domingo, 11 de julho de 2021

CURA DA CRIANÇA INTERIOR FERIDA


 

     Quando colocamos um objeto contra luz vemos o aparecimento da sombra. Essa sombra não existiria sem o objeto. E se a sombra não existisse, isso significa que também não haveria uma luz e consequentemente não haveria face iluminada. O que pretendo dizer é que a sombra também é necessária ao que aparece sob à luz.

      Entender isso é de extrema importância para nos aceitarmos como somos na totalidade. E quando digo na totalidade me refiro a compreendermos e aceitarmos que não somos, como ninguém é, uma única coisa. Sim, temos virtudes. Mas também defeitos. Sim, somos pessoas boas com sentimentos e ações nobres. Mas também pessoas capazes de atitudes reprováveis e sentimentos ruins. E está tudo bem. Não digo isso para sairmos ofendendo ou machucando as pessoas ao nosso redor ou a nós mesmos agindo sem controle, mas compreendendo que somos animais em evolução, principalmente de consciência.

      Todos nós somos animais. A única coisa que nos diferencia dos outros [animais] é que temos maior consciência. Racionalidade. Mas também poder de escolha. Nós possuímos emoções, sentimentos e instintos. Temos raiva. Ódio. Ciúme. Inveja. Pensamentos negativos... Embora pouco admitidos. “Inveja, eu?”. “Ciúme?”. “Não sinto ódio de ninguém”. Quem de nós nunca proferiu falas assim? Só que está mentindo. Ou talvez ainda não tenha uma maior consciência de si mesmo.

      Eu sei que você deve estar se perguntando o que ganharíamos admitindo coisas assim, e a resposta é: algum domínio. O primeiro passo para dominarmos minimamente uma situação é admitir nosso desconhecimento e assim podermos alcançar uma maior consciência. Foi desta forma que Sigmund Freud expôs à humanidade a sua terceira ferida narcísica com a psicanálise, ao nos revelar que somos muito mais do que a consciência que temos de nós próprios!

      Jung trouxe o conceito de “sombra” logo em seguida. Sombras são conteúdos que estão no nosso inconsciente, distantes do que está sendo revelado na superfície através da persona. E segundo a psicologia analítica de Jung devemos buscar integrar esses conteúdos sombrios a nossa personalidade para obtermos uma melhor saúde psíquica.

      Vou dar um exemplo. O meu próprio exemplo, pois acho a forma mais digna e fidedigna de retratar um assunto. Desde que meu pai faleceu quando eu tinha dezoito anos assumi o papel de homem da casa. Rapidamente peguei o leme e me tornei o cabeça da família, mesmo sendo o filho mais novo. Me sacrifiquei muitas vezes por todos ao colocar meus interesses em segundo, terceiro plano, para auxilia-los. Muitas vezes discutia com o meu irmão pedindo a ele mais apoio e ele sempre dizia a mesma coisa: “VOCÊ quem quer bancar o super-herói”. Eu me irritava e ficava chateado quando ele dizia isso, porque – no fundo – ele falava a verdade! Mas eu não sabia disso... Essa era uma verdade que eu não podia aceitar na época, obviamente. Eu relegava isso às sombras e tentava provar a ele o quanto eu seria responsável por nós dois!

      Quem acompanha o blog sabe que desde criança aprendi a me virar sozinho. Só que aí existe uma ferida, porque eu queria mais apoio. Compreensão. Eu esperava que os meus pais fossem mais... “pais”. Parceiros. Mas amadureci muito rápido. Eu não esperava ter sempre que fazer os meus curativos. Preparar a minha própria comida. Eu tive que aprender a ser autossuficiente. Entendi, de alguma forma, que o meio exigia isso. Era necessário. Cheguei a acreditar que seria melhor até. Seria mais amado. Mais respeitado. Sofreria menos. Vesti o personagem daquele que se viraria sozinho e não aceitei a ajuda de ninguém. Pelo contrário, seria eu quem passaria a ajudar!

