terça-feira, 25 de setembro de 2018

A Fé



Existe um local, um espaço, um sentimento, algo dentro de mim, que recorro quando nada mais parece fazer sentido. Quando as respostas foram insatisfatórias; quando as relações ficaram naturalmente complicadas demais; quando uma angústia está me apertando; quando todas as portas parecem trancadas e estou num beco sem saída, então nesse momento me percebo como sou. Um ser pequeno, frágil e dependente. Me sinto nu e incapaz diante da vida. E perante essa constatação franca, que cutuca agressivamente meu ego, me encontro com algo sagrado em mim. Algo maior. Eu encontro a minha espiritualidade, a minha religiosidade e meu corpo se mostra um templo em mim.

Eu estava com dez, talvez onze anos, quando conscientemente conversei com Deus pela primeira vez. Digo conscientemente porque antes desse momento era algo mecânico; orava sem entender direito o que fazia. Mas a partir dessa idade tudo mudou. Eu estava em meu quarto um dia, sentado no chão e me sentindo terrivelmente só como sempre. Era uma tristeza tão grande, eu sentia que a vida não fazia sentido e não entendia qual a razão de sentir aquelas emoções tão difíceis de suportar. Passei por isso por um longo período sem contar nada a ninguém porque me incomodava me imaginar pedindo ajuda para algo que nem sabia explicar o que era. Apesar de ser criança na época, percebia que precisava urgentemente de ajuda, porém eu não sabia como e nem por onde começar a falar; que me sentia só; confuso; angustiado. Quando me lembro desse momento, imagino que chamaríamos isso hoje de depressão, mas creio que foi uma difícil transição da infância para o início da adolescência e como sempre fui ansioso sofri demais; talvez essa tivesse sido a minha primeira crise existencial. Como eu não sabia o que fazer, instintivamente comecei a “conversar sozinho”...

De início me senti tolo. Achava aquilo meio bizarro, temia ser visto como um louco e sentia vergonha do que estava fazendo. “Eu estou falando sozinho!”, pensava. No entanto, de repente senti meu corpo todo arrepiar, meus pensamentos negativos foram se dissipando e senti algo bom tocar meu coração. Era uma sensação tão confortável de paz que me sentia num local seguro e estranhamente comecei a melhorar. Daquele momento em diante descobri que Deus sempre esteve ali comigo, vivia dentro de mim e jamais me abandonaria; naquela tarde combinei algo com Deus: que o procuraria outras vezes e me tornaria seu melhor amigo. Assim como Ele sempre foi o meu desde então...

De lá para cá foram muitas as situações que fiquei entre a cruz e a espada. Entre o carpete e o taco. Foram muitas as crises existenciais, os episódios depressivos, houve pânico, mas sempre me agarrei na minha espiritualidade. Algo me dizia que eu só precisaria fazer isso: ter fé. E daria tudo certo. Quando subia no telhado para acompanhar o nascer do Sol, ao sentir o calor dos primeiros raios da manhã, eu sabia que não estava só. Nas noites que não conseguia dormir, ligava um rádio velho e ao som das canções me percebia conversando com Deus. Ele sempre esteve presente. E é por essa razão que hoje escrevo. Eu escrevo para reforçar a sua fé. Eu escrevo para reforçar a minha própria. E gostaria muito que acreditasse quando digo:

Existe uma força maior regendo tudo isso e você é parte dela!
Quando ninguém quiser te ouvir e todas as portas parecerem trancadas e se sentir só, é chegada a hora de se recolher e orar. Então chore e desabafe com Deus, porque só Ele sabe todas as coisas...
Tudo nessa vida sim vai passar, desde bons amigos até melhores irmãos, desde bens e dinheiro, mas algo de puro e sagrado, que habita dentro de você, será para sempre e estará aí enquanto precisar.
De verdade, nunca caiu uma folha de uma árvore se não foi por vontade de Deus; estamos sempre no lugar certo no momento certo com as pessoas que precisamos aprender e ensinar, então se acalme porque as coisas vão se conectar e no fim farão parte de um todo magistral! Eu nunca tive dúvida.
Você ainda vai rir disso. Você ainda vai chorar disso. Você ainda vai agradecer por isso! E vai passar... Vai cicatrizar. Você vai esquecer. Vai sobreviver! Então não perca as esperanças. Não perca a sua fé.

Sempre busquei ter a mente lógica e ser um estudioso da ciência. Mas sou um filho de Deus!

domingo, 26 de agosto de 2018

A formação para Gestão de Pessoas



Toda organização (seja ela pública, privada, uma ONG etc.) podemos dizer que é composta por um conjunto de elementos físicos e não-físicos. Como exemplos de elementos físicos podemos citar resumidamente a matéria prima, o maquinário, as instalações, o layout produtivo, as pessoas envolvidas etc. Como exemplos de elementos não-físicos podemos citar, também de forma breve, a tecnologia de informação, a contabilização, o conhecimento, o planejamento, a comunicação, a cultura, a construção de uma hierarquia e como se dá o processo decisório (mais verticalização; mais horizontalização) etc. Toda organização impacta e também será impactada pelos elementos (físicos e não-físicos) externos, como por exemplo a sociedade na qual está inserida; o meio ambiente; o seu público alvo; o governo (impostos, legislações, informações obrigatórias etc.). A chave do bom funcionamento da dinâmica desses elementos está na sua gestão. É a administração da organização.

De forma resumida (mas nem tanto) expus acima o principal escopo de ensino de um curso de Administração de Empresas – do qual tenho formação. Nesse curso você vê um menu de teorias e técnicas e perpassa por todas as áreas e setores que existem numa organização, através das disciplinas. É um curso amplo, genérico, que entrega o que se promete: uma visão sistêmica do todo.

Quando falamos em administrar uma organização, de todos os elementos que eu citei, na minha opinião, hoje mais do que nunca o calcanhar de Aquiles é o fator Humano. A tecnologia da informação é importante. A comunicação é importante. A gestão do conhecimento, o planejamento e o cumprimento da legislação são importantes. Todos os elementos têm a sua devida importância. No entanto, por trás de todos esses elementos existem o quê? Pessoas. Ao isolarmos cada organização, cada área, cada setor, cada elemento, cada processo, para se chegar numa matriz originária, vamos descobrir que ali reside um ser humano. Portanto, é verdade que essencialmente são as pessoas que levam a organização em direção aos objetivos esperados. E dessa forma, faz com que a Gestão de Pessoas seja hoje o braço direito da administração de qualquer empresa. E é verdade também que será a gestão mais difícil de todas, porque envolve o elemento mais complexo de todos, pois cada ser humano é único, dotado de subjetividade e influenciado por fatores biopsicossociais.  

A questão é: o curso de Administração de Empresas capacita para gerir pessoas? Não. (E agora os administradores vão cair de pau em cima de mim rs rs). Não capacita. Em Administração de Empresas você estuda teorias, aprende técnicas, há uma bagagem de cálculo, mas não se vê profundamente e não se tem muitas disciplinas voltadas à Gestão de Pessoas. E não sei também se esse é o foco do curso, pois como já dito acima, o curso entrega um conhecimento amplo e mais generalista da Administração, e depois de formado o profissional vai se especializar na área que ele quer ou se identificou mais. Como acontece em muitos outros cursos de graduação! Não tem nada de errado com isso. E eu adorei o curso que fiz, se voltasse atrás teria escolhido novamente sem sombra de dúvida, mas eu já até falei sobre isso aqui; no meu segundo ano de faculdade tive a oportunidade de liderar uma equipe e eu pedi para sair. Eu não consegui! Isso significa que todo administrador não conseguirá? Óbvio que não. Não é correto generalizar. Mas – na minha opinião – o administrador tem uma “tendência” a ser mais objetivo, mais burocrático, mais técnico, talvez até mais rigoroso e a perceber e compreender menos as questões subjetivas dentro da organização e os fatores biopsicossociais que podem estar impactando os trabalhadores. Não é uma característica ruim essa, é apenas uma visão. Se eu fosse sintetizar numa frase, eu diria que: “o administrador tem uma tendência a enxergar a relação Empregador x Empregado como unicamente uma relação comercial”.

E hoje a gente sabe que não é bem assim...

Aí vou trazer outra questão: então seria aquele com formação em Psicologia o profissional mais indicado ao Recursos Humanos, à Gestão de Pessoas? Não. (E agora os psicólogos vão cair de pau em cima de mim rs rs). Eu não tenho graduação em Psicologia, sou graduado em Administração, mas na minha opinião, pelo que observo, o curso de Psicologia também não capacita o psicólogo (como precisaria) para dar cabo da organização. Me desculpem. Eu me pós-graduei em Recursos Humanos, depois fiz Gestão de Pessoas, e fiz Psicologia Organizacional e do Trabalho, e atuo nessa área há anos. Se existe déficit na formação do administrador para dar cabo desse desafio, ao psicólogo também. A visão aí vai radicalmente para a outra ponta. Eu sou apaixonado pela Psicologia, como adoro os meus amigos psicólogos, tenho planos até de cursar a graduação, mas pelo que observo (com o perdão do engano) é uma ciência que, se o estudante não é bem orientado quando ele opta pela Organizacional, quando ele cai na organização de fato, ele tem dificuldade pois tem uma “tendência” a ser humano demais. Se o administrador tende a enxergar a relação trabalhista como puramente comercial, o psicólogo é o inverso, ele tende a esquecer que é business. Que é um negócio, dentro de um sistema capitalista, amarrado por um contrato de trabalho. Ou seja, as partes em comum acordo se acertaram que o empregador pagará “x” para o empregado entregar “y”. Ou seja, se em algum momento o empregado entregar menos, seja em horas trabalhadas ou em quantidade produtiva, está errado. Há um descumprimento aí, que tem que ser averiguado.

