Muitos
não sabem mas esse blog já passou de uma década de existência e
muitas vezes me perguntei: “Afinal, sobre o que é esse blog?”.
Me sentia incomodado com isso às vezes, principalmente por imaginar
os pensamentos e os questionamentos que as pessoas poderiam fazer em
relação ao conteúdo do blog. Imaginava as indagações dos
leitores desse espaço, como: “Esse blog é uma espécie de
diário pessoal?; são crônicas?; ora ele escreve sobre filosofia,
ora sobre psicologia, entra psicanálise no meio, então ele mistura
textos com fragmentos de recursos humanos, gestão de pessoas e o
mundo corporativo, qual é a sua área de especialidade?” Isso
ocorre toda vez que penso em escrever sobre um tema que tenho
interesse, que já estudei, que tenho relativa habilidade, mas esse
texto pode se distanciar um pouco dos demais. E isso é uma bobagem!
Certa vez
estava numa sala de aula e uma professora, que também era psicóloga,
ministrava uma disciplina sobre gestão de carreiras e
desenvolvimento profissional. Ela nos deu várias atividades para
fazermos e refletir no decorrer de suas aulas, havia muitos
exercícios onde deveríamos escrever sobre os nossos interesses,
conhecimentos, nossas capacidades e habilidades. Quando chegamos ao
fim de suas aulas, nesse dia ela puxou conversa comigo e
reservadamente me disse: “Imagino que deve ser difícil a você
escolher uma única área de interesse na carreira, né? Nota-se em
você multipotencialidade.” A sua intenção logicamente foi
positiva, mas ela falou de forma neutra. Não fiz nenhum comentário,
apenas prestei atenção e fui para casa pensando, sem saber se isso
era algo positivo ou negativo a minha vida profissional ou a mim
mesmo pessoalmente falando.
Passei um
tempo refletindo isso de ter “multipontecialidade”; não sabia ao
certo o significado dessa palavra. Pesquisando na internet cheguei a
uma outra palavra – desse mesmo universo – que na minha opinião
se encaixaria até melhor ao meu perfil. Polímata. Um
polímata é alguém que tem especialidade em mais de uma área de
conhecimento. Isso tem tudo a ver comigo. Mas isso não teria nada a
ver com dom também, pois qualquer pessoa pode – e eu diria até
deve! – ser polímata. Ainda mais nos dias atuais. O mundo
corporativo, por exemplo, necessita cada vez mais de profissionais
360°. Sucintamente, um profissional 360° dentro de uma
organização é aquele que está atento à sua área, ao diálogo
de sua área com as demais e o seu interesse visa ultrapassar as
paredes da própria organização estabelecendo possíveis conexões
entre o que está dentro e fora. Ou seja, seu olhar, seu
interesse, suas relações, consequentemente o seu conhecimento, se
expandem. O potencial desse profissional busca sempre abarcar
inovação, execução e integração. Num mundo em que se fala em
disrupção é muito
interessante essa versatilidade. Abre espaço à criatividade.
E
que isso não se confunda em saber de tudo sem se
aprofundar em nada. Não é
isso. Até porque um polímata é essencialmente um especialista
em mais de uma área de conhecimento. Ou seja, ele se
aprofunda nos saberes. Você não
precisa dominar tudo, mas eu diria que é bem interessante você
definir primeiramente duas ou três áreas de conhecimento que a
priori dialoguem com a
sua carreira profissional,
com os seus interesses pessoais
e também com as suas habilidades naturais.
Assim você vai aos poucos aumentando as áreas de conhecimento de
interesse para campos mais distantes do seu universo habitual. E isso
não tem absolutamente nada a ver exclusivamente com uma capacidade
de superdotação, mas sim com vontade,
curiosidade e estar
aberto para isso.
Cresci
ouvindo as pessoas conversando ao meu redor falando que eu era um
“crânio”. Como se eu fosse alguém com uma inteligência acima
da média. Isso nunca foi verdade! E eu não estou sendo modesto. Eu
sempre fui inteligente sim, mas esforçado também. Só que a minha
inteligência sempre esteve dentro de parâmetros considerados
normais, nunca recebi qualquer diagnóstico de superdotação. O
que eu poderia afirmar, com muito gosto ainda, que sempre tive uma
curiosidade acima da média. Uma boa disposição para aprender
coisas novas. Sempre gostei de pesquisar coisas interessantes, de ler
assuntos dos mais diversos, de fazer associações entre os
conhecimentos, sempre gostei de conversar com
as pessoas – leia-se aqui entrevista-las – e sempre
tive uma cabeça muito aberta e uma vontade voraz de ler o mundo.