      Mas dentro de mim existia uma criança esperando apoio. A verdade é que dentro de todos nós existe uma criança negligenciada, quase sempre ferida de alguma forma. Qual foi a minha ferida? A minha criança precisava de proteção. Compreensão. Estabilidade. Apoio. Mas por “n” razões não teve. Ou talvez eu li assim. Mas ao crescer o que me tornei? Um salvador. Aquele cara leal, ponta firme e disposto a ajudar a todos. Agora vamos lá, não vai ser difícil de adivinhar: Quem eu estou no fundo tentando salvar? A criança que ficou lá atrás! Salvar a mim mesmo.

      Quando o meu irmão dizia lá quando eu tinha dezoito anos: “VOCÊ quem quer bancar o super-herói”, ele estava coberto de razão. Mas por que isso me irritava? Me irritava porque era verdade, mas eu não podia aceitar naquele momento isso, porque eu nem sequer tinha consciência desse mecanismo. Um mecanismo que se reproduzia e ainda se reproduz inconscientemente em todas as esferas da minha vida. No trabalho. Nas amizades. Na família. Relacionamentos afetivos... Estou sempre me colocando na posição de salvador, assumindo mais responsabilidades do que deveria, até me sobrecarregar com isso, me ressentir e assim me voltar contra as pessoas que um dia ofereci ajuda! Um típico caso de relação dramática descrito na teoria do Triangulo do Drama de Karpman.

      Ok. Mas o que isso tem a ver com a sombra? E com a integrar esse conteúdo à personalidade? Vamos lá. Para me mostrar sempre como alguém forte, produtivo, autossuficiente e capaz de ajudar os outros, eu precisei em algum momento ocultar (inconscientemente) meu medo de me mostrar frágil. Meu medo de depender das pessoas. Minha insegurança por nem sempre saber o caminho. O medo de expor uma vulnerabilidade à toa e ser deixado depois para me virar sozinho (como quando eu era criança). Ou o que seria ainda pior: aceitar ajuda e amanhã a pessoa usar isso como moeda de troca e me pedir algo de volta. Eu não me sinto seguro na mão das pessoas! Sou controlador.

      Isso tudo o que acabei de revelar era sombra. Inconsciente. Na superfície aparecia apenas o “super-herói” ajudando a todos para no fundo "se ajudar por tabela". Recebendo ganhos secundários por status de “filho responsável”. “Menino de ouro”. “Aluno exemplar”. “Funcionário que ajuda a todos”... Fachada. Não que eu não quisesse de fato ajudar as pessoas, mas se eu for franco e honesto, estou buscando primeiramente com isso ajudar a mim. É confortável, e muito útil a mim, o papel de salvador porque há ganhos secundários evidentes. Isso significa que eu deveria parar de ajudar os outros? Não. Mas isso significa que eu preciso estar consciente dessa dinâmica e como propõe a psicanálise, investigar a causa desse comportamento e encontrar a sua origem. E ao invés de sair mundo à fora buscando vítimas para salvar, alimentando assim relações viciosas, pois essa “ajuda” às vezes é um desserviço à própria pessoa, preciso acolher os meus medos, admitir as minhas inseguranças e vulnerabilidades, e aprender a aceitar e a pedir ajuda também.

      Quando passei a fazer análise ganhei maior consciência das minhas sombras. Não para muda-las, mas para integra-las. Acolhe-las a minha personalidade. Isso faz parte de quem eu sou. Não culpo os meus pais, porque tenho certeza que eles fizeram o melhor que puderam dentro das circunstâncias da época. Sou grato a eles e os amo. Mas estou aqui hoje, vivo e forte. E agora cabe a mim trabalhar as minhas questões. Hoje sou adulto. Tenho mais ferramentas para elaborar os dramas passados pela criança. E entendo que tudo o que passei, mesmo que na hora tenha sido difícil, me fez forte também. Sempre podemos extrair algo de bom de qualquer experiência. A questão é se estamos abertos e dispostos a fazer isso. Como adultos precisamos nos apropriar de nossa história, lidar com os nossos traumas e elaborar isso para que resulte em algo bom. As feridas devem trazer algo de positivo para nós. Nem que seja uma lição!