E o psicólogo certamente argumentaria que por trás do trabalhador existem “n” fatores que podem estar o impossibilitando de cumprir com o combinado (os fatores biopsicossociais). Ok, é compreensível, vamos então averiguar o que se passa e veremos o que é possível ser feito. Mas a questão é: quanto tempo temos disponível para isso? Lembrando que estamos amarrados por um contrato, numa relação de negócio e estamos equacionando “tempo x custo x benefício”. E o psicólogo tenderia a achar isso muito frio, muito calculista, muito pragmático. Mas devemos lembrar que, caso a organização não seja uma instituição filantrópica, seu objetivo primordial é o lucro. O empresário começa uma atividade econômica porque ele quer obter lucro. E não tem nada de errado com isso, estamos num sistema capitalista – se é bom ou mau, é este o que temos. Essa visão demasiadamente humana de alguns psicólogos, quando vão para a organização, tem mais a ver com a Psicologia Social do que propriamente com a Psicologia Organizacional e do Trabalho. Se o Estado não tem uma estrutura que possa dar suporte ao trabalhador, vamos jogar essa bola ao empresário?

Numa aula uma professora (psicóloga) nos pediu a seguinte reflexão: “você tem uma babá que cuida de seus filhos enquanto você precisa trabalhar. Um dia a babá te liga que não poderá ir trabalhar porque seu filho está doente. Na semana seguinte ela liga e diz que não poderá ir trabalhar porque terá consulta médica. Depois ela liga que não poderá ir trabalhar por um outro motivo qualquer (mas justificável). Todas as vezes que a babá falta ela justifica, mas ou você precisa faltar do seu trabalho ou precisa se virar com as crianças. Quanto tempo você mantém essa situação, sem trocar de babá?”. Note que em nenhum momento está se julgando a conduta da babá no exemplo, pois ela está faltando ao trabalho por motivos justificáveis. Muito compreensíveis. Mas será que é o empregador quem dever arcar com esse custo? E por quanto tempo ele consegue fazer isso?

Na minha visão, o profissional que atua em Gestão de Pessoas tem que entender que a relação é comercial então precisa sim existir um certo pragmatismo; a atividade econômica visa o lucro e não convém perde-lo de vista (para o bem de todos: empregador, empregado e governo!). A contrapartida o capital mais importante de uma organização não é tecnologia nem são as máquinas, já se sabe que são as pessoas, que hoje mais do que nunca é chamado de Capital Intelectual. E ele necessita sim ser valorizado. Mas valorizar não significa sair concedendo aumento de salário ou dar mais benefícios indiscriminadamente, ou fazer vista grossa para tudo, porque se isso não é pensado econômica e financeiramente falando, é uma atitude irresponsável porque a longo prazo coloca a própria atividade econômica em risco. O ponto foco da Gestão de Pessoas é ser capaz de enxergar o trabalhador com seus pontos fortes e pontos a serem trabalhados, levar em consideração que a motivação é intrínseca, portanto é pessoal. Alguns funcionários irão trabalhar exclusivamente pelo salário para pagar contas, outros já gostam do que fazem, outros gostam do ambiente e dos colegas, outros gostam da oportunidade de desafio que foi dada, outros gostam de aprender e querem crescer profissionalmente etc. Cada funcionário tem as suas próprias demandas, as suas próprias necessidades, ele gosta e quer que a empresa perceba isso. E a empresa deve fazê-lo, dentro do que é possível ser feito em dado momento.

A questão que fica então é: qual seria a melhor formação para se atuar em Gestão de Pessoas? Não tem. (E agora quem está estudando pra isso vai cair de pau em cima de mim rs rs). Sinceramente falando, eu não sei se existe uma graduação específica. Assim como não sei se é necessário ter uma graduação para isso. Conheço empresários que não tem formação superior e dariam uma verdadeira aula nesse quesito. Assim como conheço ótimos gestores que são graduados em Comunicação, em Engenharias, em Direito, em Economia etc. Talvez o foco nem seja o curso, mas sim o indivíduo. Prefiro pensar que um gestor precisa ser técnico o suficiente para não perder de vista o negócio em que atua, mas precisa também ser humano o suficiente para não perder de vista aquilo que ele tem nas mãos, o seu capital intelectual! E quando bate uma dúvida gosto ainda de recorrer aquela célebre frase do Jung: “conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana”.

sábado, 11 de agosto de 2018

O psicopata no trabalho



Existe uma questão que sempre busquei entender, que trata da origem de nosso caráter. Uma linha da ciência diz que somos folhas em branco ao nascer e é o meio (os nossos cuidadores, a escola, a sociedade etc.) o responsável por nos construir enquanto pessoa. Outra linha da ciência já considera que, em partes, seríamos sim folhas em branco, porém não totalmente, há uma parcela herdada, mesmo quando estamos falamos de caráter.

Faço sempre essa reflexão quando me deparo com uma pessoa com um desvio de caráter muito acentuado. Quem de nós nunca se deparou com um indivíduo assim, não é? E quando encontramos uma pessoa com essa característica no ambiente organizacional?

Certa vez, trabalhava numa empresa e estava numa sala numa situação bastante complicada para uma pessoa, uma funcionária. Havia acontecido uma série de situações, bastante sérias, e essa pessoa tinha sido descoberta como a autora dos atos e eu estava presente no exato momento da revelação da verdade. Confesso que a atmosfera na sala era tão tensa e havia o compartilhamento de um constrangimento alheio por todos os envolvidos, menos pela autora. A todo instante, eu só olhava, quase que desesperadamente, para o rosto dessa pessoa e eu buscava ali em seus olhos algum sinal de arrependimento, culpa, e sequer vi uma faísca de constrangimento! Eu nunca me esquecerei daquele momento. Como nunca me esqueci daquele olhar...

Alguns chamam de mau caráter. Outros, de perverso. Mas estamos falando de psicopatas. Pessoas com transtorno de personalidade antissocial. Segundo a literatura científica, estima-se que sejam 4% da população, sendo 3 homens para cada mulher. Divididos entre graus que vão de leve, moderado, até grave, eles estão entre nós e é certo afirmar que já trabalhamos com algum, em algum momento de nossa vida. Pessoas muitas vezes brilhantes. Inteligentes, comunicativas, sociáveis, charmosas, sedutoras até; pessoas absolutamente racionais, que sabem fazer a cena muito bem. Jogam muito bem o jogo! O jogo das relações sociais, de poder; eu diria que são políticos natos, nasceram com uma articulação impressionante.

Aqui cabe fazer uma diferenciação entre o que seria um traço e o que seria o transtorno de fato. O traço é a característica. Quem tem o transtorno possui os critérios (listados no DSM-V Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, por exemplo). Porém, nem todos que apresentam traços terão o transtorno. E já li alguns psiquiatras dizendo que ter um traço nem sempre é ruim, até pelo contrário, pode ser muito bom para um indivíduo. Eu por exemplo posso dizer que teria um forte “traço psicopático”, que sempre gozaram de mim por conta da minha excessiva racionalidade e da baixa emotividade. Sou muito cerebral, e por isso pouco empático, tenho dificuldade de me pôr no lugar das pessoas e compreender rapidamente suas necessidades. Afirmo que a minha personalidade é um tanto calculista, sou sim um pouco frio, controlado e contido, detalhista e metódico, e um tanto quanto “distante emocionalmente” das outras pessoas. Mas eu jamais seria capaz de prejudicar objetivamente, conscientemente, alguém! Isso vai contra todos os meus princípios, contra o meu caráter, contra a minha própria criação. Não fui educado assim.

Mas confesso que ter o traço me ajuda na minha profissão e pode ajudar em outras. Veja que a descrição que dei cabem bem para um contador, para um engenheiro, para um desenhista técnico. São úteis para mim quando preciso calcular uma folha de pagamento ou uma rescisão de contrato de trabalho, porque consigo fazer isso com uma precisão quase cirúrgica. Características boas até para um juiz. Eu por exemplo sou lembrado pelo senso de justiça e procurado às vezes para arbitrar desavenças (por enxergar o fato com frieza e os envolvidos sem vínculo emocional). Sou um observador atento e detalhista. Sou intuitivo. Faço umas boas interpretações e análises. Então, ter traço nem sempre é ruim. O traço é uma coisa e o transtorno em si é uma outra completamente diferente. E isso vale para todos os transtornos de personalidade.

