domingo, 24 de julho de 2022

QUANDO ENXERGAMOS PARCIALMENTE

“Quem come do fruto do conhecimento, é sempre expulso de algum paraíso”. Melanie Klein

     O texto que apresentarei hoje acredito que ficará um pouco longo, então já peço um pouco de paciência para lê-lo até o fim porque ele será bastante interessante. Como sempre procurarei ser transparente e sincero ao relatar alguns episódios da minha vida e características minhas, até porque esse é um blog pessoal e um dos motivos ao qual ele se propõem é justamente dividir experiências e aprendizados que em algum momento adquiri, na pretensão de que isso desperte em vocês reflexões ou motivos para refletirem a própria vida. Não sou mestre nem exemplo de nada para ninguém, nem costumo ir por essa linha, só gostaria que acreditassem sinceramente quando escrevo isto: pessoas mais inteligentes buscam aprender com os erros dos outros. Não que vocês não possam errar, fiquem à vontade para isso, o erro é até bem democrático nesse ponto (rs), mas procurem pensar o próprio comportamento, isso ajuda muito. Espero também não ter aqui uma escrita técnica ou teórica demais, o objetivo não é esse, mas talvez em alguns momentos precisarei referir aqui em que me baseio para escrever o que penso. Mas procurarei fazê-lo didaticamente.

      Não sei se vocês já repararam que temos uma tendência a idealizar a vida e as nossas relações e no quanto isso é nefasto não só aos nossos relacionamentos mas principalmente para a nossa saúde mental de um modo geral, porque inevitavelmente ao agir assim parece que ficamos cindidos, distantes da realidade, quase paranoicos mesmo. Esta será a tese central para este texto: não nos relacionamos com a vida, mas com a ideia que temos da vida e nas nossas relações sofremos – além do necessário! – porque também não nos relacionamos com as pessoas com quem convivemos, mas com a ideia que fazemos dessas pessoas; e quanto mais próximos de uma ideia, mais distantes ficamos de enxergar a totalidade dos objetos. Quem conhece um pouco da obra de Melanie Klein já sentiu aqui o cheiro do seu pensamento e sim, são as ideias dessa psicanalista das relações objetais que tomarei aqui de referencial teórico.

      Em dado momento da minha vida reparei que na minha história pessoal sempre me decepcionava com as pessoas; de familiares, amigos, a colegas de trabalho; até com determinadas coisas, como trabalhos, cursos etc. Havia na minha vida então muito forte uma espécie de padrão que havia notado: me aproximava de algo, ou de alguém, construía uma relação idealizada, até em algum momento me frustrar com isso, me sentindo perseguido, traído ou decepcionado. Então quando isso acontecia rompia o contato, responsabilizava os outros e seguia com a minha vida, mas sempre nesse enredo de decepção em cima de decepção. Só que a medida que passei a estudar sobre psicologia, psicanálise e principalmente começar a minha própria análise fui ganhando mais consciência desse mecanismo. Fui me dando conta desse modus operandi nas minhas relações, percebendo que ele seguia o mesmo script: Aproximação-Idealização-Frustração. Decidi prestar mais atenção nisso, passei a olhar de perto essas dinâmicas relacionais e comecei a me indagar. Será que todas as vezes que me sinto frustrado com algo é de fato responsabilidade da outra parte isso acontecer? Vou responsabilizar sempre aquilo que está fora de mim, em todas as vezes que sentir algo que só esteve em meu controle sentir?!

      Concordo aqui que não somos responsáveis por aquilo que os outros nos fazem, mas decidir qual resposta emocional daremos a isso é responsabilidade nossa. Não controlamos nossas emoções, mas podemos escolher – conscientemente ou não! – alimentar esse processo natural. Quero dizer que quando uma pessoa nos faz algo que nos faz sentir raiva por exemplo, não temos como evitar o surgimento da raiva porque as emoções brotam naturalmente; agora o que fazemos com essa raiva, se alimentamos a emoção ou se prestamos atenção aos sentimentos para fornecer uma resposta inteligente é conosco, não podemos colocar isso na conta do outro. Aquilo que fazemos com o que sentimos é de responsabilidade nossa e isso tem um nome: Inteligência Emocional.

      Então, o primeiro ponto nesse padrão notado no meu comportamento que busquei compreender foi a inteligência emocional. Entender que não tenho o controle de não me decepcionar, aceitando que frustrações fazem parte das nossas relações, mas assumindo que o meu comportamento a partir de qualquer frustração é minha responsabilidade. Pôr isso na conta do outro não só é improdutivo, como denota imaturidade. E não foi nada fácil ao meu ego admitir isso... Queremos estar sempre certos. No entanto, pensa bem, quem está cem por cento certo, em cem por cento das situações?! Quando nos desentendemos com uma única pessoa, de fato a responsabilidade pode ser desta pessoa; agora quando sempre nos desentendemos, e com várias pessoas, serão elas sempre as responsáveis por isso?!

