domingo, 31 de janeiro de 2021

O PONTAPÉ INICIAL AO SEU AUTOCONHECIMENTO

 

     Eu não gosto de dar conselhos a ninguém. Faço em raras exceções, quando alguém me pede isso, o que ainda procuro me policiar ao máximo para não ditar o que a pessoa deveria fazer. Penso que para ajudar de fato, o ideal nesses casos é sempre devolver à pessoa perguntas que a façam refletir sobre a sua dúvida e com isso sozinha ela será capaz de encontrar as melhores respostas. Parto de um princípio então de que todos nós já possuímos dentro de nós mesmos as respostas para todos os nossos dilemas. Mas se eu tivesse que escolher um único conselho que pudesse ser empregado indistintamente a qualquer pessoa, em qualquer situação e tempo, certamente eu reproduziria a famosa inscrição na entrada do Oráculo de Delfos: “conhece-te a ti mesmo.” Busque autoconhecimento.

     Eu sei também que apesar de todos falarem que autoconhecimento é importante, não é uma tarefa fácil, nem simples, principalmente às pessoas que não têm esse hábito. O autoconhecimento requer a realização de uma investigação interna constante. Mas não raro percebo que muitas pessoas não sabem nem por onde começar a trilhar um caminho rumo ao seu autoconhecimento. Fica uma coisa abstrata demais. Muito subjetiva. Às vezes mística. Enfim, algo de difícil compreensão do que seria isso e mais difícil ainda de como colocar em prática isso no dia a dia. Acredito então que facilitaria muito ter uma técnica básica, um método possível, algo simples que qualquer pessoa pudesse encontrar ao menos um ponto de partida.

     Com o propósito de ajudar essas pessoas, hoje faço esse texto. O meu objetivo é mostrar o caminho das pedras. Caminho esse que um dia eu trilhei e descreverei aqui algumas práticas valiosas que um dia eu mesmo fiz e hoje recomendo a qualquer pessoa que queira se conhecer melhor. Se você é uma pessoa que tem pouco conhecimento sobre si mesma, mas gostaria de melhorar nesse sentido, então eu peço que leia esse texto com atenção, com a sua mente bastante aberta, não julgue nenhuma das propostas passadas aqui, sem antes se permitir realiza-las.

     Antes de iniciarmos gostaria de dizer que a melhor forma de obter autoconhecimento é através de psicoterapia ou fazendo análise. Se isso for viável a você nesse momento, pense sobre procurar um psicólogo ou um psicanalista e certamente esse profissional te auxiliará de forma personalizada no caminho rumo ao seu autoconhecimento.

     Bom, vamos lá! Apesar de algumas pessoas não gostarem muito de realizar testes psicológicos e comportamentais, eu posso garantir que eles podem ajudar sim – e muito – no processo de autoconhecimento. Mas é fato também que nenhum teste no mundo é capaz de revelar com cem por cento de precisão a complexidade que é a personalidade humana. Mas o meu objetivo aqui também nem é este. Fazer você se descobrir. O meu objetivo é te provocar reflexões a partir de um ponto de partida que você chegará sozinho, validará com o seu meio e empiricamente você poderá se trabalhar nesse processo através de reflexões e autoanálise.

     Comecei meus processos de autoconhecimento ainda na infância e início da adolescência. Não sabia por onde começar na época, de que ponto puxar o pensamento; o que deveria ser analisado primeiro. Eu precisava de algo para começar. Um mínimo esboço sobre mim, sobre a minha personalidade. Adoro utilizar a seguinte analogia. Quando vamos elaborar um texto ou realizar um desenho, num primeiro momento precisamos elaborar um esboço do trabalho, para depois com o tempo irmos aprimorando e lapidando a nossa obra. Na época que comecei sentia então a necessidade de obter um esboço inicial da minha personalidade e a partir dele começar as reflexões sobre mim mesmo, sobre o meu comportamento. Mas nunca para me definir! Apenas para começar a me conhecer mais. Veja que no próprio cabeçalho do meu blog já escrevo: “não se defina por completo, não se dê por concluído”. No autoconhecimento então busquei desde sempre pontos de partida, mas nunca me contentei com pontos de chegada!

     Nesse processo fiz inúmeros testes psicológicos e comportamentais, desde aqueles de revista de moda e culinária até testes validados mesmo por psicólogos. Na internet explorei vários testes e descobri alguns úteis – e gratuitos – para se obter um esboço inicial da personalidade e iniciar esse caminho ao autoconhecimento. Eu recomendarei aqui três testes. 1º O teste do Eneagrama. 2º O Teste do Zodíaco. 3º Os testes que se assemelham à tipologia do MBTI* (*Na internet pode haver testes similares ao MBTI, mas o teste original é uma ferramenta de Assessment exclusiva da consultoria Feliipelli que é a sua representante oficial no Brasil). Há muitos testes que são oferecidos gratuitamente na internet de diferentes formas, mas é importante destacar que esses testes não são científicos, não validam o resultado, são meramente informativos, para divertimento e eles não substituem uma avaliação psicológica, nem um tratamento receitado por um profissional especializado. Os testes que fiz da internet que mais gostei têm as seguintes características:

  • Possuem maior número de perfis possíveis (Ex.: O Eneagrama te dá 9 perfis possíveis; o Teste do Zodíaco te dá 12 perfis possíveis; os testes similares à tipologia junguiana e ao MBTI te dão 16 perfis possíveis);

  • Possuem maior número de questões (Quanto mais questões o teste tiver, o resultado tende a ser mais próximo do seu perfil);

  • Possuem respostas que permitem a escolha numa escala maior (Ex.: Discordo completamente/ Discordo consideravelmente/ Discordo pouco/ Nem discordo nem concordo/ Concordo pouco/ Concordo consideravelmente/ Concordo completamente).

     Então, vamos à prática! Dividiremos a técnica desenvolvida aqui em cinco etapas, ok?

1ª ELABORAR OS TESTES;

2ª PESQUISAR SOBRE SEUS RESULTADOS;

3ª LISTAR AS CARACTERÍSTICAS DOS PERFIS;

4ª SELEÇÃO E VALIDAÇÃO COM O MEIO;

5ª REFLEXÃO E AUTOANÁLISE.


1ª ELABORAR OS TESTES

     Faça primeiramente os três testes que recomendei acima. Existem vários sites bons na internet que fornecem um resultado interessante. Eu selecionei agora um deles e fiz os meus testes neste:

 

     Abaixo os resultados dos meus testes (clique na imagem):

 


2ª PESQUISAR SOBRE SEUS RESULTADOS

     Faça pesquisas no Google como as seguintes (de acordo com o seu resultado): “características tipo 1 eneagrama”; “características signo virgem zodíaco”; “características intj mbti”.


3ª LISTAR AS CARACTERÍSTICAS DOS PERFIS

      Enquanto você pesquisa as características dos seus perfis na internet, você pode ir anotando numa folha simples de caderno (eu gosto de escrever à mão nesses momentos) as características (“positivas” de um lado e “negativas” do outro) que você descobrir de cada perfil. Leia tudo o que encontrar sobre o seu perfil. Depois anote pelo menos cinco características positivas e cinco negativas de cada perfil. Desta forma:



4ª SELEÇÃO E VALIDAÇÃO COM O MEIO

      Essa etapa é crucial para a técnica, porque o seu meio tem grande possibilidade de validar de forma mais fidedigna o seu resultado. Aqui entram as pessoas que convivem diretamente com você e que você confia. Ex.: mãe, pai, avôs, avós, irmãos, filhos, cônjuge, outros familiares, amigos, colegas de trabalho, líderes etc. O importante é que sejam pessoas que você sabe que querem o seu bem e que você acredita que te darão uma devolutiva sincera sobre o seu resultado.

      Você vai selecionar pelo menos cinco dessas pessoas (pode ser mais se quiser), entregará uma listagem apenas com as características e pedirá a elas para selecionarem por favor pelo menos 8 características positivas e 8 negativas dessa listagem que são as mais evidentes na sua personalidade e no seu comportamento, de acordo com o ponto de vista da pessoa. Desta forma:

 

5ª REFLEXÃO E AUTOANÁLISE

      Ao receber de volta as listagens, de posse dessas devolutivas você conhecerá quais são as suas características mais evidentes, então você terá condições agora de iniciar um processo de reflexão e autoanálise sobre isso. Mas deixo claro que isso aqui é só o comecinho, assim como intitulei esse texto, essa técnica se propõe a ser um humilde pontapé inicial ao seu processo de autoconhecimento. Porque existem pessoas que não conseguem chegar nem aqui! E a partir de agora elas têm, no mínimo, características precisas de sua personalidade e de seu comportamento, validadas pelo seu meio, e isso as possibilita uma interessante autoanálise.

