É
engraçado como ainda não percebemos quanto podem ser essenciais
momentos de solidão. Há pessoas que temem tanto eles, que no menor
pressentimento que enfrentarão a vida sozinhas, desesperadamente já
procuram uma base fixa para se apoiar. Um ombro para segurar, uma mão
para guiar a algum lugar, que ninguém melhor que elas mesmas
para saber a direção. Mas se sujeitam a serem levadas ao sabor do
vento, ao fluxo da maré, por medo dessa solidão que seria erguer as
velas da própria nau e trilhar um caminho sozinhas. É um medo tolo
esse, porque é impossível enfrentar a vida ao lado de alguém
sempre. A única certeza é que viemos e partiremos dessa sozinhos.
Não digo para ninguém viver só a vida toda, ser sozinho por opção,
mas aprender a tirar o devido aprendizado de momentos solitários.
São eles que moldam nossa existência. Apuram nossa capacidade de
viver.
Acredito
que a habilidade do homem afiar a si mesmo e recriar o mundo ao seu
redor passa por momentos de solidão. Onde é apenas ele com ele
mesmo. Não há a onde fugir. Nem a quem recorrer. A grande maioria
desses momentos é terrivelmente angustiante; águas difíceis de
navegar sem alguém ao lado como suporte. Nesses instantes que o
homem entra em contato com a criatividade. São instantes de vida
realmente sendo vivenciados. Somente a partir desse confronto com nós
mesmos, com essas energias, que nos conheceremos um pouco mais; a
partir daí surgirão novas ideias, novos olhares e o mundo
renascerá! Todo ser humano passa por momentos como esses e eles
fazem parte da sua trajetória. A vida não é apenas glórias e
vitórias. Ela é um conjunto de forças conflitantes e
contraditórias e enfrenta-las é inevitável. Viver é um exercício
de luta constante contra nós mesmos. Sem drama! Evitar a dor é
impossível, mas é necessário trabalhar com a dor inteligentemente.
Se não podemos com a vida, convertemos a dor que ela nos causa em
contenção ao nosso favor, impulsionando essa energia gerada a onde
queremos. Não controlamos a vida, mas nós decidimos seu curso em
nossa existência.
Da
dor natural que é viver surgem dúvidas em relação a própria
vida. Essas dúvidas geram um incômodo, que é angustiante porque é
desconhecido; assusta, tira o sono, não deixa pensar direito. E esse
desconforto traduzido em linguagem que a uns virá em forma de pintura, a outros em forma de dança, a outros através da escrita. Como veio esse post.
Vem através da arte. A questão é que todo esse processo carrega em
si um amadurecimento e só após atravessarmos surge o que chama-se
Inovação. A inovação é o resultado desse processo que não deve
ser negligenciado.
Muitos
escritores e pintores passam anos de suas vidas sem publicar um único
livro e pintar um único quadro. Lêem, observam, viajam,
experienciam a vida. Mas, de arte, nada surge. E por que isso
acontece? Não há inspiração. Nem necessidade. Sem ambas não há
arte. No entanto, ao atravessarem um momento sombrio em suas vidas,
rapidamente a alegria surge em suas obras. Como se fosse magica!
Quando estamos com fome qualquer coisa parece
saborosa. Sem tempo a perder, conseguimos fazer o dobro de
coisas que faríamos com mais tempo. O que altera então? Inspiração
e necessidade. Da mesma forma que a solidão gera um processo de
inovação, a necessidade e a pressão potencializam a energia. Somos
melhor motivados inspirados e necessitados.
Já
me deparei com matérias de diversos “especialistas” tentando
apontar os métodos para inovação. Congressos debatendo fórmulas
para empresas alcançarem criatividade de colaboradores. Acredito
sinceramente que isso até seja válido, porque de alguma forma estão
discutindo, mas não apostaria em métodos ou receitas mecânicas e
protocoladas. Até porque não há como tornar-se o que já se é.
Nem aprender o que já se sabe. Parto de um princípio de que todo
ser humano é naturalmente criativo e por natureza já sabe inovar.
Quando somos criança, somos inovadores por excelência, dotados de
uma capacidade de recriar e imaginar o mundo constantemente. Durante
nosso crescimento, a cultura castra essa nossa capacidade natural,
limitando nosso potencial. Criança é potencial puro! Assim sendo, o
problema não é saber ou não saber ser criativo, é uma questão de
cultura castradora que impõe severamente padrões absolutos e até
cruéis. Um modo de pensar, de sentir, de falar, de Ser. Um único
modo! Sem espaço ao novo.
Se
queremos tratar de inovação, aprendamos primeiramente a viver sozinhos, a perder, a
não sofrer com a contradição, a não temer o desconhecido, a
enfrentar a nós mesmos e a pensar por si próprios. O desafio para a
sociedade contemporânea e às empresas não é a criação de um método para as
pessoas inovarem e sim uma mudança de cultura existente.
Precisamos de uma cultura diferente da que vivemos até hoje para dar espaço à inovação. Que
seja capaz de unir corpo e pensamento, que desenvolva nas pessoas uma
visão crítica e holística sobre a vida, utilizando um pensamento
complexo e sem o tradicional medo da mudança, do erro e da solidão.

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