      Aqui entrou o segundo ponto observado nesse meu padrão de comportamento que me levou a uma reflexão ainda mais profunda sobre mim mesmo que é o seguinte: o porquê da frustração? Será que de fato são as pessoas e situações que nos decepcionam ou são as idealizações e expectativas que temos que fazem isso conosco?! Novamente vamos colocar na conta do outro idealizações e expectativas que são nossas e que estavam somente sob o nosso controle cultivar?! Isso não parece justo, nem maduro, nem lógico. E novamente constatar e admitir isso foi um golpe forte no ego... Como disse, queremos estar sempre certos. Aos poucos fui percebendo como as vezes agimos – até inconscientemente! – sem maturidade, de forma mesmo infantil. Segundo a psicanalista Melanie Klein, essa dinâmica dicotômica que temos em nossas relações se origina nos primeiros estágios de vida e ela deu o nome de posição esquizoparanoide. “Esquizo” de dividido e “paranoide” de se colocar numa posição persecutória (de perseguido). Ela então traz em sua obra uma impressão que o bebê sente de persecutoriedade pelo seio da mãe, o objeto com o qual ele tem o primeiro contato.

      Como disse, não pretendo professorar teorias aqui, o objetivo não é esse, contudo acredito que se faz necessário trazer, de forma breve, como se origina esse fenômeno na nossa personalidade, segundo M. Klein. De acordo com a psicanalista, o primeiro contato que o bebê tem é parcial, ou seja, é com o seio da mãe, não com a mãe inteira. Isso significa que o bebê se relaciona com o seio que ora o alimenta, saciando-o completamente (“seio bom”), ora o frustra quando não dá o que ele quer (“seio mau”). Os medos persecutórios da criança são impulsos oral e anal-sádicos projetados (“identificação projetiva”) ao seio da mãe. Daí o nome dado a essa posição de esquizoparanoide. O que isso significa? Como a criança não dá conta de perceber a sua própria destrutividade – que já existe! – ela então projeta seus impulsos agressivos ao seio da mãe, passando assim a acreditar que este a persegue e a quer destruir. Esse é um processo natural que toda criança passa até que consiga integrar o ego (o eu) e o objeto externo (a mãe).

      Quando no avanço do desenvolvimento da criança, ela entende que o mesmo seio que a frustra também a gratifica e ela se torna consciente dos próprios impulsivos agressivos em relação à mãe, ela agora percebe a inteireza do objeto externo (mãe/seio) e pode introjetar “seio bom e seio mau”, evoluindo a idealização do objeto. A idealização é o mecanismo que o bebê desenvolve em defesa contra a percepção que ele tem de sua própria agressão à mãe; processo que vem acompanhado de sentimentos de culpa e medo (ansiedade depressiva) de vir a perder o objeto amado. Melanie Klein denominou esse período do desenvolvimento humano de posição depressiva. O que isso significa? Quando o bebê já se dá conta que a mesma mãe que o alimenta também o frustra e compreende que ele dirige afetos distintos (amor e ódio) ao mesmo objeto, isso proporciona à criança passar de uma posição "fragmentada" para uma posição "integrada", desenvolvendo a capacidade de amar e de reparar os objetos externos.

Agora, qual a relação dessa teoria psicanalítica com o texto de hoje?

     Total. Segundo a psicanalista Melanie Klein, ela denominou esses estados do nosso comportamento em sua obra de posições justamente porque não se trataria de fases, pois fase dá a entender algo que acontece em dado período que tende a passar; quando nosso psiquismo possui um funcionamento dinâmico, assim essas posições continuam presentes em diversos momentos pelo resto da nossa vida! Ora ou outra transitamos de uma posição esquizoparanoide para uma posição depressiva, embora predomine esta última quanto melhor foi um desenvolvimento saudável, quando criança nesse período.