      Nesse momento, algumas reflexões aqui podem ser bem pertinentes. Veja o meu caso por exemplo. Fiz comigo essa técnica há bastante tempo, meus perfis continuam os mesmos, mas de lá para cá busquei desenvolver algumas características do meu jeito de ser. E é óbvio que ainda escorrego em muitas delas. Porque essa técnica é só a ponta do iceberg. Você poderá ir com ela até certo ponto no seu autoconhecimento. Até o seu ponto cego. A partir daí já será necessário um processo de psicoterapia ou uma análise. E o objetivo final dessa postagem é este: que ao final de sua reflexão e autoanálise, você busque por um profissional que dará continuidade no seu autoconhecimento.

      Minha autoanálise a partir dos testes psicológicos foi muito reveladora! Uma coisa vai puxando a outra. Vou colocar abaixo alguns diálogos reais que tive comigo mesmo e como buscava me investigar.

      - Jonas, por que você se cobra de ser tão perfeito? De onde vem isso? Quem você está tentando agradar? Qual é o problema de fato se você for alguém imperfeito? O que você ganha com um comportamento crítico e julgador: você mais afasta ou aproxima as pessoas de você? Você acha realmente que é possível você manter o controle de todas as variáveis? Não é cansativo viver assim? De onde vem tanta exigência com os outros e consigo? E esse ressentimento residual: você está cobrando mais responsabilidade das pessoas, mas no fundo não é por que você que não se permite relaxar e só está descontando essa sua “castração de prazer” sendo chato e crítico com os outros? São eles que precisam de mais responsabilidades ou você quem precisa se permitir mais? E por que você não se permite? Do que você tem medo? Do que você está se escondendo? E essa formação reativa? Esse mau-humor, essa ironia, essa antissociabilidade, no fundo você não está afastando primeiro as pessoas por medo de elas te afastarem antes? Isso é carência ou medo de rejeição? Ou seriam as duas coisas? Quem te machucou? Vamos olhar pra isso?

      Dói. Já vou adiantando. Não espere que essa minha técnica tenha um final gostosinho e açucarado, porque não terá. É da ordem do amargo mesmo. Mas é digno! É um processo realista e digno. E de muita coragem. Não tem outro caminho. Aliás, até tem, mas como naquele filme Matrix, Morpheus entrega ao Neo duas pílulas: uma azul, que permite que ele esqueça tudo o que aconteceu e permaneça [inconsciente] na realidade virtual da Matrix; outra vermelha, que o libertará da Matrix e o conduzirá ao mundo real. Você escolhe, todos os dias, qual pílula tomar. O que estou te oferecendo aqui é apenas uma possibilidade de acordar.

“- Por que doem os meus olhos?” (Neo)

“- Porque você nunca os usou.” (Morpheus)

segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

A transgressão


      Viver e sobreviver são coisas muito diferentes na minha opinião e isso aprendi desde muito cedo na minha vida. Essa diferença, entre viver e sobreviver, para mim sempre esteve diretamente relacionada a duas palavras: contenção e transgressão. Durante toda a minha vida sempre prestei atenção a todos os limites e sempre fui – o máximo possível – respeitoso com eles. Nunca fui um filho desobediente, embora em alguns momentos – muito específicos – agi com profunda desobediência. Na escola fui um aluno comportado – pelo menos a maior parte dos anos –, tirava excelentes notas, fui um dos melhores, mas isso não significa também que não cheguei a agir com muita rebeldia afrontando normas e professores. O mesmo vale para as empresas onde trabalhei, instituições em que estudei mais tarde, pois em algum momento transgredi determinadas normas.

     Quando eu era criança, em minha casa tinha regras como em todos os lares tem as suas. E eu tinha prazer em respeitar essas regras. Como um filho que “queria ser perfeito”, eu tinha um profundo prazer em fazer tudo como era esperado pelos meus pais. Só tinha um porém: eu queria seguir as regras por ter consciência que era importante isso, não por uma imposição externa. Utilizo essa palavra externa, pois já havia em mim nessa época uma imposição interna. Sou um perfeccionista por excelência. Meu pai era perfeccionista também, logo herdei isso. Eu trouxe isso na genética e fui educado num ambiente marcado por regras rígidas e punições severas. Dessa forma, foi desenvolvido em mim desde muito novo um crítico interno, um superego bem introjetado. Então eu já me cobrava muito internamente. O resultado dessa autocobrança também me gerava um gozo. Eu me sentia bem comigo mesmo. Me sentia digno da confiança dos meus pais, pois fazia o que precisava ser feito. Minha parte para a contribuição no todo era dada. Então eu tinha uma sensação de dever cumprido, gostava disso. Gosto até hoje.

      Só que o meu pai tinha uma característica que era a sua pior: ele gostava de provocação. Várias vezes, quando todos na casa estavam quietos, calmos, cada um em seu canto, parecia que esse clima harmônico, essa homeostase o incomodava, principalmente quando ele já estava bêbado. Então ele mirava alguém e começa a cutucar essa pessoa verbalmente; fosse através de brincadeiras de mau gosto; algum comentário ácido; num conselho que ninguém havia pedido; ou no meu caso: crítica e ordem desnecessárias. Para ele não bastava que eu conhecesse e respeitasse as regras da casa, ele ainda fazia questão de ordenar a mim que elas fossem cumpridas. “Eu mandei você fazer isso!” – sendo que eu já estava fazendo. “Não é para fazer aquilo!” – quando eu já não fazia. Isso me gerava raiva, porque eu não achava certo provocar quem estava quieto; cobrar aquilo que já estava sendo feito; ser autoritário e não saber conversar com as pessoas. Eu respeitava as regras e os limites de todos, mas os meus próprios eram constantemente ultrapassados. Se tem algo que até hoje não admito é invadirem o meu espaço, pois procuro respeitar e entender o espaço das pessoas. Então soma-se uma pressão externa que eu sentia, àquela que eu já me impunha diariamente, eu vivia no limite. Continha os meus impulsos e procurava descarregar toda a raiva reprimida, velada, ouvindo música (geralmente rock); fazendo flexões e abdominais no meu quarto; saindo para correr; nas aulas de Artes; nos desabafos com os amigos; nos episódios de compulsão alimentar; nas redações na escola. Me lembro que aos dez anos uma professora me disse: “Minha língua até coça para ler as suas redações, guarde todas elas, porque um dia ainda vou ler um livro seu.” Isso me motivava bastante, porque escrever sempre foi a principal forma de sublimar a angústia que eu sentia.

      Através da contenção dos meus impulsos e da sublimação, de primeiro momento sentia desprazer, mas aos poucos a raiva passava e eu voltava ao meu estado normal, e a longo prazo sentia algum prazer no autocontrole. Havia entendido esse mecanismo. Só que não me sentia plenamente feliz também. Me sentia me enganando. Conformado. Castrado. Traído. Como se fosse obrigado a dizer sempre não a mim mesmo, por respeito à Lei e para não gerar um desconforto no meio. Me perguntava até onde isso é viver ou sobreviver?

     Só que um dia eu entrei na adolescência e na puberdade com os hormônios à flor da pele, um dia foi o estopim – eu já vinha pressentindo isso, pois estava no limite do meu limite e de certa forma desejava também isto que viria a acontecer: a transgressão. Foi nesse dia em que eu gritei mais alto do que o meu pai. Eu me levantei da mesa. Eu virei a mesa. A partir desse dia transgredi todas as regras da casa e nunca senti tanto prazer na vida até então! Havia muito gozo na transgressão. Mas era um gozo mortífero também. E mais tarde eu entenderia bem o porquê... Ao longo do tempo, o prazer que eu sentia em transgredir só diminuía, não me sentia mais bem em quebrar as regras, enquanto uma sensação de depressão que eu sentia após a transgressão só aumentava. Na maior parte do tempo só sentia vergonha, uma sensação de inadequação, como se estivesse indo ladeira abaixo. (Fiz um gráfico para retratar essa minha relação de (des)prazer na contenção e na transgressão).

 

     Se viver com a contenção dos meus impulsos para mim não era viver, era sobreviver; descobri que viver transgredindo também não era vida, era buscar a morte. Nietzsche tinha razão quando disse que “o homem é uma corda estendida entre o animal e o Super-homem”. Tenho particular atração e repulsão pelo limite. Mas hoje entendo que o limite é sim aquilo que nos castra, mas também nos organiza e mantém a nossa existência. Limite é poder. Mas também compreendo que transgredir faz parte, ainda que não seja esperado. A transgressão deve ser a exceção, jamais a regra. Mas o gozo da transgressão existe e às vezes ela é necessária até para a manutenção do limite.