E note que grifei acima a palavra consciente porque psicopatas têm consciência de seus atos, por isso não devem ser considerados doentes mentais. Não há tratamento nem cura, estamos falando de personalidade. É uma maneira de ser. Uma forma de se exercer e existir no mundo, onde o outro não tem valor, o outro é só um meio para se atingir um objetivo.

As perguntas do milhão são: como identifica-los? E como lidar com eles?

Para responder a primeira pergunta, gostaria de lembrar que aprendemos desde pequenos (e a gente sempre esquece) que não se julga um livro pela capa. Da mesma forma que não se começa a ler o livro pelo fim; a gente tem que partir da primeira página. Um funcionário que apresente sinais de desvio de caráter numa empresa (como mentir, omitir, distorcer, trapacear ou até furtar ou roubar) certamente já tem um histórico. Ele provavelmente tem uma série de experiências profissionais anteriores obscuras. Mal resolvidas. Mal contadas. O passado desse profissional quase sempre será marcado por experiencias profissionais meio parecidas ou será um passado nebuloso, conflituoso, ou de difícil acesso; onde certamente ele próprio dificulta o acesso. E quando tocado no assunto ele sempre vai se colocar como a vítima e ter um discurso de pena. Aí entra o sinal de alerta: cuidado com aqueles profissionais que são perfeitos demais e chegam numa entrevista com um currículo irretocável (ninguém é perfeito assim, de verdade). Especial cuidado com aqueles profissionais que têm sempre um discurso que foram ou que são vitimizados. Psicopatas são especialistas em jogar com emoções alheias. Preste atenção em subordinados ou em colegas de trabalho de mesmo nível hierárquico ou de níveis mais baixos (só serão de níveis acima se tiverem algo a ganhar ou se você estiver no caminho obstruindo sua escalada) que te apresentem uma realidade embutindo já uma interpretação parcial e tendenciosa dos fatos. Eles geralmente não te dão tempo nem espaço de raciocinar por si diante das situações e ficam sempre tentando conduzir a sua interpretação (que na verdade é a interpretação que querem que você tenha). Essa é a manipulação! E tem sempre uma finalidade por trás (pode ser poder, status, dinheiro ou puramente diversão). Nem todo manipulador é um psicopata, mas todo psicopata será um manipulador nato. Estes profissionais sempre estarão envoltos a conflitos, mas nunca ligados diretamente. Gosto de dizer que sempre os veremos próximos do fogo, mas nunca conseguimos liga-los ao incêndio!

Responder a segunda pergunta talvez seja ainda mais difícil, porque mais difícil do que perceber uma pessoa genuinamente mau caráter, é saber lidar com uma depois da constatação. Acredito que, como o ditado, “a ocasião faz o ladrão” (quando o ladrão é mau caráter!). Para os profissionais, eu recomendaria que se você perceber que uma pessoa da empresa tem uma má índole, não crie ocasiões que possam te prejudicar. Não confidencie segredos. Não deixe senhas gravadas no seu computador. Evite comentários de chefes em comum ou de outros colegas que possam ser usados posteriormente contra você. Mantenha uma distância profissional sadia. Seja profissional! E acima de tudo: seja o mais racional possível ao lidar com essa pessoa especificamente. Indivíduos com um mau caráter jogam com as emoções alheias, isso significa que pessoas mais emotivas, que dão uma maior abertura aos sentimentos, tendem a ser alvos mais fáceis da manipulação, pois são naturalmente mais vulneráveis. Neste caso, evite excessos de emotividade e busque sempre um senso autocrítico para o seu comportamento. Para as empresas, eu recomendaria basicamente duas medidas: regras claras e punições efetivas! O psicopata no trabalho não deixaria de cometer um deslize só porque vai prejudicar um colega, mas certamente deixará de cometer se tiver certeza de que será responsabilizado. Ele tem consciência de seus atos. Se souber de antemão que na empresa em que trabalha as normas de conduta são claras, são sérias e se for pego infligindo haverá consequências relevantes para si, ele se adéqua. Ou no mínimo perde campo de atuação. O psicopata sempre vai existir em todas as organizações, porque ele está em todas as camadas e áreas da sociedade, mas ele só ganhará espaço de atuação na empresa em ambientes não estruturados, ambientes que não tenham regras claras ou que estas sejam constantemente relativizadas, e principalmente onde não exista uma punição efetiva perante a constatação de um mau comportamento ou de um comportamento não adequado.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

O QUE APRENDI NOS 10 ANOS DE BLOG: INTEGRAÇÃO


Sinto-me incapaz diante de pessoas negativas. Poucas coisas na vida me dão mais tédio, desprazer, do que lidar com pessoas assim. Sinto preguiça, tenho extrema dificuldade em exibir a essas pessoas uma outra perspectiva de vida menos carregada, menos pessimista, porque via de regra elas resistem, vitimam-se, agarram-se no próprio comportamento, e no fim termino inevitavelmente me sentindo exaurido. Incomodado. Consumido. Contaminado.

Tenho dificuldade de entender qual seria a efetividade de olhar para as coisas enxergando o que há de pior, sem tentar ao menos buscar algo de positivo. Não vejo ganhos em ser negativo. E por esse motivo sempre que posso fujo do contato. Quando não posso, limito-me a ficar quieto, evitando absorver a negatividade e criticando a pessoa em pensamento.

Mas isso é mais fácil, não é? É mais fácil por esse caminho pelo qual tendo a percorrer. Colocar-me numa posição diferente, superior, de onde eu possa julgar, sem buscar entender quais fatores estariam por de trás de toda negatividade. E o mais importante: quais aspectos talvez estariam sendo refletidos, estando em mim mesmo, mas não posso aceita-los?

Fazer essa reflexão dá mais trabalho. Mas também é o mais justo com a pessoa. E comigo mesmo.

Em abril esse blog completou 10 anos. Em junho eu fiz 30 anos de idade. Quando iniciei esse espaço, no auge dos meus dezenove anos, eu acredito que uma das minhas maiores dificuldades era aceitar pessoas diferentes de mim. E continua sendo até hoje. Porém hoje eu percebo melhor, e a cada dia com maior claridade, que quanto mais me revolto com uma pessoa e não sou capaz de convencê-la do contrário, estou revelando mais os aspectos de uma necessidade minha. Uma necessidade de controlar o outro, de fazê-lo mudar, de fazê-lo entender o quanto tenho razão. É dominação, prepotência e praticamente uma mentira que tento contar a mim mesmo, pois posso no fundo nem ter razão de fato.

Hoje tenho mais consciência que aquilo que julgo como sendo muito certo, que funciona muito bem, que é óbvio, muitas vezes se encaixará perfeitamente apenas para mim, na minha vida, e que não necessariamente pode ser aplicado satisfatoriamente às outras pessoas, porque elas terão outras necessidades e partiram de outros contextos. Entendi que o “óbvio” é uma palavra que não existe nas relações humanas e que nós realmente muitas vezes servimos de espelhos uns aos outros.

É difícil aceitar isso, pois dói assumir que aquilo que mais nos incomoda no outro também habita em nós mesmos. Exige muita maturidade e franqueza. E coragem, de encarar aquelas sombras que não gostamos nem de tocar no assunto. Mas eu já descobri que não “tocar no assunto”, não olhar para nossas sombras só faz com que elas se fortaleçam. E esse mecanismo termina gerando as projeções externas.

Por isso, vos digo: o mundo tal como você vê, não passa muito longe da extensão de seu próprio interior.


Quanto mais esse interior é negligenciado, mais o que está do lado de fora incomoda, porque se escancara na sua frente tudo aquilo que você não pode aceitar. Mas existe um caminho de paz, ele se chama Autoaceitação. E tudo começará com a sua Integração.

A palavra “integração” vem de íntegro, que significa “inteiro”, “completo”, “pleno”. E é isso que eu desejo a você: que você se torne uma pessoa íntegra. Que você dê as mãos para aquela sua parte que você não aceita, não a entende, que você até evita de olhar! Abrace essa parte, com carinho. Aproprie-se daquilo que é seu também, daquilo que veio aí com você, daquilo que você é, daquilo que faz parte de você. Sem julgamentos. Todos temos partes boas e partes “nem tão boas assim”, e está tudo bem. Não há problemas nisso. Tire esse peso. Tire essa culpa. Não precisa ser assim. Faz parte também ser do jeito que você é. E quanto mais você compreender isso, quanto mais você aceitar isso, quanto melhor você integrar isso dentro de si, mais pleno você viverá.

E com o tempo você acabará percebendo que as pessoas são boas também, e assim como você, elas também estão aqui tentando aprender com as próprias limitações. Isso vai te desarmar e você passará a ver a vida com outros olhos. E aí entra uma percepção bacana também, pois tudo aquilo que você admira nas outras pessoas, também existe dentro de você!