      Estamos na posição esquizoparanoide quando negamos a própria raiva e projetamos [nos outros] aspectos que consideramos ruins e destrutivos – mas que são nossos; quando somos incapazes de enxergar e validar o outro; ou quando idealizamos o outro, porque nesse caso também não estamos enxergando-o – estamos enxergando somente aquilo que queremos ver; quando somos punitivos; quando temos dificuldade de suportar a própria angústia; quando não aceitamos ser excluídos ou reagimos movidos por inveja e ciúmes – por vezes inconscientes; quando adotamos uma postura de que podemos tudo – movidos por um sentimento de onipotência. Conseguem perceber o quanto é fácil estarmos nessa posição esquizoparanoide? Como dizem: quem nunca?! Quando estamos nessa posição adotamos um comportamento infantil e uma percepção dicotômica, polarizada e reducionista sobre as coisas. Bem ou mal; bom ou ruim; certo ou errado; verdade ou mentira. Nunca tem meio termo. É 8 ou 80. Preto ou branco, não existe o cinza. Ou melhor: cinzas! – já que entre o preto e o branco há uma gama de tonalidades. Quando escolhemos – inconscientemente até – estar nessa posição é difícil conviver conosco, porque ora adotamos uma postura de vítima que é perseguida pelos outros (lembra da persecutoriedade?) e introjetamos só o “seio bom” e o “seio mau” fica para o objeto externo: somos perfeitos, o outro imperfeito; ora fazemos justamente o contrário, introjetamos só o "seio mau" e o "seio bom" fica para o objeto externo: somos imperfeitos, o outro idealizado.

      Durante muito tempo da minha vida escolhi – inconscientemente – viver nessa posição, mesmo recebendo ora ou outra alguns feedbacks externos. “Você se acha perfeito”. “É muito moralista”. “Gosta de dar lição de moral”. “Da sua boca só críticas”. “E cadê o elogio?”. Isso quando o feedback não era velado e eu podia ler nas entrelinhas. Por mais que os feedbacks externos me ajudassem a ganhar maior consciência desse padrão de comportamento, sabe o que mais me ajudou a mudar? Quando comecei a desconstruir [processo iniciado em análise] a imagem que criei, a duras penas, de alguém que tinha que ser perfeito; encarei o medo que sentia de não o ser e a raiva – inconsciente – que tinha, mas negava, por ter que manter essa imagem de perfeição. Melanie Klein defende em sua psicanálise que não adianta trabalhar um sintoma sem trabalhar ansiedades e medos que levaram ao seu surgimento. Precisamos entrar em contato com os nossos afetos mais destrutivos, como a agressividade, o ódio, a raiva, o ciúme, a inveja etc. Todas as pessoas que colocamos num pedestal e idealizamos precisamos estar conscientes de suas falhas, de suas fraquezas, de seus defeitos – isso é respeito conosco. E aquelas pessoas que odiamos e apenas criticamos precisamos estar conscientes também de suas virtudes, de suas potencialidades e validarmos isso – isso é respeito com o outro. Somos todos objetos inteiros, não partes! Assim como tudo na vida; os nossos problemas e dificuldades também contém lições e nos permitem superações. Nada é uma coisa só e a vida se torna mais rica e complexa quando aprendemos a perceber e a validar todas as suas partes – como já dizia os princípios da Psicologia da Gestalt: "O todo é maior do que a soma das partes".

      Alcançamos então a posição depressiva* [*apesar do nome ter uma conotação negativa, na obra de Klein esse significado é diferente] quando superamos uma postura maniqueísta – de enquadrar tudo em polaridades de modo absoluto, sem restrições – e conseguimos enxergar e validar o outro. Estamos nessa posição quando aceitamos a dependência desse outro em nossa vida; quando aceitamos ser excluídos, perder e não sermos perfeitos; quando somos menos punitivos; quando nos sentimos potentes – ao invés de onipotentes; quando adquirimos a capacidade de fazer lutos – reais e simbólicos (isso é muito importante na vida!); quando aceitamos o ódio e a agressividade, assim como toda a gama de afetos existentes dentro de nós – alcançando assim condições de utilização saudável desses afetos (mecanismo de sublimação). Conseguem perceber o quanto é mais difícil estarmos nessa posição depressiva? Quando estamos nessa posição adotamos um comportamento maduro e uma percepção complexa e integrada dos objetos externos. Hoje me percebo mais nessa posição – mas isso faz parte de um longo processo. E um processo que recomendo a você ganhar também mais consciência.

"Quando, através da análise, chegamos aos conflitos mais profundos de onde surgem o ódio e a ansiedade, também encontramos lá o amor." Melanie Klein


domingo, 17 de julho de 2022

AINDA EXISTE VIDA?!


