muda o outro! O outro se muda quando quiser, se quiser. E não deveria haver problema aceitar que ele seja assim.

Ver um homem que beija outro não deveria ser problema para ninguém, além dos dois. Ou das duas. O que duas (ou três) pessoas fazem, sexualmente falando, diz respeito a essas pessoas, e quem se intromete está se intrometendo onde não é chamado. Simples assim. Me desculpe se isso fere os seus princípios éticos/morais/religiosos. Se incomoda tanto feche os olhos, não busque ver nem saber ou se intrometer nisso. Não traga isso para a sua vida e arbitre sobre o seu corpo. O que o outro faz da sua vida, do seu próprio corpo não me interessa. Interessa a ele! Se um cidadão se declara petista porque comunga das mesmas ideias do partido ou um outro adere a ideia de ditadura não me interessa. Não é ser omisso ou demasiadamente neutro, é só aceitar que o outro é diferente, pensa e sente diferente. E está tudo bem ele ser assim. Democracia não significa todos serem iguais, muito pelo contrário, é o encontro das diferenças de forma civilizada. Legal. Respeitosa. E politicamente falando, lá nas urnas! Não é dentro de casa, do trabalho ou na vizinhança que atuo politicamente. A gente exerce nossa política no voto. E quando o voto da maioria gera um resultado que não nos agrada, precisamos ser adultos. E por isso existem mandatos.

Significa que tenho que aceitar aquilo ou aquele que segue caminhos que vão contra tudo o que acredito? Não. Ninguém é obrigado a aceitar ninguém. Apenas a respeitar! Não sou a favor nem aceitaria uma ditadura, mas respeito quem ache bom pra si ou para o país. Eu não sou a favor da legalização da maconha (com as devidas ressalvas), mas respeito quem use – e esta pessoa não deve nada a mim; seu corpo, seu dinheiro, seu tempo, ela utiliza como bem entende, isso não me interessa. Mesmo porque o fato de não ser legalizado nunca atrapalhou ninguém de acessar...

E refletindo sobre esse movimento, de acordo com a psicanálise, esse ódio que estamos presenciando tem dito muito sobre os que proferem os insultos. Não sei se você tem consciência disso, mas tudo aquilo que te incomoda demasiadamente no outro, a tal ponto que te faça ataca-lo por isso, em algum nível esse movimento está dizendo muito sobre si mesmo. Se existe um impulso de atacar o outro, de denegri-lo ou até de extingui-lo, por ele ser diferente, recomendo que entenda melhor o porquê disso. E rápido! Já que é óbvio que isso está tentando te dizer alguma coisa... O que seria eu não sei. Não estou aqui diagnosticando nada, nem julgando ninguém; mas acredito que o que o outro busca fazer com a sua própria vida não deveria nos incomodar – tanto.

Quem me acompanha neste espaço sabe que a minha maior dificuldade sempre foi aceitar as pessoas que pensam diferente de mim. Vira e mexe, eu me via metido em discussões onde ficava argumentando e rebatendo alguém, no intuito de provar a esta pessoa o quanto ela estava errada. Sabe o que eu ganhava com isso? Nada de bom. Só inimizades. Era visto como o moralista chato. Aquele que quando estava chegando numa roda de pessoas já podia ouvir: “ai, lá vem ele...”. As pessoas não gostavam da minha companhia. E vamos combinar: quem gosta de um crítico julgador moralista religioso pregando suas verdades o tempo todo? Ninguém aguenta. É cansativo. O excessivamente religioso que prega o tempo todo acaba sendo chato. Aquele que defende seu partido com unhas e dentes é cansativo. A feminista radical; o politicamente correto do meio ambiente; o extremista da direita; o extremista da esquerda; todos esses quando começam seus discursos ideológicos, de forma incessante, crítica e ácida, sem validar opiniões opostas e muitas vezes sem o menor senso do inoportuno, terminam sendo pessoas difíceis de conviver. E vivemos em sociedade meu Deus! Por essa razão já faz alguns anos que venho tentando mudar; ser menos rígido e inflexível, e passei a respeitar a verdade dos outros, porque só a eles diz respeito.