      Jung tem uma frase que diz assim: “Até você se tornar consciente, o inconsciente irá dirigir sua vida e você vai chamá-lo de destino”.

     Gostaria que soubesse que o meu objetivo em contar minhas histórias aqui no blog não é para me expor à toa. É para mostrar que somos capazes de melhorar, e o primeiro passo é querer. Busque ajuda profissional.


sábado, 3 de julho de 2021

Desperte! Antes que a vida te faça acordar.

 


      De todas as virtudes que possuo em mim, na minha personalidade, se me perguntassem qual, ao meu ver, seria aquela mais forte, a mais intensa, eu responderia a gratidão. Eu sou muito grato à vida por tudo o que já me aconteceu e ainda acontece. E isso é tão forte em mim que posso afirmar que a gratidão alicerça a minha vida em todos os setores. A fé que tenho na vida, nas pessoas, no meu dia a dia, no meu trabalho, em tudo aquilo que brota, em tudo aquilo que coloco as minhas mãos é tão essencial para mim como respirar. Faço tudo com fé e esperança, sempre.

      Eu poderia dizer que, desde de sempre, a fé é o que me alimenta! A fé é o sentimento de esperança. De confiança. De total entrega. E eu tenho tanta fé que acredito sinceramente que essa fé é o que me proporciona as condições necessárias para ter gratidão, porque é como se eu me sentisse pleno. Satisfeito. Em paz. Eu não consigo imaginar o que seria da minha vida sem ter fé. Sem acreditar que existe algo além daqui. Para mim somos muito mais do que matéria. O aspecto material da vida é importante, mas o lado espiritual da nossa existência é essencial.

      Vou dividir com vocês uma história que acompanhei e me marcou bastante. Há muitos anos, num dos meus primeiros empregos, eu trabalhava numa empresa e a minha chefe era uma mulher muito competente, decidida e forte. Eu via aquela mulher como um exemplo de profissional, eu a admirava muito, até como pessoa.

      Em todos os locais em que trabalhei facilmente me tornei o braço direito da gerência ou da diretoria. E não raro, um confidente. Nesse emprego, era comum essa minha chefe passar pela minha sala e fazer um leve sinal com a cabeça discretamente me convidando. “Vamos dar uma volta...” - dizia ela toda vez, enquanto caminhávamos pelos corredores ao local onde a assisti inúmeras vezes desabafar.

      Com o passar do tempo, nossa confiança só aumentava, mas eu a assistia murchar aos poucos... Pressentia que algo estava acontecendo com ela, mas pressentia também que seriam processos íntimos e que ela estaria os maturando ainda. Então, certo dia numa dessas nossas conversas, me disse ela o seguinte: “Sou jovem. Bonita. Tenho dinheiro. Sou bem sucedida profissionalmente. Casada, com dois filhos lindos. Eu tenho mais do que a sociedade disse que uma mulher na minha idade precisaria atingir na vida. Me diz: por que eu não sou feliz?!”. Aquilo ecoou.

      Demorei alguns segundos para processar o que acabara de ouvir, enquanto a assistia chorar copiosamente com olhos esvaziados de qualquer brilho. “Talvez o que você precise seja ouvir mais a si mesma e se importar menos com o lado externo.” - disse isso a ela. Aconselhei-a também a buscar ajuda profissional. Ela procurou um médico e começou a fazer terapia. E paralelo a isso, ela buscou pela espiritualidade. Começou a fazer vários cursos de autodesenvolvimento. Passou a investir mais em autoconhecimento também. Pouco a pouco, assisti uma mulher descobrir novos valores, como humildade, generosidade, fé e gratidão. E isso fez muito bem a ela!