     Depois de um longo período distante desse blog eis me aqui novamente. Acredito que pouquíssimas foram as vezes que me distanciei desse espaço por tanto tempo, foram meses aí desde a última postagem. Durante esse tempo entrei até regularmente aqui; entrava, dava uma olhada geral na cria, lia algumas postagens aleatórias, ouvia as músicas e assistia o material aqui colocado, mas ficava nisso, não tentava escrever. Acho que alguns períodos da nossa vida são tão particulares e as experiências de vivencia-los tão novas que não se encontra facilmente palavras para expressa-los, então por essa razão fiquei fora um tempo. Sabia que por mais que quisesse não conseguiria sintetizar tudo o que estava vivendo e a razão também nem era essa. Mas não pense que esse período foi ruim, pelo contrário, achei necessário e acredito que quando eles ocorrem na vida a mensagem é para mais observar. Passar pelo processo com maior atenção, assim como com abertura, curiosidade e interesse. Foi isso o que fiz.

      O texto que trarei hoje está influenciado por esse período e a mensagem que deixo aqui é de uma imagem. Um exame de eletrocardiograma. Durante a leitura de todo o texto quero que fique com essa imagem na sua mente (um exame de eletrocardiograma) porque ela resume com perfeição a ideia do texto. A melhor forma de sintetizar uma mensagem é sempre através de uma analogia, de uma metáfora, de um símbolo; símbolos têm o poder de reunir em si toda uma gama de informações que são rapidamente subentendidas por quem recebe. Então tenha em mente aquelas finas linhas de um eletrocardiograma subindo e descendo, subindo e descendo...

     Você já deve estar imaginando qual analogia pretendo fazer e é exatamente esta: uma comparação com a vida. Se pensamos bem: existiria outra analogia mais próxima do que é a nossa vida?! A vida é igual o eletrocardiograma, feita de altos e baixos, de nuances, oscilações e mudanças. E o engraçado de tudo é que almejamos exatamente o contrário, buscamos sempre por estabilidade, buscamos por previsibilidade, queremos a não-mudança, quando no entanto linhas retas num eletrocardiograma significa que o coração...?!

      É difícil viver a vida com essa entrega, com total abertura e vontade de passar pelos altos e baixos com coragem e ter curiosidade, interesse e principalmente desenvolvendo potência para viver assim, porque no fim o sentido da nossa existência é ter potência para viver. A vida só quer de nós coragem para vivê-la como ela se apresenta. E isso não tem nada a ver com não sentir medo, nem com ganhar ou perder, com se dar bem ou se dar mal, nem mesmo com o que é certo ou errado, a grande questão de tudo é "Quanto de vida existe na sua vida?!". Você já se perguntou isso? Se você vai acordar amanhã para trabalhar ou para procurar um trabalho, se você ama a vida que tem ou se está lutando contra a morte, o quanto de vida está implicado ai?!

      Não falo aqui de positividade tóxica, porque acho essa história ridículo; positividade tóxica é querer tirar o direito de uma pessoa de sofrer a própria vida em paz. Mas falo do topar a vida. De falar a si mesmo: "Está bem, eu topo! Eu pago esse preço!” Esteja a vida indo muito bem – obrigado –, esteja ela uma merda em dado momento. Aceita passar pelo processo. Seja lá como for a vida, ela é tua e ninguém poderá viver por você! Isso implica em si implicar com a própria existência. Só e simplesmente porque é o que é; é o que tem pra hoje. E isso também não é “discurso de perdedor” (seja lá o que isso for), é apenas você se apropriar da própria vida e aceitar o pacote completo que vem com ela, com toda força, coragem e dignidade necessárias. Uma vez li uma frase que dizia mais ou menos assim: “na alegria seja a alegria, na dor seja a dor”. Isso é profundo... Dá conta disso?! Sabe o que isso significa?

      Viva aquilo que tiver que viver de frente, com dignidade. Não desista de si. Se está triste não nega isso, não tem motivo para fingir o contrário, aceita e passa por esse processo. Se não fizer isso não terá condições de compreender o que é verdadeiramente sentir também uma alegria genuína, que é justamente o contraponto dessa tristeza. Só podemos reconhecer o que é o dia porque conhecemos a noite; só podemos sentir o paladar doce porque algum momento provamos do sabor salgado. Quente e frio; saúde e doença; contração e expansão. A vida só é compreendida por contrastes. Jamais deseje uma vida perfeita, porque isso não existe – nem poderia existir, sabe por quê? Nós humanos só conseguimos nos motivar a buscar e damos algum valor às coisas a partir da falta que isso nos traz. Sem falta não existe desejo. Sem desejo não existiria movimento. E ausência de movimento é o mesmo que morte – lembra do eletrocardiograma?