FAÇA UM EXERCÍCIO:
Pense numa pessoa, de seu convívio, que você não gosta, que incomoda muito você. Em seguida, liste num papel as principais características que essa pessoa possui que te irrita muito. Agora, faça a seguinte reflexão:

“Em quais momentos de sua vida, você age (ou já agiu) com essas mesmas características?”

Tente ser o mais sincero consigo mesmo, e se surpreenderá com o quão pode se parecer, em algumas circunstâncias, com essa pessoa que tanto te incomoda. Agora, se mesmo assim não conseguir se enxergar, mostre o papel com a listagem para uma pessoa que te conheça muito bem e pergunte se você teria alguma das características... 

A grande moral da história é que o que está te incomodando tanto nem é a pessoa em si, é o que você se vê nessa pessoa, mas não pode aceitar. Entenda. Aceite. Integre-se.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

Inteligência Positiva: na Vida e nas Empresas


Algo não deu certo na sua vida? Você acha que é um fracasso? Por causa de uma pessoa ou de uma situação que aconteceu lá atrás, isso atrapalha a sua vida até hoje? Você não consegue ver saída para alguma situação? Você se julga uma pessoa triste e acha que tudo dá errado? E se eu disser que isso acontece porque você quer assim? De todas as formas de se olhar para a vida, podemos dizer que em algumas nos enxergamos capazes, batalhando por algo acreditando que tudo vai dar certo; em outras desconfiamos de nossa capacidade imaginando o pior do que poderia acontecer. Você escolhe. Todos os dias. E a sua escolha se concretiza!

Durante muito tempo vivemos nossas vidas como se não tivéssemos controle sobre ela. E isso é engraçado. De fato muitas coisas não temos mesmo controle. Como por exemplo. Não controlamos se nascemos ricos ou pobres. Não controlamos se seríamos acometidos por alguma enfermidade que de repente surge. Não controlamos se após apostarmos todas as fichas numa relação, seja de trabalho seja de amor, de repente a outra parte nos dispensa. Sabemos que esses acontecimentos impactam em como vemos a nossa vida. Mas preste atenção: não temos o controle do que a vida vai fazer conosco, mas temos sempre o controle do que nós vamos fazer com a nossa vida!

Muitos estudos estão tentando entender o que nos faz verdadeiramente felizes. E alguns desses estudos já estão bem avançados nos trazendo surpreendentes descobertas. A primeira é que existe sim um componente genético, isso não dá para negar. Sabe aquela cena que você vê, que parece que uma família inteira é negativa? Ou que todo mundo ali tem mais ou menos o mesmo jeito de pensar e enxergar a vida? Isso é verdade. Tanto bom quanto ruim. As pesquisas mostram que pelo menos 50% da forma como enxergamos a felicidade é hereditário. Então se você nasceu numa família que parece que todos têm uma leve tendência ao pessimismo ou a puxar sempre para baixo, foque nos seus outros 50%! E não culpe ninguém! Pois eles só estão se deixando levar pelo outro lado, incentive-os você sendo a mudança que eles precisariam enxergar. Quem sabe você não trará a mudança de visão a sua família? 

Sabe aquela outra crença que diz que dinheiro traz felicidade? Bem, até certo ponto. As pesquisas mostram que uma vez supridas as necessidades humanas básicas, que são comida, bebida, moradia, segurança, uma vida minimamente digna, tudo o que vier a partir disso é dispensável em relação à felicidade. Então você não precisa daquele carro importado, nem viver no bairro A com o emprego x naquela remuneração y; preocupe-se em ter o suficiente para viver e o resto será uma mera consequência do teu trabalho. 

As pesquisas sobre felicidade, sobre psicologia positiva, sobre viver uma vida plena estão chegando às seguintes conclusões: em torno de 50% vem de fábrica, é genética; dentro de até 15% estariam os fatos e os acontecimentos do decorrer de sua vida (casamento, filhos, mortes, saúde, dinheiro, desemprego, trabalho etc) ou seja aquilo que 'não temos tanto' controle pois “é o que a vida faz conosco”. E os 35% restantes? - você deve estar se perguntando. É a sua opção. É justamente aí que você vai trabalhar! Pois é aí que entra a mágica do negócio. “É o que nós fazemos com a nossa vida.” Os pesquisadores têm percebido que nesse percentual entrariam a forma como interpretamos o que nos acontece; a forma como lidamos ou reagimos a esses acontecimentos; e a cereja principal desse bolo: se a nossa existência estaria ou não pautada num propósito maior! Você já se perguntou qual é o seu propósito nessa vida? O que faz o seu coração bater mais forte, o que você ama tanto, busca tanto nessa vida? Algo que você seria capaz de fazer de graça se fosse preciso. Essa é a chave da sua felicidade! Quem vive alicerçando sua vida na busca por um propósito maior vive mais feliz, vive plenamente.

Vamos trazer agora para as organizações. Quantas vezes o profissional de RH se depara com uma reclamação de um trabalhador sobre desconto em seu contracheque? Ele está recebendo ali horas extras, prêmio, abono, salário e a empresa lhe concede benefícios – sem falar que ele está empregado apesar de muitos não –, mas o colaborador foca no contracheque apenas naqueles minutos descontados de seus atrasos ou do desconto referente a INSS! Ele perde a noção de tudo que está recebendo e foca justamente naquilo que está sendo descontado. Quantas vezes um gestor se depara com uma reclamação de desmotivação de colaborador que não está satisfeito com algo? Esse colaborador pode ter inúmeras regalias e benesses no setor de trabalho (e muitas vezes tem mesmo), mas no dia em que ele resolve acordar e vir trabalhar com o pé esquerdo e seu gestor chamar sua atenção ou lhe aplicar uma advertência, ele passará a acreditar que ali é o pior local do mundo para se trabalhar! Ele perde a noção de tudo de bom que existe ali e foca apenas na situação que considerou negativa. Parece engraçado, mas isso acontece e se essa situação não for trabalhada, ele sai da empresa – ou fará de tudo para sair! Porque está dimensionando uma situação isolada para pior. E esse é o papel da Psicologia Positiva enquanto Psicologia Organizacional. Mostrar o todo! Trazer o outro lado da moeda e fazer o colaborador refletir a situação. Cabe à empresa e aos líderes focarem no positivo dos colaboradores e demostrarem sempre o que há de bom; no que ele é melhor, quais são as suas forças e virtudes e o que ele ganha com isso. Porque no fim vamos combinar que quem procura acha. Se você procura defeitos no seu colaborador, no seu gestor, no seu trabalho, na sua empresa, você encontra. Se você procura as qualidades, as características positivas e resolve focar no que está certo, no que está bom e melhor, você enxerga diferente também. A questão é: onde você quer focar? 

Durante muito tempo se focou, não só nos trabalhadores nas organizações, como nas pessoas de um modo geral, nos erros do indivíduo, nas suas falhas de comportamento. A Psicologia historicamente fez isso. Acreditar que um indivíduo saudável é aquele ausente de doença mental, ausente de sintoma. Todavia, podemos nos julgar SERMOS saudáveis, independentemente de ESTARMOS com alguma doença. A doença é transitória, é um estado, já a saúde é muito mais do que isso, é uma orientação, é uma escolha. O questão é polêmica, é subjetiva, mas se trata justamente de onde a Psicologia coloca o enfoque. Jamais se negar um tratamento pois problemas precisam ser tratados, precisam ser encarados e precisam sim de atenção – com profissionais adequados –, mas a vida é muito mais do que os problemas. Problemas vem e vão, mas o que nós fazemos com eles, o que nós fazemos a partir deles faz toda a diferença na nossa vida. É aquela velha história: não se chora sobre leite derramado. Uma vez que o leite já derramou não adianta reclamar – não se muda passado! A questão é: o que você vai fazer, daqui para frente, para mudar o rumo dessa história? Que comportamentos precisa mudar, que atitudes precisa tomar, de que forma precisa enxergar essa situação, para que daqui para frente ela seja diferente? Seja na vida ou nas organizações.

Pautar a nossa vida ou uma gestão empresarial em cima de erros ou de falhas não dá certo. Não resolve. Precisamos focar na satisfação, no engajamento, nos relacionamentos e em propósito de vida!


sábado, 13 de janeiro de 2018

A fidelidade e a lealdade no mundo do trabalho


“O que acham? Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: 'Filho, vá trabalhar hoje na vinha'. E este respondeu: 'Não quero!' Mas depois mudou de ideia e foi. O pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa. Ele respondeu: 'Sim, senhor!' Mas não foi. Qual dos dois fez a vontade do pai?” Mateus 21:28-31


Fidelidade e lealdade, duas palavras que sempre chamaram a minha atenção, desde sempre. Ainda me lembro da primeira vez que eu as ouvi juntas numa mesma frase sendo postas como sinônimas. Da mesma forma como penso ainda hoje, eu já sabia naquele exato momento que apesar de estarem sendo postas naquela ocasião como idênticas em significado, a mim haviam diferenças sutis mas profundamente essenciais para se caracterizar onde começaria uma e terminaria a outra. Sempre refleti profundamente o significado íntimo dessas duas palavras, a tal ponto que eu diria que para mim elas compõem as palavras mais importantes da minha vida! Sinceramente falando. Mas afinal, o que seriam fidelidade e lealdade?