      Muitos podem analisar essa minha história pessoal de transgressão, principalmente os amantes da psicanálise, com o desenvolvimento de uma estrutura perversa. Será? Sou suspeito para falar, porque dessa tríade freudiana sempre foi a que mais me despertou a atenção, ainda mais hoje que sou estudante de psicanálise. Resolvi escrever sobre esse tema com um propósito. Nos lembrar que a psicanálise ainda deve muito a essa estrutura. A psicanálise freudiana se concentrou na neurose e os pós-freudianos até se ocuparam da psicose, mas a perversão mesmo, carregada de estigmas e estereótipos morais, confundida com perversidade, ficou relegada a uma má compreensão ao longo da história. Se a neurose é o negativo da perversão e o perverso é aquele que faz o que neurótico morre de vontade, de uma forma ou de outra, em maior ou menor grau, não seríamos todos perversos? Talvez hoje em dia – e daqui em diante cada vez mais – essa poderá ser a estrutura psíquica mais predominante nas pessoas. Preparem-se, psicanalistas! Talvez seja o momento da psicanálise atualizar o olhar e os estudos sobre essa estrutura, pois só deem uma olhada na geração atual, nas gerações que estão vindo aí, prestem atenção ao que está surgindo na clínica...

      Para finalizar essa postagem, um trecho do livro “A parte obscura de nós mesmos. Uma história dos Perversos", da Elisabeth Roudinesco.

A perversão, portanto, é um fenômeno sexual, político, social, psíquico, trans-histórico, estrutural, presente em todas as sociedades humanas. E se todas as culturas partilham atitudes coerentes — proibição do incesto, delimitação da loucura, designação do monstruoso ou do anormal —, a perversão naturalmente tem seu lugar nessa combinatória. Porém, pelo seu status psíquico, que remete à essência de uma clivagem, ela é igualmente uma necessidade social. Ao mesmo tempo em que preserva a norma, assegura à espécie humana a subsistência de seus prazeres e transgressões. (…) Que faríamos se não pudéssemos apontar como bodes expiatórios — isto é, perversos — aqueles que aceitam traduzir em estranhas atitudes as tendências inconfessáveis que nos habitam e que recalcamos?

(...) os perversos são uma parte de nós mesmos, uma parte de nossa humanidade, pois exibem o que não cessamos de dissimular: nossa própria negatividade, a parte obscura de nós mesmos.

domingo, 27 de dezembro de 2020

INTUIÇÃO: UMA ARMA CONTRA NARCISISTAS E PSICOPATAS?


     A maioria das pessoas se utiliza predominantemente dos cinco sentidos principais para avaliar a realidade e tomar as suas decisões, e eles são: visão, audição, olfato, paladar e tato. E a maioria das pessoas segue vivendo praticamente ignorando uma outra percepção, igualmente importante – às vezes eu consideraria até mais importante – que é a Intuição. Nos relacionamentos afetivos, por exemplo, quantos não são os relatos de pessoas que viveram com parceiros abusivos, às vezes psicopatas ou narcisistas, só que desde o começo a vítima tinha uma percepção estranha; ela tinha uma sensação que embora não soubesse explicar bem, sentia que havia algo que não se encaixava nessa relação, havia especificamente algo de errado com a pessoa com quem ela convivia. O fato é que a vítima ignora essa percepção. E essa percepção ignorada é a sua intuição.

Mas o que é a intuição? Por que ela é tão importante? E como podemos desenvolvê-la?

     Existem muitas formas de explicar o que é a intuição, tentarei ser o mais didático possível. Primeiramente, a intuição não tem nada a ver com misticismo. Segundo Carl Gustav Jung, a intuição é uma função psíquica que está intimamente atrelada a processos inconscientes. Quando você tem de repente uma percepção, uma resposta afirmativa ou negativa à determinada circunstância e você não sabe explicar a origem e o porquê disso, provavelmente essa sinalização veio do seu inconsciente à consciência e você sente que isso faz sentido porque na verdade tem sentido! Esse conteúdo estava armazenado no seu inconsciente, não sendo reconhecível até esse momento.

     Para explicar de uma outra forma. É comum, por exemplo, os pacientes numa análise relatarem ao analista o seguinte: “Agora eu me lembro disso! É estranho, mas essa lembrança parece que sempre esteve aqui, eu só não tinha pensado sobre isso até esse momento.” Óbvio que nunca tinha pensado, pois esse conteúdo estava recalcado no seu inconsciente e durante o processo analítico ele veio à tona num campo de consciência, então a pessoa se recordou. Podemos se utilizar desse exemplo para explicar o que é a intuição: uma informação do inconsciente que em dado momento vem à consciência.

     No caso de relacionamentos abusivos, por exemplo, é muito comum o abusador se apresentar, pelo menos no início da relação, como “o par perfeito”. Ele vai falar o que você gostaria de ouvir. Ela vai te tocar e beijar de uma forma que gostaria que alguém fizesse. Ele terá um estilo de se vestir, usará um perfume e terá gostos musicais, artísticos, alimentares, que você gosta – porque ele já sabe de tudo isso. O abusador é uma espécie de predador social, ele age como um camaleão se moldando a você, está usando a sua função sensorial para isso. Os seus principais sentidos estão fortemente excitados e se encaixando perfeitamente a ele, porque é assim que ele fisga as suas vítimas.

     Mas vamos supor que numa noite vocês estão jantando, vocês já estão saindo há algumas semanas, então num determinado momento você pergunta algo sobre a vida dele e quando ele responde imediatamente dispara algo dentro de você: “Isso é mentira!”. O que você faz nesse momento? Eu vou te responder. Mentalmente você fala para si mesma o seguinte: “Por que ele estaria mentindo? Eu mal o conheço e até agora ele nunca mentiu para mim, por qual razão vou duvidar dele? Aliás, eu estou curtindo tanto, ele e eu combinamos perfeitamente...” Ou seja, você ignora a sua intuição e toca o barco adiante, até a próxima vez quando essa dinâmica certamente se repetirá e você novamente confiará cegamente nos seus sentidos sensoriais, ignorando por completo a sua intuição.

     Se você tivesse prestado mais atenção a sua intuição, você saberia que ela está ligada ao seu inconsciente que detém 95% pelo menos da sua mente. Assim, muito provavelmente conversas que você já teve ou que ouviu de outras pessoas, filmes, novelas, livros que você teve acesso sobre relacionamentos abusivos, transtorno de personalidade antissocial, transtorno de personalidade narcisista, todo esse conteúdo está armazenado no seu inconsciente sem poder ser acessado facilmente, porém naquela noite, no momento em que o abusador respondeu a sua pergunta, talvez o que ele falou, ou a forma como ele respondeu, ou até a expressão facial e postural que ele teve geraram um gatilho em você que ativou um conteúdo inconsciente seu. E a resposta foi automática, específica e clara: “Isso é mentira!”. Conscientemente você não sabe como você sabe, mas inconscientemente você sabia que ele estava mentindo.

     Precisamos nos lembrar que, segundo Sigmund Freud, nossa mente é dividida entre consciente, pré-consciente e inconsciente. Sendo que este último, segundo os estudos mais recentes de neurociência, poderia corresponder a 95% pelo menos do nosso psiquismo. Sabendo que a intuição está atrelada ao inconsciente, é inegável que essa função psíquica seja fonte de substancial conteúdo de conhecimentos e experiências anteriores armazenados (segundo Jung, coletivamente até). O fato é que isso não estaria armazenado à toa. A intuição tem natureza instintiva e faz parte de um processamento do tipo 1 ou sistema 1 (que envolve estruturas cerebrais como às amígdalas, entre outras). E ao contrário da nossa mente consciente que capta conforme a atenção é dirigida ou direcionada, o inconsciente tem registrado tudo.

     Vamos supor que você entre num museu. As obras que você dirigiu a sua atenção, que você fez algumas reflexões e raciocinou sobre elas e que você poderia dividir posteriormente esse conhecimento com outra pessoa se fosse preciso, você utilizou o seu sistema 2 ou processamento do tipo 2 (que envolve estruturas cerebrais como o córtex pré-frontal, entre outras). Mas isso não significa que você não recebeu nem arquivou também vários outros estímulos sensoriais, auditivos, olfativos, táteis etc., mesmo sem prestar atenção consciente desde o momento que adentrou o prédio.