      Gostaria muito que sempre se lembrasse da analogia com o eletrocardiograma. Altos e baixos... Acertos e erros... Ganhos e perdas... A vida está muito além de tudo isso! A vida é o movimento. Um movimento que vem de um desejo que surge a partir de uma falta. E graças ao Criador somos seres faltantes por excelência. Não espere então por completude, por estabilidade, nunca encontraremos isso, porque é justamente uma condição instável e incompleta que nos possibilita existir e nos motiva a caminhar. Agradeça verdadeiramente a cada momento de tristeza, porque eles nos possibilitam apreciar os momentos de alegria. Atravessar caminhos sombrios e tortuosos também fazem parte da jornada. E algumas vezes na vida será justamente a partir do inferno que alcançaremos a melhor visão do paraíso, isso significa que ao passar por períodos difíceis na vida podemos enxergar coisas importantes, que talvez jamais teríamos dado a atenção e a devida consideração se a vida não tivesse sido como foi.

"A vida se contrai e se expande proporcionalmente à coragem do indivíduo." Anaïs Nin

domingo, 20 de fevereiro de 2022

PERVERSÃO

A perversão é talvez a estrutura mais enigmática da psicanálise.

     Atualmente observo com curiosidade e admiração muitos analistas, cada vez mais diversos e plurais em suas formações, sendo convidados à cena pública para debater temas de relevância social, contribuindo também com a visão psicanalítica. Penso que, se vivo, Sigmund Freud estaria honrado com isso. E certamente também estaria participando. Os psicanalistas estão, neste momento, sendo convocados a falar sobre a formação, enquanto assistimos novas iniciativas nesse sentido – “como se daria a formação de um psicanalista?”. Tornou-se a psicanálise “pop”? Talvez, sim; desde que esse adjetivo não venha carregado de irrelevância ou de pouca credibilidade, pois certamente a psicanálise é uma ferramenta bastante útil ao sofrimento humano, numa sociedade em constante transformação. Essa resposta analítica pública assistirei com prazer, da arquibancada, certo de que ainda não sou um psicanalista. Um estudante é mais apropriado. Seguindo por um caminho num trajeto que sei que não terá fim – não há por que pressa então – mas houve certamente um começo. É difícil agora enxergar outro senão uma análise pessoal.

      Iniciei esse texto escrevendo sobre a perversão, porque essa sempre foi a estrutura psicanalítica que mais me despertou a curiosidade, mesmo antes de estudar psicanálise. Tenho o odiado costume de sempre olhar para aqueles pontos que estão de lado. Enxergo na perversão uma espécie de aura de mistério, de moralidade, de confusão. Uma confusão legítima certamente, já que arriscaria dizer que ela é mais complexa que a neurose e a psicose. Freud acolheu e ouviu a neurose. A psicose ficou a cabo da psiquiatria – o que não discordo nenhum um pouco –, ainda que, se possível, ao psicótico participar, também, de análise possa ser positivo. Psicanalistas depois de Freud, como Wilfred Bion, chegaram a atender pacientes psicóticos. No entanto, a perversão ficou sempre às margens da teoria, e considerada por vezes sem curso no tratamento psicanalítico, pois é comum se dizer, por analistas inclusive, que raramente o perverso procura por análise. Será mesmo?

      Quanto mais estudo a teoria psicanalítica observo que talvez existem muito mais perversos do que imaginamos. E tendo a acreditar que isso se deve ao mundo atual que vivemos e às intensas transformações que a sociedade vem passando. Algumas vezes tenho um pouco de dificuldade de acreditar se hoje em dia, pela forma como estamos vivendo e nos relacionando, ainda haveria indivíduos mais marcadamente neuróticos. Não sei se a neurose ainda é a bola da vez... Sinto que tem algo importante que não estamos enxergando no cenário atual. Mas já vi alguns poucos psicanalistas trabalharem essa ideia de modo interessante. Algo me diz que só estamos presenciando o início de transformações significativas no psiquismo individual, em decorrência de mudanças coletivas. Particularmente, odeio modismos. Nem sou de aderir a convicções radicais. Gosto e prezo um certo distanciamento para observar e poder refletir. Mas acredito que a sociedade e as nossas relações estão se modificando tão rápido e isso tem impactado em vários pontos, inclusive na psicanálise.