      Hoje quando olho para trás e penso sobre essa história, me recordo de alguém que optou pela espiritualidade e se agarrou na fé, quando percebeu que os seus bens materiais não bastaram. Alguém que focou em autoconhecimento e através de cursos e de psicoterapia descobriu novos valores e encontrou mais saúde e paz de espírito. Histórias como essa, eu poderia citar várias que presenciei ao longo da minha vida. Histórias que serviram para reforçar tudo aquilo que acredito, busco e prego; de que nós somos muito mais do que somos capazes de ver ou ter. A vida em si não tem sentido algum. Somos nós que somos capazes de conferir algum sentido a nossa existência. E isso passa por aquilo que sentimos e que fazemos os outros sentirem. Dessa forma, os nossos relacionamentos ganham um papel central na nossa vida.

      Todos os dias as pessoas passam pela nossa vida, pelo nosso caminho. Seja no trabalho. Na faculdade. Na sociedade. Mesmo dentro de casa. O que você está levando? Que imagem você deixa nas pessoas? Nesses breves encontros dividimos um pouco de nós e recebemos um pouco dos outros. Procuro hoje estar mais consciente nas minhas relações. Nas minhas ações. Gosto de seguir com fé. Ser grato. Mas aprendi a pensar também que devemos nos perguntar sempre qual seria a nossa colaboração nas nossas relações. Nos atentar ao que estaríamos semeando nos relacionamentos. Primeiro, porque nós somos corresponsáveis pelos acontecimentos. Segundo, porque teremos que colher aquilo que plantamos em algum momento.

      Busque por autoconhecimento. Apegue-se mais à espiritualidade independente de religião; muitas pessoas são espiritualizadas e não têm qualquer religião. Adquira valores melhores. Aos poucos você se sentirá mais grato. E se perceberá mais consciente também.

domingo, 6 de junho de 2021

O PERDÃO E A PSICANÁLISE

     Hoje vim dividir algumas primeiras impressões sobre meu percurso na formação em psicanálise e as mudanças que já observei em mim nesse caminhar. Como vocês sabem, a psicanálise exige que o aspirante faça análise. O primeiro inconsciente que um psicanalista deve ter contato é o próprio. Esse é um ponto muito importante na formação, porque não raro projetamos nossos conteúdos recalcados no outro e no processo analítico o analista deve tomar cuidado com isso. O paciente quem deve fazer transferência, ou seja, transferir conteúdos seus ao analista. O analista fará o manejo dessa transferência, buscando fazer com que o paciente vá aos poucos diminuindo as suas resistências que estarão a postos inconscientemente.

      O analista precisa tomar cuidado com uma possível contratransferência, ou seja, fazer ele o movimento inverso. E isso pode acontecer e comprometer a análise. Exatamente por essa razão que o aspirante em psicanálise se analisa na formação, porque ele precisa estar consciente daquilo que é seu, daquilo que é do paciente. Não raro ao longo de seus atendimentos, o analista poderá se deparar com pacientes que se queixem de questões íntimas a ele; questões já travadas ou ainda enfrentadas pelo próprio analista. Mas se o analista não tiver consciência disso, não ter isso bem elaborado, é possível que resquícios dessa questão não trabalhada respingue na análise do paciente.

      A formação em psicanálise passa pelo seguinte tripé: 1- estudar a teoria freudiana e seus contemporâneos; 2- fazer análise pessoal; 3- ser supervisionado por um psicanalista mais experiente. Na minha opinião, o segundo item é talvez o mais importante dos três. Estou trabalhando a sério a minha análise; me comprometendo honestamente com esse mergulho interno. Confesso que no começo do percurso estava com bastante medo porque eu sentia que algo estava se movendo... Mas segui em frente e me comprometi a não evitar qualquer movimento natural. Hoje tenho mais consciência e já observo em mim algumas mudanças. Algumas significativas.