     Não há um julgamento de valor entre qual seja melhor ou pior: a função intuitiva ou a função sensorial; o sistema 1 (mais automático) ou o sistema 2 (mais reflexivo). Nós utilizamos ambas as funções e ambos os sistemas. A questão é prestar mais atenção a nossa intuição quando ela vem e duvidar um pouco dos nossos sentidos. As pessoas que são muito sensoriais costumam dizer que “fatos falam por si”; já aquelas que tendem a ser mais intuitivas alegam que “fatos sugerem análise”. As primeiras se conformam com a realidade conforme a registram pelos seus sentidos e elas se fixam predominantemente no que tangível. As pessoas mais intuitivas já olham para a realidade, mas não confiam cegamente nos próprios sentidos, porque fazem abstrações, análises e interpretações usando também a intuição para aquilo que captam da realidade.

     Se por um lado, desconsiderarmos a função sensorial, nós não nos relacionaremos com a vida e sim com uma abstração dela, beirando processos esquivos e paranoicos. Por outro lado, se desconsiderarmos a função intuitiva, nós acreditaremos que a realidade que captamos é de fato a realidade, quando não é bem verdade. É a clássica percepção “figura-fundo” da Psicologia da Gestalt. Todas as pessoas veem a mesma coisa? Podemos afirmar que a nossa realidade é compartilhada? O fato é que, sim, os nossos sentidos podem nos trair, assim como a nossa intuição também pode nos equivocar, então o mais sensato é permanecer conectado com a realidade a partir dos nossos estímulos sensoriais, mas sem confiar cegamente neles e sem negligenciar aquilo que trouxer a nossa intuição.

     Aprenda a não confiar cegamente no que recebe sensorialmente de qualquer situação ou pessoa. Mas sem paranoia também. Procure apenas se indagar de vez em quando o seguinte. Será que essa pessoa é exatamente assim como ela está se apresentando? Será que tudo o que ela diz é verdade? Embora todos os meus sentidos respondem que sim, tenho alguma intuição diferente sobre isso?” Confie nas situações da vida e nas pessoas com quem você se relaciona, mas ande sempre com a sua mente aberta também. Preste atenção aos sinais que você está deixando passar – ou aqueles sinais que não está querendo ver. Preste atenção ao que não está sendo mostrado e ao que não está sendo dito. Não ignore nenhuma percepção sua. O que a sua função sensorial não captar, mais cedo ou mais tarde a sua função intuitiva te alertará de algum modo. Confie em si mesmo.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2020

Psicanálise não cura

Narciso, d'après Caravaggio. De Vik Muniz.

 

Algumas transformações internas são disparadas por atualizações pessoais necessárias que fazemos de tempos em tempos, algumas de forma involuntária, quando a partir de nossos cacos, de pedaços quebrados e restos de passado, nós podemos esculpir criações que servirão para iluminar novos caminhos.


     De tempos em tempos sentimos que algo em nós está diferente e algumas vezes não legal. Quando é algo físico percebemos com mais facilidade. Se engordarmos, crescemos ou emagrecemos demais, nós adequamos o nosso guarda roupa, por exemplo. Se já não compactuamos dos mesmos valores de um determinado grupo, seja religioso, social, de trabalho, de amizades ou até mesmo familiar, nós damos uma peneirada; filtramos um pouco aqui, vamos selecionando ali e assim naturalmente vamos nos distanciando e aderindo a novos grupos mais similares ao nosso jeito de pensar e viver. Até aqui tudo bem. Não digo que seja fácil fazer isso, mas é bem menos trabalhoso identificar essa necessidade de uma adequação que resulte em mudanças externas. E mudanças possíveis ainda. O problema maior é quando somos “convidados” a criar transformações internas. Aqui complica um pouco. É tarefa de análise.

     É quando nos deparamos com falas e perguntas como as seguintes: “Por que eu amo assim?”; “Por que eu me atraio por esse tipo de coisa?”; “Por que eu sempre faço isso?”; “Por que vira e mexe me pego nesse tipo de situação?”; “Por que não me sinto bem comigo mesmo?”; “Por que eu sou assim, se eu não gosto de ser assim?”; “Por que tenho a impressão de que a minha vida é uma eterna reprise, como se estivesse num looping onde nunca saio do lugar?”. “Eu não quero e não aguento mais isso, eu preciso mudar”. Essas falas são perfeitas para iniciar um processo analítico. Só que aqui entra o x da questão e a resposta é clara: você nunca vai mudar, porque não tem como mudar assim.

     Calma. Antes de você levantar todas as pedras para atirar em mim, me deixe explicar onde quero chegar e a que me refiro. A mudança que a maioria de nós busca quando se depara com perguntas dessa natureza, que vão literalmente na raiz da nossa criação, é uma mudança no sentido de deixar de ser o que se é. Grava isso. Buscamos nos tornar outra coisa em essência. Mas isso é impossível, porque a estrutura psíquica é o que é e não dá para levar tudo abaixo e provocar uma mudança a partir do zero absoluto. Teríamos que morrer e nascer de novo para isso acontecer. Eu sei que é horrível ouvir isso, principalmente para quem sofre, mas o convite que proponho aqui hoje a você é uma reflexão pessoal, porque o objetivo da psicanálise é justamente este, fazer você ser capaz de se sentir bem com a sua própria estrutura. A psicanálise não muda nada em essência, porque já está dado. A psicanálise também não promove cura. Mas então o que a psicanálise faz?

     Uma análise tem a pretensão de fazer você olhar para si mesmo; enxergar a sua questão; falar, pensar e refletir sobre isso, a tal ponto que você encontre meios de coexistir de maneira pacífica com a sua questão, elaborando também novas atualizações estruturais a partir da sua questão em si. Mesmo os típicos neuróticos histéricos, por exemplo, aqueles que convergem suas questões no corpo, o que chamamos hoje de somatização, a psicanálise só poderia remir os sintomas. Isso, por si só, seria uma cura? Essa pessoa mudou a sua estrutura psíquica neurótica histérica e nunca mais ela terá processos de somatização? Os que defendem que a psicanálise cura alegam um “controle” da questão. Controle não é cura. Cura é livrar-se da doença. E justamente por isso não dizemos que diabetes, HIV, hipertensão têm cura, pois os tratamentos eficazes promovem um controle. Assim, psicanálise trata da dor, porém não a cura.

     É interessante também assistir que a neurociência já nos mostrou que, ao contrário do que imaginávamos, não nascemos com uma quantidade definida de neurônios que apenas perderemos aos poucos ao longo da vida. Em qualquer fase da nossa vida há processos de neurogênese ocorrendo e a partir de hábitos e estilos de vida persistentes podemos alterar estruturas cerebrais por causa da neuroplasticidade. A epigenética também já nos mostrou que hábitos e estilos de vida impactam diretamente na expressão ou no silenciamento de determinadas marcações genéticas. Dado isso, podemos afirmar que não somos reféns da genética em absoluto, existe algum ponto onde podemos nos trabalhar. Mas teria como hoje, pela genética, uma pessoa se tornar loura se nasceu com o cabelo castanho? Mudar a cor dos olhos talvez? A sua altura? A resposta é não. O que as pessoas fazem é tingir os cabelos, usar lentes e pôr saltos.

     Quando não estamos contentes com aquilo que somos ou o que nos tornamos, ou quando não estamos satisfeitos com as nossas respostas às circunstâncias é um bom momento para iniciar uma análise. Mas precisamos entender uma coisa básica: não dá para ter tudo aquilo que queremos. Eu sei que seria mais fácil eu vir aqui e dizer que psicanálise cura e que ela vai extinguir o sofrimento humano, mas isso é impossível, porque o sofrimento é uma condição do ser humano. É inerente. É fundante de cada indivíduo. O que a psicanálise faz, ou deveria fazer, é criar um espaço de reflexão que possibilite a atualização de formas saudáveis de trabalhar a angústia que todos possuímos. Vamos fazer uma analogia com a obra de um prédio. Imagine que você tem um prédio num determinado terreno e quer construir um novo no mesmo lugar do antigo. Psiquicamente falando, é impossível você implodir esse prédio e construir um novo a partir do chão. O que você pode, e até deve fazer se não está satisfeito, é elaborar o seu novo prédio a partir da estrutura antiga – o que já não é pouco. Você pode reforçar as bases e aumentar os andares. Pinta-lo com cores novas. Abrir mais salas e alterar o layout. Mudar o entorno desse terreno. Com ideias mil, você pode literalmente criar um “novo” prédio. Só que o antigo jamais deixou de existir ali, pois ele compõe essa e cada nova atualização dessa estrutura.