      A neurose e a psicose sempre foram mais conhecidas, até para quem é leigo em psicanálise, mas quem quiser conhecer um pouco melhor sobre a perversão recomendo o artigo “O que é perversão?” da psicanalista Cibele Prado Barbieri. Segue o link aqui. Achei interessante a forma como ela trabalha a perversão no seu texto, assim como o manejo clínico e as reflexões que ficam abertas para o leitor pensar. Vale conferir. Tomo a liberdade de dividir abaixo dois trechos:

Pode parecer que esse poder desafiante torne possível um gozo sexual garantido. Entretanto, isto não isenta o perverso de um drama, pois, diante da impossibilidade de recorrer ao pai enquanto função reguladora, ele termina por cair sob a dominação de outra regra: o gozo materno. Sabemos que, se não há castração, não há falta; se nada falta, não há desejo e, se não há desejo, há gozo.

[…]

Na verdade, poderíamos dizer que, paradoxalmente, o perverso sofre de uma busca ávida de Lei, pois o norteamento que deveria vir do Pai não se sustenta. Podemos assim entender que o desejo da mãe enquanto fálica convoca à pulsão de morte, porque promove o apagamento subjetivo na criança tomada como objeto de satisfação. Quando o desejo do pai fracassa em sua função de limitar o gozo da mãe para alinhar a criança na direção do desejo de vida, a face silenciosa da pulsão, a de morte, prevalece.

      A ideia dessa postagem se originou durante essa semana após a minha última aula de psicanálise. Estudávamos sobre o psicanalista Wilfred Bion e durante a aula algumas vezes o professor falou sobre um fenômeno psíquico intrigante que é a clivagem do eu. Basicamente esse é um mecanismo de defesa psíquico que permite a coexistência “pacífica” de dois tipos de sentimentos ou comportamentos; de imagens que se convergem a uma mesma realidade: objeto presente e ausente, duas representações opostas, uma afirmação e um desmentido. E embora esse mecanismo de defesa esteja profundamente associado a um comportamento psicótico, e era esse o enfoque da aula dada, já tinha ouvido sobre indivíduos perversos também fazerem um processo de clivagem. Então questionei o professor sobre isso. No intuito de evitar mais nos confundir, o professor foi comedido em sua resposta. Mas ele deu a deixa. Pense em ego e objetos. Fui pesquisar.

      A perversão ficou às margens da sociedade historicamente, porque invariavelmente é possível, num nível mais agravado é claro, que esse sujeito adentre o campo da criminalidade. E aí estaremos inevitavelmente falando de perversidade sim. Segundo a teoria freudiana, o perverso é aquele ser que reconheceu e, ao mesmo tempo, desmentiu [Lacan] a castração. Então, é como se o perverso tivesse um modo próprio maliciosamente perigoso ao lidar com o limite. Isso não significa que todo perverso é um delinquente ou um infrator, antissocial, mas que certamente ele tenderá a arbitrar, até autoritariamente pelo seu gozo sem limites, transgredindo, em maior ou menor grau, o status quo.

      De forma alguma defendo aqui qualquer forma de invasão ou desrespeito ao corpo do outro, nem ao espaço alheio! O limite é imprescindível não apenas ao ser humano – psiquicamente falando –, quanto às relações que ele estabelece em sociedade. Limite ordena. Organiza. Conserva a sociedade. Entre as estruturas psicanalíticas propostas por Freud, a neurose é o mais próximo de “saúde” (com várias aspas nessa palavra, quiçá nessa frase) que uma pessoa poderia chegar. Não tenho dúvida quanto a isso. Mas ela não foi a única. A neurose não é a única estrutura presente, nem nunca foi. E arriscaria dizer que, nos dias atuais, talvez ela nem esteja mais largamente predominante entre a população, como já foi um dia. Freud viveu numa era vitoriana e seria uma ingenuidade da nossa parte acreditar que transformações tão profundas e tão radicais que ocorreram, e ainda estão acontecendo, de lá para cá em todos os setores, de âmbito público e privado, não influenciariam em nada na formação da personalidade.

      No passado, no âmbito individual, privado, quando havia deficiências na interdição instituída pela norma geral, a Lei do Pai, ainda havia, pelo menos, no âmbito público, no coletivo, mastros morais fortes, e possíveis, para alguma castração e introjeção de uma função de superego. Fosse através da religião. Da educação. Da mídia. Da cultura. Do Estado. E tendo isto como perspectiva, um imaginário social e coletivo, haveria hoje em dia alguma referência forte? Nem no âmbito privado! O psicanalista Jorge Forbes diz que nós passamos de um mundo verticalmente orientado para um mundo horizontalmente orientado, e isso nos deixa com uma sensação de desbussolamento. Faz muito sentido, não?