Para mim fidelidade está ligado ao respeito a uma imagem, a um status, a uma condição, é a responsabilidade a um compromisso assumido, seja este de qualquer natureza, podendo ser entre amigos, entre cônjuges, entre família, numa relação profissional. Já a lealdade ao meu ver está ligado a um companheirismo, a uma parceria; quando penso nesta palavra automaticamente penso em presença física, me vem na cabeça a palavra “lado”, como se lealdade me significasse estar ao lado de alguém, permanecer junto dessa pessoa em qualquer condição. Enquanto para mim a fidelidade estaria mais nos campos conceitual, ético, moral, teórico e pactual das relações, a lealdade seria a materialização disso, seria a vivencia, seria a prática das relações.

Vou dar alguns exemplos. Como acontece com quase todas as pessoas, cada um de nós tem inúmeros amigos e com cada um deles temos uma forma específica de nos relacionar. Eu me lembro na minha adolescência, por exemplo, que eu tinha amigos que discordavam de mim sobre algumas posições minhas – o que é perfeitamente natural. Esses amigos comentavam com outras pessoas a nossa divergência de opiniões, sendo por vezes críticos e ácidos em seus comentários ao meu respeito, algumas vezes beirando a fofoca e a intriga. Quando essas conversas, que eram feitas pelas minhas costas pelos meus próprios amigos, chegavam aos meus ouvidos eu ficava triste e chateado. Mas o interessante é que esses mesmos amigos eram aqueles que eu tinha total liberdade para ligar de madrugada para desabafar ou solicitar uma ajuda que jamais foi negada! Eram os amigos que ficavam literalmente ao meu lado nos melhores e nos piores momentos da minha vida. Eles foram sempre leais à nossa amizade. Mesmo sendo infiéis a mim muitas vezes. Podiam falar mal de mim pelas costas mas eram de uma profunda parceria como se jamais pudessem negar um pedido meu. O inverso também era verdadeiro. Tive amigos que nunca me traíram, mas em compensação eu jamais pude contar plenamente, pois em certas ocasiões tiveram justificativas relevantes para falarem não para mim. Esses em particular foram sempre fiéis a mim. Mas nem sempre leais a nossa amizade...

Vemos também dinâmica parecida no mundo empresarial. E os gestores em particular percebem isso no dia a dia. Há aqueles funcionários que se solicita uma tarefa extra imprevista e mais trabalhosa e, pelas costas do gestor, eles se rebelam, xingam, falam mal da empresa, fazem um carnaval no setor. Mas pontualmente cumprem exatamente o que tem que ser feito! Eles são fiéis à empresa? Não. Mas são leais ao trabalho. Eles questionam, retrucam, às vezes falam mal da empresa ou batem de frente com o líder, mas em seguida fazem além do trabalho que é preciso ser feito, estranhamente vestindo sempre a camisa da empresa. Por outro lado tem aqueles funcionários extremamente educados, responsáveis e pontuais com suas obrigações, mas que também fazem apenas a sua parte, mais nada. São limitados, inflexíveis, não vão um milímetro além do que fora previamente acordado no contrato de trabalho. Tanto que numa situação imprevista e urgente, o líder chega a pensar duas vezes antes de fazer uma solicitação extra de última hora a esses funcionários. Pode-se dizer que eles são fiéis a empresa porque cumprem com o seu papel ali dentro, mas dizer que eles seriam funcionários leais? Eu teria minhas ressalvas...

No ambiente organizacional é extremamente oportuno ao líder saber distinguir quem é o que ali dentro. Eu costumo dividir um grupo de funcionários de uma empresa em 4 subgrupos básicos: 1-aqueles que são fiéis, mas não são leais; 2-aqueles que são leais, mas não são fiéis; 3-aqueles que não são nem fiéis nem leais; 4-aqueles que são fiéis e são leais. Preste bastante atenção ao primeiro e ao segundo subgrupo (e faça você, enquanto líder ou empregador, uma reflexão do que é mais importante para si: fidelidade ou lealdade? – a partir dessa resposta você saberá melhor quais estratégias utilizar com cada um); o terceiro subgrupo dispense imediatamente, ele nem deveria estar mais na sua empresa; e o quarto promova se possível o quanto antes. Em minha análise, o primeiro e o segundo subgrupos são importantes porque são os que carregam e mantém a empresa; o terceiro subgrupo puxará sempre para baixo por isso precisa ser identificado e eliminado o quanto antes!; já o quarto, e será o menor subgrupo no ambiente organizacional, é aquele disposto a entregar mais, que traz potencial de empreendedorismo corporativo, precisa ser bem estimulado e ser criado um ambiente favorável pois neste subgrupo estão os funcionários com cabeça de dono!

E para você, o que é fidelidade? E lealdade? Qual dos subgrupos pesaria mais: o primeiro ou o segundo? Faça uma reflexão: divida as pessoas com quem convive em quatro subgrupos. Quais seriam as pessoas em sua vida que você deixaria no terceiro subgrupo, vale a pena manter essas relações? Quais seriam as pessoas que você deixaria no quarto subgrupo, você tem as valorizado?

domingo, 24 de dezembro de 2017

O que aprendi sobre Gestão de Pessoas

O ano de 2017 está se encerrando e deixará boas lições para mim. Neste ano concluí um curso de especialização lato sensu e pude atualizar teorias e técnicas aprendidas na graduação. Chamou a minha atenção minha própria transformação ao longo dos últimos anos, especificamente quanto à forma como eu enxergava um trabalhador dentro de uma empresa e à forma como eu acreditava que deveria ser a gestão de pessoas. Quando me formei em Administração de Empresas há alguns anos, o ensino era mais técnico do que humanizado. Os tempos eram outros. As tecnologias e os estudos eram outros, tudo mudou muito rápido. E continua mudando. Tive boa formação quanto a conteúdos e elogio a instituição de ensino e os professores que me formaram. Hoje posso fazer um comparativo da graduação com as especializações e com as empresas por onde passei.

Na época que me formei a grade curricular do curso de Administração de Empresas era sim mais técnica e conteudista, com poucas disciplinas que trabalhavam temas biopsicossociais como inteligência emocional, múltiplas inteligências, psicologia positiva, teorias da personalidade, motivação, coaching, espiritualidade, psicologia organizacional, estresse organizacional, saúde mental do trabalhador etc. Ressalvas e justificativas aqui porque alguns desses estudos são recentes na gestão de pessoas. Havia sim algumas disciplinas na faculdade com esse viés e professores mais humanos que ensinavam abordagens menos tecnicistas, mas me formei – entre os melhores da minha turma – com impressão de que as técnicas, os resultados e os fatos eram mais importantes do que meras subjetividades dos empregados. Na faculdade já atuava na área de gestão e me lembro que cheguei a assumir o cargo de liderança na empresa onde trabalhava. Hoje quando eu olho para trás e lembro dos meus pensamentos, falas e da forma como eu conduzia a gestão da minha equipe, eu fico surpreso como eu conseguia resultados. Era demasiadamente técnico. Rígido. Pendia para uma liderança autocrática. Não dava feedbacks. Não havia muito espaço para diálogos que distanciassem do trabalho em si e demostrava pouco ou nenhum interesse pela vida particular da equipe. Também não abria a minha! Me importavam as metas, o esforço individual de cada um e os nossos resultados alcançados. Punições disciplinares rolavam a rodo e pelos corredores me chamavam de “sargentão”. Sai com essa postura e exatamente com essa mentalidade de gestão de pessoas da faculdade. E não estou aqui apontando culpados, claro que também contribuiu eu ter uma personalidade mais racional e ter um estilo mais técnico e especialista. Mas hoje eu penso diferente. Hoje eu posso ser diferente! 

Às vezes eu escorrego por conta da minha personalidade mais analítica, mas venho tentando moldar meu comportamento. Tanto no MBA de Recursos Humanos, quanto na especialização de Psicologia Organizacional, adquiri conhecimentos e competências comportamentais diferentes e muitas vezes sou capaz de me policiar quando estou interagindo com um grupo. Diferentemente do passado, eu já tenho consciência e começo a me monitorar. Eu sei que tenho uma tendência a racionalizar a situação e a me distanciar dos envolvidos e do fato, mas posso usar a inteligência emocional e trabalhar com uma liderança situacional. Existe uma gama de estilos de liderança, não só para cada situação, como para cada funcionário. E hoje eu tento trabalhar com essa filosofia na empresa, adequando abordagens, falas e comportamentos à quem vou me dirigir. O que antes eu veria como politicagem ou até falsidade, hoje sei que se chama inteligência emocional. É adequar abordagens diferentes à pessoas diferentes, para obtermos um objetivo comum, o resultado esperado. Aqui não entram ego, orgulho e razão, o importante é atingirmos o resultado da melhor forma para a empresa, e para isso é preciso sim saber falar, conversar, argumentar e às vezes até negociar com as pessoas. Nas minhas pós-graduações o viés do aprendizado, seguindo obviamente a tendência dos dias atuais, é mais ligado às questões biopsicossociais do que às ferramentas exatas. Hoje já se sabe que na gestão de pessoas se usam as ferramentas da Exatas como suporte, os ferramentais principais serão a inteligência emocional e as estratégicas psicológicas. Não existe forma exata para lidar com pessoas.