Hoje eu dou uma ideia a alguém, falo da minha ideologia, mas procuro ouvir como a pessoa pensa. Sem ataca-la. Sem julgá-la. Numa conversa normal onde o mais importante pra mim é conhecer o universo do outro. Pode ser que ele não mude com a minha visão de mundo e nem eu mude como penso, mesmo assim está valendo o encontro, pois o objetivo não é convencer; é encontrar pontos em comum e principalmente, conhecer um ao outro. Eu sou católico, mas recebo testemunhas de Jeová na minha porta. Já os ouvi diversas vezes. Tenho amigos evangélicos que me contam como vivem sua religião. Aprendo muito. Culturalmente é rico. E continuo sendo católico. A grande mensagem que quero trazer com essa postagem de fim de 2018 é que precisamos nos autoconhecer mais. Quando a gente investe em autoconhecimento, descobrimos dentro de nós mesmos contrastes e contradições, então a partir daí é mais fácil entender o outro.  Não digo para aceitar, amar ou copiar. Digo para respeitar! Legitimar, autorizar que o outro tenha o direito –  constitucional ainda no nosso país – de ser o que ele quiser. De pensar, agir politicamente e exercer o seu credo. Eu me autodeclaro como de esquerda. Está no meu Face, lá na descrição. Mas no fundo tenho plena convicção também que existem tantos matizes, mesmo dentro da(s) esquerda(s) e direta(s), que nem sei definir o que seria de fato isso hoje em dia. As vezes sinto que entre o pessoal da extrema esquerda sou julgado como de direita e entre os da extrema direita sou considerado muito progressista. No entanto, não existe uma só pessoa que poderia dizer que me viu discutindo política. Todo mundo me perguntou este ano em quem eu votaria e não respondi, nem aos meus próprios familiares. Não votei no Bolsonaro. Hoje eu falo. Mas confesso que gosto dele, também. Ele tem aquele jeitão mas sinto ser um homem honrado. Não concordo com algumas de suas ideias, mas em muitas eu concordo sim. Me parecem bem razoáveis para o nosso país. E não estou traindo a “esquerda” por isso. Como também não estou traindo Nossa Senhora de Fátima, da qual sou muito devoto, por dizer que gosto da religião evangélica onde eles não veneram santos.

No fim, somos todos cidadãos. Moramos na mesma casa – as vezes literalmente! Trabalhamos juntos. Precisamos dar produção. Se faltar algo na minha casa, é no vizinho que vou bater. Não votei no Bolsonaro, mas entendo que vivo num país democrático onde ele venceu pela maioria dos votos e que ele e eu somos brasileiros e estamos no mesmo barco, devo respeitar sua legitimidade como governante eleito. Entre direitas e esquerdas, religiões e sexualidades, somos todos humanos. Somos de carne e osso. E d’baixo da terra, após o último fechar de olhos, todos nós vamos feder do mesmo jeito. Existem pais, mães, filhos, amigos, vizinhos, colegas de trabalho envolvidos em brigas ideológicas, que me pergunto: será que vale a pena dormir estando com a razão, se para isso foi preciso brigar com todo mundo? Seja qual for a religião, a constituição, a ética e a moral, o princípio essencial é sempre o mesmo: não faça ao outro aquilo que não gostaria para si. Quando estamos juntos somos mais fortes e nossas diferenças menores.