Pela ótica da ciência; pela ótica da política; pela ótica do
regime; pela ótica da religião; da espiritualidade; do misticismo
etc. Eu sou curioso! Quando eu era criança ia quase todos os dias à
biblioteca municipal para fazer os trabalhos da escola. Nessa ida à
biblioteca aprendia sobre o tema do trabalho em questão; passava
pela prateleira dos gibis; em seguida ia ao corredor dos livros de
astrologia, numerologia, simbologia; lia as revistas sobre dieta,
nutrição, exercícios físicos, saúde e bem estar etc. Nunca
pensei: “o que me agrega ou o que ganho aprendendo sobre isso?”
Meu objetivo era saciar a sede de conhecimento.
Sou
graduado em Administração com ênfase em Comércio Exterior. Fiz
MBA em RH com ênfase em Departamento Pessoal. Iniciei um outro MBA
em Gestão de Pessoas com foco em Coaching e Lideranças. Fiz uma
pós-graduação em Psicologia Organizacional. Atualmente sou
aspirante em Psicanálise. Veja que essas são áreas que abrangem
negócios, psique e comportamento. E garanto que no meu dia a dia
faço a intersecção
desses conhecimentos acima com outros tidos como pseudociência como
a astrologia por exemplo. Eu me defino como um
solucionador de problemas.
Penso que todos os dias os problemas batem a nossa porta e eles
demandam uma resolução. Todas
as vezes em que estou diante de um problema 'x', eu faço uma vasta
varredura na minha mente em busca de quais arcabouços teóricos,
quais conhecimentos, quais técnicas possuo que poderão me auxiliar
na resolução desse problema em questão. Vou dar um exemplo
hipotético.
Ex.: Um
gerente me pede uma ajuda do que poderíamos fazer para solucionar
uma situação em seu setor. Há um colaborador muito impulsivo.
Ele é muito objetivo, possui um jeito de falar direto
e os colegas se melindram. Sempre rebate o que falam
com ele. Esse seu jeito assertivo demais, agressivo
e um tanto mandão está desestabilizando a equipe. O
gerente já tentou dar um feedback ao colaborador mas ele bateu
de frente. Apesar do seu comportamento inadequado, esse
colaborador costuma atingir bons resultados, então o gerente
me pede para eu dar ao colaborador um feedback sobre seu comportamento.
Peço a
ele para enviar esse colaborador à minha sala. Após ouvir a breve
fala do gerente já pesquei uma série de
características comportamentais (observadas pelo gerente, que
precisarei verificar se confirmam ou não com a realidade) e
formei uma estratégia na minha mente. Para executar esse feedback
então usarei conhecimentos da psicologia analítica do Jung sobre
arquétipo (e aqui entra astrologia, porque é composta deles),
usarei conceitos da administração, de gestão de pessoas, da
psicologia e da psicanálise. Segundo a psicologia analítica do
Jung, arquétipos são ideias primordiais, modelos ideais
que estão formados em nossa mente há gerações e inconscientemente
os vivenciamos. A partir desse relato do gerente (note que grifei
palavras) o colaborador vivencia – mesmo sem querer ou perceber! –
arquétipos típicos como o do guerreiro; do deus Ares; do signo
de áries. E aqui vale ressaltar que o colaborador está apenas
exibindo o lado sombra do arquétipo do signo de áries (e não
raro, às vezes esse colaborador “coincidentemente” é do signo
de áries). Todo arquétipo tem um lado luz e um lado sombra.
Utilizando os conhecimentos de arquétipo do Jung e pegando a
astrologia como base arquetípica, eu precisarei de duas coisas para
trabalhar esse feedback: o aspecto luz do próprio signo de áries e
o seu oposto complementar zodiacal – libra.
O que
isso significa? Se eu sei a priori que ele possivelmente
vivencia o lado sombra do signo de áries sendo impulsivo e um tanto
agressivo, preciso usar libra que diz de diplomacia, de parcimônia,
de justiça, da ideia de um outro. Ele precisa lembrar que
existe um outro, enxergar o gerente, enxergar a equipe, ele – por
mais energia que tenha – não concretiza nada sozinho! Ele está
muito no eu, especificamente no Id. Libra lembra de ser
receptivo, de ser mais passivo. Não adianta eu me posicionar como a
autoridade e fazer frente porque ele vai rebater, seu temperamento é
colérico, seu espírito está bélico. Já ouviu aquela frase: “dois
bicudos não se beijam”?