Na psicologia se sabe que existem estágios de autoconsciência de comportamentos. Agimos muitas vezes sem pensar e sem perceber. Num primeiro estágio é inconsciente, você não tem controle, não percebe o que faz, quando faz e o impacto disso nas outras pessoas. Já num segundo momento, se você começa a se autoanalisar, você passa a ter consciência do que acontece sem ter ainda controle, só percebe quando já agiu. Mas se você continua se autoanalisando, com o tempo você passa a ganhar mais controle de si e começa a se perceber antes do comportamento acontecer. Até chegar o momento que você tem consciência e controle do que acontece e pode decidir por agir ou não. O próximo estágio, e o mais esperado, é a capacidade empática tal que você possa fazer a leitura no outro, porque se você conseguir antever, antecipar, prever uma reação da outra pessoa para uma determinada situação, você antecipadamente se molda no relacionamento para obter desta pessoa o melhor resultado para a situação. Isso é inteligência emocional! O primeiro passo para você chegar até aqui é o autoconhecimento, pois não tem como você ler o outro se você não for capaz de ler a si mesmo antes. 

Tenho muito a aprender ainda. Estou aberto para continuar aprendendo sempre. Sou grato a todas as pessoas que me ensinaram e vêm me ensinando até hoje, seja na graduação, nas pós-graduações, nas empresas por onde passei.

Feliz natal. Fiz ano novo. Um 2018 repleto de saúde, sucesso e paz a todos nós.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Uma vida espartana



Uma vez eu assisti um filme, eu acho que era “300”, e numa determinada cena um dos dos personagens dizia que o oponente havia oferecido algo aos espartanos, que era para eles irrecusável. “Era uma morte honrosa na batalha”. Eu gosto do sentido dessa frase, da filosofia espartana, porque ela retrata bem a minha vida e o jeito que eu gosto de levar as coisas. Muitas vezes eu já me perguntei assim de brincadeira: se eu gostaria de ter nascido em Atenas, que foi um berço do conhecimento humano; ou em Esparta, que era uma terra de guerreiros bravos. Eu não tenho bem uma resposta certa, porque por um lado reconheço que sou inteligente e houve momentos que ter sabedoria me ajudou muito, já me abriu portas. Mas tenho certeza que após atravessar essas portas, eu precisei muito mais saber brigar. E isso eu tive que aprender muito cedo na minha vida. O brigar a que me refiro é ir de encontro ao problema e tentar resolvê-lo; é aceitar um desafio que não é meu mas que eu comprei a ideia, e querer superar o meu próprio limite, seja físico, seja psicológico, seja emocional, todos. É uma sensação de você entregar tudo.

Algumas pessoas me chamam de workaholic. Já ouvi de tudo também; de super-homem a salvador da pátria. O sargentão. Já pensei mesmo em seguir carreira militar. Na adolescência eu cheguei a cogitar isso. Eu sou disciplinado, sou honrado, sou persistente e eu adoro brigar. Características típicas de um guerreiro. Me venda uma boa ideia – ou melhor, me faça comprar a sua ideia e vai ter um fiel escudeiro. Eu sou o cavaleiro da Coroa, o capitão do exército do Rei, o pastor alemão da propriedade, aquele gladiador que dá a cara a tapa e vai de encontro à fera na arena. Eu não tenho medo. Se tem uma coisa que eu não tenho é medo. Muito pelo contrário, eu sou apenas cauteloso e estratégico, eu só dou uns passos para trás para depois saltar para frente. Eu adoro uma boa briga. Me dê uma boa briga e vai ter um bom guerreiro, leal e forte ao seu lado. E eu sei que me faz mal isso, a princípio. Dói meu estômago. Me dá enxaqueca. Choro à noite calado escondido, enquanto lambo as minhas feridas. Muitas das vezes eu engulo o choro e disfarço os hematomas da batalha. Para minutos depois recomposto, estar lá de novo no meu posto, na linha de frente, onde é o meu lugar. Você quer me irritar é tentar me tirar isso, querer meu polpar, ou tomar uma briga minha. Eu fico louco, porque as minhas batalhas, as minhas brigas, quem luta sou eu. As minhas vitórias ou as minhas derrotas não terceirizo. E qualquer cicatriz eu nunca me arrependo, eu as tomo como troféus.

Eu adoro a sensação de estar no campo de batalha. Da adrenalina que isso dá. Isso me alimenta. Quando a minha vida fica calma demais, sem nenhum dilema existencial, sem nenhum problema para resolver, sem nenhum inferno para suportar, num primeiro momento é uma delícia. E eu aproveito também dessas férias. Mas com o passar do tempo, eu já percebi que isso me entristece. É como se a vida fosse gradativamente perdendo o brilho. É como se fosse tirado de mim uma necessidade essencial. A de ter uma morte honrosa na batalha. Eu olho para trás e me lembro dos momentos em que beijei o chão, quando alguma boa pancada foi forte demais. No momento eu confesso que doeu. Muito. Mas essa é só uma visão isolada da situação, porque quando eu olho para o contexto e eu vejo o momento que eu levantei e fui para cima novamente, e eu continuei brigando ou resistindo apesar de tudo, mesmo que fosse para apanhar de novo, a sensação que fica é muito boa. Porque eu sou meio sem vergonha... Não que eu goste de apanhar, eu gosto é de brigar. E eu já aprendi nessa vida que o bom guerreiro não é aquele que bate forte. A primeira e a melhor lição de todas, é aquela onde se aprende a apanhar. É aprender a cair. É aprender a errar. É aprender a se machucar, a se decepcionar, a amargar uma derrota. Mas não desistir. E levantar no momento apropriado e novamente avançar.

E que não se enganem com a minha carinha, eu também sei bater forte. Eu não tenho problema em beijar o chão também. Eu não tenho problema com pancada forte, eu até desejo que seja assim. Porque eu já sei muito bem me levantar. O chão nunca será meu lugar. Mas eu gosto de atingir o chão, porque do momento que eu estou no chão, a minha única opção é levantar. Do fundo do poço, a minha única visão é a da boca que dá para o Céu. E a verdade, é que a melhor visão do Paraíso se dá realmente do inferno. Quando caímos, quando apanhamos, quando nos decepcionamos, é justamente quando nos reconstruímos, nos reinventamos, é quando renascemos melhores. A vida é uma morte constante. E a vida só tem valor quando é desafiada. As coisas só têm valor quando são conquistadas. Exatamente por isso que não podemos desejar que as coisas venham fácil, porque para fazer sentido e para ser realmente especial, precisamos batalhar e conquistar na raça. Sem medo de arriscar. Sem medo brigar. Sem medo de cair. Exatamente porque é na queda, que o rio ganha força.


É, eu acho que eu preferia mesmo nascer em Esparta. 

domingo, 10 de setembro de 2017

As competências do profissional do futuro


Nos últimos anos uma das grandes inquietações das pessoas tem sido imaginar como será o futuro profissional. A carreira de trabalho está cada vez mais nas mãos dos trabalhadores do que num planejamento feito pelas empresas. A tecnologia vem avançando num ritmo cada vez mais acelerado modificando sistemas produtivos, processos de trabalho, maneiras de se viver em sociedade. Palavras como “robótica” e “inteligência artificial” estão cada vez mais presentes na vida de qualquer pessoa. Algumas profissões estão sendo modificadas, outras praticamente estão desaparecendo por conta da evolução tecnológica e classes de trabalhadores vem se perguntando sobre a existência de sua própria categoria de trabalho no futuro.

Como muitas pessoas, eu também tenho me preocupado com o futuro do trabalho. Eu sou jovem, tenho 29 anos, tenho muito pela frente para trabalhar, porém penso que mesmo as pessoas com idade mais avançada deveriam refletir também sobre essas questões. E muitas já estão fazendo isso! Com uma possível reforma da Previdência sendo discutida e com a expectativa de vida aumentando é certo que as pessoas viverão mais e possivelmente trabalharão mais também. Dessa forma torna-se imperioso que um trabalhador pense agora em estratégias que o tornarão empregável ou com possibilidades mínimas de se manter num futuro ainda difícil de se prever, em relação ao trabalho.