     Não gostaria que interpretasse esse texto como pessimista ou provocativo, o meu objetivo não é esse. O que eu quero dizer é que não há nada de errado com o que somos. Nascemos e fomos criados de uma forma e isso é o que temos de base para viver essa experiência aqui na vida. Eu sei que algumas experiências nos machucam muito, mas algumas coisas em nós poderemos mudar e outras não. Aquelas coisas que não poderemos mudar, que tal transformarmos? E se analisássemos cada pedaço de caco quebrado, aqueles traumas passados, restos de nós mesmos que ficaram pelo caminho e que deixaram cicatrizes e a partir disso – e também com isso – nós bordássemos uma existência diferente? Pintássemos uma nova obra? Que tal criar algo novo a partir daquilo que já nos foi dado pela vida? Não pense que estou diminuindo ou desmerecendo o nosso sofrimento e sei bem que cada um sabe onde a sua ferida dói, mas precisamos entender que a vida é feita de embates e o sofrimento e a angústia fazem parte desse pacote. O que podemos fazer é nos dar uma chance. Apenas uma chance. Uma chance de encontrarmos formas diferentes de bordar os pedaços rasgados da nossa história e a partir dessa imagem atualizada continuar bordando novas formas que nos agradem mais. Isso não vai mudar aquilo que aconteceu um dia, mas isso muda a importância que damos ao passado, com a certeza de que podemos hoje criar um futuro diferente a partir disso. A tal ponto que um dia olharemos para trás com orgulho em dizer que a nossa história tinha tudo para nos limitar, mas foi justamente a partir do sofrimento que passamos que a nossa vida se expandiu com ainda mais força!

Que tal iniciar uma análise?


Feliz Natal

Apesar deste ano conturbado, que você tenha momentos de tranquilidade. Fique em paz.

domingo, 20 de dezembro de 2020

UMA CARTA PSICANALÍTICA


     Como já comentei aqui, eu sou aspirante em psicanálise e a psicanalista me pediu para fazer uma carta a mim mesmo quando criança. Achei a tarefa interessante, eu já a conhecia, mas até então nunca tinha feito. Notei alguns movimentos durante essa semana, antes de sentar e escrever a carta. Houve resistência. “Amanhã eu faço”. “Sábado eu faço”. Acabou ficando para hoje, domingo. Esse adiamento me fez refletir sobre uma resistência de olhar e dirigir a minha fala a mim mesmo. Veja que aqui no blog é comum eu falar sobre mim, mas me dirigindo ao leitor, no entanto o objetivo da carta é falar sobre mim, me dirigindo a mim mesmo. E o destinatário é uma versão muito relevante: a criança. Alguns trechos escrevi chorando, pois me recordei de coisas que imaginava ter esquecido. Estou me sentindo muito bem. Como se tivesse reafirmado pactos antigos. 

     Gostaria de dividir essa carta com vocês. E também convida-los a fazer o mesmo. Se você escrevesse uma carta a si mesmo quando criança, qual período escolheria e o que você se falaria? 

 

Pedreira, 20 de dezembro de 2020.

 

Querido, Jonas

 

     Você deve ter hoje sete anos né. Eu sou você, daqui alguns anos... Observo atentamente como você vem se desenvolvendo e me orgulho muito disso. É muito bonita essa sua vontade de mudar o mundo, você quer trazer algo que ilumine toda a humanidade. Como você é apaixonado pelo conhecimento (você sabe que herdou isso de nosso pai, não é?), você está sempre rodeado de livros, de revistas e percebo que gosta muito de conversar com as pessoas ao seu redor sobre a vida, você aprende muito com elas né. Você é muito sensível, Jonas. Possui uma sensibilidade à flor da pele! Sempre ouvindo canções durante as madrugadas nesse rádio velho. Noites em que o sono não vem. Noites em silêncio em que você se encontra consigo mesmo. Você sobe no telhado para assistir a cidade dormir; é uma vista realmente incrível aí do alto, não é mesmo? Eu sei que isso te faz sentir livre, você gosta de sentir o vento soprando seu rosto, posso entender bem essa sensação indescritível de liberdade. Você tem um coração bom, puro e tem uma vontade de sempre ser verdadeiro com você mesmo. Não perca isso.

      Sei também que você se sente sufocado, silenciado, sente que existe um lado melhor de você, uma parte imaginativa, sensível e extremamente criativa, mas que deve ser contida. Não há espaço para emoções. Não há espaço para sentimentalismo barato. Entende que deve ser forte, resiliente e resistente, para sobreviver na atual circunstância em que vive. Você reprime as suas emoções e tem levantado barreiras. Está montando um arsenal de lógica, raciocínio, onde tudo, inclusive você, deve ser movido apenas pela racionalidade. Você não quer sentir. Entende que não pode. Entende que é melhor assim. Está aprendendo a atirar primeiro. Vai machucar antes de ser machucado...

      Jonas, eu sei de seu sofrimento. Acompanho os seus pensamentos. Gostaria que confiasse em mim agora. As nossas emoções são nossas amigas. Acolha todas elas, até mesmo aquelas que você se envergonha de sentir, como a raiva, o ódio e o medo, pois essas também nos ajudam. Essas emoções também têm um propósito, acredite. A raiva que você sente pode te impulsionar a perseguir os seus sonhos. E seus sonhos são lindos, não desista deles. O ódio é apenas uma faceta do amor, traga esse sentimento e exponha isso. Fale o que você sente, aprenda a não brigar. Aprenda a usar o diálogo, mesmo nesses momentos e verá que tudo se resolve conversando. O medo que tem é de ser inadequado e imperfeito. Jonas, você não precisa ser perfeito, porque a nossa “perfeição” está justamente na soma de todas as nossas partes imperfeitas. Aceite o erro. Admita seus fracassos, eles sempre vão ocorrer, mas trarão boas lições também.

      A medida que for crescendo precisará perceber que terá maturidade, conhecimento e novas ferramentas para trabalhar esse turbilhão de emoções que existe em você. Compreenda que as suas emoções às vezes ficam rebeldes e te descontrolam porque você as sufoca demais; você as trancou numa zona escura dentro de você mesmo, mas elas só querem ver a luz também. Eu sei porque você fez isso, você precisava se defender, defender-se de nosso pai. Mas acredite em mim, quando você se tornar um homem vai agradecê-lo por tudo o que ele fez. Nosso pai é um homem intenso e frágil psíquica e emocionalmente e ele se enxerga em você. Ele não tem ódio, nem raiva de você, o que ele sente é medo, porque nosso pai percebe que o seu coração é como o dele, um coração puro demais, um coração de quem não sabe falar “não”. Ele não quer que aconteça com você tudo aquilo que um dia aconteceu com ele, por isso ele tenta te preparar. Talvez um dia pessoas se aproveitaram ou passaram a perna nele e por vir de pessoas que ele jamais esperava, isso o magoou demais. Nosso pai teme se sentir traído (a mesma raiz do seu medo hoje). Ao ver que você nasceu com o “coração” dele, ele tenta te endurecer para os golpes que um dia ele sofreu e que, na cabeça dele, certamente você sofrerá também. Ele quer, a qualquer custo, que você seja a versão melhorada dele.

      Jonas, a intenção de nosso pai é nobre. Acredite. Apenas seus métodos e a sua estratégia estão muito errados. Ele pressupõe que o melhor nessa circunstância é forjá-lo na agressividade, treina-lo para resistir à pancada, aprender a suportar a dor e assim você se tornará duro e forte. Nosso pai acredita que se você for capaz de suportar a ele, ninguém mais te derrubará! Então ele está montando uma estratégia de guerra, colocando a si próprio como o seu pior inimigo. Mas devo alerta-lo que apesar da intenção de nosso pai ser positiva, a estratégia que ele está utilizando está totalmente equivocada, porque dessa forma você não sofrerá por um inimigo externo, no campo de batalha o seu pior inimigo será você mesmo, e até que entenda isso, você travará incontáveis batalhas com as suas próprias sombras. Espero que se lembre disso.

      Gostaria apenas de pedir a você mais três coisas.

      Confie no seu treinamento, pois se tornará um dia um homem extraordinário.

      Dê ao nosso pai um voto de confiança, você o ama demais, não sinta ódio por ele, pois não é ele e sim a perversão da ideia dele que está lhe causando dor. Ofereça-lhe a compreensão, a sua compaixão e perceba que toda fera no fundo também está ferida. Se você for capaz de enxergar as feridas de nosso pai, não será capaz de sentir ódio por ele, pelo contrário, sentirá ainda mais amor.