     O objetivo desse texto é convidar a uma reflexão. Pensarmos. Sempre que penso sobre tudo isso, a reflexão que fico é se dado esse cenário atual, e pensando o desenvolvimento psicossexual nos dias atuais, isso influenciaria ou não, e como, na formação da personalidade pensando estrutura psicanalítica? Sei que parece que estou dando maior ênfase ao social nesta reflexão, quando impactaria muito mais a família. Mas aqui também está líquido! – conceito trazido pelo sociólogo Zygmunt Bauman.

Então, num mundo sem nortes sólidos, como historicamente sempre existiu, vindo dos pais, da sociedade ou dos deuses, haveria ainda maior propensão ao surgimento de neuroses?

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

DESTRUIR OU FORTALECER O EGO?


     A resposta é: depende.

      Embora muito criticado pelo senso comum, o ego para a psicanálise é uma instância psíquica importante ao ser humano. Todos já ouviram frases sobre determinada pessoa ter um “ego grande” ou um “ego inflado”, vindas com recomendações para “diminuir” o nosso ego. No senso comum se enxerga o ego dessa forma, como sendo algo prejudicial à personalidade e que devêssemos combatê-lo para nos tornarmos pessoas mais altruístas e abnegadas. Eu também imaginava que ego era algo negativo antes de entender como a psicologia, especialmente a psicanálise falam de ego.

      As razões por trás desse entendimento se deve porque assim é propagado, principalmente em alguns meios esotéricos ou religiosos. No senso comum associam uma pessoa com “ego inflado” com comportamentos de arrogância. De prepotência. De egoísmo. Aprendi que o intuito, quando se recomenda a dissolução do próprio ego, não significa que o indivíduo deva esquecer de si e se anular por completo. Não é isso. É uma orientação ao indivíduo para que busque enxergar a vida numa perspectiva macro, além de si mesmo e de seus próprios interesses. Para compreender que existe um todo do qual ele é parte. Saia do ensimesmamento e tente pensar e sentir com os outros, tendo o coletivo em perspectiva. Indo mais além, é a busca por ligação com aquilo que transcenderia a matéria, que estaria além da compreensão humana, entrando no campo da espiritualidade. No que você crê?

      Respeito esse conceito de dissolução do ego. Eu também acredito que o verdadeiro objetivo da alma humana é caminhar partindo do um (do eu) para uma fusão com o todo. A vida inteira passaremos por inúmeras experiências e aprendizados, alguns desafiadores e dolorosos, para que possamos evoluir nesse sentido. E isso não significa também esquecer de nós mesmos ou anular os nossos interesses pessoais, porque somos indivíduos. Carl Gustav Jung trouxe por exemplo a ideia de individuação (que não se confunde aqui com individualismo). A individuação seria a busca de toda alma humana por se desenvolver de forma integral rumo a sua realização pessoal.

      Dissolução do ego e Individuação então são dois conceitos de origens distintas, até parecem antagônicos, mas não se excluem na verdade. Essa ideia de dissolução do próprio ego, trazida principalmente em ensinamentos de tradição oriental me ajudou bastante. A observar as minhas atitudes e o excesso do eu em detrimento do outro. Meu primeiro impulso por exemplo é criticar. E às vezes segregar. Me separando das pessoas. Sou naturalmente mais distante e racional. Mas aprendi que posso ser também um Jonas mais próximo. Mais humano. Mais íntimo das pessoas. Evitar de ficar só no plano mental e me permitir sentir com as pessoas. Me unir. Já me abri bastante nesse sentido. Melhorei e espero melhorar ainda mais. E você, pensa no coletivo? Que ideia você tem sobre isso?

      Por outro lado acho importante também essa ideia de individuação proposta por Carl Jung. Ela nos ensina a olhar aquilo que temos em nós mesmos. Reconhecendo todos os aspectos da nossa personalidade. Aspectos luminosos, sombrios, potencialidades. E integra-los visando à totalidade. Nos aproximando de ser quem somos. Autenticidade. Realização pessoal. Completude. Essa ideia de individuação me fez reconhecer e me aceitar mais como sou. É o que sou! - sem justificação ou vitimismo. Sei que tenho uma tendência ao perfeccionismo. Sou crítico, obsessivo, rígido. Mas isso não me limitou. A questão é o que fazer com isso. Negar não é o melhor caminho. Reconhecer, integrar e elaborar é mais inteligente. Sou determinado também. Proativo, responsável, autoconfiante, organizado. Aprendi a valorizar o que eu tenho também. Ninguém é uma coisa só! Você já se aceitou como é?