      Para vocês terem uma noção, vou dividir algo que aconteceu comigo recentemente. Por diversas vezes já comentei nesse blog o quanto sou orgulhoso e rígido. Eu sou tão orgulhoso, mas tão orgulhoso que já cheguei a fazer promessa para Deus amansar isso em mim. Quando meu pai faleceu por exemplo, eu não falava com ele há anos. Me lembro do médico precisar quase implorar ao telefone para que eu fosse ao hospital onde ele estava internado e viria a morrer naquela noite. Havia tanto ódio e orgulho em minha alma que fui arrastado ao hospital. Entrei na sala, o assisti partir, sem proferir uma única palavra. Nenhuma lágrima caiu. Nenhuma reação.

      Assim foi ao longo da minha vida com qualquer pessoa que em algum momento atingiu o meu orgulho. Quando um amigo, um familiar ou um colega meu fazia algo que tocava nesse ponto, uma espécie de monstro emergia das profundezas! Das sombras surgia um Jonas ofendido. Rancoroso. Inflexível. Eu não agredia, nem ofendia a pessoa. Pelo contrário, algo dentro de mim rugia o oposto: “Não transpareça nada! Mostre que não está atingido! Não dê esse gosto à pessoa! Não fique por baixo! Essa pessoa não deve sequer imaginar que teve algum dia qualquer importância em sua vida!”. E assim era feito.

      Fosse quem fosse, era assim que eu agiria se alguém pisava na bola comigo. O que não era difícil, porque meu nível de tolerância era bem próximo do zero. “Ele é casca de ferida! Com esse tem que pisar em ovos!”. Era isso o que pensavam sobre mim, já que por muito pouco eu cancelava a pessoa da minha vida. Eu era capaz de conviver com uma determinada pessoa por anos a fio, sobre o mesmo teto, sendo apenas amistoso. Funcional. Protocolar. Me relacionando o mínimo do mínimo.

      Mas por que isso? Por orgulho. Pessoas demasiadamente orgulhosas colocam a sua dor acima da dor alheia. No meu caso, sempre o que os outros faziam era pior. Num desentendimento por exemplo, eu podia ter ofendido e pisado na bola também, mas "o outro fez pior comigo" - pensava. "A pessoa pisou mais na bola". Para mim, a minha dor era maior. Os meus sentimentos mais válidos do que os da outra pessoa – que muitas vezes sequer era vista por mim; ouvida; ou tinha suas dores levadas em consideração. E somente quando a pessoa pedia desculpa ou perdão que eu voltava atrás, talvez.

      Apesar de eu não gostar de ser assim, eu não conseguia mudar! Eu chegava a rezar a Deus para ser diferente. Para Ele abrandar o meu orgulho! Quando uma pessoa que eu gostava pisava na bola comigo, eu chegava a chorar uma dor de luto, porque eu sabia que eu não conseguiria voltar atrás, e a partir desse momento eu matava essa pessoa dentro de mim. Ao longo da vida o máximo que eu consegui foi algumas leves melhorias nesse sentido. Mas a lista de cancelamentos só aumentava. Muitas vezes não consegui voltar atrás nem diante de um pedido de perdão! Eu me sentia um monstro. Queria muito mudar. Não entendia por que, mesmo tendo consciência de que estava doendo em mim, de que eu queria dar o braço a torcer, de que eu queria procurar ou aceitar uma pessoa de volta, eu não conseguia ceder. É como se cada veia do meu corpo rugisse: “Você não vai ceder!”.