      Sobre a nossa mãe... O que falar dela, não é. Ela trabalha demais. Eu sei que você a admira muito e você sonha em ser um dia tão forte e resistente como ela é. Nossa mãe parece uma rocha, não é mesmo? Sempre firme. Sempre em frente. Servindo de alicerce para todos. Ela nunca desanima. Você não consegue entender de onde vem tanta força interior. Mas você logo perceberá que isso é uma forma de fuga também. Nossa mãe se refugia no trabalho para não ter que lidar com os conflitos emocionais que existem dentro de casa. É a forma que ela encontrou de lidar com as circunstâncias atuais. É como se ao pôr o seu dinheiro sobre a mesa, se levantasse e se retirasse dela o seu coração. “Por que ela faz isso?” (você deve estar pensando). Sinceramente, meu amigo, até hoje eu não descobri. E para ser ainda mais sincero com você, eu não acredito que haja um motivo por trás disso. É só o jeito dela de ser. Busque respeitar a sua reserva, o seu silêncio, pois ela ama todos, a sua maneira, e se não amasse, ela não suportaria nem metade do que já passou. Ela tem os seus sacrifícios. Não guarde mágoas nem ressentimentos, porque um dia você vai descobrir que todos na vida têm os seus sacrifícios pessoais. E você será sempre uma mistura dessa união: metade de nossa mãe e metade de nosso pai. Honre isso. Seja alguém ainda melhor para si e para as outras pessoas.

     Lembre-se sempre de mim. Eu estarei sempre com você. Ao longo do tempo você me dará muitos nomes: amigo imaginário, intuição, consciência, uma voz interior... Apenas me ouça: ficará tudo bem!

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

ATÉ ONDE VOCÊ É CAPAZ DE IR

     Existe um psicólogo americano chamado Howard Gardner que escreveu o livro Múltiplas Inteligências na década de 80. Nesse livro o Gardner traz a teoria de que possuímos outras inteligências além da amplamente conhecida lógico-matemática. Segundo o autor, todos nós temos todas as inteligências em diferentes níveis uma da outra mas uma acaba se sobressaindo na personalidade, no nosso comportamento. No meu caso é a inteligência intrapessoal. Essa inteligência é descrita na capacidade do indivíduo de conhecer o seu interior; seus medos, motivações, desejos etc. Isso é verdade porque eu sempre gostei de me analisar. O blog mesmo se originou não só de uma vontade de expressão, mas principalmente de autoconhecimento, porque no início muitos textos aqui curiosamente foram uma tentativa de enxergar e até de lidar com o que se passava comigo. Nesse sentido recomendo escrever às pessoas como uma prática de sublimação. É terapêutico. Me lembro que muitas vezes, tomado por emoções e sentimentos que não sabia nomear, eu sentava para escrever chorando, quando ao ler o texto finalizado concluía: “Então é isso!” É como se o texto literalmente fosse uma fotografia do meu estágio atual. Digo que esses processos de investigação interior são para mim desde sempre como mergulhos que ao longo dos anos se tornaram mais profundos, mesmo consciente de suas limitações de alcance. E mais à frente explicarei melhor sobre isso, sobre os limites de uma prática de autoanálise.

     Na adolescência foi quando esses mergulhos passaram a ir a estágios mais profundos pela primeira vez, onde à medida que descia, numa analogia com a própria prática de mergulho, digo que via as águas escurecendo e se tornarem mais frias. O que isso significa? Psiquicamente falando, à medida que aprofundamos no autoconhecimento – e somos honestos nessa prática – vamos alcançando estágios cada vez mais distantes da consciência (analogia à distância da superfície da água e da luminosidade do sol). Ao alcançarmos esses estágios de profundidade no nosso psiquismo percebemos aqueles aspectos da personalidade que foram banidos da consciência, mas nem sempre do comportamento. Sigmund Freud trouxe o conhecimento dessa instância psíquica denominada de Inconsciente. Um espaço do nosso psiquismo que está longe da consciência mas que vem à superfície através dos chistes, dos deslocamentos, dos atos falhos de linguagem, dos nossos sonhos, dos atos “sem querer querendo”. Jung vai dizer que nesse espaço psíquico se encontram nossas sombras; aspectos do indivíduo distantes da luz, opostos à persona. O termo sombra pode dar uma conotação de “negatividade”, mas não é de todo verdade, sombra apenas quer dizer distante da luz (distante do que é apresentado ao público). Essa conotação negativa se dá porque tendemos a apresentar às pessoas apenas o que é considerado bonito, o que seria o nosso “melhor”, recalcando e reprimindo aquilo que sofreria alguma censura da sociedade ou de nós mesmos.

     No primeiro mergulho em que fui mais fundo em mim mesmo, eu soube ao voltar à superfície que jamais seria o mesmo. Vi nas profundezas da minha personalidade tudo aquilo que todos nós possuímos, mas que raramente tomamos contado ou dificilmente assumiríamos, como: ódio, medo, amargura, mágoa, rancor, ciúme, orgulho, inveja, dor, raiva – vi muita raiva! Eu era muito jovem ainda, devia ter uns treze ou quatorze anos, mas quando retornei à superfície após uma crise existencial tinha plena noção que o Jonas apresentado à sociedade era apenas um personagem, uma persona como disse o Jung. Não que esse Jonas fosse de todo uma mentira, mas no mínimo era partes de uma verdade, porque eu sabia que dentre uma gama de características que eu tinha ("positivas" e “negativas") apresentava só as melhores. Isso é o que todos nós fazemos no dia a dia; nós selecionamos aquelas nossas partes luminosas para nos apresentarmos à sociedade e, conscientemente ou não, empurramos para d'baixo do tapete as outras. E segundo Freud com o retorno do recalcado esse conteúdo inevitavelmente termina voltando à superfície em algum momento, aparecendo no comportamento de alguma forma ou no corpo através de somatizações, como nas pacientes com histeria tratadas por Freud, o que foi o pontapé inicial à Psicanálise. Isso não significa também que precisamos expor nosso pior lado às pessoas, isso poderia ser inadequado e desrespeitoso, mas deveríamos encontrar maneiras aceitáveis e minimamente saudáveis de sublimar esses conteúdos, integrando-os à nossa personalidade, ao invés de relegá-los às sombras, já que eles também fazem parte de nós e cedo ou tarde precisaremos lidar com isso. 

     A princípio então eu não sabia o que fazer com esse conteúdo visto nos mergulhos. Eu só tinha medo de perder o controle de mim mesmo. Medo de enlouquecer – esse sempre foi o meu maior medo. Sempre zombaram de mim ao falarem que sou louco porque estou sempre na borda, uma espécie de menção a um sujeito com um pezinho na neurose e outro na psicose, tanto que eu mesmo sempre brinquei comigo sobre isso: “Cuidado, hein Jonas! Fica brincando... Uma hora você pula para o lado de lá e você não volta mais!” Eu até ria disso. Mas lembro também de falar aos meus amigos que minhas autoanálises, meus mergulhos internos estavam sendo tão fascinantes, mas ao mesmo tempo tão profundos e complexos que tinha um certo medo de me perder num labirinto mental e não conseguir mais retornar à superfície, perdendo a sanidade. Esse é um motivo que sempre me fez ter muito cuidado ao não usar substâncias psicoativas, principalmente a maconha. Não critico o uso medicinal da substância – devidamente receitada por médico e controlada –, me refiro a um uso recreativo, porque a maconha é uma droga com capacidade – principalmente em quem tem predisposição – a provocar surto psicótico. Como existe em mim então um certo prazer em flertar com estágios alterados de consciência, tendo alcoolismo já na genética, convivido com um pai alcoolista e eu ter essa personalidade que sempre brinquei como sendo meio limítrofe, me fez sempre ter muito cuidado com potenciais gatilhos para psicose. Mesmo ayahuasca por exemplo que sempre tive vontade de tomar, nunca tive coragem para fazê-lo. Aprendi a alcançar o mesmo prazer através da meditação com o despertar da Kundalini!

     Você deve estar se perguntando: “Para que serve a psicanálise então? Se eu sou capaz de me autoanalisar, porque precisaria de um psicanalista na minha análise? Eu não posso muito bem fazer isso sozinho?”. Pode sim. Mas só até certo ponto também. Qual ponto? O seu ponto cego! Assim como aprendemos lá nas aulas práticas de direção de veículos automotores, o ponto cego é uma falha de visão, já que há uma área que não pode ser observada de modo direto pelo condutor. Num outro exemplo, imagine-se revisando um texto do qual você mesmo escreveu; tenha certeza que alguns erros gramaticais escapariam da sua revisão. Erros crassos que, se esse texto não fosse de sua autoria, você captaria rapidamente, no entanto, como o texto em questão é seu e seu olhar pode estar enviesado, viciado, você não consegue enxerga-los. Psiquicamente falando, isso significa que existem aspectos da nossa personalidade que escapam a uma análise feita por nós mesmos e isso ocorre por “n” razões que vão desde mecanismos de defesa nos protegendo de acessar conteúdos que nos machucaram um dia, até conteúdos recalcados por conta de um superego demasiadamente repressivo ou moralista. Ou seja, para não nos sentirmos rejeitados por uma inadequação ou nos sentirmos novamente machucados pelo trauma que gerou um recalque, vamos esconder de nós mesmos esse conteúdo o máximo que pudermos, a qualquer custo!