      Acredito sinceramente que o Criador nos deu ao nascer uma caixinha já com algumas ferramentas e durante a vida encontraremos tantas outras. Cada um fará a sua obra. Mas nela não terá só o que queremos. Vem o kit completo! Só que ao invés de reclamar daquilo que ganhamos, podemos nos reinventar. O que fazer com a nossa vida a partir do que é dado? Já pensou nisso? A vida está aí. Não temos o controle de tudo. Não existirá vida certa ou vida errada. Há a vontade de viver. E potência para se recriar sempre que for preciso. Você já se reinventou?

      Quando fui estudar psicanálise descobri uma nova forma de pensar o ego também. Tão interessante e importante quanto! Segundo Freud o ego é o centro da consciência. Ele está em contato com a realidade e interpreta o mundo externo. O ego é a personalidade. E é a instância psíquica que tem a importante responsabilidade da mediação dos impulsos do id e dos valores internalizados pelo superego. Dentro de toda pessoa existem desejos, vontades, impulsos; assim como princípios e valores morais que censuram à obtenção desses impulsos. O ego que vai negociar: Eu quero X Eu devo?

      Quem resolve esse impasse sempre é o ego, por isso é uma instância psíquica importantíssima. O id nos diz quero agora. Imediatamente o nosso superego apita não pode! O nosso ego precisa analisar essas duas instâncias opostas e achar a melhor opção. Maximizar o prazer exigido pelo id. Ao mesmo tempo minimizando o desprazer advindo do superego. O ego age então como uma balança em nós. Uma balança que segue o princípio da realidade. Por isso o ego deve estar bem “calibrado”.

      Toda decisão que tomaremos sempre passará pelo crivo do ego. Ele precisa ser uma instância psíquica forte e saudável em nossa personalidade. Caso predomine só os nossos desejos e vontades, ou seja, “vou fazer o que quiser, como quiser, quando quiser”, estamos seguindo o princípio do prazer. Quem age seguindo apenas o prazer sem responsabilidades? As crianças. Convenhamos que não é agradável, nem aceitável, pensando em coletivo, um adulto fazer só o que quer. Não somos ermitãos vivendo reclusos em cavernas. Nós vivemos em sociedade e existem leis. O superego representa justamente a instância psíquica que freia os nossos incontáveis impulsos irracionais e desmedidos. Pessoas com um superego fraco ou pouco introjetado são mais transgressoras. Até delinquentes. Quanto maior for a fragilidade desse superego mais difícil ajudar a pessoa, porque ela terá pouco ou nenhum respeito por limite. E como somos animais sociais é imprescindível a internalização do temor e do respeito à Lei. Sem isso é praticamente inviável o curso livre do sujeito em sociedade.

      Por outro lado também, se numa pessoa houver um superego muito forte, ela será muito rígida, muito punitiva. Ela se censurará o tempo todo. Castrando demais os próprios desejos. “Não posso, não devo...”. É o extremo oposto. Pessoas muito sérias, controladoras, punitivas têm essa instância pesando forte na personalidade. Elas se anulam e se privam demais, porque há um superego internalizado muito severo. Eu estou aqui nesse grupo por exemplo. Aprendi que tenho uma tendência a priorizar o dever; a buscar antecipar e suprir a demanda do outro (sem ele sequer pedir); e a postergar o meu prazer. Embora esse mecanismo de privação também acabe gerando um prazer secundário! Aprendi que pessoas muito “certinhas” que muito se privam e privam os outros têm, inconscientemente, um prazer secundário nisso, por mais sadomasoquista que pareça. É uma fixação.

     Grava isso: o organismo SEMPRE encontrará um meio, mesmo que incomum, inaceitável ou patológico de obter SATISFAÇÃO; até inconscientemente. Não está contente com isso?! Análise.

      Para a psicanálise então o ego é muito importante e tem a tarefa de mediar o conflito entre o id e o superego. Como o ego segue o princípio da realidade é importante a pessoa ter uma interpretação razoável. Mas quando alguém está em sofrimento psíquico é bem possível que o ego dessa pessoa esteja em algum nível prejudicado na percepção e na interpretação do mundo externo. Assim como em sua capacidade de mediar conflitos entre desejos e exigências. Ao procurar um psicanalista, por exemplo, uma das primeiras tarefas da análise é fortalecer o ego da pessoa. Com o auxílio do analista ela irá gradativamente “recalibrando” a capacidade de perceber e de interpretar adequadamente a realidade e de conseguir gerenciar os próprios conflitos. O foco do tratamento psicanalítico continua sendo a instância inconsciente do paciente, mas o psicanalista precisa fazer aliança terapêutica com a parte colaborativa do ego da pessoa. E esse ego precisa estar minimamente fortalecido para interpretar a realidade.

E aí, com base em tudo isso, como você tem trabalhado o seu ego?