      Há sete anos a bola da vez foi o meu irmão. Ele é o mais velho, temos três anos de diferença. Por um motivo torpe brigamos um dia. A partir desse dia eu nunca mais falei com ele – mesmo ele me procurando e tentando uma aproximação todos os meses desde então. A resposta da minha parte sempre foi a mesma: silêncio. Sequer eu levantava o olhar. Muitas vezes eu queria voltar atrás, mas não conseguia. Esperava ouvir um perdão genuíno de sua parte. Ver uma mudança sincera de comportamento. Queria que ele mudasse...

      Então iniciei a formação em psicanálise. Passei a estudar a fundo a teoria freudiana. Ler os livros recomendados. Assistir vídeos. Filmes. Fazer tarefas, dinâmicas… Análise. De repente, um belo dia, sem mais nem menos, meu irmão veio até mim e pediu: “Jo, me empresta um cartão de crédito?”. Mesmo sabendo que nós brigamos a anos atrás por causa de dinheiro, simplesmente saquei a carteira e entreguei. Silêncio total. Nesse momento todos na sala chocados. Pareciam ter acabado de ver um fantasma. Mas naturalmente voltei a conversar com ele.

      Ele pediu perdão? Não. Ele mudou o seu comportamento? Não. Mas então, o que mudou?! Nada. Mas eu não preciso mais de perdão. Nem há o que perdoar. Não tenho mais essa necessidade. Não me sinto mais ofendido. Ele continua sendo como é, mas eu mudei! O que ele fez não muda o fato de que somos irmãos. Sempre seremos. Eu o amo como ele é. Está bem assim. Entendo hoje que não faz sentido afastar uma pessoa da minha vida por algo que não gostei que ela fez, mas que não está no meu controle mudar. E nem sei se tem o que mudar de fato. O problema não era com ele. Era eu comigo mesmo. Eu quem não o aceitava como ele é. Queria mudá-lo, ao invés de lidar com isso. As pessoas não mudam porque queremos. Elas mudam quando querem (se forem capazes!). Na teoria eu já sabia disso. Faltava eu aprender na prática. Sentindo na pele ao viver uma experiência emocional corretiva.

      Começo a ter consciência que o meu orgulho vem por não aceitar os erros dos outros comigo. Como eu me cobro muito para não pisar bola com as pessoas que eu gosto, eu me dou o direito de não pisarem na bola comigo. Como se eu tivesse o controle disso. Mesmo me policiando, é claro que eu também piso na bola com as pessoas. Só que elas, diferentemente de mim, relevam as minhas falhas e não levam a ferro e fogo. É um erro acreditar que nunca, ninguém, em momento algum falhará conosco. Somos humanos. Vamos errar sim. E precisamos aprender a lidar com isso.

      No percurso da formação analítica, estou conseguindo FINALMENTE trabalhar esse meu orgulho patológico e estou aprendendo a me dar menos importância. “Menos, Jonas...” – meu mantra desde então. Isso abre espaço para diminuir minhas resistências. Meu perfeccionismo. Minha autossuficiência. Estou me aceitando mais como sou. E aprendendo a perdoar as minhas próprias falhas. Tenho encontrado um lugar de leveza e SERENIDADE. Se pretendo ser um bom psicanalista no futuro, preciso conduzir os pacientes por um caminho que eu já percorri.

      Eu não sei você, mas me alegra o fato de, ao contrário do que foi com o meu pai, eu poder me entender com o meu irmão em vida.

Existe alguém que você gostaria de conversar? Não espere muito. Não vale a pena. Faça hoje a sua parte. Você vai se sentir melhor com isso!

 

 Meu irmão (Diego) e eu

domingo, 30 de maio de 2021

COMO É ISSO PARA VOCÊ?

 

     Utilizo situações e acontecimentos e o que observo a minha volta para transformar em texto. Tenho a característica de ser atento às coisas e gosto de observar as pessoas, as suas falas, os seus comportamentos, possíveis motivações e as consequências disso. Penso e reflito sobre tudo procurando de algum modo encontrar aprendizado. Refletir. Ou propor alguma análise disso. É o caso da postagem de hoje.