     Quando então em frente a um psicanalista que serve como um espelho que devolve as questões do analisando, através de transferências e contratransferências, esse campo de visão se amplia. Sem falar que o psicanalista é um profissional que passou obrigatoriamente pelo tripé analítico: 1 – estudar a psicanálise de Freud e seus contemporâneos; 2 – passar ele próprio por análise; e 3 – ser supervisionado por um psicanalista mais experiente. O primeiro inconsciente que um psicanalista deve ter contato é o seu próprio, para na análise ele poder diferenciar o que é seu e o que é do analisando. Existe uma máxima, acredito que seja do Lacan, que diz que o analista só vai com um analisando até onde ele mesmo deu conta de ir na sua própria análise. Assim, recomendo para quem busca realizar mergulhos mais profundos que o faça preferencialmente com um profissional, seja um psicólogo com abordagem analítica ou um psicanalista, pois como disse há momentos nesses mergulhos bem difíceis, até dolorosos e seria interessante ser auxiliado por um profissional especializado.

Então por que deu esse título? A psicanálise não é para todos?

     Vou colocar aqui uma opinião pessoal. Óbvio que existem pessoas que podem e que vão pensar diferente sobre isso, mas enxergo assim hoje em dia. Para mim uma análise não é para quem quer, é para quem pode. Não num sentido financeiro, de poder pagar por uma, mas num sentido de capacidade emocional e psicológica, de estar preparado, de ser capaz de dar conta e suportar um processo analítico. Tem pessoas que vivem alheias a si mesmas, às suas reais motivações, aos seus desejos, elas se conhecem pouco e não fazem questão de se aprofundar em autoconhecimento, mas isso para elas também não é uma questão. Elas vivem relativamente bem dentro das limitações de conhecimento que têm de si mesmas. Os seus relacionamentos estão satisfatórios. Não há nenhum tipo de prejuízo às pessoas com quem convivem. Elas enxergam ganhos em continuar nessa conduta, mesmo que secundários, e elas estão satisfeitas com eles. Ok. E está tudo bem. Por qual motivo então essas pessoas deveriam fazer análise? Alguém poderia responder que a análise poderia melhorar a vida dessas pessoas trazendo maior conhecimento de suas potencialidades. Será mesmo? Até onde isso é uma verdade ou só um julgamento de valor, um julgamento moral? Quem somos nós para julgar o que é ou não melhor à vida de outra pessoa? E quem disse que um processo analítico é sempre positivo?

     Sinceramente falando agora. Quem busca análise precisa querer ser o mais honesto possível – primeiro consigo mesmo. Essa pessoa precisa ter razoável capacidade de introspecção e estar disposta a refletir sobre muitas coisas na sua vida. Ela precisa ser capaz de experimentar conflitos internos, afetos e sentimentos intensos, e não sem dor. Um processo analítico é algo demorado, trabalhoso, custoso, demanda energia, tempo e investimento. É complexo, conflitante e certamente envolverá algum tipo de luto. Um luto de toda uma idealização na vida do sujeito: uma idealização sobre si mesmo; sobre os seus pais; sobre a sua própria vida. Precisa morrer – simbolicamente – dentro de si toda uma vida idealizada para aí sim abrir espaço para se enxergar a realidade como ela é e surgir – talvez – alguma melhoria. É preciso enxergar os pais como foram e são além dos papéis, como homens e mulheres de carne, osso e desejo. É preciso compreender que nada do que passou mudará, mas a responsabilidade do que aconteceu agora é da pessoa e ela precisará tomar uma decisão do que fazer de agora em diante. Isso implicará em responsabilidade, comprometimento e ressignificação. Apesar de não haver garantia alguma de sucesso, existe uma única certeza nesse momento: do jeito que está não dá para continuar! Quando chega nesse ponto, é o melhor momento de se iniciar uma análise. Para Freud, quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda. Análise então é para quem quer, aguenta e está preparado para lidar com a sua realidade – seja ela qual for.

domingo, 25 de outubro de 2020

EU SOU UM POLÍMATA

     Muitos não sabem mas esse blog já passou de uma década de existência e muitas vezes me perguntei: “Afinal, sobre o que é esse blog?”. Me sentia incomodado com isso às vezes, principalmente por imaginar os pensamentos e os questionamentos que as pessoas poderiam fazer em relação ao conteúdo do blog. Imaginava as indagações dos leitores desse espaço, como: “Esse blog é uma espécie de diário pessoal?; são crônicas?; ora ele escreve sobre filosofia, ora sobre psicologia, entra psicanálise no meio, então ele mistura textos com fragmentos de recursos humanos, gestão de pessoas e o mundo corporativo, qual é a sua área de especialidade?” Isso ocorre toda vez que penso em escrever sobre um tema que tenho interesse, que já estudei, que tenho relativa habilidade, mas esse texto pode se distanciar um pouco dos demais. E isso é uma bobagem!

     Certa vez estava numa sala de aula e uma professora, que também era psicóloga, ministrava uma disciplina sobre gestão de carreiras e desenvolvimento profissional. Ela nos deu várias atividades para fazermos e refletir no decorrer de suas aulas, havia muitos exercícios onde deveríamos escrever sobre os nossos interesses, conhecimentos, nossas capacidades e habilidades. Quando chegamos ao fim de suas aulas, nesse dia ela puxou conversa comigo e reservadamente me disse: “Imagino que deve ser difícil a você escolher uma única área de interesse na carreira, né? Nota-se em você multipotencialidade.” A sua intenção logicamente foi positiva, mas ela falou de forma neutra. Não fiz nenhum comentário, apenas prestei atenção e fui para casa pensando, sem saber se isso era algo positivo ou negativo a minha vida profissional ou a mim mesmo pessoalmente falando.

     Passei um tempo refletindo isso de ter “multipontecialidade”; não sabia ao certo o significado dessa palavra. Pesquisando na internet cheguei a uma outra palavra – desse mesmo universo – que na minha opinião se encaixaria até melhor ao meu perfil. Polímata. Um polímata é alguém que tem especialidade em mais de uma área de conhecimento. Isso tem tudo a ver comigo. Mas isso não teria nada a ver com dom também, pois qualquer pessoa pode – e eu diria até deve! – ser polímata. Ainda mais nos dias atuais. O mundo corporativo, por exemplo, necessita cada vez mais de profissionais 360°. Sucintamente, um profissional 360° dentro de uma organização é aquele que está atento à sua área, ao diálogo de sua área com as demais e o seu interesse visa ultrapassar as paredes da própria organização estabelecendo possíveis conexões entre o que está dentro e fora. Ou seja, seu olhar, seu interesse, suas relações, consequentemente o seu conhecimento, se expandem. O potencial desse profissional busca sempre abarcar inovação, execução e integração. Num mundo em que se fala em disrupção é muito interessante essa versatilidade. Abre espaço à criatividade.

     E que isso não se confunda em saber de tudo sem se aprofundar em nada. Não é isso. Até porque um polímata é essencialmente um especialista em mais de uma área de conhecimento. Ou seja, ele se aprofunda nos saberes. Você não precisa dominar tudo, mas eu diria que é bem interessante você definir primeiramente duas ou três áreas de conhecimento que a priori dialoguem com a sua carreira profissional, com os seus interesses pessoais e também com as suas habilidades naturais. Assim você vai aos poucos aumentando as áreas de conhecimento de interesse para campos mais distantes do seu universo habitual. E isso não tem absolutamente nada a ver exclusivamente com uma capacidade de superdotação, mas sim com vontade, curiosidade e estar aberto para isso.

     Cresci ouvindo as pessoas conversando ao meu redor falando que eu era um “crânio”. Como se eu fosse alguém com uma inteligência acima da média. Isso nunca foi verdade! E eu não estou sendo modesto. Eu sempre fui inteligente sim, mas esforçado também. Só que a minha inteligência sempre esteve dentro de parâmetros considerados normais, nunca recebi qualquer diagnóstico de superdotação. O que eu poderia afirmar, com muito gosto ainda, que sempre tive uma curiosidade acima da média. Uma boa disposição para aprender coisas novas. Sempre gostei de pesquisar coisas interessantes, de ler assuntos dos mais diversos, de fazer associações entre os conhecimentos, sempre gostei de conversar com as pessoas – leia-se aqui entrevista-las – e sempre tive uma cabeça muito aberta e uma vontade voraz de ler o mundo. Pela ótica da ciência; pela ótica da política; pela ótica do regime; pela ótica da religião; da espiritualidade; do misticismo etc. Eu sou curioso! Quando eu era criança ia quase todos os dias à biblioteca municipal para fazer os trabalhos da escola. Nessa ida à biblioteca aprendia sobre o tema do trabalho em questão; passava pela prateleira dos gibis; em seguida ia ao corredor dos livros de astrologia, numerologia, simbologia; lia as revistas sobre dieta, nutrição, exercícios físicos, saúde e bem estar etc. Nunca pensei: “o que me agrega ou o que ganho aprendendo sobre isso?” Meu objetivo era saciar a sede de conhecimento.