Tenhamos todos uma boa passagem de ano e desejo a todos um bom 2019. Regido por Marte ainda!! rs


domingo, 18 de novembro de 2018

O TESTE PSICANALÍTICO DA MINHA VIDA


     Há uns dez anos fiz um teste que proponho que você o faça agora. O objetivo é apenas autoconhecimento. Na época me surpreendi com o quão interessante foi o resultado desse teste por conta das reflexões que ele me trouxe. O curioso também é que no decorrer dos anos, de tempos em tempos me pego refletindo seu resultado novamente e por incrível que pareça ainda hoje ele me é intimamente revelador. Ao longo dos anos o fiz com diversas pessoas e muitas o consideraram mais como uma brincadeira (talvez até seja mesmo), mas em todas as vezes em que ele foi aplicado não pude deixar de reparar como os envolvidos ficavam impactados e se punham a pensar sobre o resultado. Como já disse, por mais que alguns o vissem como algo... talvez bobo, percebo que ele parece revelar à pessoa algo de muito íntimo. Então eu proponho que você o faça agora e logo adiante explicarei a dinâmica desse teste e como você chegará ao seu resultado; assim como dividirei aqui o meu próprio e quais foram as principais reflexões que ele me gerou.

     Procure fazer esse teste num momento que você esteja bem consigo mesmo, calmo e relaxado. Procure um local silencioso, em que possa fazer com tempo e tranquilidade e que não seja interrompido durante esse período. Pegue um pedaço de papel e algo para você anotar. Não leia o texto todo antes de concluir o teste e tome cuidado para não ler o resultado também – isso vai te influenciar.


TESTE:
     Feche os olhos e pense em três animais, quaisquer que sejam, depois os escreva no papel, conforme os exemplos abaixo.

     Agora pense apenas no seu primeiro animal. Concentre-se apenas no primeiro. Imagine-o. Observe-o em sua mente: como é esse animal; como ele se movimenta; como ele se sente... Escreva no papel três características psicológicas (é o comportamento, é o “jeito” que o seu animal tem). Não se preocupe com as características psicológicas escolhidas pois não terá característica certa nem errada, só é importante que neste momento você seja fiel ao que está imaginando em sua mente e tente descrever exatamente o jeito do animal de acordo com a forma que ele se parece na sua visão.

ANIMAL: ______________ , ______________ , ______________ .

     Agora faça o mesmo com o segundo animal, concentrando-se apenas nele e descrevendo quais as três características psicológicas que você está percebendo pelo comportamento que ele tem.

ANIMAL: ______________ , ______________ , ______________ .

     Agora repita o mesmo com o terceiro animal, concentrando-se apenas nele e descrevendo quais as três características psicológicas que você está percebendo pelo comportamento que ele tem.

ANIMAL: ______________ , ______________ , ______________ .


RESULTADO
O primeiro animal é como você se vê.
O segundo animal é como você é visto.
O terceiro animal é como você é de fato.


     Agora explicarei a dinâmica do teste, na minha análise, com base naquilo que li na época quando fiz o teste comigo e com base naquilo que intui e observei ao longo dos anos nas diversas pessoas em que apliquei. Já advirto: se o seu resultado dá 100% certo ou se trata apenas de uma brincadeira, eu não sei, portanto não o leve a sério. Recomendo que o utilize, talvez como um ponto de partida, para uma reflexão sobre si mesmo – o que é sempre válido. E se você ficou tão surpreso quanto eu, e as diversas pessoas que o fizeram, vou colocar agora a minha análise utilizando o meu próprio resultado. E com base nas minhas percepções você vai analisando – de forma crítica – o seu próprio resultado.

     Quando fiz esse teste comigo a dez anos atrás, ficou assim:

CAVALO: LIVRE, SELVAGEM, INDOMÁVEL.

LEÃO: ARROGANTE, OBSERVADOR, ORGULHOSO.

CÃO: FIEL, LEAL, PROTETOR.

     Primeiramente, não importa a escolha dos animais em si (seja cavalo, leão, cachorro, cobra, escorpião etc.), porque nesse teste não existe um animal considerado bom ou mau, o que importa mesmo são as características percebidas e descritas de cada animal. Posso por exemplo escolher uma cobra (que é considerado um animal peçonhento) mas na minha mente percebê-la com características tidas como “positivas”. Portanto, o animal em si não é um fator tão importante, mas sim o que se percebe do mesmo. E por esse motivo talvez o teste até pudesse ser aplicado utilizando outro exemplo ao invés de pedir animais, mas a escolha de ser com animal é pelo fato de podermos colocar neles características “humanas”, de podermos projetar mais facilmente, porque no fim este é um teste projetivo. O objetivo é justamente fazer o indivíduo se projetar em algo; e ele fará isso sem perceber através dos animais.