      Essa semana tive uma conversa que me chamou bastante a atenção. Me chamou a atenção particularmente a visão e a opinião da pessoa com quem conversava. Longe de fazer crítica a posicionamentos político e ideológico, até porque quem me conhece sabe que eu não discuto ideologias – não vejo razão para fazermos isso, mas achei interessante a conversa. Trarei aqui como a pessoa enxerga uma situação e em seguida o que penso, como eu também vejo a mesma questão.

      A conversa toda foi complexa e seria impossível sintetiza-la num único tema. Mas, ao que me parece, o bojo central da discussão foi sobre transformações radicais que a sociedade vem passando, particularmente nas últimas décadas e essa pessoa acredita num “padrão”, observável já na natureza – segundo ela –, dos gêneros masculino e feminino, assim como de certo modo o que competiria a cada qual fazer. Não fiz julgamento de valor, procurei fazer mais perguntas. Quis ouvir e entender o seu ponto de vista e que, ao meu ver, parece refletir a opinião de muitos.

      Essa pessoa me disse que vê alguns grupos marginalizados da sociedade, tidos como minorias usando de formas agressivas e muito radicais para reivindicar seus direitos, perdendo uma denominação do que seria o sexo biológico; uma ausência de identidade; e não se enquadram ao que era esperado e tão característico a algumas poucas décadas atrás: o que é ser um homem, o que é ser uma mulher, por exemplo.

      Quando a conversa foi para esse ponto fiquei mais atento, porque quase sempre esses temas costumam ser sensíveis e espinhosos para conversar e inevitavelmente nesse momento discussões acaloradas surgem aos mais inflamados. Entram em jogo aquelas polaridades de direita e esquerda. Opressor e oprimido. Certo e errado.

      Mas pensei que se essa pessoa levantou o assunto, isso já disse muito. E como um bom amante e estudante de psicanálise dei espaço a sua fala, e como um psicanalista faria, ouvi com neutralidade sem qualquer julgamento de valor. Pelo contrário, estava curioso para compreender o que seria, segundo essa pessoa, “o padrão” esperado para um comportamento em sociedade com relação a masculino e a feminino. Em dado momento fui questionado o seguinte: “Para a psicanálise não é importante uma noção de identidade sexual ao ser humano? Hoje em dia os jovens não estão perdidos nesse sentido? Essas novas terminologias de hoje, como não-binariedade por exemplo, isso não traz confusão e talvez até traga sérias consequências aos jovens e à sociedade em geral futuramente?”.

      Penso que possuir uma identidade, seja ela qual for é importante. Mas não tem como dizer que não ter uma identidade definida ou ter uma identidade transitória ou fluída também não seja importante à pessoa. A sociedade passou por grandes transformações que não se via nessa magnitude por séculos. Talvez o que aos nossos bisavós e avós demorava uma ou duas gerações para ver acontecendo na sociedade, atualmente acompanhamos a cada dez, talvez cinco anos. Isso assusta alguns. Choca outros. Eu sou mais conservador. E gosto de uma tradição. Mas nada voltará a ser como foi um dia. A vida muda! O novo também nos ensina muito. Diante de todos esses questionamentos, eu apenas devolvi à pessoa uma única pergunta: “Como é isso para você?”.

      Quando a mulher estava dentro de casa e de um modo geral pais e mães eram mais presentes na educação dos filhos, talvez se percebesse menos nuances nos comportamentos e inclinações sexuais porque as crianças eram treinadas de certo modo pelos pais, conscientemente ou não, a agirem segundo um determinado padrão esperado (o tal “padrão” que a pessoa se referia). Ou talvez antes se sublimasse e se recalcasse muito mais, devido também a uma menor abertura e aceitação a comportamentos diferentes. O fato é que com a saída dos modelos houve certa liberdade para emergir algo a partir daí. Que não é certo nem errado, é um fato. Quando você deixa de policiar o desenvolvimento de um ser humano, estando ele livre para ser, pensar e agir – conforme suas inclinações talvez –, surgirão novos jeitos de pensar. De se relacionar. De amar. Novos jeitos de existir e de se exercer no mundo. Nada contra. Pelo contrário, tudo a favor. Cada um vive a sua vida como bem entender!