Eu não posso entrar no seu jogo,
ele quem tem que entrar no meu! Se eu for à força, no
fim terei de usar a punição disciplinar para coloca-lo em seu
devido lugar e assim ele não entenderá o objetivo do feedback, ele
acatará por medo da punição e não por uma conscientização que é
o esperado, haja vista que o próprio gerente diz que ele dá bons
resultados. Então vale a pena o investimento num bom feedback. E o
bom feedback não está no que é falado, mas sim como
é falado. Se um dos lados não entra no conflito, não há como
duelar, então por mais que ele se exceda e aumente o tom de voz
comigo, eu devo me manter equilibrado, sensato, mantendo o meu tom de
voz cada vez mais baixo... Sem perceber ele espelhará o meu
comportamento. Ele baixará o seu tom de voz e não conseguirá
brigar sozinho, precisará conversar comigo e assim entraremos no
campo do diálogo.
Agora que
ele baixou as suas armas, ele está apto a me ouvir. Só que não
posso ser direto e falar objetivamente o que quero. Aqui entram
entendimentos da psicologia. Quando vamos dar um feedback para uma
pessoa, se somos muito diretos e falamos objetivamente onde uma
pessoa está errando, isso é recebido como uma agressão
emocional. Quem nunca ouviu aquela expressão popular: “fulano
foi direto e reto, soou até agressivo"? Porque de fato é
assim que o ser humano sente. É um golpe emocional! E como tal é
instintivo a pessoa levar para o lado pessoal e buscar se proteger.
Aí de duas uma: para algumas pessoas a melhor defesa é o ataque,
então a pessoa vai contra-atacar e pode gerar uma discussão desnecessária; enquanto outras poderão se melindrar e se blindar emocionalmente, então elas se fecham, a partir daí você pode falar o quanto quiser, a pessoa não dará mais abertura, porque ela se fechou emocionalmente e tudo
o que for dito entrará por um ouvido e sairá pelo outro. Eu
sei que muitas pessoas lendo isso podem pensar o seguinte: “Ah!
Mas isso é uma frescura! Se a pessoa se doer problema dela!”
Bem, problema dela não! Nós estamos num ambiente organizacional,
então o problema é da empresa! Ela pode estar com frescura ou não,
mas se a minha comunicação pode afetar o seu resultado
é óbvio que o mais sensato é eu pensar. Isso não é uma guerra de
egos. Utilizamos a melhor estratégia para extrair das pessoas o seu
melhor resultado.
E lembra
quando falei de utilizar o aspecto luz do arquétipo do signo de
áries? No aspecto luz, esse arquétipo traz as seguintes
características: iniciativa, bravura, coragem, energia, pioneirismo,
honestidade, liderança, ambição, firmeza, lealdade etc. São
ótimas características! Se ele já vivencia o lado sombra do
arquétipo do guerreiro, é possível facilmente serem desenvolvidas
as características para ele vivenciar o aspecto luz desse arquétipo.
E no fim pouco importa se ele é ou não do signo de áries, ele está
sob a égide desse arquétipo. Ele vivencia, mesmo sem saber, essas
características. O que ele pode fazer conscientemente é querer trabalha-las. E eu enquanto RH buscar desenvolvê-las pois poderiam agregar muito ao time. Vale ressaltar aqui que embora muitas pessoas, por
desconhecimento, desqualifiquem o Jung e a psicologia analítica e o
coloquem numa categoria mística ou esotérica, seus estudos sobre
arquétipos são muitíssimo interessantes. Veja a quantidade de
conhecimentos teóricos e técnicos que posso me basear só para
executar um feedback mais assertivo a um colaborador, visando a
melhor estratégia, a mais eficiente e eficaz. Lidar
com ser humano não é nada fácil, mas é muito gratificante a nível
de troca de experiências.
Esse blog
então não tem um objetivo, ele tem vários, são múltiplos e não
importa sobre o que eu fale ou como eu coloque, sempre quero lembrar
você que podemos mais! Somos dotados de uma capacidade
neuroplástica. Nosso cérebro está constantemente se transformando
a partir dos nossos hábitos. Estamos sempre aprendendo e nos
adaptando. Se você observar um bebê, ele é como um elástico, é
potencialidade pura, um bebê não tem consciência se conseguirá
andar ou falar, mas ele olha adiante com curiosidade e vontade e
segue tentando sem se importar com o que estão pensando, até que um
dia ele simplesmente consegue! Nessa fase da nossa vida acreditávamos
mais, tentávamos mais, consequentemente conseguíamos muito mais.
Quero lembrar você, assim como busco me lembrar todos os dias, que
somos como elásticos ao nascer e nosso objetivo aqui nessa vida é
nos esticar ao máximo descobrindo sempre novos talentos, novas
capacidades, novas habilidades. Todos temos multipotencialidade! Não
crie muros na sua mente. Crie pontes!