     O primeiro animal fala justamente da forma como nos vemos, como acreditamos ser. Se você perguntar a uma pessoa como ela é, muito provavelmente os primeiros adjetivos que vier em sua mente é como ela acha que é, ou como ela gostaria de ser. Porque esse é o mecanismo do seu ego: não é a pessoa quem está falando neste momento, é o seu ego vindo à tona. Observo que a gente tem uma tendência a se esconder (inclusive de nós mesmos). No meu primeiro animal escolhi um cavalo com características de liberdade, de não controle, pois é exatamente assim como me vejo, como eu gosto de ser visto. Eu não gosto que o meio me controle, que as pessoas tentem me manipular, porque quero sempre me imaginar livre. O que nem sempre é totalmente verdade, pois veja que as características do meu terceiro animal já dão uma ideia oposta, a de vínculo. Assim, ao passo que gosto de me imaginar independente, a contra partida anseio também por um lar, por um par, por um elo no qual eu seja de alguém (ou de algo) e isto seja também em algum nível meu.

     Por que na minha vida foi importante essa reflexão? A resposta é porque muitas vezes, num momento de raiva ou de impulsividade, eu abandonei coisas e pessoas. Nesses momentos eu me questionava por que estava numa determinada situação fazendo algo. Isso me gerava revolta e um sentimento de “eu preciso me libertar dessas amarras”, mas sem perceber que eu mesmo me colocava as amarras, e permanecia na situação por vontade própria, porque no fundo era exatamente aquilo que tinha buscado para ser feliz. Isso gerava um conflito em mim mesmo. O terceiro animal veio me revelar um indivíduo que gosta de regras, costumes, rotinas, ordens claras. Gosta de se sentir fiel e leal a um sistema de coisas e sentimentos que para ele sejam importantes, ou seja, um indivíduo que busca uma causa maior que si mesmo, para seguir. Com essa análise resolvi parar de fugir, de mim mesmo – como faz o meu cavalo. Eu parei de brigar e de me rebelar com aquilo ao qual me submetia por vontade própria, já que era o que verdadeiramente amava. E foi então que veio o “clique”: eu constatei que toda as vezes que fugia de uma determinada situação que me sentia “domesticado” (eu odeio essa palavra) no fim não terminava mais feliz; o prazer de bancar o indomável, o “em mim ninguém manda”, era provisório, porque depois eu não me sentia mais realizado por isso. Quero dizer que todas as vezes que esperei a raiva passar, contive a paranóia de me achar submisso e me mantive fiel e leal aquilo que combinei previamente, apesar de ser difícil (ao meu ego num primeiro momento), terminava me sentindo mais realizado. Descobri que ser fiel, leal e se submeter a algo, para mim, não tem nada a ver com ser menor ou ser submisso, muito pelo contrário, tem algo de grandioso. Isso mudou a forma como passei a lidar com duas coisas: a Raiva e o Orgulho. (onde entra meu segundo animal).

     Eu notei, tanto através do meu próprio teste, quanto nas pessoas que o apliquei, que muitas das vezes as características do segundo animal têm muito a ver com um mecanismo de defesa da pessoa. Um mecanismo de sobrevivência ou de proteção do eu. E o segundo animal vai falar como você é visto porque é justamente como você está se mostrando aos outros. Como todos nós temos mecanismos de defesa e todos nós temos a tendência a esconder (ou a proteger) quem somos, essas características servem justamente de camuflagem, de defesa. No meu caso, é comum as pessoas me revelarem que quando me conheceram me acharam fechado demais, com um ar arrogante, prepotente, com um jeito meio altivo e orgulhoso, até esquivo, como se fosse alguém que não quisesse “se misturar” aos demais. Mas note que o terceiro animal, que é como de fato sou, quer ser parte das coisas, ser fiel, leal e ainda proteger. Então essa imagem conflita com a do segundo. Todavia faz sentido quando imaginamos o segundo animal como um mecanismo de defesa. Mas por que agir assim?