      A falta desses modelos pode ser prejudicial aos jovens? Talvez. Só que a falta de abertura que existia no passado também não era prejudicial? Também é possível. A conclusão é que tudo depende, pois tudo tem dois lados. O modo de vida do passado podia ser bom, assim como podia ser prejudicial. Como o modo de vida atual pode ser ruim assim como pode ser positivo. O fato é que a sociedade muda. E continuará mudando cada vez mais com maior velocidade. E talvez o único erro seja não buscarmos acompanhar essas transformações sociais e tentar aprender com elas. Mas vejo muitas pessoas ainda apegadas a antigos padrões que nunca mais voltarão a ser com antes, por "n" fatores.

      Essa pessoa comentou sobre a psicanálise porque estou em formação. Mas se tem algo que eu gosto mais e foi o que fez eu me interessar mesmo pela psicanálise foi que ela não trabalha com ideia de certo e errado. Na psicanálise não existe padrão reconhecidamente saudável. Seríamos neuróticos, no mínimo. Ela se diferencia da psicologia, que reconhecidamente já adquiriu status de ciência, justamente porque a psicologia tem protocolos bem definidos; um parâmetro a ser seguido ou esperado. Enquanto a psicanálise vê o homem como ele é, como ele pode ser. O que ele é capaz de fazer da própria vida. E precisará lidar! Sem idealização. Sem expectativa. Sem moralismo. O esperado numa análise é que o paciente consiga através de sua própria escuta dar melhores fins a sua angústia. Como ele fará isso? Pouco importa, cada um achará o seu caminho. O seu saudável. O seu possível! A psicanálise não rotula ninguém. Não estigmatiza comportamento. Não dá cartilha nem receita de nada. É como se ela dissesse: "Lida com isso!". Se algo é bom ou é ruim pouco importa, o importante é como isso é para você; se isso te incomoda "elabora e lida com isso!". O que me parece muito inteligente.

      Segundo Sigmund Freud a psicanálise é uma teoria, um método investigativo e um método de tratamento. E sob certos critérios ela ganha também status de cientificidade. Ela é uma episteme. É um método. Possui um objeto de estudo. Está sujeita à refutação. E está presente nas instituições da ciência. Todavia, diferentemente da psicologia, não acho possível parametrizar ou padronizar o que se propõe a psicanálise, porque mesmo embora existam estruturas de uma primeira infância que reverbere em determinados comportamentos na fase adulta, cada um deverá se haver conscientemente com isso; e se apropriando da própria história, cada um dentro do possível dará melhores rumos a própria vida.

      A minha opinião é que a sociedade mudou e continuará mudando. A mulher saiu de casa e conquistou sua emancipação. Os pais hoje têm menos tempo disponível aos filhos por inúmeros fatores, alguns legítimos. As crianças ficam mais tempo sozinhas em casa com todo tipo de aprendizado disponível e a seu alcance na internet. A família mudou radicalmente. O trabalhou flexibilizou. As relações amorosas estão líquidas. Identidades sexuais fluídas. Essa é a realidade. Se isso é certo ou errado é um julgamento moral e logicamente cada um tem o seu. Considero mais oportuno olhar ao diferente buscando pontos positivos para novos aprendizados, do que ficar enraizado ao passado numa falsa ilusão de que o que havia antes era melhor. Mudanças sociais sempre aconteceram. E sempre ocorrerão. A única diferença é a velocidade que isso está se dando. E nós enquanto sociedade precisamos acompanhar.