Eu me debrucei sobre esse tema com afinco na tentativa de conhecer que competências um profissional deveria se atentar. Nos últimos meses me dediquei a pesquisar e consumir materiais de inúmeras fontes, formais e informais, e formatos dos mais diversos, para entender o que os especialistas estão falando, intuindo ou prevendo sobre trabalhoXfuturo. Percebo nas discussões que chega a um determinado ponto que as diferentes ideias se convergem para um único caminho e é a partir desse ponto que faço as minhas sintetizações. Com base nas minhas pesquisas listarei abaixo os conhecimentos, as habilidades, as atitudes e as características que um profissional deve se atentar para se tornar mais competitivo no futuro. Note também que elas têm um viés mais comportamental do que técnico. São elas:

  • Proatividade
  • Comunicação
  • Lifelong Learning (aprendizagem contínua)
  • Uso de tecnologias
  • Participação e compartilhamento
  • Adaptabilidade
  • Pensamento crítico
  • Pensamento analítico
  • Raciocínio complexo
  • Capacidade de sintetização
  • Conhecimentos interdisciplinares (carreira em T)
  • Competências paralelas e contigênciais (Plano B)

Vamos lá. Agora vou explicar porque escolhi cada uma delas.

Proatividade, porque hoje estamos diante de um cenário que muda constantemente. Muda a política; a legislação; a tecnologia; os costumes, e isso impacta nos indivíduos e nas empresas. Hoje não faz mais sentido uma empresa prometer plano de carreira para um colaborador, porque na prática ela não vai conseguir sustentar isso. As pesquisas mais recentes já apontam que as novas gerações ficarão bem menos tempo nas empresas do que gerações mais antigas, além de já trazerem consigo uma forte inclinação para empreender. Se as empresas não podem garantir carreira para um colaborador, depende dele refletir mais essas questões, e para isso ele precisa ser proativo. Não dá para esperar que a empresa lhe dê cursos, incentivos, ferramentas, oportunidades, sempre; embora as empresas ainda o farão e propiciarão terreno favorável ao desenvolvimento dos colaboradores, dependerá de cada colaborador buscar o seu autodesenvolvimento e ter mais atitude frente a essas questões.

Comunicação. Essa sempre foi e continuará sendo o calcanhar de Aquiles das empresas. Desenvolver uma boa oratória, se fazer entender muito bem evitando ruídos, tendo clareza de propósitos e objetividade é sempre bem vindo. Coloco neste pacote o famoso feedback, a capacidade de transmitir a um chefe ou a um subordinado o que é necessário, visando sempre alinhamento de propósitos e alcance de objetivos comuns. Saber dar e receber feedback continuará sendo positivo, principalmente para pessoas que almejarem posições de liderança.

Lifelong learning, uso de tecnologias, participação e compartilhamento. Essas são bastante importantes. Colocarei-as juntas para explicar que as pessoas precisam aprender a aprender e compartilhar isso. Estarem constantemente abertas e conectadas. Aquele posicionamento fechado do “eu sei porque sempre fiz assim” cada vez mais está caindo com as constantes transformações; as pessoas precisam ser curiosas, ter interesse em aprender coisas novas, reaprender umas com as outras e atualizarem-se continuadamente. Como a sociedade se dá pelos seus meios, pela interação das partes, hoje isso perpassa a tecnologia, a internet, as redes sociais, o compartilhamento do conhecimento em tempo real, então é importante saber navegar. Eu recomendaria a qualquer pessoa hoje a ter pelo menos um perfil no Facebook, a ter um perfil no Linkedin, a se inscrever no Youtube, a ter mais familiaridade com a internet, com as suas ferramentas e os seus processos. Por mais que a pessoa seja reservada e não queira publicar ali fotos pessoais ou não queira produzir vídeos, ser youtuber por exemplo, isso não é necessário. Somente estar nessas redes pode ser uma grande oportunidade de obter conhecimento. O Facebook por exemplo permite curtir páginas e receber seus conteúdos; o usuário pode confeccionar a sua rede de contatos e páginas de interesse de maneira bem personalizada às suas necessidades de informações, fazendo com que só de entrar na rede a pessoa já tenha a possibilidade de se atualizar constantemente. O Youtube possui um aplicativo que o usuário só precisa ter uma conta e depois se inscrever nos seus canais de interesse, que ele receberá por e-mail as atualizações dos canais. E quem diz que não dá para se atualizar pelo Facebook e pelo Youtube está redondamente enganado. Claro que existem notícias e conteúdos falsos, assim como canais que pouco agregam, mas se o usuário souber fazer a filtragem e selecionar ele tem uma ótima fonte.

Adaptabilidade. Os profissionais precisam ser flexíveis e se adaptarem às novas realidades. Um bom exemplo disso é a Reforma Trabalhista que altera intensamente a CLT e passa a vigorar a partir deste ano. É necessário ter maleabilidade e jogo de cintura para se adaptar ao novo cenário e as novas regras que se configurarão. Gosto de uma frase do William George Ward que diz assim: “O pessimista se queixa do vento, o otimista espera que ele mude e o realista ajusta as velas”.

Pensamento crítico, pensamento analítico, raciocínio complexo e capacidade de sintetização. Essas competências como o próprio nome demonstra são mais complexas. Mas também são de extrema importância! Hoje se sabe que a linearidade não dá mais conta de traduzir a nossa realidade globalizada, tecnológica e com indivíduos tão diversos e plurais. Olhar uma situação por uma única ótica e com um pensamento linear traz análises rasas e resultados precários. Hoje mais do que nunca, e no futuro isso tende a se acentuar, as empresas buscarão solucionadores de problemas. Colaboradores capazes de enxergar a empresa sistemicamente, a partir do seu olhar, do olhar de cada setor, das estratégias da empresa e ver a interligação de como todas essas variáveis impactam numa situação observada, numa decisão a ser tomada, num planejamento. O pensamento crítico faz o profissional questionar e buscar as respostas. O pensamento analítico o faz analisar racionalmente a situação, o problema, o desafio. O raciocínio complexo o permite fazer mentalmente os hiperlinks, as conexões, as analogias, as inferências e somar tudo isso ao seu background, a sua bagagem de conhecimentos, para, por último, ser capaz de sintetizar. Olhar para “x”, que impacta em “y”, que será impactado por “z” e “w” e o produto dessa análise é a conclusão, é a hipótese, é a estimativa, é a previsão, é o resultado (sintetização). E como se desenvolve isso? Consumindo conteúdos diferentes, de diferentes fontes (formais e informais), de diferentes plataformas, constantemente.

Conhecimentos interdisciplinares (Carreira em T). Carreira em T é o seguinte. O profissional possui uma formação base e depois ele vai somando conhecimentos e habilidades paralelamente a sua área de formação ou atuação. Vou me dar como exemplo. Minha graduação é Administração de Empresas. Atualmente faço duas especializações, uma em Recursos Humanos (área que trabalho formalmente) e uma outra especialização em Psicologia Organizacional. Tenho planos de iniciar no próximo ano outras duas especializações, uma em Coaching e outra em Direito do Trabalho. Veja que minha formação inicial se dá em Administração, todavia, todos esses conhecimentos vêm agregando a minha formação horizontalmente, de acordo também com a minha estratégia de carreira. Então o profissional precisa estar aberto e ser proativo para obter conhecimentos de outras áreas, de outras ciências, que venham a lhe trazer maior capacidade de solucionar problemas, haja vista que sua visão e capacidade de sintetização aumentam.

Competências paralelas e contigênciais (Plano B). O que percebi nas minhas pesquisas é que cada vez mais se ouvirá falar de carreiras profissionais, no plural mesmo para o profissional. Multitrabalhos. Ou seja, o profissional precisará desenvolver, ao longo de sua vivência profissional, talentos, habilidades e conhecimentos para atuar em outras frentes por “n” fatores, como: a sua profissão pode ser ser substituída pela tecnologia; num revés da economia a sua profissão pode perder momentaneamente espaço; pode ser dispensado e demorar a retornar à mesma função, e para isso é necessário um Plano B. Vou me utilizar como no exemplo acima. Numa situação imprevista, poderia atuar no futuro como coach, como consultor ou até como palestrante. De repente, posso cursar Direito e atuar como advogado trabalhista, ou cursar Psicologia e atuar como psicólogo. Ser professor. O que quero dizer é que o profissional precisará ter ferramentas (conhecimentos, habilidades, características) que ele foi capaz de, estrategicamente, ir desenvolvendo, formalmente ou informalmente, paralelamente, contingencialmente, durante todas as suas carreiras profissionais, para ter sempre cartas nas mangas! O famoso Plano B. Ou C, ou D.

Eu não espero fechar aqui uma conclusão, mas sim trazer ainda mais a reflexão. Da mesma forma que tudo o que venho lendo tem me servido para pensar o futuro em relação ao trabalho, que este texto tenha o mesmo propósito. Só gostaria de trazer uma última reflexão: O futuro é o resultado da nossa participação para a sua criação, através das decisões que tomamos hoje, sendo assim que decisões você vai tomar?

sábado, 12 de agosto de 2017

A MEDIDA DE TODAS AS COISAS


Quando eu tinha cinco anos, me lembro de comprar umas balas só porque no papel vinha uma pequena frase descritiva de cada signo do zodíaco. Eu devia ter uns sete anos, quando li o primeiro horóscopo nas páginas finais de uma dessas revistas de fofocas. Descobri que nos jornais também havia esses horóscopos, e o mais interessante nessa época era que ali num bar próximo da minha casa, jogando fliperama eu notava a seguinte cena: todo leitor do jornal, quando chegava na parte do horóscopo, dava uma olhada a sua volta, disfarçava um pouco e rapidamente corria os olhos para ler a previsão do seu signo. Eles tinham vergonha. Ou medo. Concluí naquele momento que as pessoas tinham a mesma curiosidade que eu, mas diferente de mim, elas tinham vergonha disso. “Por que ler o horóscopo era motivo de vergonha?” - me perguntava, enquanto jogava Street Fighter.