     Cada pessoa lança mão de um mecanismo de defesa por um motivo muito íntimo, que somente a pessoa poderá se responder. Cada pessoa precisa fazer as analogias e inferências entre as imagens evocadas de cada animal escolhido no seu teste e analisar como se dá a dinâmica desse trio na sua própria personalidade, porque no fim todos compõem o eu. No meu caso, é o medo de estar numa relação de total confiança, em que a outra parte possa se aproveitar a tal ponto da situação, que no fim eu saia prejudicado. É um medo muito profundo de me machucar ao depender das pessoas! Se por um lado eu preciso do contato, por outro lado temo as consequências naturais desse contato, porque vamos combinar: as relações são naturalmente desgastantes e se atritam. O meu terceiro animal é justamente um cão na minha análise porque para mim o cão respeitará o dono e a propriedade até o fim, mesmo sofrendo maus tratos nessa relação. Daí o dito “o cão é o melhor amigo do homem”. E isso em mim sinceramente me assusta um pouco porque vem com isso uma constatação perigosa também: é muito tênue a linha que separa me submeter a alguém (ou a algo) por amor e doação, de me ver numa relação abusiva que beira o sadismo (exemplo clássico vivenciado na minha relação com o meu pai). Meu pai foi um homem que me amava muito, me tratava muito bem, quando são, porém, tinha problemas com álcool, possuía um humor ferino e críticas mordazes. Eu me lembro que na adolescência tivemos brigas épicas, com agressões físicas inclusive – de ambos os lados! Era uma relação tempestiva, embora de muito amor também. Quando eu estava longe dele não via a hora de estar com ele, ele era um grande amigo, porém trinta minutos juntos a gente já se atacava; ele era territorial e controlador e eu não suportava que mandassem em mim... então já viu. Daí que começa todo um conflito que gerará mais tarde um problema com figuras de poder e autoridade, que reverberará nas salas de aula com alguns professores e em algumas empresas com alguns chefes... rs

     Então o segundo animal tende a revelar isso: a imagem que as pessoas estão captando de você porque você está transmitindo assim – até inconscientemente. E caso a imagem transmitida de seu segundo animal seja muito destoante do terceiro, de forma que esteja te prejudicando ou aos demais, questione-se o porquê disso. “Do que estou tentando me proteger?”. “Por que estou agindo assim?”. “O que estou tentando defender, ou esconder?”. “Vale a pena continuar nessa postura?”. No meu caso, quando me percebo me afastando do meio, por estar emitindo uma imagem equivocada, seja de superioridade, de excesso de intelectualidade, de excesso de introspecção, de excesso de vaidade (orgulho), começo a me fazer as perguntas acima. E o engraçado é que tudo isso passa por mim quase despercebidamente, já que carrego uma crença que foram os outros que estavam me afastando, que estavam contra mim, até eu constatar que na verdade era eu quem estava adotando uma postura ou tendo um determinado comportamento que afetava o meio de forma contrária ao que eu gostaria. Ou seja, com isso tento trazer para mim a responsabilidade pelos acontecimentos que estão afetando a mim e aos outros. E considero essa uma atitude muito mais inteligente da nossa parte.

     Apenas desejo a você que esse teste proporcione um ponto de partida para novas reflexões:

  • Qual é a imagem que você tem de si mesmo: é realmente isso o que você é ou consegue ser? (primeiro animal)
  • Essa imagem que você tem de si mesmo vai de encontro ao que você está transmitindo às pessoas? (segundo animal)
  • Como essas duas imagens estão em relação aquilo que você verdadeiramente é? (terceiro animal)

     E no fim lembre-se: você é a união dos três animais, no fundo não existe de fato separação.