     Sou graduado em Administração com ênfase em Comércio Exterior. Fiz MBA em RH com ênfase em Departamento Pessoal. Iniciei um outro MBA em Gestão de Pessoas com foco em Coaching e Lideranças. Fiz uma pós-graduação em Psicologia Organizacional. Atualmente sou aspirante em Psicanálise. Veja que essas são áreas que abrangem negócios, psique e comportamento. E garanto que no meu dia a dia faço a intersecção desses conhecimentos acima com outros tidos como pseudociência como a astrologia por exemplo. Eu me defino como um solucionador de problemas. Penso que todos os dias os problemas batem a nossa porta e eles demandam uma resolução. Todas as vezes em que estou diante de um problema 'x', eu faço uma vasta varredura na minha mente em busca de quais arcabouços teóricos, quais conhecimentos, quais técnicas possuo que poderão me auxiliar na resolução desse problema em questão. Vou dar um exemplo hipotético.

 

Ex.: Um gerente me pede uma ajuda do que poderíamos fazer para solucionar uma situação em seu setor. Há um colaborador muito impulsivo. Ele é muito objetivo, possui um jeito de falar direto e os colegas se melindram. Sempre rebate o que falam com ele. Esse seu jeito assertivo demais, agressivo e um tanto mandão está desestabilizando a equipe. O gerente já tentou dar um feedback ao colaborador mas ele bateu de frente. Apesar do seu comportamento inadequado, esse colaborador costuma atingir bons resultados, então o gerente me pede para eu dar ao colaborador um feedback sobre seu comportamento. 

 

     Peço a ele para enviar esse colaborador à minha sala. Após ouvir a breve fala do gerente já pesquei uma série de características comportamentais (observadas pelo gerente, que precisarei verificar se confirmam ou não com a realidade) e formei uma estratégia na minha mente. Para executar esse feedback então usarei conhecimentos da psicologia analítica do Jung sobre arquétipo (e aqui entra astrologia, porque é composta deles), usarei conceitos da administração, de gestão de pessoas, da psicologia e da psicanálise. Segundo a psicologia analítica do Jung, arquétipos são ideias primordiais, modelos ideais que estão formados em nossa mente há gerações e inconscientemente os vivenciamos. A partir desse relato do gerente (note que grifei palavras) o colaborador vivencia – mesmo sem querer ou perceber! – arquétipos típicos como o do guerreiro; do deus Ares; do signo de áries. E aqui vale ressaltar que o colaborador está apenas exibindo o lado sombra do arquétipo do signo de áries (e não raro, às vezes esse colaborador “coincidentemente” é do signo de áries). Todo arquétipo tem um lado luz e um lado sombra. Utilizando os conhecimentos de arquétipo do Jung e pegando a astrologia como base arquetípica, eu precisarei de duas coisas para trabalhar esse feedback: o aspecto luz do próprio signo de áries e o seu oposto complementar zodiacal – libra.

     O que isso significa? Se eu sei a priori que ele possivelmente vivencia o lado sombra do signo de áries sendo impulsivo e um tanto agressivo, preciso usar libra que diz de diplomacia, de parcimônia, de justiça, da ideia de um outro. Ele precisa lembrar que existe um outro, enxergar o gerente, enxergar a equipe, ele – por mais energia que tenha – não concretiza nada sozinho! Ele está muito no eu, especificamente no Id. Libra lembra de ser receptivo, de ser mais passivo. Não adianta eu me posicionar como a autoridade e fazer frente porque ele vai rebater, seu temperamento é colérico, seu espírito está bélico. Já ouviu aquela frase: “dois bicudos não se beijam”? Eu não posso entrar no seu jogo, ele quem tem que entrar no meu! Se eu for à força, no fim terei de usar a punição disciplinar para coloca-lo em seu devido lugar e assim ele não entenderá o objetivo do feedback, ele acatará por medo da punição e não por uma conscientização que é o esperado, haja vista que o próprio gerente diz que ele dá bons resultados. Então vale a pena o investimento num bom feedback. E o bom feedback não está no que é falado, mas sim como é falado. Se um dos lados não entra no conflito, não há como duelar, então por mais que ele se exceda e aumente o tom de voz comigo, eu devo me manter equilibrado, sensato, mantendo o meu tom de voz cada vez mais baixo... Sem perceber ele espelhará o meu comportamento. Ele baixará o seu tom de voz e não conseguirá brigar sozinho, precisará conversar comigo e assim entraremos no campo do diálogo.

     Agora que ele baixou as suas armas, ele está apto a me ouvir. Só que não posso ser direto e falar objetivamente o que quero. Aqui entram entendimentos da psicologia. Quando vamos dar um feedback para uma pessoa, se somos muito diretos e falamos objetivamente onde uma pessoa está errando, isso é recebido como uma agressão emocional. Quem nunca ouviu aquela expressão popular: “fulano foi direto e reto, soou até agressivo"? Porque de fato é assim que o ser humano sente. É um golpe emocional! E como tal é instintivo a pessoa levar para o lado pessoal e buscar se proteger. Aí de duas uma: para algumas pessoas a melhor defesa é o ataque, então a pessoa vai contra-atacar e pode gerar uma discussão desnecessária; enquanto outras poderão se melindrar e se blindar emocionalmente, então elas se fecham, a partir daí você pode falar o quanto quiser, a pessoa não dará mais abertura, porque ela se fechou emocionalmente e tudo o que for dito entrará por um ouvido e sairá pelo outro. Eu sei que muitas pessoas lendo isso podem pensar o seguinte: “Ah! Mas isso é uma frescura! Se a pessoa se doer problema dela!” Bem, problema dela não! Nós estamos num ambiente organizacional, então o problema é da empresa! Ela pode estar com frescura ou não, mas se a minha comunicação pode afetar o seu resultado é óbvio que o mais sensato é eu pensar. Isso não é uma guerra de egos. Utilizamos a melhor estratégia para extrair das pessoas o seu melhor resultado.

     E lembra quando falei de utilizar o aspecto luz do arquétipo do signo de áries? No aspecto luz, esse arquétipo traz as seguintes características: iniciativa, bravura, coragem, energia, pioneirismo, honestidade, liderança, ambição, firmeza, lealdade etc. São ótimas características! Se ele já vivencia o lado sombra do arquétipo do guerreiro, é possível facilmente serem desenvolvidas as características para ele vivenciar o aspecto luz desse arquétipo. E no fim pouco importa se ele é ou não do signo de áries, ele está sob a égide desse arquétipo. Ele vivencia, mesmo sem saber, essas características. O que ele pode fazer conscientemente é querer trabalha-las. E eu enquanto RH buscar desenvolvê-las pois poderiam agregar muito ao time. Vale ressaltar aqui que embora muitas pessoas, por desconhecimento, desqualifiquem o Jung e a psicologia analítica e o coloquem numa categoria mística ou esotérica, seus estudos sobre arquétipos são muitíssimo interessantes. Veja a quantidade de conhecimentos teóricos e técnicos que posso me basear só para executar um feedback mais assertivo a um colaborador, visando a melhor estratégia, a mais eficiente e eficaz. Lidar com ser humano não é nada fácil, mas é muito gratificante a nível de troca de experiências. 

     Esse blog então não tem um objetivo, ele tem vários, são múltiplos e não importa sobre o que eu fale ou como eu coloque, sempre quero lembrar você que podemos mais! Somos dotados de uma capacidade neuroplástica. Nosso cérebro está constantemente se transformando a partir dos nossos hábitos. Estamos sempre aprendendo e nos adaptando. Se você observar um bebê, ele é como um elástico, é potencialidade pura, um bebê não tem consciência se conseguirá andar ou falar, mas ele olha adiante com curiosidade e vontade e segue tentando sem se importar com o que estão pensando, até que um dia ele simplesmente consegue! Nessa fase da nossa vida acreditávamos mais, tentávamos mais, consequentemente conseguíamos muito mais. Quero lembrar você, assim como busco me lembrar todos os dias, que somos como elásticos ao nascer e nosso objetivo aqui nessa vida é nos esticar ao máximo descobrindo sempre novos talentos, novas capacidades, novas habilidades. Todos temos multipotencialidade! Não crie muros na sua mente. Crie pontes!