Por essa mesma época, fui a primeira vez à biblioteca municipal para fazer trabalho da escola. Da para notar que eu sempre fui muito curioso e observador, então é óbvio que fiquei mais vasculhando e conhecendo cada canto da biblioteca do que me concentrei no trabalho. Foi então que encontrei lá uma sessão de prateleiras classificada de “Esoterismo”. Eu já escrevi sobre ela aqui. Lá tinha livros que iam de astrologia à numerologia; de yoga à meditação; de chackras à terapias alternativas. Tinha livros que discorriam sobre a origem do fascínio do homem pelos oráculos e práticas adivinhatórias e autoconhecimento. Livros sobre ervas medicinais. Sobre mitologias e folclore brasileiro. Livros que alertavam sobre a importância de trazer mais espiritualidade para nossa vida, demasiada materialista. Eu adorava essa biblioteca e toda vez que íamos para lá, dava um trabalho para me tirar daqueles corredores pois sempre tinha alguma coisa que eu queria ler. Quero lembrar que isso foi a mais de vinte anos atrás, não existia Google. Poucos tinham acesso à internet. Computador era artigo de luxo, era caro, a maioria das pessoas não tinha e as pesquisas eram feitas em bibliotecas com auxílio dos livros e escritas naquelas folhas de papel almaço. Mas eu não me importava com isso, pois eu via naquelas prateleiras conhecimentos que, por algum motivo, ao longo do tempo foram se perdendo da humanidade e caindo em descrédito. Quando eu lia sobre práticas de medicinas alternativas por exemplo, mesmo eu sendo muito criança, aquilo já me fazia muito sentido, e eu já pensava que tinha algo de errado no caminho escolhido por nós até então. Acredito que hoje exista um movimento interessante e  noto que alguns já perceberam que tem algo de errado com essa economia desequilibrada; com esse sistema capitalista desenfreado, onde as contas nunca fecham; com essa nossa resistência de olhar para dentro de nós mesmos e refletir questões pessoais; sem falar num número alarmante de casos de transtornos e doenças mentais que só cresce a cada ano. Alguns estão “despertando” e buscando práticas e conhecimentos antigos.

Desde o início dos tempos, o homem teve ao seu alcance os quatro elementos principais para manipular: o fogo, a terra, o ar e a água. A medida que seu conhecimento aumentava sobre a manipulação desses elementos, ele ia desenvolvendo seu entorno e criando novas técnicas, novas ferramentas, mas tornou-se uma relação de poder e domínio. O homem se tornou um deus de si, ele se colocou no centro e dominou o resto, deixando a natureza a mercê de suas necessidades. Mas essa relação nem sempre foi assim... Alguns povos indígenas, aborígenes, alguns pajés, xamãs, todas essas tribos mantiveram ou mantém até hoje uma relação diferente com a natureza. Eles se veem como parte do entorno, onde homem e natureza são indivisíveis, eles respeitam a natureza porque já se veem como natureza. É interessante ler relatos da forma como alguns nativos desses locais pedem licença à floresta para caçar, pescar ou colher; como agradecem cada alimentação e só retiram o suficiente para saciar a fome, dando o tempo necessário para um local se regenerar. No xamanismo por exemplo, entende-se que existe um elo entre o mundo espiritual e o mundo material, e os xamãs creem em espíritos da natureza que não só os protegem e os curam, mas sempre lhes proverão o necessário. Vejo nessas culturas beleza e uma riqueza de aprendizado pois vivem em harmonia com o meio. Transcenderam valores que as sociedades modernas ainda não. Tinha um professor de biologia que nos falava que o homem era um vírus no planeta Terra, e este, como todo organismo, está lutando contra a ameaça invasora. E o aquecimento global seria um dos sintomas, porque a febre é a forma do organismo lutar contra a ameaça, elevando a própria temperatura. Eu sei que é uma analogia grosseira, ficcional, mas ela nos proporciona boas reflexões.

Agora abro um parênteses interessante sobre a origem da nossa relutância em aceitar ler ou ouvir sobre conhecimentos pouco ortodoxos e práticas tidas como pseudociências. Primeiro porque no movimento antropocêntrico, o homem se colocou como um deus e assumiu a ciência, sua ferramenta-mãe, como sendo aquilo que ele pode aferir e provar inequivocamente com seu racionalismo iluminista, e todo o contrário disso foi rebaixado a um pseudoconhecimento. Segundo porque existe algo chamado Igreja, muito poderosa na Idade Média, que criou nessa época uma máquina de moer pessoas “indesejáveis”, ela chamava-se Inquisição. Qualquer pessoa minimamente diferente ou com ideias que contrariassem o status quo era acusada de herege, bruxa, satanista e sua sentença era a morte. Óbvio que isso gerou um medo coletivo. Esse medo está enraizado no nosso inconsciente até hoje. Assim como o preconceito. Por isso os leitores do jornal na minha infância tinham vergonha de serem vistos lendo o horóscopo, eles poderiam ser taxados de inúmeros adjetivos; por isso quase ninguém frequentava a sessão de esoterismo da biblioteca, tinham vergonha de serem vistos por lá. Esoterismo virou sinônimo de práticas ocultas voltadas para o mal. As pessoas sempre associam a algo negativo. E só estão reproduzindo o preconceito.

Toda vez que ouvimos que alguém tem uma religião diferente, como o candomblé ou a umbanda por exemplo; que se submete a algum tratamento de saúde alternativo, como o reiki, a homeopatia, a acupuntura; que busca autoconhecimento através da realização do seu mapa astral ou numerológico; automaticamente olhamos para essa pessoa de forma diferente, enxergando muitas dessas práticas como algo negativo, prejudicial ou errado. Mesmo embora algumas dessas mesmas práticas já foram até incorporadas aos tratamentos ofertados pelo SUS (Sistema Único de Saúde). Nota-se portanto que o que é considerado correto ou incorreto, positivo ou negativo, saudável ou prejudicial não é só uma questão de opinião, como também do tempo em que uma sociedade está. Os mesmos pensadores e cientistas de séculos atrás, que hoje elogiamos e referenciamos, muitos se intitulavam como astrólogos também. Muitos desenvolveram estudos místicos sobre a influência dos números. Eram pagãos. Os médicos chegavam a fazer o mapa astral do paciente para poder consultá-lo melhor. Diz-se que astrologia chegou a ser uma disciplina da medicina. De tudo o que já li a minha vida toda sobre esoterismo, vejo que a principal força motriz nunca foi outra senão conhecer a si próprio. O objetivo primordial é o autoconhecimento. Seja a astrologia, seja a numerologia, ou o tarot, o xamanismo, a wicca, a meditação, a yoga, a maçonaria, seja qual for, tudo se trata no fim de um voltar-se para o interior; são práticas de desenvolvimento pessoal através do autoconhecimento, com um intuito de se tornar um ser humano melhor. Todas essas práticas enxergam o homem na mesma visão do alquimista, como sendo ele ao nascer uma pedra bruta, ignorante, sem luz, que aos poucos lapidará sua evolução através do seu autoconhecimento.

A minha aposta para os próximos anos é que cada vez mais as pessoas procurarão conhecimentos e tecnologias considerados hoje alternativos, para uma qualidade de vida melhor. E isso já está acontecendo em alguns cenários! Principalmente no oriente. É o executivo que reserva alguns minutos do dia para uma meditação. Ele come produtos orgânicos e pratica yoga. Ele já fez o seu mapa astral e numerológico, então ele sabe quais são os seus pontos fortes e os pontos que precisa trabalhar mais, assim como ele sabe quais setores da vida tendem a serem mais críticos. Ele sabe qual é o seu dosha. E ele faz algum tipo de terapia. Essa é a minha aposta não só porque eu acredito fielmente nisso, como porque eu ainda vou trabalhar com isso! É o meu projeto de vida. Ter um espaço, que reúna vários ensinamentos de diversas culturas, que eu já li ou me aproximarei ao longo da vida, que perpassará a dança, a culinária, a medicina, a estética, com o objetivo de encontrar um caminho de equilíbrio entre corpo, mente e espírito. Trabalhos individuais ou em grupo, mas personalizados para cada indivíduo! Que seja capaz de fazer, primeiramente, essa pessoa se ver, se perceber, se conhecer, aprender a se equilibrar, então aprender a sozinha se desenvolver. Um espaço que a ensine os primeiros passos possíveis, com base numa análise pessoal, e depois ensine essa pessoa a redesenhar sozinha, se redescobrindo, se reinventando e se desenvolvendo continuamente. Porque nós somos como elásticos ao nascer, nossa capacidade de expandir é uma condição natural.